#2 [verdade incoveniente II]
Foi ontem apresentado em Londres um estudo sobre a Economia das Alterações Climáticas, da responsabilidade do economista britânico Nicholas Stern, um ex-responsável do Banco Mundial, A verificarem-se as previsões avançadas, o impacto das alterações climáticas na economia mundial poderá ser superior ao das grandes guerras mundiais ou ao da Grande Depressão - custos na ordem dos 5,5 biliões (milhões de milhões) de euros.
Ficam as principais conclusões do dito relatório e algumas pistas para a sua inversão.
***********************************************
Principais pontos do relatório Stern
- As alterações climáticas são uma realidade, comprovada em centenas de relatórios científicos que calculam que, se nada se fizer, as temperaturas globais aumentarão entre dois a três graus nos próximos 50 anos
- Provocarão grandes impactos sobre a vida humana e o ambiente. Todos os países serão afectados. Os mais vulneráveis serão os primeiros a sofrer consequências
- Se nada for feito, os custos globais das alterações climáticas ascenderão a cinco por cento da riqueza gerada no planeta anualmente, podendo atingir 20 por cento do PIB, enquanto a adopção de medidas para as combater custará um por cento desta riqueza. Adiar estas acções levará a uma subida dos custos
- É essencial promover a adaptação às consequências deste fenómeno, o que custará muitos milhões de dólares. Nesse sentido, é fundamental que os países desenvolvidos aumentem a ajuda às nações em desenvolvimento
- Os riscos podem ser reduzidos substancialmente, se a concentração dos gases de efeito de estufa na atmosfera estabilizar entre os 450-550 partes por milhão (antes da era industrial: 280 ppm). Isto significa reduzir as emissões em 25 por cento até 2050
- O sector energético mundial terá de ficar, pelo menos, 60 por cento descarbonizado em 2050 e o sector dos transportes terá de reduzir a sua contribuição para o problema
- Os combustíveis fósseis continuarão a representar mais de metade da oferta energética em 2050. O carvão terá uma importância crescente, sobretudo nas economias emergentes, pelo que é fundamental desenvolver as técnicas de captura e armazenamento do carbono
- É essencial reduzir a desflorestação e modificar algumas práticas agrícolas e industriais que contribuem para as emissões
- Os custos para estabilizar o clima são importantes, mas não incomportáveis. A luta contra as alterações climáticas está a gerar grandes oportunidades de negócio
- Para uma resposta efectiva, há que pôr em prática um mercado global do carbono, apoiar a inovação e o desenvolvimento de tecnologias com baixas emissões e remover as barreiras à eficiência energética, enquanto se sensibiliza a opinião pública
in Público, 31 Outubro de 2006
31.10.06
# [1] verdade incoviniente I
Fui ver Uma Verdade Incoveniente, filme/documentáriode Davis Guggenheim que nos mostra a cruzada de Al Gore (o tal que, apesar de mais votada, ninca chegou a presidente dos USA) contra o aquecimento global.
Pese o o gap cultural - é claro que, embora comprometido, o esquema de raciocinio de Gore esbarra num patriotismo americano a meu ver desnecessário - este filme é um interessante documento de reflexão, que mostra a necessidade de uma política global de combate às emissões de carbono e ao aquecimento global. Estamos perante um alerta que convem não ignorar.
Este documentário tem um carácter auto-promocional muito marcado - não sabemos se Gore pretende relançar a sua corrida À casa Branca ou apenas garantir que o seu nome fica na história por motivos bem mais nobres do que as "derrotas" de 1988 e 2000 contra o clã Bush. No entanto, conhecendo ós interesses da industria do petróleo dentro da administração de GW Bush, ficamos com a nitida sensação que, caso tivesse sido empossado em 2000, o mundo poderia ser hoje diferente.
Esperemos que daqui a 50 anos este filme seja um marco que dá inicio à viragem.
Fui ver Uma Verdade Incoveniente, filme/documentáriode Davis Guggenheim que nos mostra a cruzada de Al Gore (o tal que, apesar de mais votada, ninca chegou a presidente dos USA) contra o aquecimento global.
Pese o o gap cultural - é claro que, embora comprometido, o esquema de raciocinio de Gore esbarra num patriotismo americano a meu ver desnecessário - este filme é um interessante documento de reflexão, que mostra a necessidade de uma política global de combate às emissões de carbono e ao aquecimento global. Estamos perante um alerta que convem não ignorar.
Este documentário tem um carácter auto-promocional muito marcado - não sabemos se Gore pretende relançar a sua corrida À casa Branca ou apenas garantir que o seu nome fica na história por motivos bem mais nobres do que as "derrotas" de 1988 e 2000 contra o clã Bush. No entanto, conhecendo ós interesses da industria do petróleo dentro da administração de GW Bush, ficamos com a nitida sensação que, caso tivesse sido empossado em 2000, o mundo poderia ser hoje diferente.
Esperemos que daqui a 50 anos este filme seja um marco que dá inicio à viragem.
29.10.06
#1[2 ao quadrado]
no tasco mais cooll cá do bairro faz-se serviço público: wireless à pala.
Armado do meu Horácio Pimpinelo (vénias, vénias) divirto-me a navegar fora de expediente em vez de estudar.
Parece-me que este moleskine virtual e o laboratório digital vão ganhar outro ritmo...
no tasco mais cooll cá do bairro faz-se serviço público: wireless à pala.
Armado do meu Horácio Pimpinelo (vénias, vénias) divirto-me a navegar fora de expediente em vez de estudar.
Parece-me que este moleskine virtual e o laboratório digital vão ganhar outro ritmo...
26.10.06
#1
[fazer pela vida]
[fazer pela vida]
Barbara Kruger
talvez fosse boa ideia fazer um cartaz destes com fotos de alguns ditos defensires da vida da nossa praça. por estes dia, quando se aproxima uma nova e ardua discussão sobre a IVG, haverá muito "pró-vida" por aí a tentar esquecer-se que apoiou as guerras no Iraque e Afeganistão.
25.10.06
#2
[Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata...*]
o Artigo que abaixo se apresenta trouxe-me à memória um dos momentos mais intensos da carreira musical daquele que é um dos nossos mais valorosos cantautores.
São 25 minutos de poesia e realidade numa catarse que hoje, quase 30 anos depois, ainda é tão actual...
Uma voltita pela net trouxe-me a letra e o som desta epopeia trágica. Não percam.
* José Mário Branco in FMI
[Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata...*]
o Artigo que abaixo se apresenta trouxe-me à memória um dos momentos mais intensos da carreira musical daquele que é um dos nossos mais valorosos cantautores.
São 25 minutos de poesia e realidade numa catarse que hoje, quase 30 anos depois, ainda é tão actual...
Uma voltita pela net trouxe-me a letra e o som desta epopeia trágica. Não percam.
* José Mário Branco in FMI
#1
[Dida didadi dadi dadi da didi]
O FMI gosta de Nós
Francisco Louçã, in Esquerda
Foi ontem divulgado um relatório do FMI sobre o futuro da economia portuguesa, coincidindo com o dia em que o ministro das finanças estava no Parlamento a apresentar o Orçamento para 2007. O relatório elogia as medidas que o governo está a tomar para reduzir o emprego na função pública e para diminuir as pensões, embora suspeite de que os efeitos destas medidas serão distantes no tempo e que a recuperação da economia para um ritmo de aproximação à média europeia esteja atrasado. É portanto pessimista, embora reafirme o apoio ao governo, que vai no bom caminho como toda a gente sabe. O FMI gosta de nós e está contente com o que se passa neste recanto.
O mesmo têm dito os empresários: este é o governo que mais os satisfaz, mas ainda é pouco. Sugere o FMI que continuem os ajustamentos na função pública. Propõe o Compromisso Portugal que sejam despedidos 200 mil funcionários. Argumenta o embaixador dos Estados Unidos - só o Bloco comentou este facto espantoso - que a lei laboral portuguesa devia ser flexibilizada para facilitar os despedimentos. Tudo vai bem, mas devia ir mais depressa.
O governo ouve os conselhos. Mais uma tranche da GALP foi privatizada, depois vem o resto da EDP, grande parte da Rede Eléctrica Nacional, outra parte da EDP. Aumentam os preços da electricidade porque assim se fazem pagar os custos sociais pelos consumidores e, já agora, porque é a condição para as empresas espanholas, como a Iberdrola de Pina Moura, poderem entrar no mercado da electricidade com lucros elevados e garantidos. Como é que o FMI não havia de gostar de nós?
Entretanto, foi-se sabendo que o governo tinha decidido criar mais uma isenção fiscal, mais uma vez para os bancos. A história conta-se em poucas palavras: os bancos têm a obrigação de deduzir 20% de IRS ou IRC às pessoas ou empresas a quem pagam juros, mas não o fizeram quando os juros se deviam a obrigações emitidas por sucursais instaladas em offshores. O governo não só aceitou a isenção, como a prolongou até ao final do ano, convidando assim os bancos a criarem novas obrigações cujos juros ficam isentos de impostos desde que sejam operações fantasma, feitas por sucursais fantasma e para clientes fantasma. Na verdade, os bancos portugueses não têm agências nas Ilhas Cayman, apenas fingem que têm, para que alguns clientes possam fingir que fizeram aí as suas operações, para que o fisco possa fingir que não viu nada.
Porque é que o FMI não havia de gostar de nós?
[Dida didadi dadi dadi da didi]
O FMI gosta de Nós
Francisco Louçã, in Esquerda
Foi ontem divulgado um relatório do FMI sobre o futuro da economia portuguesa, coincidindo com o dia em que o ministro das finanças estava no Parlamento a apresentar o Orçamento para 2007. O relatório elogia as medidas que o governo está a tomar para reduzir o emprego na função pública e para diminuir as pensões, embora suspeite de que os efeitos destas medidas serão distantes no tempo e que a recuperação da economia para um ritmo de aproximação à média europeia esteja atrasado. É portanto pessimista, embora reafirme o apoio ao governo, que vai no bom caminho como toda a gente sabe. O FMI gosta de nós e está contente com o que se passa neste recanto.
O mesmo têm dito os empresários: este é o governo que mais os satisfaz, mas ainda é pouco. Sugere o FMI que continuem os ajustamentos na função pública. Propõe o Compromisso Portugal que sejam despedidos 200 mil funcionários. Argumenta o embaixador dos Estados Unidos - só o Bloco comentou este facto espantoso - que a lei laboral portuguesa devia ser flexibilizada para facilitar os despedimentos. Tudo vai bem, mas devia ir mais depressa.
O governo ouve os conselhos. Mais uma tranche da GALP foi privatizada, depois vem o resto da EDP, grande parte da Rede Eléctrica Nacional, outra parte da EDP. Aumentam os preços da electricidade porque assim se fazem pagar os custos sociais pelos consumidores e, já agora, porque é a condição para as empresas espanholas, como a Iberdrola de Pina Moura, poderem entrar no mercado da electricidade com lucros elevados e garantidos. Como é que o FMI não havia de gostar de nós?
Entretanto, foi-se sabendo que o governo tinha decidido criar mais uma isenção fiscal, mais uma vez para os bancos. A história conta-se em poucas palavras: os bancos têm a obrigação de deduzir 20% de IRS ou IRC às pessoas ou empresas a quem pagam juros, mas não o fizeram quando os juros se deviam a obrigações emitidas por sucursais instaladas em offshores. O governo não só aceitou a isenção, como a prolongou até ao final do ano, convidando assim os bancos a criarem novas obrigações cujos juros ficam isentos de impostos desde que sejam operações fantasma, feitas por sucursais fantasma e para clientes fantasma. Na verdade, os bancos portugueses não têm agências nas Ilhas Cayman, apenas fingem que têm, para que alguns clientes possam fingir que fizeram aí as suas operações, para que o fisco possa fingir que não viu nada.
Porque é que o FMI não havia de gostar de nós?
17.10.06
#1
[notícias da frente norte*]
companheiros,
prossegue a ocupação do rivoli, contra a privatização de um equipamento que deve estar ao serviço dos cidadãos, da cultura, da diversidade da criação e da formação de públicos.
É uma luta pela dignidade da nossa cidade contra quem quer tudo mercadorizar. É a resistência de quem não aceita a prepotência do Rui Rio e a sua visão contabilística sobre a cultura.
Todos são precisos. alguns de nós vão hoje passar lá a noite. Estaremos muito cansados de manhã. precisamos de vocês. sobretudo a partir do meio da tarde, é indispensável que estejamos lá centenas.
Se for preciso, ocuparemos de novo. Até que alguém vá lá.
Está tudo nas nossas mãos. nas tuas.
até já.
Z.
*recebido por e-mail.
[notícias da frente norte*]
companheiros,
prossegue a ocupação do rivoli, contra a privatização de um equipamento que deve estar ao serviço dos cidadãos, da cultura, da diversidade da criação e da formação de públicos.
É uma luta pela dignidade da nossa cidade contra quem quer tudo mercadorizar. É a resistência de quem não aceita a prepotência do Rui Rio e a sua visão contabilística sobre a cultura.
Todos são precisos. alguns de nós vão hoje passar lá a noite. Estaremos muito cansados de manhã. precisamos de vocês. sobretudo a partir do meio da tarde, é indispensável que estejamos lá centenas.
Se for preciso, ocuparemos de novo. Até que alguém vá lá.
Está tudo nas nossas mãos. nas tuas.
até já.
Z.
*recebido por e-mail.
3.10.06
20.9.06
#1 [da marcha]
17 dias a marchar pelo pais, tantas histórias...
no Vale do Ave nem o calor derreteu a determinação de uma marcha que começava para mostrar uma face do pais menos brilhante.
em Gaia houve um desfile de moda onde se mostraram as novas tendencias do trabalho, com a precariedade à cabeça...
em Esmoriz visitámos uma fabrica à beira do encerramento fraudolento, cujas operárias mantinham sobre vigilência para evitar que o patrão levasse as máquinas...
na Marinha Grande fomos recebidos pelos velhos operários emocionados com a nossa militância andarilha...
no Tramagal fizemos uma festa de improviso no mercado do peixe, numa noite a lembrar o PREC...
em Sacavém visitámos o museu da real fabrica de sacavém e terminámos o dia numa grande Algazarra.
Em Sintra passámos por terrenos onde a especulação imobiliária deixou marcas...
ao chegar a Lisboa, foi grande a festa... 300 km a pé foram só o começo do muito que ainda há por caminhar.
em breve colocarei fotos desta quinzena na galeria, por agora só mesmo aqui
17 dias a marchar pelo pais, tantas histórias...
no Vale do Ave nem o calor derreteu a determinação de uma marcha que começava para mostrar uma face do pais menos brilhante.
em Gaia houve um desfile de moda onde se mostraram as novas tendencias do trabalho, com a precariedade à cabeça...
em Esmoriz visitámos uma fabrica à beira do encerramento fraudolento, cujas operárias mantinham sobre vigilência para evitar que o patrão levasse as máquinas...
na Marinha Grande fomos recebidos pelos velhos operários emocionados com a nossa militância andarilha...
no Tramagal fizemos uma festa de improviso no mercado do peixe, numa noite a lembrar o PREC...
em Sacavém visitámos o museu da real fabrica de sacavém e terminámos o dia numa grande Algazarra.
Em Sintra passámos por terrenos onde a especulação imobiliária deixou marcas...
ao chegar a Lisboa, foi grande a festa... 300 km a pé foram só o começo do muito que ainda há por caminhar.
em breve colocarei fotos desta quinzena na galeria, por agora só mesmo aqui
31.8.06
#1
[a mão que embala o berço...]

o verde luxuriante das palmeiras e os destroços em redor levariam a pensar que esta fotografia foi tirada num qualquer pais do chamado terceiro mundo. Ainda mais porque se trata de um bairro de lata que, por ordem das autoridades, está a ser demolido (o que não é mau), deixando sem alternativa de habitação muitos dos seus moradores (isso sim é lamentável).
[a mão que embala o berço...]

o verde luxuriante das palmeiras e os destroços em redor levariam a pensar que esta fotografia foi tirada num qualquer pais do chamado terceiro mundo. Ainda mais porque se trata de um bairro de lata que, por ordem das autoridades, está a ser demolido (o que não é mau), deixando sem alternativa de habitação muitos dos seus moradores (isso sim é lamentável).
Mas o senhor agente da PSP chama-nos à realidade: tudo isto se passa bem pertinho de Lisboa, na Azinhaga dos Besouros...
28.8.06
25.8.06
#1
[o caso Plutão]
Por decisão da Comunidade Cientifica, Plutão deixou de ser considerado como planeta.
Consta que o visado já apresentou uma providencia cautelar para suspender esta decisão, o que poderá trazer atrasos e transtornos ao processo de redifinição dos mapas astrais por esse universo fora.
[o caso Plutão]
Por decisão da Comunidade Cientifica, Plutão deixou de ser considerado como planeta.
Consta que o visado já apresentou uma providencia cautelar para suspender esta decisão, o que poderá trazer atrasos e transtornos ao processo de redifinição dos mapas astrais por esse universo fora.
23.8.06
22.8.06
#2
[post it]
Mestrado de Saúde e Desenvolvimento pretende promover formação interdisciplinar de profissionais da saúde e do sector social que têm interesse pelos problemas de saúde e do desenvolvimento num contexto local e pelo conhecimento profundo das evidências que, globalmente, se têm acumulado sobre pobreza, desenvolvimento e saúde. É destinado aos profissionais que se queiram equipar com competências no sentido de conseguir dinamizar acções, projectos e programas - nos sectores público, privado ou social – medir, monitorizar, vigiar e avaliar o estado de saúde de indivíduos, grupos ou comunidades, assim como os determinantes desse estado de saúde, definir e implementar, de uma forma participada, as soluções adequadas.
[post it]
Mestrado de Saúde e Desenvolvimento pretende promover formação interdisciplinar de profissionais da saúde e do sector social que têm interesse pelos problemas de saúde e do desenvolvimento num contexto local e pelo conhecimento profundo das evidências que, globalmente, se têm acumulado sobre pobreza, desenvolvimento e saúde. É destinado aos profissionais que se queiram equipar com competências no sentido de conseguir dinamizar acções, projectos e programas - nos sectores público, privado ou social – medir, monitorizar, vigiar e avaliar o estado de saúde de indivíduos, grupos ou comunidades, assim como os determinantes desse estado de saúde, definir e implementar, de uma forma participada, as soluções adequadas.
#1
diários da Bósnia 3
Sarajevo é uma cidade cosmopolita, onde se encontram todas as religiões. contrariamente a todos os locais por onde fomos passando, nesta cidade as marcas da guerra são mais discretas. mas existem: a biblioteca Nacional Queimada, o Hotel Europa destruido, alguns remendos, alguns monumentos e o cemitério no antigo estádio Olimpico, um vale de silência onde milhares de lápides recordam...
a memória está dentro de quem vê a cidade e se recorda do que viu pela tv, está na curiosidade em perceber o que foi a vida naquele lugar durante os anos de chumbo.
a memória está também em quem nos no mercado, nos transpotes, em frente às ruinas, debruçando-nos sobre o café.
várias vezes me questionei: que faço eu aqui? um encontro com história? um olhar a realidade de outros olhos? a expiação de fantasmas? a resposta não estava escrita nem nas paredes de Sarajevo nem nos celeiros, nem nos vales, nem nas florestas, nem no pinaculo dos minaretes ou de todas as outras igrejas. não estava nos buracos das balas, nos campos minados, nas casas queimadas e nos edificios reconstruidos...
a resposta será assim um processo que ainda estou a digerir.
diários da Bósnia 3
Sarajevo é uma cidade cosmopolita, onde se encontram todas as religiões. contrariamente a todos os locais por onde fomos passando, nesta cidade as marcas da guerra são mais discretas. mas existem: a biblioteca Nacional Queimada, o Hotel Europa destruido, alguns remendos, alguns monumentos e o cemitério no antigo estádio Olimpico, um vale de silência onde milhares de lápides recordam...
a memória está dentro de quem vê a cidade e se recorda do que viu pela tv, está na curiosidade em perceber o que foi a vida naquele lugar durante os anos de chumbo.
a memória está também em quem nos no mercado, nos transpotes, em frente às ruinas, debruçando-nos sobre o café.
várias vezes me questionei: que faço eu aqui? um encontro com história? um olhar a realidade de outros olhos? a expiação de fantasmas? a resposta não estava escrita nem nas paredes de Sarajevo nem nos celeiros, nem nos vales, nem nas florestas, nem no pinaculo dos minaretes ou de todas as outras igrejas. não estava nos buracos das balas, nos campos minados, nas casas queimadas e nos edificios reconstruidos...
a resposta será assim um processo que ainda estou a digerir.
13.8.06
#1
Diarios da Bosnia 2
A primeira impressao com que se fica ao sair de Mostar em direccao a norte e' que na Bosnia nao existem aldeias, mas sim meios lugares: 11 anos depois do fim oficial da guerra, o cenario de destruicao e desolacao e' uma realidade. Passando nas aldeias, consegue-se perceber qual das comunidades foi ali massacrada vitima da violencia da outra. basta olhar para as casas que ainda se apresentam destruidas e queimadas e para os cemiterios de beira de estrada, nos jardins publicos ou junto a ruinas de templos.
tudo isto a contrastar com um cenario natural edilico...
Diarios da Bosnia 2
A primeira impressao com que se fica ao sair de Mostar em direccao a norte e' que na Bosnia nao existem aldeias, mas sim meios lugares: 11 anos depois do fim oficial da guerra, o cenario de destruicao e desolacao e' uma realidade. Passando nas aldeias, consegue-se perceber qual das comunidades foi ali massacrada vitima da violencia da outra. basta olhar para as casas que ainda se apresentam destruidas e queimadas e para os cemiterios de beira de estrada, nos jardins publicos ou junto a ruinas de templos.
tudo isto a contrastar com um cenario natural edilico...
11.8.06
#2
Diarios da bosnia
ao fim de dez dias de estrada, entramos finalmente em territorio da Bosnia Herzgovina. Depois de Dubrovnik, exemplarmente reconstruida e cartao de visita da costa Balcanica, a realidade.
ao longo das estradas algumas casas em ruinas sao, a par dos cemiterios, monumentos a memoria do que aqui se passou.
Mostar significa Guarda da Ponte. A ponte velha, que os Croatas diligentemente bombardearam na tentativa de vergar a resistencia dos Mučulmanos, foi reconstruida e une as duas margens do rio, an tentaiva de reconciliar duas comunidades desavindas. Vejamos o que o futuro lhes reserva.
Diarios da bosnia
ao fim de dez dias de estrada, entramos finalmente em territorio da Bosnia Herzgovina. Depois de Dubrovnik, exemplarmente reconstruida e cartao de visita da costa Balcanica, a realidade.
ao longo das estradas algumas casas em ruinas sao, a par dos cemiterios, monumentos a memoria do que aqui se passou.
Mostar esta a renovar-se lentamente. As ruas estao cheias de gente, os cafes e os bares abundam, os cybers estao em todo o lado. Os prečos nao sao proibitivos, condizem com o nivel de vida. Entrar na cidade ao cair da noite gela a boa disposičao de qualquer optimista: cemiterios, edificios cravejados de balas e estilhačos, quarteiroes em ruinas... depois do ambiente asseptico de Dubrovnick, que apagou os sinais da guerra, deixando apenas vestigios que a propaganda do regime croata explora o mais que pode, a cruza dos factos: esta guerra, estupida como todas as guerras, deixou marcas que ainda estao bem presentes no quotidiano desta gente. E se ha as marcas que se podem ver, ha tambem aquelas que se podem pressentir.
Mostar significa Guarda da Ponte. A ponte velha, que os Croatas diligentemente bombardearam na tentativa de vergar a resistencia dos Mučulmanos, foi reconstruida e une as duas margens do rio, an tentaiva de reconciliar duas comunidades desavindas. Vejamos o que o futuro lhes reserva.
#1
Dubrovnikar
neologismo.
Referente a estado de espirito positivo, boa disposičao e elevados niveis de alegria.
Sinais e sintomas mais frequentes ao final da tarde, afectando principalmente andorinhas e gatos, podendo atingir alguns viajantes mais desatento aos fenomenos do turismo de massa e que se encontrem perdidos pelas vielas do casario.
Dubrovnikar
neologismo.
Referente a estado de espirito positivo, boa disposičao e elevados niveis de alegria.
Sinais e sintomas mais frequentes ao final da tarde, afectando principalmente andorinhas e gatos, podendo atingir alguns viajantes mais desatento aos fenomenos do turismo de massa e que se encontrem perdidos pelas vielas do casario.
9.8.06
#1
nem sem bem a que dia estamos, tenho o telemovel desligado e os mails vao-se acumulando na caixa do correio... no outro dia subi a um castelo para ver o anoitecer, ontem andeia a navegar por um Fiorde, hoje atravessei uma fronteira a pe e voltei a montar a tenda, amanha logo se ve.
numa so palavra: ferias!
saluti
A
nem sem bem a que dia estamos, tenho o telemovel desligado e os mails vao-se acumulando na caixa do correio... no outro dia subi a um castelo para ver o anoitecer, ontem andeia a navegar por um Fiorde, hoje atravessei uma fronteira a pe e voltei a montar a tenda, amanha logo se ve.
numa so palavra: ferias!
saluti
A
4.8.06
#1 [beograd]
depois de girar por esta cidade, depois de perceber que eles falam a mesma lingua que os vizinhos e que comem as mesmas coisas, depois de sentir o respeito que todos patecem ter a tito e ao ver a forma como as grandes empresas multinacionais estao a predar a S'ervia, consegui ter um maior entendimento do Sonho Jugoslavo...
e de cada vez que vejo os edificios que ainda ostentam os sinais que a NATO lhes deixou em 99, tenho receio de que algu'em nos venha pedir contas, uma vez que Portugal tambem esteve em guerra com esta gente...
um abraco para quem le este retomado pasquim.
A
depois de girar por esta cidade, depois de perceber que eles falam a mesma lingua que os vizinhos e que comem as mesmas coisas, depois de sentir o respeito que todos patecem ter a tito e ao ver a forma como as grandes empresas multinacionais estao a predar a S'ervia, consegui ter um maior entendimento do Sonho Jugoslavo...
e de cada vez que vejo os edificios que ainda ostentam os sinais que a NATO lhes deixou em 99, tenho receio de que algu'em nos venha pedir contas, uma vez que Portugal tambem esteve em guerra com esta gente...
um abraco para quem le este retomado pasquim.
A
31.7.06
#2
[dos mitos]
Todas as familias têm o seu imaginário. Então se a familia for grande e turbolenta, com gente de diversas idades, tod@s fãs da leitura e devotos do telejornal, o campo é ainda mais fértil para a criação de mitos.
Há uns 15 anos atrás, o grande mito lá de casa era a Bósnia. A um qualquer indicio de disparate, o prevaricador ou a prevaricadora eram logo contemplados com um bilhete virtual de ida e volta (sem passar na casa de partida nem receber dois contos) para esse longinquo País onde tudo parecia ser estranho. Face à ameaça de ir parar à Bósnia, o purgatório até parecia um lugar agradável.
A Bósnia entrou no nosso imaginário via TV. Nesse tempo tudo era simples: os sérvios eram os maus, os bósnios os coitadinhos e os croatas os oportunistas vira casacas, que disparavam para onde quisessem. A guerra, estúpida como todas as guerras, era-nos servida com uma tendenciosa dose de maniqueismo, que fazia crer que só os Muçulmanos é que eram, tolerantes, só as suas casa eram destruidas, que só a sua cultura era ameaçada e que só os eus mercados eram destruidos...
Enquanto eu te escrevo Sarajevo Morre Lenta, Uma morte amordaçada No silêncio dos tiros.
Sarajevo tornou-se num mito, embora diferente do lá de casa. A cidade mártir, onde se dera o inicio do fim dos impérios do inicio do séc XX, era o fetiche da intelectualidade de todo o mundo. Pedro Abrunhosa, Pavarotti e toda uma panóplia de artistas dedicaram-se a cantar as desgraças e a impotência da Europa e do Mundo face ao drama e ao horror.
A mim, confesso que me impressionou bastante a imagem da Biblioteca daquela cidade em chamas. foi talvez nessa altura que desejei conhecer essa terra longinquo.
Desde 1995 que a Bósnia está em paz. A guerra fraticida que desmembrou a Jugoslávia estava quase a atingir os propósitos inscritos na sua agenda oculta: terminar o processo aberto com a queda do Muro de Berlim e ajustar contas com o comunismo, abrir novas posições geo estratégicas na entrada da Ásia e restituir poder a alguns dos grandes oligarcas desapossados depois de 1945. Uma Viagem pelos filmes de Kosturika ou uma leitura a livros como "Cruzada de Cegos - Jugoslávia, a primeira guerra da globalização", da jornalista Norte Americana Diana Johnstone dão-nos bons argumentos para a compreensão desta guerra.
Fuck the past, kiss the future, Viva Sarajevo!
Foi com uma voz rouca e emocionada que Bono vox, em directo de Sarajevo para todo o mundo, anunciou ao mundo a libertação da cidade. O concerto dos U2 de Setembro de 1997, transmitido entre nós pela Antena 3, teve o mérito de reabrir linhas de comboio e fazer o mundo suspirar de alivio.
17 anos depois da quesda do Muro, morta a Jugoslávia e Milosevic, tudo parece ser diferente.
não perdi a vontade de ir a Sarajevo e de conehcer os Balcãs. Por isso parto, que, apesar da tensão, ir para a bósnia já não é ameaça de inferno nem sinónimo de disparate...
[dos mitos]
Todas as familias têm o seu imaginário. Então se a familia for grande e turbolenta, com gente de diversas idades, tod@s fãs da leitura e devotos do telejornal, o campo é ainda mais fértil para a criação de mitos.
Há uns 15 anos atrás, o grande mito lá de casa era a Bósnia. A um qualquer indicio de disparate, o prevaricador ou a prevaricadora eram logo contemplados com um bilhete virtual de ida e volta (sem passar na casa de partida nem receber dois contos) para esse longinquo País onde tudo parecia ser estranho. Face à ameaça de ir parar à Bósnia, o purgatório até parecia um lugar agradável.
A Bósnia entrou no nosso imaginário via TV. Nesse tempo tudo era simples: os sérvios eram os maus, os bósnios os coitadinhos e os croatas os oportunistas vira casacas, que disparavam para onde quisessem. A guerra, estúpida como todas as guerras, era-nos servida com uma tendenciosa dose de maniqueismo, que fazia crer que só os Muçulmanos é que eram, tolerantes, só as suas casa eram destruidas, que só a sua cultura era ameaçada e que só os eus mercados eram destruidos...
Enquanto eu te escrevo Sarajevo Morre Lenta, Uma morte amordaçada No silêncio dos tiros.
Sarajevo tornou-se num mito, embora diferente do lá de casa. A cidade mártir, onde se dera o inicio do fim dos impérios do inicio do séc XX, era o fetiche da intelectualidade de todo o mundo. Pedro Abrunhosa, Pavarotti e toda uma panóplia de artistas dedicaram-se a cantar as desgraças e a impotência da Europa e do Mundo face ao drama e ao horror.
A mim, confesso que me impressionou bastante a imagem da Biblioteca daquela cidade em chamas. foi talvez nessa altura que desejei conhecer essa terra longinquo.
Desde 1995 que a Bósnia está em paz. A guerra fraticida que desmembrou a Jugoslávia estava quase a atingir os propósitos inscritos na sua agenda oculta: terminar o processo aberto com a queda do Muro de Berlim e ajustar contas com o comunismo, abrir novas posições geo estratégicas na entrada da Ásia e restituir poder a alguns dos grandes oligarcas desapossados depois de 1945. Uma Viagem pelos filmes de Kosturika ou uma leitura a livros como "Cruzada de Cegos - Jugoslávia, a primeira guerra da globalização", da jornalista Norte Americana Diana Johnstone dão-nos bons argumentos para a compreensão desta guerra.
Fuck the past, kiss the future, Viva Sarajevo!
Foi com uma voz rouca e emocionada que Bono vox, em directo de Sarajevo para todo o mundo, anunciou ao mundo a libertação da cidade. O concerto dos U2 de Setembro de 1997, transmitido entre nós pela Antena 3, teve o mérito de reabrir linhas de comboio e fazer o mundo suspirar de alivio.
17 anos depois da quesda do Muro, morta a Jugoslávia e Milosevic, tudo parece ser diferente.
não perdi a vontade de ir a Sarajevo e de conehcer os Balcãs. Por isso parto, que, apesar da tensão, ir para a bósnia já não é ameaça de inferno nem sinónimo de disparate...
#1
[explicação dos Pássaros]
Hoje o público anuncia em grandes parangonas que o Serviço Nacional de Saúde gasta 20 milhões de euros por dia ao herário Público.
Muito se fala da necessária redução da despesa. Mas, na minha modesta opinião. com a saúde a coisa não pode ser só matemática.
Primeiro é urgente assumir que a saúde não é um negócio e que os gastos com a saúde são a bem do futuro, uma vez que têm relação directa com o bem estar da população. Devido ao avanço da tecnologia e às questões demográficas, este é um sector em cuja despesa irá crescer. Mas se fosse só despesa que se tratasse, não haveria tanto interesse da parte das seguradoras e dos bancos em abocanhar o SNS.
Em Segundo lugar é importante começar a canalizar cada vez mais verbas do bolo para os cuidados preventivos, de forma a reduzir, a médio e longo prazo, a necessidade de cudiados curativos.
Em terceiro, é preciso criar um sistema justo de contribuições para o SNS, onde quem mais tem mais deve pagar. obviamente que a isto se tem de associar uma resposta eficaz e eficiente dos serviços.
Em quarto lugar, o tão urgente e necessário o corte do despesismo. A partir do momento em que o despesismo for substancialmente reduzido, cada centimo gasto com o SNS é um centimo bem gasto.
cortar o despesismo... algumas ideias
1- diminuir os privilégios das direcções hospitalares - acabam-se os carttões de crédito, limita-se a utilização de viaturas oficiais, reduz-se o número de gestores por nomeação investindo-se numa carreira pública.
2- criar um regime de separação efectiva Publico/privado, dando incentivos aos profissionais para exclusividade ao SNS. consegue-se com isto ter profissionais durante mais horas, reduzindo-se nas horas extraordinárias.
3- Criar mecanismos de cobrança aos subsistemas - a ADSE, a segurança social ou o SAMS devem milhões ao SNS.
4- criar mecanismos de aprovisionamento de escala e de pagamento célere aos fornecedores. com pagamentos a 400 dias não vamos a lado nenhum.
5- Possibilitar e incentivar formas de gestão eficiente dos serviços. dois exemplos:
1) a gestão de stocks do Hospital de Sta Maria, em Lisboa, está em implementação. O diagnóstico feito permitiu identificar desvios de material para consumo privado, quer dos funcionários quer de clínicas privadas.
2) o simples ajuste dos autoclismos dos Hospitais da Universidade de Coimbra, reduzindo o volume de água por descarga (mantendo-o, no entanto, dentro dos limites considerados recomendáveis para higiene e segurança) permitiu uma considerável poupança mensa, com beneficios para a instituição e para o meio ambiente...
6- criação de serviços de retaguarda para cuidados continuados e de cuidados paleativos, ligados ao SNS. Os custos de uma cama nestas unidades de cuidados específcicos estão muito abaixo dos custos de uma cama de hospital.
7- investir nos cuidados primários, na saúde preventiva. só assim se poderá reduzir a necessidade dos outros cuidados. O desinvestimento nestes cuidados foram, a par da limitação de vagas nas universidades, o maior acto de despesismo cometido nas últimas décadas, uma vez que, ao poupar nestes campos no imediato, se originou uma despesa tamanha a longo prazo.
enfim...
[explicação dos Pássaros]
Hoje o público anuncia em grandes parangonas que o Serviço Nacional de Saúde gasta 20 milhões de euros por dia ao herário Público.
Muito se fala da necessária redução da despesa. Mas, na minha modesta opinião. com a saúde a coisa não pode ser só matemática.
Primeiro é urgente assumir que a saúde não é um negócio e que os gastos com a saúde são a bem do futuro, uma vez que têm relação directa com o bem estar da população. Devido ao avanço da tecnologia e às questões demográficas, este é um sector em cuja despesa irá crescer. Mas se fosse só despesa que se tratasse, não haveria tanto interesse da parte das seguradoras e dos bancos em abocanhar o SNS.
Em Segundo lugar é importante começar a canalizar cada vez mais verbas do bolo para os cuidados preventivos, de forma a reduzir, a médio e longo prazo, a necessidade de cudiados curativos.
Em terceiro, é preciso criar um sistema justo de contribuições para o SNS, onde quem mais tem mais deve pagar. obviamente que a isto se tem de associar uma resposta eficaz e eficiente dos serviços.
Em quarto lugar, o tão urgente e necessário o corte do despesismo. A partir do momento em que o despesismo for substancialmente reduzido, cada centimo gasto com o SNS é um centimo bem gasto.
cortar o despesismo... algumas ideias
1- diminuir os privilégios das direcções hospitalares - acabam-se os carttões de crédito, limita-se a utilização de viaturas oficiais, reduz-se o número de gestores por nomeação investindo-se numa carreira pública.
2- criar um regime de separação efectiva Publico/privado, dando incentivos aos profissionais para exclusividade ao SNS. consegue-se com isto ter profissionais durante mais horas, reduzindo-se nas horas extraordinárias.
3- Criar mecanismos de cobrança aos subsistemas - a ADSE, a segurança social ou o SAMS devem milhões ao SNS.
4- criar mecanismos de aprovisionamento de escala e de pagamento célere aos fornecedores. com pagamentos a 400 dias não vamos a lado nenhum.
5- Possibilitar e incentivar formas de gestão eficiente dos serviços. dois exemplos:
1) a gestão de stocks do Hospital de Sta Maria, em Lisboa, está em implementação. O diagnóstico feito permitiu identificar desvios de material para consumo privado, quer dos funcionários quer de clínicas privadas.
2) o simples ajuste dos autoclismos dos Hospitais da Universidade de Coimbra, reduzindo o volume de água por descarga (mantendo-o, no entanto, dentro dos limites considerados recomendáveis para higiene e segurança) permitiu uma considerável poupança mensa, com beneficios para a instituição e para o meio ambiente...
6- criação de serviços de retaguarda para cuidados continuados e de cuidados paleativos, ligados ao SNS. Os custos de uma cama nestas unidades de cuidados específcicos estão muito abaixo dos custos de uma cama de hospital.
7- investir nos cuidados primários, na saúde preventiva. só assim se poderá reduzir a necessidade dos outros cuidados. O desinvestimento nestes cuidados foram, a par da limitação de vagas nas universidades, o maior acto de despesismo cometido nas últimas décadas, uma vez que, ao poupar nestes campos no imediato, se originou uma despesa tamanha a longo prazo.
enfim...
29.7.06
#1 [uma equação com várias incógnitas]
Israel usou o rapto de 3 soldados como pretexto para atacar o Hezbollah e, de caminho, deitar gasolina na fogueira do médio oriente.
Desde então que temos vindo a observar uma escalada do conflito, com a morte de civis e a destruição. De ambos os lados, mas em diferentes proporções.
Quanto aos reféns, continuam em lugar desconhecido, tendo o exército Sionista sofrido consideráveis baixas na "tentativa" de os libertar...
Israel usou o rapto de 3 soldados como pretexto para atacar o Hezbollah e, de caminho, deitar gasolina na fogueira do médio oriente.
Desde então que temos vindo a observar uma escalada do conflito, com a morte de civis e a destruição. De ambos os lados, mas em diferentes proporções.
Quanto aos reféns, continuam em lugar desconhecido, tendo o exército Sionista sofrido consideráveis baixas na "tentativa" de os libertar...
10.7.06
#1 [Citação]
Há três anos começava este blog. Numa outra casa, num dia mais quente e com uma pessoa um bocadinho diferente daquela que hoje escreve.
Por diversas vezes apeteceu-me acabar com o blog, apagá-lo de vez, dizer-lhe adeus para sempre, mas sei que mais tarde ou mais cedo aparece a vontade de regressar e depois... construir outro espaço de raiz não é a mesma coisa. Volto sempre que me apetecer. E vocês também...
Sofia, in Uns e Outros
Há três anos começava este blog. Numa outra casa, num dia mais quente e com uma pessoa um bocadinho diferente daquela que hoje escreve.
Por diversas vezes apeteceu-me acabar com o blog, apagá-lo de vez, dizer-lhe adeus para sempre, mas sei que mais tarde ou mais cedo aparece a vontade de regressar e depois... construir outro espaço de raiz não é a mesma coisa. Volto sempre que me apetecer. E vocês também...
Sofia, in Uns e Outros
21.4.06
18.4.06
#1
[afinidades]
pessoas que nao se conhecem e rapidamente se entendem.
conceitos desconhecidos mas de conteudo e pratricas familiares.
encontar outras maneiras de olhar a realidade, tantas formas para definir intervencao. E, no entanto, reforcar a ideia de que, deste lado ou desse, e' igual a raiz dos problemas.
o mundo e' redondo e nem um oceano tao azul como o atlantico quebra as correntes que o fazem girar.
[afinidades]
pessoas que nao se conhecem e rapidamente se entendem.
conceitos desconhecidos mas de conteudo e pratricas familiares.
encontar outras maneiras de olhar a realidade, tantas formas para definir intervencao. E, no entanto, reforcar a ideia de que, deste lado ou desse, e' igual a raiz dos problemas.
o mundo e' redondo e nem um oceano tao azul como o atlantico quebra as correntes que o fazem girar.
14.4.06
13.4.06
11.4.06
#2
[uffffffffff]
[uffffffffff]

Foi um sobressalto ver a quase vitória do Berlusconi.
Mas, no fim das contas, tudo se resolveu: 49,8% para a coligação de Esquerda, 49,7% para a coligação de Direita.
Apesar desta diferença residual (cerca de 25 mil votos) a Esquerda conta com maioria absoluta na Camera dei Diputati ( o Parlamento), fruto de uma alteração eleitoral, feita em Outubro passado e que dita que a coligação vencedora tem direito a um bonos de quase 60 deputados... Esta alteração fora introduzida por Berlusconi, convencido de estar a garantir uma vitória futura.
No Senado a coisa também teve um volte de face. Depois de contados os votos do Exterior, vitória tangencial da Direita não se verificou. A Esquerda elege a maioria dos Senadores, mas fica a 4 votos da maioria absoluta, tendo agora de negociar com 4 dos senadores vitalicios...
A Romano Prodi tem agora a tarefa de governar Itália e gerir o saco de gatos que é a grande coligação que formou – La Unione. Aquilo é tão diverso que tem desde os democratas cristãos de esquerda (os “demo cristhi” da margherita) até aos dois partidos comunistas, passando pelos verdes, por duas ou três formações autonomistas e pelos comunistas reciclados em Sociais Democratas…
Deixo-vos uma foto minha que ilustra o espírito da União. Como poderão verificar, até prodi aparece, com o seu ar apaziguador, a tentar mediar a tensão…
Mas, no fim das contas, tudo se resolveu: 49,8% para a coligação de Esquerda, 49,7% para a coligação de Direita.
Apesar desta diferença residual (cerca de 25 mil votos) a Esquerda conta com maioria absoluta na Camera dei Diputati ( o Parlamento), fruto de uma alteração eleitoral, feita em Outubro passado e que dita que a coligação vencedora tem direito a um bonos de quase 60 deputados... Esta alteração fora introduzida por Berlusconi, convencido de estar a garantir uma vitória futura.
No Senado a coisa também teve um volte de face. Depois de contados os votos do Exterior, vitória tangencial da Direita não se verificou. A Esquerda elege a maioria dos Senadores, mas fica a 4 votos da maioria absoluta, tendo agora de negociar com 4 dos senadores vitalicios...
A Romano Prodi tem agora a tarefa de governar Itália e gerir o saco de gatos que é a grande coligação que formou – La Unione. Aquilo é tão diverso que tem desde os democratas cristãos de esquerda (os “demo cristhi” da margherita) até aos dois partidos comunistas, passando pelos verdes, por duas ou três formações autonomistas e pelos comunistas reciclados em Sociais Democratas…
Deixo-vos uma foto minha que ilustra o espírito da União. Como poderão verificar, até prodi aparece, com o seu ar apaziguador, a tentar mediar a tensão…
#1
[a vibrar...*]
Faltam menos de 5 mil circunscrições para os resultados das eleições italianas estarem apurados.
A emoção começou pelas 17h, quando um amigo me informou da derrota de Berlusconi. de então para cá, os resultados foram aparecendo e a vantagem da coligação que suporta Prodi tem vindo a diminuir... vai em 0,5%. correspondentes a menos de 200 mil votos.
Apesar de ter menos votos, a sua distribuição pelos circulos, pode significar determinar 70 deputados para a direita.
Sofro como só um italiano comunista sofrerá. bom.. eles talvez sofram mais do que eu, pois a hipótese de Berlusconi e a sua pandilha de fascistas s e manter por mais 5 anos toca-lhes a eles.
CASO DI DIO!!!!
* emoções de um fazedor de eleições
[a vibrar...*]
Faltam menos de 5 mil circunscrições para os resultados das eleições italianas estarem apurados.
A emoção começou pelas 17h, quando um amigo me informou da derrota de Berlusconi. de então para cá, os resultados foram aparecendo e a vantagem da coligação que suporta Prodi tem vindo a diminuir... vai em 0,5%. correspondentes a menos de 200 mil votos.
Apesar de ter menos votos, a sua distribuição pelos circulos, pode significar determinar 70 deputados para a direita.
Sofro como só um italiano comunista sofrerá. bom.. eles talvez sofram mais do que eu, pois a hipótese de Berlusconi e a sua pandilha de fascistas s e manter por mais 5 anos toca-lhes a eles.
CASO DI DIO!!!!
* emoções de um fazedor de eleições
5.4.06
31.3.06
#2 [foi assim]
que Luis Filipe Pereira, ministro da Saúde dos Governos Durão/Portas/Bagão/Santana tentou salvar o SNS:
30 gestores lesam Estado em 1,2 milhões de euros
DN, 31 de Março de 2005
que Luis Filipe Pereira, ministro da Saúde dos Governos Durão/Portas/Bagão/Santana tentou salvar o SNS:
30 gestores lesam Estado em 1,2 milhões de euros
DN, 31 de Março de 2005
29.3.06
23.3.06
#1 [balancete*]
Durante estes 3 anos de guerra no Iraque, muito se tem ouvido falar nos mais de dois mil soldados americanos mortos.
dos 30 mil civis Iraquianos que perdeream a vida também há referências.
já sobre os estrupiados que a guerra deixou de ambos os lados, a informação é quase nula.
hoje descobri que, do lado do US ARMY, são cerca de 17 mil. Jovens.
*freedom Import/export SA
Durante estes 3 anos de guerra no Iraque, muito se tem ouvido falar nos mais de dois mil soldados americanos mortos.
dos 30 mil civis Iraquianos que perdeream a vida também há referências.
já sobre os estrupiados que a guerra deixou de ambos os lados, a informação é quase nula.
hoje descobri que, do lado do US ARMY, são cerca de 17 mil. Jovens.
*freedom Import/export SA
22.3.06
#3
[um novo tempo que se abre...]
(...)
A ETA decidiu declarar um cessar-fogo permanente a partir de 24 de Março de 2006", indica o comunicado intitulado "Mensagem de Euskadi Ta Askatasuna [Pátria Basca e Liberdade] ao povo basco", do qual a AFP obteve uma cópia.
"O objectivo desta decisão é lançar o processo democrático no País Basco com o objectivo de edificar um novo quadro no seio do qual serão reconhecidos os direitos que nos assistem enquanto povo", lê-se no documento.
"No final do processo, os cidadãos bascos deverão ter a palavra e o poder de decisão sobre o seu futuro", continua o comunicado, referindo ainda a reivindicação do direito de autodeterminação do País Basco espanhol.
A organização apela ainda às autoridades espanhola e francesa para que "respondam de maneira positiva a esta nova situação, deixando de lado toda a repressão".
O comunicado, em jeito de "mensagem ao povo basco", apela a todos os agentes para que "actuem com responsabilidade" e para que "sejam consequentes com o passo dado" pela organização terrorista.
"A ETA mostra o desejo e vontade de que o processo aberto chega ao final e assim se consiga uma situação democrática para Euskal Herria, superando o conflito de largos anos e construindo uma paz baseada na justiça", refere ainda.
No comunicado, a organização reafirma o "compromisso" de "continuar a dar passos no futuro, de acordo com essa vontade" expressa pelos cidadãos.
(...)
in Publico on-line 22/03/2006
[um novo tempo que se abre...]
(...)
A ETA decidiu declarar um cessar-fogo permanente a partir de 24 de Março de 2006", indica o comunicado intitulado "Mensagem de Euskadi Ta Askatasuna [Pátria Basca e Liberdade] ao povo basco", do qual a AFP obteve uma cópia.
"O objectivo desta decisão é lançar o processo democrático no País Basco com o objectivo de edificar um novo quadro no seio do qual serão reconhecidos os direitos que nos assistem enquanto povo", lê-se no documento.
"No final do processo, os cidadãos bascos deverão ter a palavra e o poder de decisão sobre o seu futuro", continua o comunicado, referindo ainda a reivindicação do direito de autodeterminação do País Basco espanhol.
A organização apela ainda às autoridades espanhola e francesa para que "respondam de maneira positiva a esta nova situação, deixando de lado toda a repressão".
O comunicado, em jeito de "mensagem ao povo basco", apela a todos os agentes para que "actuem com responsabilidade" e para que "sejam consequentes com o passo dado" pela organização terrorista.
"A ETA mostra o desejo e vontade de que o processo aberto chega ao final e assim se consiga uma situação democrática para Euskal Herria, superando o conflito de largos anos e construindo uma paz baseada na justiça", refere ainda.
No comunicado, a organização reafirma o "compromisso" de "continuar a dar passos no futuro, de acordo com essa vontade" expressa pelos cidadãos.
(...)
in Publico on-line 22/03/2006
21.3.06
#4
[Aquele Bar]
A geografia sentimental de cada um faz-se de episódios coleccionados, de encontros, de lugares de convívio e, sobretudo, das pessoas que vamos encontrando.
Segundo os meus cálculos, a primeira vez que entrei num bar, depois de posto o sol e sem qualquer presença tutelar, terá sido nessa longínqua primavera de 1994. O espaço eleito era, por assim dizer, o menos elitista da noite de Sintra: sem consumo obrigatório, preços acessíveis, gente diversificada e música ao gosto de quem aqui escreve.
Foi ali que me cruzei com o Augusto, personagem que o tempo ensina a conhecer. Dono da casa, fazia do espaço entre a barra e a cozinha o seu mundo conhecido. E que grande mundo! Cheio de histórias e boa disposição, acolhendo da melhor maneira quem viesse por bem. A sangria servida pela Susana era, já se sabe, a melhor.
Durante algumas temporadas, com maior ou menor assiduidade, aquela foi paragem obrigatória para mim e para muitos amigos e amigas, que fui fazendo e que ali fiz. A mística das pessoas e do lugar, disfarçada de simplicidade, foram sempre o chamariz.
Um dia desafiei o Augusto a ceder o seu espaço para um debate sobre a legalização das drogas leves, tema que, por essa altura, começava a deixar de ser tabu.
Este é um espaço de liberdade, aberto à diferença e a quem mexer o mundo. Não sei ao certo se terão sido estas as palavras com que me abriu a porta, mas foi este o espírito com que o fez.
Com o passar dos anos, e com a maldita crise (a económica e a de tolerância pela diferença), o bar perdeu fôlego. Mantiveram-se os afectos e as cumplicidades geradas. Já não encontrava o Augusto com tanta frequência, mas, se nos cruzávamos por aí ou quando me ligava na véspera de natal, era como que para fazer o ponto da situação dos caminhos percorridos. Como só os bons amigos sabem fazer.
A última vez que falámos foi na noite das eleições presidências. A luta é dura, há que continuar! Tem de ser amigo, força! Dissemo-nos.
Hoje, ao ouvir a voz da Susana do outro lado do telefone, soube de imediato o que ela tinha para me dizer. A luta do Augusto terminara.
Revejo, no silêncio, as linhas do mapa onde se traçam as emoções. Nele, o Augusto, a quem dedico a reflexão deste dia, é incontornável. Afinal, foi também com ele que aprendi que geografia sentimental de cada um se faz, sobretudo, das pessoas que vamos encontrando.
[Aquele Bar]
A geografia sentimental de cada um faz-se de episódios coleccionados, de encontros, de lugares de convívio e, sobretudo, das pessoas que vamos encontrando.
Segundo os meus cálculos, a primeira vez que entrei num bar, depois de posto o sol e sem qualquer presença tutelar, terá sido nessa longínqua primavera de 1994. O espaço eleito era, por assim dizer, o menos elitista da noite de Sintra: sem consumo obrigatório, preços acessíveis, gente diversificada e música ao gosto de quem aqui escreve.
Foi ali que me cruzei com o Augusto, personagem que o tempo ensina a conhecer. Dono da casa, fazia do espaço entre a barra e a cozinha o seu mundo conhecido. E que grande mundo! Cheio de histórias e boa disposição, acolhendo da melhor maneira quem viesse por bem. A sangria servida pela Susana era, já se sabe, a melhor.
Durante algumas temporadas, com maior ou menor assiduidade, aquela foi paragem obrigatória para mim e para muitos amigos e amigas, que fui fazendo e que ali fiz. A mística das pessoas e do lugar, disfarçada de simplicidade, foram sempre o chamariz.
Um dia desafiei o Augusto a ceder o seu espaço para um debate sobre a legalização das drogas leves, tema que, por essa altura, começava a deixar de ser tabu.
Este é um espaço de liberdade, aberto à diferença e a quem mexer o mundo. Não sei ao certo se terão sido estas as palavras com que me abriu a porta, mas foi este o espírito com que o fez.
Com o passar dos anos, e com a maldita crise (a económica e a de tolerância pela diferença), o bar perdeu fôlego. Mantiveram-se os afectos e as cumplicidades geradas. Já não encontrava o Augusto com tanta frequência, mas, se nos cruzávamos por aí ou quando me ligava na véspera de natal, era como que para fazer o ponto da situação dos caminhos percorridos. Como só os bons amigos sabem fazer.
A última vez que falámos foi na noite das eleições presidências. A luta é dura, há que continuar! Tem de ser amigo, força! Dissemo-nos.
Hoje, ao ouvir a voz da Susana do outro lado do telefone, soube de imediato o que ela tinha para me dizer. A luta do Augusto terminara.
Revejo, no silêncio, as linhas do mapa onde se traçam as emoções. Nele, o Augusto, a quem dedico a reflexão deste dia, é incontornável. Afinal, foi também com ele que aprendi que geografia sentimental de cada um se faz, sobretudo, das pessoas que vamos encontrando.
#2
[dia mundial da poesia]
O Al Berto tinha um plano quinquenal terrivel para pôr as pessoas a ler poesia. Eu não vejo interesse nenhum nisso. A poesia é uma forma de felicidade como outra qualquer - e por acaso até acho que as pessoas que fazem poesia e as pessoas que lêem poesia são as mesmas. Mesmo que não mostrem, têm de certeza sonetos na mesinha-de-cabeceira, com água a rimar com mágoa. As 300 pessoas que em Portugal compram livros de poesia são as 300 pessoas que escrevem poesia também - já pensei juntá-las numa jantarada.
Manuel António Pina
in Público, 21/03/2006
[dia mundial da poesia]
O Al Berto tinha um plano quinquenal terrivel para pôr as pessoas a ler poesia. Eu não vejo interesse nenhum nisso. A poesia é uma forma de felicidade como outra qualquer - e por acaso até acho que as pessoas que fazem poesia e as pessoas que lêem poesia são as mesmas. Mesmo que não mostrem, têm de certeza sonetos na mesinha-de-cabeceira, com água a rimar com mágoa. As 300 pessoas que em Portugal compram livros de poesia são as 300 pessoas que escrevem poesia também - já pensei juntá-las numa jantarada.
Manuel António Pina
in Público, 21/03/2006
20.3.06
17.3.06
13.3.06
10.3.06
9.3.06
#1 [crónicas de um país encavacado]
Lisboa esteve um pandemónio hoje de manhã.
Ruas cortadas, o céu pejado de helicopteros, motas e carros da bofia por todo o lado.
A maior operação de segurança alguma vez realizada no nosso país... só e apenas para a tomada de posse de Cavaco.
Maria Cavaca também tomou posse como primeira dama, e, seguindo o protocolo, à hora certa sentou-se no lugar de Maria José Ritta. A ex, que estava na conversa com Maria Barroso, só se apercebeu tarde demais.
Na tribuna, entre várias sumidades, estavam Nino Vieira, George Bush (pai) e Joaquim Chissano, personagens que só podem ser considerados democratas porque, a seu tempo, foram eleitos.
Seguem-se comezaina e baile, com carros e escoltas em alta velocidade pela cidade.
Pergunto-me: havia necessidade deste circo todo numa quinta feira? Se bem me lembro, as 2 tomadas de posse de Soares e as 2 de Sampaio foram ao fim de semana...
Lisboa esteve um pandemónio hoje de manhã.
Ruas cortadas, o céu pejado de helicopteros, motas e carros da bofia por todo o lado.
A maior operação de segurança alguma vez realizada no nosso país... só e apenas para a tomada de posse de Cavaco.
Maria Cavaca também tomou posse como primeira dama, e, seguindo o protocolo, à hora certa sentou-se no lugar de Maria José Ritta. A ex, que estava na conversa com Maria Barroso, só se apercebeu tarde demais.
Na tribuna, entre várias sumidades, estavam Nino Vieira, George Bush (pai) e Joaquim Chissano, personagens que só podem ser considerados democratas porque, a seu tempo, foram eleitos.
Seguem-se comezaina e baile, com carros e escoltas em alta velocidade pela cidade.
Pergunto-me: havia necessidade deste circo todo numa quinta feira? Se bem me lembro, as 2 tomadas de posse de Soares e as 2 de Sampaio foram ao fim de semana...
8.3.06
#1
[por ocasião da tomada de posse]
O Presidente da República
e a
Senhora de Anibal Cavaco Silva
[por ocasião da tomada de posse]
O Presidente da República
e a
Senhora de Anibal Cavaco Silva
convidaram meio mundo para uma recepção no Palácio da Ajuda, a ter lugar no dia 9, 20:30h.
no convite recomenda-se 3 trajes: fato escuro, vestido curto e uniforme correspondente.
Li o convite (que não me era dirigido) com atenção e concluí que não é claro quem deverá levar o quê vestido. Assim, e à cautela, vou estar atento às TVs, não vá a Manuela Ferreira Leite aparecer de Cobrador do Fraque, a Maria Cavaca de policia de Village People (verrsão policia de trânsito) e o pai Bush, qual bailarina da coxa grossa, com uma saia travada acima do joelho...
no convite recomenda-se 3 trajes: fato escuro, vestido curto e uniforme correspondente.
Li o convite (que não me era dirigido) com atenção e concluí que não é claro quem deverá levar o quê vestido. Assim, e à cautela, vou estar atento às TVs, não vá a Manuela Ferreira Leite aparecer de Cobrador do Fraque, a Maria Cavaca de policia de Village People (verrsão policia de trânsito) e o pai Bush, qual bailarina da coxa grossa, com uma saia travada acima do joelho...
7.3.06
#1
[sobre o aumento das taxas moderadoras na saúde...]
houve uma deputada da oposição que disse:
"(...) No entanto, analisando em substância o conteúdo do decreto-lei vertente, o que verdadeiramente está em causa é o financiamento da saúde, mais uma vez à boa maneira do seu Ministério.
O que está verdadeiramente em causa é que o Ministério da Saúde procura encontrar mais uma forma adicional de financiamento.
O que está verdadeiramente em causa é um co-pagamento dos cuidados de saúde, de uma outra forma, directamente do bolso e do orçamento familiar dos cidadãos doentes, pondo em crise o tão propagandeado discurso de justiça social do seu Governo. (...)"
plenamente de acordo!
Apesar dos argumentos se aplicarem na perfeição ao aumento que o governo anunciou hoje - no caso das urgências, o aumento é de 23%, 10 vezes superior à taxa de inflação prevista, esta frase é de Janeiro de 2004.
A deputada em questão chama-se Luisa Portugal, e falava em nome da bancada parlamentar do PS. O Ministro de então era Luis Filipe Pereira.
podem ver o texto integral aqui
[sobre o aumento das taxas moderadoras na saúde...]
houve uma deputada da oposição que disse:
"(...) No entanto, analisando em substância o conteúdo do decreto-lei vertente, o que verdadeiramente está em causa é o financiamento da saúde, mais uma vez à boa maneira do seu Ministério.
O que está verdadeiramente em causa é que o Ministério da Saúde procura encontrar mais uma forma adicional de financiamento.
O que está verdadeiramente em causa é um co-pagamento dos cuidados de saúde, de uma outra forma, directamente do bolso e do orçamento familiar dos cidadãos doentes, pondo em crise o tão propagandeado discurso de justiça social do seu Governo. (...)"
plenamente de acordo!
Apesar dos argumentos se aplicarem na perfeição ao aumento que o governo anunciou hoje - no caso das urgências, o aumento é de 23%, 10 vezes superior à taxa de inflação prevista, esta frase é de Janeiro de 2004.
A deputada em questão chama-se Luisa Portugal, e falava em nome da bancada parlamentar do PS. O Ministro de então era Luis Filipe Pereira.
podem ver o texto integral aqui
6.3.06
3.3.06
2.3.06
25.2.06
a ideia surge numa conversa banal, num encontro de ocasião ou num devaneio momentâneo.
na primeira etapa fazem-se contas ao dinheiro e ao tempo.
a segunda etapa é ocupada a estudar o atlas em cima da mesa da cozinha.
chegar à terceira etapa significa comprar um guia e ver a rede de contactos...
neste ponto do processo já nos é dificil parar: O cheiro da estrada é demasiado forte para ser ignorado e a convulsão interior já tomou conta de nós.
17.2.06
#1
Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colóni
Grega ou romanajá passada,
O nome é morto, inda que inscrito.
Só o parvo dum poeta, ou um louco
que fazia filosofia,
Ou um geómatra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.
Ó grandes homens do momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!
Fernando Pessoa
in Poesia de Fernando Pessoa - selec. de Adolfo Casais Monteiro, Ed. Presença
Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colóni
Grega ou romanajá passada,
O nome é morto, inda que inscrito.
Só o parvo dum poeta, ou um louco
que fazia filosofia,
Ou um geómatra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.
Ó grandes homens do momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!
Fernando Pessoa
in Poesia de Fernando Pessoa - selec. de Adolfo Casais Monteiro, Ed. Presença
14.2.06
#1 [opáááá...]
Como sou um tipo socialmente envolvido e comprometido e economicamente inapto, esta coisa da OPA do Belmiro Mete Medo e da PT tem-me ocupado alguns minutos de reflexão.
hoje dei com um artigo do economista Eugénio Rosa que aborda a coisa pela esquerda. deixo-vos o último parágrafo do sumário, para abrir o apetite.
"(...)
Finalmente, há ainda um outro aspecto importante que tem passado despercebido à opinião pública e aos media. Alguns órgãos de comunicação divulgaram que se a OPA se concretizasse os principais accionistas actuais iriam obter uma mais-valia de 5.000 milhões de euros, ou seja, de 1.000 milhões de contos. O que ninguém ainda mencionou é que, se isto for verdade, este "lucro" de 1.000 milhões de contos não pagará nada de impostos. É uma espécie de euromilhões multiplicado muitas vezes. E isto porque de acordo a alínea a) do nº2 do artº 10º do Código do IRS estão excluídas do pagamento de impostos "as mais-valias provenientes da venda de acções detidas pelos seus titulares mais de 12 meses". A injustiça fiscal que existe em Portugal é mais uma vez flagrante e chocante. "
Como sou um tipo socialmente envolvido e comprometido e economicamente inapto, esta coisa da OPA do Belmiro Mete Medo e da PT tem-me ocupado alguns minutos de reflexão.
hoje dei com um artigo do economista Eugénio Rosa que aborda a coisa pela esquerda. deixo-vos o último parágrafo do sumário, para abrir o apetite.
"(...)
Finalmente, há ainda um outro aspecto importante que tem passado despercebido à opinião pública e aos media. Alguns órgãos de comunicação divulgaram que se a OPA se concretizasse os principais accionistas actuais iriam obter uma mais-valia de 5.000 milhões de euros, ou seja, de 1.000 milhões de contos. O que ninguém ainda mencionou é que, se isto for verdade, este "lucro" de 1.000 milhões de contos não pagará nada de impostos. É uma espécie de euromilhões multiplicado muitas vezes. E isto porque de acordo a alínea a) do nº2 do artº 10º do Código do IRS estão excluídas do pagamento de impostos "as mais-valias provenientes da venda de acções detidas pelos seus titulares mais de 12 meses". A injustiça fiscal que existe em Portugal é mais uma vez flagrante e chocante. "
10.2.06
#1 [tudo na mesma]
Já sabiamos que a vereação de Sintra está repartida entre o PS e a coligação PSD/CDS/MPT/PPM, tendo o PCP ficado apenas com a presidencia do SMAS.
Ficamos agora a saber que os lugares de administração das empresas municipais se dividem entre a coligação de Fernando Seara e o PCP. Ou seja: em Sintra continua tudo na mesma.
Já sabiamos que a vereação de Sintra está repartida entre o PS e a coligação PSD/CDS/MPT/PPM, tendo o PCP ficado apenas com a presidencia do SMAS.
Ficamos agora a saber que os lugares de administração das empresas municipais se dividem entre a coligação de Fernando Seara e o PCP. Ou seja: em Sintra continua tudo na mesma.
9.2.06
8.2.06
#1
[da inconsistencia]
Em clara contradição com o que foi sendo dito durante as últimas semanas, o movimento civico de Manuel Alegre não vai levantar a bandeira da IVG. Ao que parece, esta é uma temática que não é transversal a todo o movimento...
Não sei o que pensarão de facto sobre isto Ana Sara Brito, Inês Pedrosa ou Helena Roseta, principais apoiantes do poeta e destacadas activistas da causa da IVG.
Cá por mim, por mas por mais voltas que dê à cabeça, não consigo encontrar nenhuma temática que possa vir a ser consensual.
[da inconsistencia]
Em clara contradição com o que foi sendo dito durante as últimas semanas, o movimento civico de Manuel Alegre não vai levantar a bandeira da IVG. Ao que parece, esta é uma temática que não é transversal a todo o movimento...
Não sei o que pensarão de facto sobre isto Ana Sara Brito, Inês Pedrosa ou Helena Roseta, principais apoiantes do poeta e destacadas activistas da causa da IVG.
Cá por mim, por mas por mais voltas que dê à cabeça, não consigo encontrar nenhuma temática que possa vir a ser consensual.
1.2.06
#3 [Catalunia llure]
Uma "naçom"
Joaquim Fidalgo
in Público, 1 de Fevereiro de 2006
Vai uma sarrabulhada das antigas aqui ao lado, entre os nossos vizinhos espanhóis, só porque uns quantos deles, os catalães, resolveram proclamar alto e bom som que "a Catalunha é uma nação"! Eles que até têm uma comunidade autónoma, eles que até têm uma língua própria, eles que até têm um governo, uma televisão regional de categoria, uma capital fantástica como Barcelona...
Foi o bom e o bonito quando, por esmagadora maioria de votos no Parlamento autonómico, os deputados catalães decidiram inscrever no seu novo Estatuto que "a Catalunha é uma nação"! O poder socialista em Madrid lá tentou pôr água na fervura e encontrar soluções de compromisso, sem grandes dramas. Mas a oposição conservadora chamou um figo ao novo projecto estatutário e vá de apelar à "nação espanhola" para cerrar fileiras contra os intentos supostamente separatistas da Catalunha. Só que a coisa não se ficou pelos debates políticos: também a tropa acordou nos quartéis e se mostrou disposta a invadir (!) Barcelona para repor a ordem e a unidade nacionais. Um altíssimo responsável militar disse-o sem floreados: a proclamação de que "a Catalunha é uma nação" atenta, em seu douto juízo, contra a Constituição espanhola e, assim, as forças armadas bater-se-ão tanto quanto for necessário para a defender. A sério, com armas e tudo! Aquele célebre tenente golpista Tejero Molina, que há umas décadas puxou de pistola para ameaçar os deputados no interior do Parlamento espanhol, saltou da sua letargia e disse que também alinhava. Mas, como por lá ainda há lei e governo, e como é às instituições democráticas que cabe defender a Constituição, o dito responsável militar foi de imediato confinado a prisão domiciliária e exonerado de funções. Tinha-se esquecido do tempo em que vivemos.
Cá por mim, confesso que fiquei espantado com o sururu levantado por tão banal episódio. Há anos e anos que por cá se grita volta e meia que "o Porto é uma nação" (ou, em rigor, "uma naçom", que também por aqui se fala língua própria!...) e nem por isso caiu, sequer tremeu, Carmo ou Trindade. Mesmo a nossa tropa nunca esboçou um gesto que fosse para calar esse genuíno grito nortenho - o que prova que a normalidade democrática regressou solidamente a quartéis, e já não era sem tempo, como se atesta pelo mau exemplo dos nossos vizinhos (vizinhos e não "hermanos"; quando muito primos afastados, dada alguma história comum, mas que convém não exagerar ou ainda vamos todos na tal jangada de pedra...).
Quero crer que esta razoável tolerância nacional pelo orgulhoso grito nortenho "o Porto é uma naçom" se deve, na verdade, a um tolerante respeito democrático e não a uma qualquer sobranceira desvalorização do mesmo - que ocorreria se ele não fosse levado a sério. Comparado com a Catalunha, o Porto realmente não é "uma naçom" - parece mais uma "nacinha"... Pensando bem, será que Lisboa, quando ouve proclamar que "o Porto é uma naçom", em vez de sentir medo ou ofensa, só esboça um condescendente sorriso?... E, se for, por que será?...
Uma "naçom"
Joaquim Fidalgo
in Público, 1 de Fevereiro de 2006
Vai uma sarrabulhada das antigas aqui ao lado, entre os nossos vizinhos espanhóis, só porque uns quantos deles, os catalães, resolveram proclamar alto e bom som que "a Catalunha é uma nação"! Eles que até têm uma comunidade autónoma, eles que até têm uma língua própria, eles que até têm um governo, uma televisão regional de categoria, uma capital fantástica como Barcelona...
Foi o bom e o bonito quando, por esmagadora maioria de votos no Parlamento autonómico, os deputados catalães decidiram inscrever no seu novo Estatuto que "a Catalunha é uma nação"! O poder socialista em Madrid lá tentou pôr água na fervura e encontrar soluções de compromisso, sem grandes dramas. Mas a oposição conservadora chamou um figo ao novo projecto estatutário e vá de apelar à "nação espanhola" para cerrar fileiras contra os intentos supostamente separatistas da Catalunha. Só que a coisa não se ficou pelos debates políticos: também a tropa acordou nos quartéis e se mostrou disposta a invadir (!) Barcelona para repor a ordem e a unidade nacionais. Um altíssimo responsável militar disse-o sem floreados: a proclamação de que "a Catalunha é uma nação" atenta, em seu douto juízo, contra a Constituição espanhola e, assim, as forças armadas bater-se-ão tanto quanto for necessário para a defender. A sério, com armas e tudo! Aquele célebre tenente golpista Tejero Molina, que há umas décadas puxou de pistola para ameaçar os deputados no interior do Parlamento espanhol, saltou da sua letargia e disse que também alinhava. Mas, como por lá ainda há lei e governo, e como é às instituições democráticas que cabe defender a Constituição, o dito responsável militar foi de imediato confinado a prisão domiciliária e exonerado de funções. Tinha-se esquecido do tempo em que vivemos.
Cá por mim, confesso que fiquei espantado com o sururu levantado por tão banal episódio. Há anos e anos que por cá se grita volta e meia que "o Porto é uma nação" (ou, em rigor, "uma naçom", que também por aqui se fala língua própria!...) e nem por isso caiu, sequer tremeu, Carmo ou Trindade. Mesmo a nossa tropa nunca esboçou um gesto que fosse para calar esse genuíno grito nortenho - o que prova que a normalidade democrática regressou solidamente a quartéis, e já não era sem tempo, como se atesta pelo mau exemplo dos nossos vizinhos (vizinhos e não "hermanos"; quando muito primos afastados, dada alguma história comum, mas que convém não exagerar ou ainda vamos todos na tal jangada de pedra...).
Quero crer que esta razoável tolerância nacional pelo orgulhoso grito nortenho "o Porto é uma naçom" se deve, na verdade, a um tolerante respeito democrático e não a uma qualquer sobranceira desvalorização do mesmo - que ocorreria se ele não fosse levado a sério. Comparado com a Catalunha, o Porto realmente não é "uma naçom" - parece mais uma "nacinha"... Pensando bem, será que Lisboa, quando ouve proclamar que "o Porto é uma naçom", em vez de sentir medo ou ofensa, só esboça um condescendente sorriso?... E, se for, por que será?...
#1 [elementar meu caro Fernandes...]
O arranque das "salas de chuto"
Luís Fernandes, Professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto
in Público, 1 de Fevereiro 2006
A poucas centenas de metros da Spitzsplatz, em Zurique, um espaço de cuidados inovador ensaiava um programa de administração terapêutica de heroína. Isso mesmo, heroína. Estávamos em 1994. Avaliado o impacto deste programa na saúde pública e na criminalidade, a população referendou-o positivamente. E hoje, na conservadora Suíça, temos programas destes em mais de metade dos cantões
No início dos anos 90, a discreta Suíça viria para as primeiras páginas dos jornais por razões bem diferentes das que habitualmente a faziam aparecer na arena internacional: a Spitzsplatz, um espaço verde de Zurique mesmo à saída da estação central da cidade, tornara-se um lugar de concentração de toxicodependentes. As fotos da shooting gallery a céu aberto correram mundo, mostrando a que grau podia chegar a degradação em pleno coração dum dos países mais ricos do planeta. Nada que espantasse muito os portugueses, que por essa altura já iam estando habituados às imagens mediáticas do Casal Ventoso.
Como eram possíveis estes cenários? A causa era a droga, evidentemente. A droga, assim enunciada no singular, entidade dotada dum princípio maléfico que arrastava corpos e espíritos para a voragem da dependência sem tréguas. Solução? Difícil, muito difícil. Desintoxicar, tratar, reinserir, diziam os especialistas. E o trabalho terapêutico lá se ia fazendo. A pedra, como no mito grego, chegada ao cimo da montanha, rolava teimosamente pela encosta abaixo. Havia que subir outra vez, numa ida e vinda incessante entre tratamentos e recaídas. Na Spitzsplatz, no Casal Ventoso, juntavam-se entretanto mais e mais toxicodependentes. E veio então o VIH - agora não podíamos preocupar-nos só com a droga, havia as epidemias, o contágio, o problema da saúde pública.
Por cá, o Casal Ventoso tornava-se um caso nacional. Incapazes de fazer sair as drogas da rua, as autoridades pensaram em arrasar o próprio bairro. Entretanto, a Spitzsplatz começava a esvaziar-se dos seus hóspedes e recuperava o seu destino de parque urbano novamente devolvido à cidade do lazer, deixando de atrair fotos de choque às primeiras páginas. Que acontecera? A poucas centenas de metros da Spitzsplatz, um espaço de cuidados inovador ensaiava um programa de administração terapêutica de heroína. Isso mesmo, heroína. Estávamos em 1994. Avaliado o impacto deste programa na saúde pública e na criminalidade, a população referendou-o positivamente. E hoje, na conservadora Suíça, temos programas destes em mais de metade dos cantões.
Relembramos o caso suíço numa altura em que importantes figuras públicas lançaram o debate sobre as salas de injecção assistida. João Goulão, presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência, pronunciou-se já publicamente, em Novembro e em Janeiro últimos, sobre o assunto, mostrando-se favorável à rápida abertura das primeiras estruturas deste tipo. Jorge Sampaio, que desde o início do seu mandato revelou uma particular sensibilidade ao problema das drogas, referiu-se em Dezembro a esta questão, invocando as experiências-piloto em vários países europeus e salientando que o debate deve estar sempre presente e que os governos devem discutir essa situação. O que são "salas de chuto"? E o que significa o facto de figuras com altas responsabilidades na nossa vida colectiva as trazerem para o centro do discurso?
As salas de consumo assistido não são simples estruturas para efectuar consumos em condições higiénicas, resguardando os utilizadores da rua e a rua dos utilizadores. A presença do consumidor problemático neste local é também a oportunidade para realizar acções que dividiremos em: educativas (aquisição e reforço de hábitos saudáveis a nível físico, psicológico e social; educação para a cidadania); encaminhamento para os recursos sócio-sanitários e/ou clínicos já existentes; escuta activa (facilitar um espaço de descarga emocional); enfermagem. Todas estas intervenções estão intimamente relacionadas, tendo como eixo central a educação para a saúde.
A instalação de "salas de chuto" não é uma medida aventureira. Corresponde apenas à constatação muito pragmática do falhanço de décadas de políticas criminalizadoras das substâncias psicoactivas. A solução que propunham era afinal parte do problema. Balanço da "guerra às drogas": cada vez mais vítimas e nenhuns vencedores. O proibicionismo seria responsável por uma série de efeitos colaterais: a prática do consumo injectado como modo de rentabilização de um produto excessivamente caro para o utilizador; mercados de rua fixados nas zonas mais fragilizadas das cidades, contribuindo para o agravamento das suas dificuldades estruturais; a ilegalidade dos mercados como favorecedora do envolvimento no negócio de delinquentes de carreira, reforçando assim a sua posição na hierarquia do crime; a condenação do utilizador regular a uma série de juízos negativos e de perseguições que, em muitos casos, terminam em forte estigmatização e no engrossar do contingente de indivíduos em errância e em exclusão social; a associação do financiamento para o consumo ao pequeno delito urbano e do abastecimento ao crime organizado; os problemas causados à gestão do sistema penitenciário pela chegada à prisão de uma grande quantidade de dependentes de drogas duras; a violência policial contra certos grupos marginalizados com o pretexto da repressão ao tráfico... Dito doutro modo, uma parte importante dos riscos e danos que as políticas de saúde baseadas na redução de riscos procuram minorar são decorrentes, não da natureza química das drogas, não da natureza psicológica dos seus utilizadores - mas do próprio modelo proibicionista.
As salas de injecção assistida devem ser entendidas como uma das respostas num vasto conjunto de políticas de saúde que se dirigem à minimização de danos em populações de consumidores problemáticos duramente atingidas pela longa trajectória de consumos e de insucessos nas tentativas de paragem e ditas, frequentemente, em "exclusão social". A partir do final dos anos 80 são dados passos importantes principalmente em Inglaterra, na Holanda, na Suíça e em Espanha: programas de substituição opiácea com metadona, troca de seringas em meio livre e em meio prisional, salas de injecção assistida, programas de administração terapêutica de heroína. O locus e os intérpretes destas medidas também se modificam: trabalho de proximidade através de equipas de rua, grupos de auto-ajuda promovidos por associações de utilizadores de drogas, envolvimento destes na intervenção.
A experiência de instalação de salas de consumo de menor risco em vários países demonstra que, de início, é sempre uma iniciativa impopular, incompreendida e duramente criticada. Por sua vez, os profissionais de redução de riscos tendem a pensar que este tipo de intervenções se justificam de forma auto-evidente. Estamos perante duas posições de extremo que só o debate pode aproximar. O Dec.-Lei 183 de 2001 consagra já as políticas de redução de riscos em Portugal, incluindo este tipo de salas. O tiro de partida para uma discussão séria foi lançado por vozes autorizadas. Resta, agora, passar à acção, ultrapassando o tique nacional de termos leis muito avançadas, mentes muito esclarecidas e uma passividade que nos tem custado um dos últimos lugares no ranking da União Europeia.
O arranque das "salas de chuto"
Luís Fernandes, Professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto
in Público, 1 de Fevereiro 2006
A poucas centenas de metros da Spitzsplatz, em Zurique, um espaço de cuidados inovador ensaiava um programa de administração terapêutica de heroína. Isso mesmo, heroína. Estávamos em 1994. Avaliado o impacto deste programa na saúde pública e na criminalidade, a população referendou-o positivamente. E hoje, na conservadora Suíça, temos programas destes em mais de metade dos cantões
No início dos anos 90, a discreta Suíça viria para as primeiras páginas dos jornais por razões bem diferentes das que habitualmente a faziam aparecer na arena internacional: a Spitzsplatz, um espaço verde de Zurique mesmo à saída da estação central da cidade, tornara-se um lugar de concentração de toxicodependentes. As fotos da shooting gallery a céu aberto correram mundo, mostrando a que grau podia chegar a degradação em pleno coração dum dos países mais ricos do planeta. Nada que espantasse muito os portugueses, que por essa altura já iam estando habituados às imagens mediáticas do Casal Ventoso.
Como eram possíveis estes cenários? A causa era a droga, evidentemente. A droga, assim enunciada no singular, entidade dotada dum princípio maléfico que arrastava corpos e espíritos para a voragem da dependência sem tréguas. Solução? Difícil, muito difícil. Desintoxicar, tratar, reinserir, diziam os especialistas. E o trabalho terapêutico lá se ia fazendo. A pedra, como no mito grego, chegada ao cimo da montanha, rolava teimosamente pela encosta abaixo. Havia que subir outra vez, numa ida e vinda incessante entre tratamentos e recaídas. Na Spitzsplatz, no Casal Ventoso, juntavam-se entretanto mais e mais toxicodependentes. E veio então o VIH - agora não podíamos preocupar-nos só com a droga, havia as epidemias, o contágio, o problema da saúde pública.
Por cá, o Casal Ventoso tornava-se um caso nacional. Incapazes de fazer sair as drogas da rua, as autoridades pensaram em arrasar o próprio bairro. Entretanto, a Spitzsplatz começava a esvaziar-se dos seus hóspedes e recuperava o seu destino de parque urbano novamente devolvido à cidade do lazer, deixando de atrair fotos de choque às primeiras páginas. Que acontecera? A poucas centenas de metros da Spitzsplatz, um espaço de cuidados inovador ensaiava um programa de administração terapêutica de heroína. Isso mesmo, heroína. Estávamos em 1994. Avaliado o impacto deste programa na saúde pública e na criminalidade, a população referendou-o positivamente. E hoje, na conservadora Suíça, temos programas destes em mais de metade dos cantões.
Relembramos o caso suíço numa altura em que importantes figuras públicas lançaram o debate sobre as salas de injecção assistida. João Goulão, presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência, pronunciou-se já publicamente, em Novembro e em Janeiro últimos, sobre o assunto, mostrando-se favorável à rápida abertura das primeiras estruturas deste tipo. Jorge Sampaio, que desde o início do seu mandato revelou uma particular sensibilidade ao problema das drogas, referiu-se em Dezembro a esta questão, invocando as experiências-piloto em vários países europeus e salientando que o debate deve estar sempre presente e que os governos devem discutir essa situação. O que são "salas de chuto"? E o que significa o facto de figuras com altas responsabilidades na nossa vida colectiva as trazerem para o centro do discurso?
As salas de consumo assistido não são simples estruturas para efectuar consumos em condições higiénicas, resguardando os utilizadores da rua e a rua dos utilizadores. A presença do consumidor problemático neste local é também a oportunidade para realizar acções que dividiremos em: educativas (aquisição e reforço de hábitos saudáveis a nível físico, psicológico e social; educação para a cidadania); encaminhamento para os recursos sócio-sanitários e/ou clínicos já existentes; escuta activa (facilitar um espaço de descarga emocional); enfermagem. Todas estas intervenções estão intimamente relacionadas, tendo como eixo central a educação para a saúde.
A instalação de "salas de chuto" não é uma medida aventureira. Corresponde apenas à constatação muito pragmática do falhanço de décadas de políticas criminalizadoras das substâncias psicoactivas. A solução que propunham era afinal parte do problema. Balanço da "guerra às drogas": cada vez mais vítimas e nenhuns vencedores. O proibicionismo seria responsável por uma série de efeitos colaterais: a prática do consumo injectado como modo de rentabilização de um produto excessivamente caro para o utilizador; mercados de rua fixados nas zonas mais fragilizadas das cidades, contribuindo para o agravamento das suas dificuldades estruturais; a ilegalidade dos mercados como favorecedora do envolvimento no negócio de delinquentes de carreira, reforçando assim a sua posição na hierarquia do crime; a condenação do utilizador regular a uma série de juízos negativos e de perseguições que, em muitos casos, terminam em forte estigmatização e no engrossar do contingente de indivíduos em errância e em exclusão social; a associação do financiamento para o consumo ao pequeno delito urbano e do abastecimento ao crime organizado; os problemas causados à gestão do sistema penitenciário pela chegada à prisão de uma grande quantidade de dependentes de drogas duras; a violência policial contra certos grupos marginalizados com o pretexto da repressão ao tráfico... Dito doutro modo, uma parte importante dos riscos e danos que as políticas de saúde baseadas na redução de riscos procuram minorar são decorrentes, não da natureza química das drogas, não da natureza psicológica dos seus utilizadores - mas do próprio modelo proibicionista.
As salas de injecção assistida devem ser entendidas como uma das respostas num vasto conjunto de políticas de saúde que se dirigem à minimização de danos em populações de consumidores problemáticos duramente atingidas pela longa trajectória de consumos e de insucessos nas tentativas de paragem e ditas, frequentemente, em "exclusão social". A partir do final dos anos 80 são dados passos importantes principalmente em Inglaterra, na Holanda, na Suíça e em Espanha: programas de substituição opiácea com metadona, troca de seringas em meio livre e em meio prisional, salas de injecção assistida, programas de administração terapêutica de heroína. O locus e os intérpretes destas medidas também se modificam: trabalho de proximidade através de equipas de rua, grupos de auto-ajuda promovidos por associações de utilizadores de drogas, envolvimento destes na intervenção.
A experiência de instalação de salas de consumo de menor risco em vários países demonstra que, de início, é sempre uma iniciativa impopular, incompreendida e duramente criticada. Por sua vez, os profissionais de redução de riscos tendem a pensar que este tipo de intervenções se justificam de forma auto-evidente. Estamos perante duas posições de extremo que só o debate pode aproximar. O Dec.-Lei 183 de 2001 consagra já as políticas de redução de riscos em Portugal, incluindo este tipo de salas. O tiro de partida para uma discussão séria foi lançado por vozes autorizadas. Resta, agora, passar à acção, ultrapassando o tique nacional de termos leis muito avançadas, mentes muito esclarecidas e uma passividade que nos tem custado um dos últimos lugares no ranking da União Europeia.
#1 [directamente da idade média para o séc XXI]
isto até teria piada...não fosse dar-se o caso de ela acreditar mesmo no que está a escrever.
Heterossexualidade e casamento
Alexandra Teté, Associação Mulheres em Acção
in Público, 1 de Fevereiro 2006
1.Assistimos presentemente a uma campanha agressiva por parte do lobby gay, com a cumplicidade superficial e sentimental dos meios de comunicação social: primeiro, a indiscreta operação de marketing para promoção da love story entre os dois cowboys de Brokeback Mountain; depois a insensata e absurda resolução do Parlamento Europeu contra a homofobia, para converter em delito qualquer crítica relativa à homossexualidade. Agora, o caso de "Teresa e Lena", reportado exuberantemente nas páginas do PÚBLICO, destinado a "forçar os políticos a autorizarem o [seu] casamento".
As pessoas de orientação homossexual merecem o respeito que é devido a quaisquer outras. Têm igual dignidade e os mesmos deveres e direitos. Para mais, trata-se frequentemente de pessoas que sofrem, com a dilaceração e ansiedade de uma sexualidade problemática, e por isso credoras de maior compreensão e afecto. Por outro lado, ninguém proíbe uniões voluntárias entre adultos responsáveis (com os direitos económicos e protecção social que forem convenientes). Coisa muito diferente, porém, é violentar e desfigurar o estatuto legal do casamento para que abranja uniões entre pessoas do mesmo sexo.
2. A heterossexualidade é uma nota essencial do casamento, que se funda na conjugabilidade homem-mulher e na fecundidade potencial dessa união. O casamento é uma instituição reconhecida pela sociedade como fundamental por ser o lugar natural da geração, formação da personalidade e educação das crianças. É a fonte primária do capital social. É por serem socialmente valiosos que o Estado regula e protege o casamento e a família (heterossexual monogâmica): a função do direito não é dar cobertura jurídica a todas as relações afectivas (sexuadas ou não) que possam dar-se, mas só àquelas que são socialmente relevantes. E só a relação homem-mulher está nos alicerces da sociedade. "Eu amo quem quiser!", dizem. É verdade. Mas o Estado não tem nada a ver com isso.
De resto, qualquer pessoa pode casar, independentemente da sua orientação sexual. O Código Civil não proíbe o casamento dos homossexuais, mas sim o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como disse Jospin, a este propósito, "a humanidade não se divide entre homossexuais e heterossexuais, mas entre homens e mulheres". Aliás, a lei estabelece outras restrições: exclui o casamento poligâmico, exige uma determinada idade, proíbe o casamento entre pessoas com laços de consanguinidade de certo grau, etc. Serão também discriminações inconstitucionais, uma vez que contrariam algumas orientações sexuais?
3. Tenho que confessar que considero a heterossexualidade algo maravilhoso: a polaridade masculino-feminina, a complementaridade psíquica e biológica na comunidade de vida, a criatividade interpessoal e a abertura à vida, que foram cantadas em todas as civilizações e registos, desde o Génesis à Arte de Amar. Pelo contrário, a homossexualidade parece-me (e estou bem acompanhada) uma contradição antropológica, moral e psicologicamente destrutiva. Mas respeito as opiniões opostas e não pretendo impor a ninguém as minhas convicções.
Contudo, não devemos estar dispostos a aceitar que uma minoria de representatividade duvidosa (embora poderosa) - através da sua estratégia de vigilância, denúncia, censura, pressão e agora ameaça penal - imponha a toda sociedade as suas convicções, forçando uma concepção degradada de casamento que subverte o sentido dessa instituição.
isto até teria piada...não fosse dar-se o caso de ela acreditar mesmo no que está a escrever.
Heterossexualidade e casamento
Alexandra Teté, Associação Mulheres em Acção
in Público, 1 de Fevereiro 2006
1.Assistimos presentemente a uma campanha agressiva por parte do lobby gay, com a cumplicidade superficial e sentimental dos meios de comunicação social: primeiro, a indiscreta operação de marketing para promoção da love story entre os dois cowboys de Brokeback Mountain; depois a insensata e absurda resolução do Parlamento Europeu contra a homofobia, para converter em delito qualquer crítica relativa à homossexualidade. Agora, o caso de "Teresa e Lena", reportado exuberantemente nas páginas do PÚBLICO, destinado a "forçar os políticos a autorizarem o [seu] casamento".
As pessoas de orientação homossexual merecem o respeito que é devido a quaisquer outras. Têm igual dignidade e os mesmos deveres e direitos. Para mais, trata-se frequentemente de pessoas que sofrem, com a dilaceração e ansiedade de uma sexualidade problemática, e por isso credoras de maior compreensão e afecto. Por outro lado, ninguém proíbe uniões voluntárias entre adultos responsáveis (com os direitos económicos e protecção social que forem convenientes). Coisa muito diferente, porém, é violentar e desfigurar o estatuto legal do casamento para que abranja uniões entre pessoas do mesmo sexo.
2. A heterossexualidade é uma nota essencial do casamento, que se funda na conjugabilidade homem-mulher e na fecundidade potencial dessa união. O casamento é uma instituição reconhecida pela sociedade como fundamental por ser o lugar natural da geração, formação da personalidade e educação das crianças. É a fonte primária do capital social. É por serem socialmente valiosos que o Estado regula e protege o casamento e a família (heterossexual monogâmica): a função do direito não é dar cobertura jurídica a todas as relações afectivas (sexuadas ou não) que possam dar-se, mas só àquelas que são socialmente relevantes. E só a relação homem-mulher está nos alicerces da sociedade. "Eu amo quem quiser!", dizem. É verdade. Mas o Estado não tem nada a ver com isso.
De resto, qualquer pessoa pode casar, independentemente da sua orientação sexual. O Código Civil não proíbe o casamento dos homossexuais, mas sim o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como disse Jospin, a este propósito, "a humanidade não se divide entre homossexuais e heterossexuais, mas entre homens e mulheres". Aliás, a lei estabelece outras restrições: exclui o casamento poligâmico, exige uma determinada idade, proíbe o casamento entre pessoas com laços de consanguinidade de certo grau, etc. Serão também discriminações inconstitucionais, uma vez que contrariam algumas orientações sexuais?
3. Tenho que confessar que considero a heterossexualidade algo maravilhoso: a polaridade masculino-feminina, a complementaridade psíquica e biológica na comunidade de vida, a criatividade interpessoal e a abertura à vida, que foram cantadas em todas as civilizações e registos, desde o Génesis à Arte de Amar. Pelo contrário, a homossexualidade parece-me (e estou bem acompanhada) uma contradição antropológica, moral e psicologicamente destrutiva. Mas respeito as opiniões opostas e não pretendo impor a ninguém as minhas convicções.
Contudo, não devemos estar dispostos a aceitar que uma minoria de representatividade duvidosa (embora poderosa) - através da sua estratégia de vigilância, denúncia, censura, pressão e agora ameaça penal - imponha a toda sociedade as suas convicções, forçando uma concepção degradada de casamento que subverte o sentido dessa instituição.
31.1.06
30.1.06
25.1.06
22.1.06
19.1.06
18.1.06
11.1.06
#1
[nos 58 anos do nascimento de Al Berto]
Há-de flutuar uma cidade
há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
Al Berto
[nos 58 anos do nascimento de Al Berto]
Há-de flutuar uma cidade
há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
Al Berto
3.1.06
#1
[a não perder]
Um texto de Mário Tomé, publicado no ultimo número de A COMUNA, ideal para avivar a memória dos distraidos ou para abrir os olhos a quem não percebe muito bem o que foram os dez anos de cavaquismo...
Cavaco,
um homem de fé, um homem de mão
Cavaco Silva despertou para o serviço público quando a AD traçou o seu projecto de regresso a um marcelismo pós-colonial. Tal projecto tinha como alicerces as personalidades de Sá Carneiro e Soares Carneiro um general fascista, admirador confesso de Hitler, responsável pelo Campo de Concentração de S. Nicolau, em Angola .
Em 1980 a AD une todas as camadas sociais e forças políticas, à excepção do PS, que se haviam conjurado para liquidar o movimento popular e, após o 25 de Novembro, acabar com a Constituição aprovada por todos os partidos políticos com assento parlamentar exceptuando o CDS.
A base social da AD queria impor ordem no arraial, a rápida recuperação do poder económico perdido, a reconquista de todos os privilégios postos em causa pelo 25 de Abril.
Para isso já não bastava um militar como Eanes ainda que de óculos escuros. Era preciso um militar “nato” fascista, que isso em militar disfarça melhor que em civil.
Esta rememoração é importante para ver com quem lidamos. O projecto de Sá Carneiro passava pela marginalização da Assembleia da República, apesar de nela dispor de maioria, para não ter que responder formalmente perante a oposição. Sá Carneiro recusou apresentar programa de governo depois das eleições de Outubro de 1980 e, em vez disso, apresentou uma moção de confiança sem qualquer sustentação. Tratava-se de um projecto golpista a contar com a eleição de Soares Carneiro para Presidente da República que imporia, então, como constava do seu programa, o referendo contra a Constituição.
Cavaco era o ministro das finanças desta espécie de comissão eleitoral cuja actividade se destinava à propaganda do já dado como vitorioso general de S. Nicolau
de delfim de Sá Carneiro...
Todavia a AD não descuidava a acção no terreno e cedo se distinguiu pelo ataque àquilo que classificava como excesso de keynesianismo vindo da governação anterior.
Cavaco Silva avançou então com a desregulação administrativa da economia, o ataque ao sector público, à reforma agrária, redução da inflação através da contracção do poder de compra, perspectivar o desemprego como um fenómeno de curto prazo, apostando no investimento privado estimulado pelos baixos salários e pelo controlo da inflação. Para isso os trabalhadores “têm de colaborar”, baixando as suas reivindicações. Enfim, imposição do pacto social, ou nacional ou patriótico, a bem ou a mal. Cavaco no seu melhor então como em 1985/91 ou em 2006 se lhe dessem rédea.
O projecto de Soares Carneiro era apresentado como “Reencontro histórico com Portugal para repensar o seu futuro”. E esse reencontro histórico passava pela tentativa de revogar, por referendo, o texto fundamental do 25 de Abril, a Constituição. Um plebiscito contra a Constituição..
Na altura, em Outubro de 1980, o deputado da ASDI Jorge Miranda dizia, a propósito da questão: “ A democracia constrói-se através da democracia. A democracia é acima de tudo uma atitude moral”.
Cavaco achava, já nesse tempo, que não. Achava, como hoje, que a democracia se constrói na libertinagem do mercado que a Constituição entravava..
Preparando o golpe, a AD lançou um forte ataque à liberdade de informação, impedindo os Conselhos de Redacção de funcionar, chegando-se ao ponto de os testas de ferro na RDP chamarem a polícia para impedir o Conselho de Redacção de reunir.
Grande parte dos melhores jornalistas da RDP e da RTP foram irradiados ou colocados na prateleira sendo substituídos por comissariozinhos políticos e analfabetos
O próprio Marcelo Rebelo de Sousa dizia no Expresso em Outubro de 1980: “temos, deste modo, à frente da gestão das instituições informativas controladas pelo Estado pessoas escolhidas de acordo com um critério político e que obviamente actuarão de acordo com esse critério”
A RTP e a RDP, ao serviço da eleição de Soares Carneiro, chamavam ao campo de concentração de S. Nicolau, de que aquele fora responsável, “granja de recupração de indígenas”.
Sá Carneiro dizia na RTP que, se o seu candidato perdesse, as “grandes batalhas políticas se travariam no Parlamento”. Portanto, ganhando Soares Carneiro, as grandes batalhas políticas deixavam de se fazer no Parlamento. Sá Carneiro já morreu e Soares Carneiro já não vai a jogo . Cavaco, então membro do Governo, saberá onde iriam travar-se as grandes batalhas políticas se o seu candidato presidencial ganhasse!
Assim nasceu, pois, a vocação política e democrática de Cavaco Silva que o iria levar à Figueira da Foz em 1985 para repor o projecto inicial da AD, o repescado projecto ideológico que ainda hoje conduz, como um bolsar incontinente, os impulsos estratégicos do PSD – uma maioria, um governo, um presidente... e tudo será nosso.
... a paladino do neoliberalismo
O eleito da Figueira iria acabar com o Bloco Central enquanto aliança governativa. E a sua vitória nas legislativas de 1985 de novo esperava pela eleição de um presidente que desse corpo ao desígnio carneirista. Porém a derrota de Freitas do Amaral deixou Cavaco sem presidente mas com com apoio oportuno do PRD .
Diga-se, em abono da verdade, que o anterior governo do Bloco Central dirigido por Mário Soares lhe abrira um largo e bem asfaltado caminho. Assim, a Cavaco bastou-lhe ressuscitar a proposta de lei dos depedimentos do Bloco Central em que tudo passou a ser motivo de despedimento com justa causa: inadequação à evolução tecnológica, necessidade de extinção do posto de trabalho, pois claro, e motivos económicos, tecnológicos e estruturais de mercado. Ou seja, quando o patrão quiser.
A reprivatização, ainda ao arrepio da Constituição, do sector nacionalizado, nomeadamente os sectores básicos da economia, foi também inspirada numa proposta governamental do Bloco Central que argumentava, nomeadamente, ser “um contrasenso a absolutização da irreversibilidade das nacionalizações” pois não permitiria a introdução de novas tecnologias ou a alienação de alguns equipamentos!...
Ninguém como Cavaco Silva foi tão activo ao serviço dos velhos interesses monopolistas. Ele foi, dentro da inspiração neoliberal, o seu homem de mão mais eficaz.
A reestruturação dos impérios financeiros, numa primeira fase mascarados de industriais, veio articulada com o ataque à indústria pesada metalomecânica.
A grande crise do distrito de Setúbal resultante do ataque concertado à produção da Lisnave, Setenave, Quimigal, Siderurgia, teve origem na política já traçada desde o início dos anos oitenta, mas Cavaco Silva deu-lhe o impulso decisivo. Nos finais de 1994 todo o processo de liquidção da Lisnave – o mais emblemático - com o despedimento final de mais 4 mil trabalhadores chegava ao fim, abrindo espaço à especulação imobiliária e conduzindo à morte da indústria de construção naval em larga escala.
A Siderurgia Nacional foi divida em três partes e vendida ao desbarato A SN/Empresa de Serviços ficou nas mãos do então IPE,hoje Parapública, para resolver o problema do despedimento de centenas de trabalhadores.
O ataque à Sorefame, como todos os ataques cavaquistas em forma, começa com grandes investimentos sem sentido e sem consequência na produção de material necessário aos caminhos de ferro, passando-se a alugar material de circulação a Espanha! O objectivo, nunca confessado mas alcançado, era o de dar liberdade de acção, sem concorrência, ao negócio das rodoviárias privadas, através do fecho de estações e apeadeiros e mesmo de linhas dos Caminhos de Ferro.
Já em 1986 D. Manuel Martins, bispo de Setúbal , alertava para o facto de nos três últimos anos terem fechado mais de setenta empresas no distrito aumentando o desemprego, a precariedade e os salários em atraso.
Tratou-se de processos cheios de fintas, cambalachos, torcidelas e violaçõs da lei e da Constituição, numa cumplicidade pornográfica entre o grande capital e Cavaco, que lenta mas dolorosamente iam acabando com o emprego e com o tecido industrial, lançando a praga do trabalho precário a seguir à dos salários em atraso.
Mas para estes tinha Cavaco uma solução: os trabalhadores que rescindissem amigavelmente os contratos teriam direito à indemnização e ainda a seis meses de subsídio de desemprego.
Aliás para Cavaco não havia salários em atraso: o que “há é falências em atraso” (sic).
O primeiro período, em 85, de governação em minoria, foi dos mais frutuosos para a direita e para o capital. Foi aí que Cavaco lançou as bases do que iria ser a sua governação até 1995. Ainda sem maioria absoluta mas contando com um discreto apoio do PRD até 1987.
Por essa altura, Dezembro de 1985, José António Saraiva lia-lhe o destino na palma da mão: “Cavaco não pertence à classe política. Cavaco é um tecnocrata com fé”
A fé de Cavaco era alimentada por uma conjuntura internacional favorável (baixa do dólar, das taxas de juro e dos preços do petróleo) e pelo maná dos fundos comunitários que chegou a ser de um milhão de contos por dia, grosso modo. Traduzia-se no apoio do governo aos capitalistas que lançaram os trabalhadores no desemprego, pagaram salários competitivos (mais baixos que no 3º mundo) que disfarçavam os despedimentos colectivos atirando milhares de trabalhadores para a inactividade dentro das empresas, em processos de chantagem e de uma violência moral inaudita, enfraquecendo energias a fim de impor a rescisão “voluntária”, enquanto eram alugados, à hora, trabalhadores de empreitada sem direitos.
Um homem de fé
Foi tal fé que inspirou a grande ofensiva para privatização dos sectores fundamentais da economia: agricultura, pescas, indústria, transportes.
Os grandes industriais, entretanto, iam preparando a passagem com armas e bagagens para o sector financeiro e imobiliário.
O ataque alastra ao serviço público do Estado: na saúde Leonor Beleza, prepara a lenta mas inexoravel caminhada para a privatização, desinvestindo nos hospitais. Os médicos, Ordem e Sindicatos, protestam que as verbas da saúde não permitem as condições mínimas para o exercício da medicina. Em Portugal gastava-se 15 contos por habitante enquanto na Grécia esse valor era de 36 contos e na RFA 150 contos. Por isso mesmo Leonor Beleza reintroduziu nos hospitais as taxas moderadoras que o governo do Bloco Central (o grande percursor), em Julho de 85, tentara impor mas vira serem consideradas inconstitucionais pelo TC. E para que tudo corresse pelo melhor, Beleza acabou com os gestores eleitos.
O plano de indemnizações pelas nacionalizações foi um autêntico forrobodó com a decuplicação do valor da cotação das empresas na Bolsa. Champallimaud, Mello e Quina, entre outros, felizes, puderam retomar o seu projecto de salvação do país.
O INE dá a garantia que os empresários estão optimistas e também temos a notícia que os salários nos têxteis estão abaixo do Terceiro Mundo, designadamente Coreia, Hong-Kong e Síria.
Cavaco distinguia o sucesso, a competição e a concorrência. Dos fracos não reza a história. É desta fase o lançamento do programa Jovens Empresários de Elevado Potencial, com o estimulante acrónimo JEEP. Eles levaram a coisa a sério e desataram a comprar jeep’s com os dinheiros do Fundo Social Europeu e dos fundos que a PAC destinou para acabar com a maior parte da produção agrícola. Assim, o verdadeiro e único projecto cavaquista para a agricultura foi o financiamento do milionário Thierry Russel que arrecadou milhões de contos a fundo perdido. De “O futuro da agricultura portuguesa”, como foi classificado por Cavaco, restaram centenas de hectares de plástico a apodrecer e a envenenar a terra, na zona de estufas do Brejão, depois de um ano e meio de brilhante investimento. O Russel foi à vida sem dizer água vai, deixando um monte de dívidas aos fornecedores, trabalhadores no desemprego e ao Deus dará “o futuro da agricultura portuguesa” que, entrando “em queda livre desde 1991” fez perder 142,7 milhões de contos em dois anos, ficando atrás de 1986 quanto ao rendimento líquido..
Enquanto privatiza o que pode à espera da grande revisão constitucional de 1989 que há-de revogar a cláusula de salvaguarda dos 51% nas mãos do Estado, Cavaco lança aquela que vai ser a sua marca de água: a política do betão, a contratualização gigantesca e duradoura com os grandes empreiteiros da construção civil (auto-estradas, ponte Vasco da Gama, Expo 98, Centro Cultural de Belém).
Porém Cavaco não se esquece dos pobrezinhos.. Entre 86 e 88 o poder dos salários aumentou 7 a 8% e o investimento aumentou 5%. E o desemprego baixou para 5% graças à precarização acelerada do trabalho.
No orçamento para 1989 atribuiu à educação 310 milhões de contos prevendo, para a modernização do sector educativo nos quatro anos seguintes, 340 milhões de contos. Só que essa verba anunciada para garantir o acesso e modernizar o ensino, tinha outro objectivo: o estrangulamento do ensino público universitário e o financiamento estatal das universidades privadas que devem a Cavaco o ímpeto do seu surgimento. As universidades privadas, desprovidas de base histórico-cultural que as justificasse, apareceram como cogumelos sem a mínima garantia ou exigência de qualidade do ensino. Tratou-se de abrir à gestão pró-lucro o sector mais sensível para o futuro do país. O slogan universal de Sá Carneiro e Cavaco Silva, alargou, assim, o seu âmbito – “ quem quer ensino paga-o”.
O mundo do negócio é, todavia, perverso: o ensino público, com garantia de qualidade, mas muito mais barato, acaba por ficar reservado para os filhos das elites e das classes com poder de compra, pois são essas que asseguram aos rebentos as condições básicas para poderem competir com o numerus clausus.. Os filhos dos menos felizardos, se querem estudar, têm de ir para as privadas onde deixam os olhos da cara e onde tiram cursos a metro.
O reitor da Universidade de Aveiro move um processo contra o Governo por violação da lei da concorrência.
Tudo o que mexe é para abater
Com Cavaco, ao mesmo tempo que íamos ficando sem caça, ficámos também sem pesca e sem indústria conserveira que vai praticamente desaparecer deitando milhares para o desemprego.
num abrir e fechar de olhos. Mais uma vez o impulso já vinha do governo do Bloco Central.
Toda a frota das empresas nacionalizadas, como a CPP, a SNAPA, SNAB e SAAP, de grande capacidade e produtividade na pesca industrial, foi entregue por tuta e meia aos armadores privados, colocando no desemprego centenas de trabalhadores. Tratava-se de entrada na CEE a todo o custo mais que a todo o vapor!
Cavaco Silva geriu, depois, com o maior secretismo um dossier com a Comunidade Europeia, escondendo a total ausência de política para o sector. Daí os grandes recursos financeiros para abater embarcações indiscriminadamente. De uma Tonelagem de Arqueação Bruta (TAB) de 106 mil em 1987, passou-se para 62 mil TAB em 1994. Só nessa altura perderam-se 10% dos postos de trabalho. O efeito comulativo fez com que se entrasse na fase de quebras permanentes nas capturas, numa queda acumulada de 120 mil toneladas. A importação de pescado disparou então e passou-se de 35 milhões de contos para 90 milhões em 1993.
Foi também durante o consulado cavaquista que a indústria mineira sofreu uma ofensiva sem precedentes. A luta dos trabalhadores mineiros foi longa e dura. O governo e o capital mancomunaram-se e, depois de milhões e milhões atribuídos supostamente para sanar os buracos financeiros e arrancar para novos voos, o que foi ficando semeado pelo caminho foi trabalhadores no desemprego e minas fechadas com as galerias abertas. Pejão, Panasqueira, Aljustrel, Borralha, Vale das Gatas, Arcozelo, Montesinho, Urgeiriça, Jales, Nelas são nomes que já preenchem o imaginário popular de homens esgotados pelo trabalho penoso, a silicose como recompensa, atirados para o desemprego, para fora das suas próprias casas a que julgavam ter direito. Porque o mercado mundial não garantia os lucros necessários e o Estado não estava disposto a assegurar a extracção do volfrâmio, do cobre, do urânio, do ouro nem que fosse para salvar a face e o bom nome.
O emprego vai, qualquer dia há-de vir. Diz Cavaco. Passou o tempo do emprego garantido. Flexibilidade – precariedade - é a palavra de ordem.
Com efeito, depois da assinatura em 1992 do novo acordo social entre o Governo e o patronato contra a lei da greve com o apoio da UGT, a precariedade passou a ser a situação normal : contratos a prazo e flexibilidade nos despedimentos.
Empresas emblemáticas do ponto de vista industrial e cultural foram liquidadas sem dó nem piedade. A Fábrica Escola Irmãos Stephan na Marinha Grande foi uma delas. Aliás, a luta dos vidreiros da Marinha Grande ao longo dos anos passou por sequestros, ocupações da estação da CP, arrancamento de 200 metros de linha, cortes de estradas, marchas sobre Lisboa, contando sempre ou quase sempre, com as respectivas cargas policiais que culminaram no Outono quente de 1994 com a invasão da própria CM da Marinha Grande pela polícia em perseguição dos trabalhadores..
Na Marinha Grande contra os vidreiros, na luta dos estudantes frente à Assembleia da República e na revolta da ponte 25 de Abril a polícia cavaquista deu sempre bboa conta do prestígio do patrão.
O Luís Miguel Figueiredo ficou hemiplégico por ter apanhado um tiro da polícia no primeiro dia da luta da ponte. Provou-se que o tiro foi disparado pela polícia...mas como os polícias eram muitos e não se sabe qual foi, a culpa morreu solteira e o Luís Miguel até hoje, passados onze anos, não teve direito a uma indemnização.
O mesmo aconteceu com as viúvas dos mortos no afundamento do Bolama. E com as famílias dos hemofílicos assassinados por sangue contaminado. O caso em que a responsável, a ministra Leonor Beleza, viu o processo prescrever e ainda queria que lhe pedissem desculpa pelo incómodo.
Estramos pois na fase do salve-se quem puder.
Cavaco, através do Ministro Falcão e Cunha, autoisenta o Estado de fiscalização das condições laborais. A Inspecção do Trabalho ficou, portanto, impedida de actuar junta das administrações central, regional e local, onde trabalhavam mais de 500 mil trabalhadores.
Rui Amaral (PSD), que presidiu à Comissão de Transportes do PE considerou que se “confundiu a política de transportes com infraestruturas, não se atribuiu a devida prioridade ao transporte urbano e sub-urbano, área que não é compatível com o livre jogo das regras do mercado, dado as obrigações de serviço público”
Bruxelas acusava o governo de tentar, por motivs eleitorais, que no QCA de 94/99 as ajudas se concentrassem em 95 e 96 e não de forma contínua até 99. Aliás o Director Geral do Desenvolvimento não se ensaiou nada para admitir “uma agenda escondida de fundos”, em que o Governo maquilhou o défice orçamenta l(fugindo às decisões de Edimburgo de Dezembro de 2002) fazendo os projectos deslizar para 2005.
Eis o Professor no seu esplendor, traçando a sua mais conhecida teoria económica e financeira, deixando Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix como razoáveis aprendizes e empenhados discípulos.
O frenesi do saque
Depois da revisão constitucional de 1989 as privatizações passaram a ser o desígnio de salvação nacional. Das privatizações resultou o desmembramento das empresas, a constituição de holdings e cada vez mais dificuldades para as organizações dos trabalhadores, paralelamente a um ataque desenfreado contra os seus direitos. Salve-se quem puder, o emprego seguro é uma reliquia do passado, entrámos na modernidade, diziam os testas de ferro Cadilhe, Catroga, Braga de Macedo e repetiam as vozes do dono espalhadas pela comunicação social.
Tudo isto com selo cavaquista: o da total falta de transparência, do casuísmo e de obediência directa e pessoal aos especuladores e financeiros interessados.
Os cambalachos eram a regra. José Roquete dizia publicamente que se tinha conluiado com José Manuel de Mello, antes de concorrer à compra do Totta & Açores; o Grupo Espírito Santo exigiu publicamente a Tranquilidade e o BESCL, sem outros concorrentes; o Grupo Mello impôs a compra da Sociedade Financeira Portuguesa sem oposição. António Champallimaud apoiou-se num “acordo de cavalheiros” para concorrer sozinho e adquirir, por metade do preço considerado justo internacionalmente, a Mundial Confiança. Ricardo Espírito Santo Silva ao retomar o controlo da Tranquilidade pelo Grupo Espírito Santo reconheceu ter havido subavaliação do património imobiliário.
Convém lembrar que, por vezes, era o próprio grupo interessado que procedia à avaliação, como aconteceu com o grupo que adquiriu o Fonsecas & Burnay. E quando assim não era o Governo de Cavaco, sem justificação conhecida, chegava a fixar os valores base da privatização a níveis inferiores aos propostos pelas empresas avaliadoras, como aconteceu no caso da Tranquilidade e na primeira fase de privatização do BPA.
Mas nesta competição de criatividade no cambalacho Champallimaud levou a palma: contra a opinião da CMVM adquiriu 50% do Totta sem uma OPA geral e com o dinheiro do próprio banco, alegando muito candidamente que se esse dinheiro, afinal, feita a compra, passava a ser seu, não fazia diferença!
No meio disto tudo ninguém se arriscaria a chamar incendiário a António Champalimaud. E de facto não era. No entanto, nos inícios de 94, Cavaco deu ordem aos seus ministros do Planeamento, Agricultura e Ambiente para o deixarem construir um empreendimento turístico na Quinta da Marinha exactamente onde ocorreram os piores incêndios de 1990, estando por isso proibida qualquer construção até ao ano de 2000.
A marca de Cavaco por todo o lado
Mas nem só de medidas de vanguarda na economia vive o país.
Durante a guerra Irão-Iraque um navio português é apresado na Grécia com armas israelitas e portuguesas, da INDEP, a caminho do Irão. Por essa altura a polícia de Cavaco espancava brutalmente os trabalhadores da INDEP e o governo de traficantes suspendia as respectivas organizações representativas.
Sete anos mais tarde o caso do desaparecimento do Bolama veio mostrar como Cavaco Silva foi a uma bruxa russa que afirmava que o navio andava perto de Cabo Verde. Para aí deslocou a marinha os seus meios para depois o navio ter sido encontrado afundado a algumas milhas da costa ao largo do Cabo da Roca, como sempre fora dito pelo Presidente do Sindicato Livre dos Pescadores, Joaquim Piló. Mas entretanto houvera tempo para retirar a carga que motivara saída do navio sem as devidas autorizações e o seu posterior afundamento com trinta pessoas a bordo para sempre desaparecidas . Curiosamente, exactamente por essa altura , desapareceram quantidades substanciais de urânio, facto noticiado largamente. A recusa do Governo de Cavaco Silva em averiguar tudo o que se passou compromete-o.
Na madrugada de 16 de Abril de 1986, 18 aviões F-111 estadounidenses, atravessaram o espaço aéreo português para irem bombardear a Líbia. Cavaco em íntima afinidade com o ataque, manda expulsar vários cidadãos líbios pelo simples facto de o serem.
Dias depois, o Parlamento Europeu condenava violentamente aquele acto de agressão dos Estados Unidos á Líbia.
Em Janeiro de 1995 rebenta o escândalo: as OGMA reparavam helicópteros indonésios, os mesmos que iriam bombardear depois a resistência timorense.
Na cultura e na acção cívica Cavaco e os seus governos também marcaram a agenda: o Subsecretário de Estado Sousa Lara, com o apoio do Secretário de Estado Santana Lopes e o aval circunspecto de Cavaco Silva, proibiram José Saramago de concorrer com o seu romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” a um prémio internacional. Consta que o livro era herético.
Cavaco e a sua equipa recusam, em Janeiro de 95, apoiar as comemorações em memória de Humberto Delgado.
Cavaco marcou a sua época com a nomeação de uma personalidade de primeira água, o Dr. Ladeiro Monteiro, para dirigir o SIS (1986-94) criado pelo Governo do Bloco Central um ano antes. Monteiro ficou célebre pelas escutas ilegais efectuadas durante anos, nomeadamente a dirigentes políticos. A secreta portuguesa no tempo de Cavaco contou ainda com a DINFO, secreta militar, que recrutou agentes para os GAL que em Espanha sequestravam e assassinavam militantes da ETA, patriotas bascos e outros que não eram nem uma coisa nem outra. Em Espanha o ministro e outros altos responsáveis pela guerra suja foram julgados e condenados. Ao contrário do que se passou em Portugal, onde, aliás, os próprios agentes estavam impedidos por Cavaco de depor em Tribunal.
No entanto, impoluto e rigoroso professor viu a sua carreira ferida pela proposta de demissão da Função Pública, avançada pelo Conselho de Reitores em 1985. O motivo foi ter-se ausentado do serviço docente que lhe fora atribuído. Atenuantes, pressurosamente surgidas, impediram que a proposta fosse de expulsão. Afinal, Deus Pinheiro, ministro da Educação do Bloco Central, tinha-lhe concedido licença sem vencimento sem que para isso tivesse qualquer competência. Era matéria do Conselho de Reitores.( Foi assim: Oh João, safa-me lá que tenho de ir à Figueira fazer a rodagem ao carro.)
E, mais tarde, já nos últimos estertores governamentais, quando decide não arriscar a ida às urnas para ser julgado pelos desmandos e pela situação a que conduziu o país, ainda se insurge contra a notícia de uma investigação da PGR a obras em sua casa. Seriam, no caso, obras a mais e IVA a menos, com 348 contos por pagar. Mas aí a culpa terá sido de D. Maria.
Perante a evidência do pagamento ilegal de subsídios à fundação do PSD, Cavaco encontra o argumento de que o IPSD apenas é dirigido por uma pessoa próxima do PSD: Leonor Beleza.
Quem se viu atrapalhado foi Pacheco Pereira que, para tentar esconder a desagregação vertiginosa da maioria cavaquista, teve que impor uma espécie de censura prévia aos jornalistas que trabalhavam no Parlamento, ou seja os corredores para onde davam as portas dos gabinetes do PSD, não podiam ser frequentados pelos jornalistas parlamentares. A bronca foi grande e Pacheco não sendo tão fero quanto o seu vetusto antepassado, não conseguiu impor os seus intentos. Mas certamente que, a partir daí, passou a ser considerado o paradigma do político democrata e paladino da liberdade de imprensa.
Cavaco e os cavaquistas não passam disto. A mediocridade impante e voraz. Quer se encontrem em estado de Tabú – a sua grande criação - quer falem a várias vozes, todos eles e elas evocam o golpista Sá Carneiro e invocam a sua sabedoria para servir a finança. O “Portugal precisa de si” de hoje e o “ Reecontro com a história de Portugal...” de há vinte anos são, afinal, a expressão de uma espécie parasita de velha estirpe que mantém uma considerável fixação e pensa ser, agora, finalmente, que de forma um tanto espúria, vai ter um presidente, um governo e uma maioria.
Belmiro de Azevedo já profetizou: Cavaco e Sócratas, uma só voz
Os portugueses vão mostrar que não estão pelos ajustes.
[a não perder]
Um texto de Mário Tomé, publicado no ultimo número de A COMUNA, ideal para avivar a memória dos distraidos ou para abrir os olhos a quem não percebe muito bem o que foram os dez anos de cavaquismo...
Cavaco,
um homem de fé, um homem de mão
Cavaco Silva despertou para o serviço público quando a AD traçou o seu projecto de regresso a um marcelismo pós-colonial. Tal projecto tinha como alicerces as personalidades de Sá Carneiro e Soares Carneiro um general fascista, admirador confesso de Hitler, responsável pelo Campo de Concentração de S. Nicolau, em Angola .
Em 1980 a AD une todas as camadas sociais e forças políticas, à excepção do PS, que se haviam conjurado para liquidar o movimento popular e, após o 25 de Novembro, acabar com a Constituição aprovada por todos os partidos políticos com assento parlamentar exceptuando o CDS.
A base social da AD queria impor ordem no arraial, a rápida recuperação do poder económico perdido, a reconquista de todos os privilégios postos em causa pelo 25 de Abril.
Para isso já não bastava um militar como Eanes ainda que de óculos escuros. Era preciso um militar “nato” fascista, que isso em militar disfarça melhor que em civil.
Esta rememoração é importante para ver com quem lidamos. O projecto de Sá Carneiro passava pela marginalização da Assembleia da República, apesar de nela dispor de maioria, para não ter que responder formalmente perante a oposição. Sá Carneiro recusou apresentar programa de governo depois das eleições de Outubro de 1980 e, em vez disso, apresentou uma moção de confiança sem qualquer sustentação. Tratava-se de um projecto golpista a contar com a eleição de Soares Carneiro para Presidente da República que imporia, então, como constava do seu programa, o referendo contra a Constituição.
Cavaco era o ministro das finanças desta espécie de comissão eleitoral cuja actividade se destinava à propaganda do já dado como vitorioso general de S. Nicolau
de delfim de Sá Carneiro...
Todavia a AD não descuidava a acção no terreno e cedo se distinguiu pelo ataque àquilo que classificava como excesso de keynesianismo vindo da governação anterior.
Cavaco Silva avançou então com a desregulação administrativa da economia, o ataque ao sector público, à reforma agrária, redução da inflação através da contracção do poder de compra, perspectivar o desemprego como um fenómeno de curto prazo, apostando no investimento privado estimulado pelos baixos salários e pelo controlo da inflação. Para isso os trabalhadores “têm de colaborar”, baixando as suas reivindicações. Enfim, imposição do pacto social, ou nacional ou patriótico, a bem ou a mal. Cavaco no seu melhor então como em 1985/91 ou em 2006 se lhe dessem rédea.
O projecto de Soares Carneiro era apresentado como “Reencontro histórico com Portugal para repensar o seu futuro”. E esse reencontro histórico passava pela tentativa de revogar, por referendo, o texto fundamental do 25 de Abril, a Constituição. Um plebiscito contra a Constituição..
Na altura, em Outubro de 1980, o deputado da ASDI Jorge Miranda dizia, a propósito da questão: “ A democracia constrói-se através da democracia. A democracia é acima de tudo uma atitude moral”.
Cavaco achava, já nesse tempo, que não. Achava, como hoje, que a democracia se constrói na libertinagem do mercado que a Constituição entravava..
Preparando o golpe, a AD lançou um forte ataque à liberdade de informação, impedindo os Conselhos de Redacção de funcionar, chegando-se ao ponto de os testas de ferro na RDP chamarem a polícia para impedir o Conselho de Redacção de reunir.
Grande parte dos melhores jornalistas da RDP e da RTP foram irradiados ou colocados na prateleira sendo substituídos por comissariozinhos políticos e analfabetos
O próprio Marcelo Rebelo de Sousa dizia no Expresso em Outubro de 1980: “temos, deste modo, à frente da gestão das instituições informativas controladas pelo Estado pessoas escolhidas de acordo com um critério político e que obviamente actuarão de acordo com esse critério”
A RTP e a RDP, ao serviço da eleição de Soares Carneiro, chamavam ao campo de concentração de S. Nicolau, de que aquele fora responsável, “granja de recupração de indígenas”.
Sá Carneiro dizia na RTP que, se o seu candidato perdesse, as “grandes batalhas políticas se travariam no Parlamento”. Portanto, ganhando Soares Carneiro, as grandes batalhas políticas deixavam de se fazer no Parlamento. Sá Carneiro já morreu e Soares Carneiro já não vai a jogo . Cavaco, então membro do Governo, saberá onde iriam travar-se as grandes batalhas políticas se o seu candidato presidencial ganhasse!
Assim nasceu, pois, a vocação política e democrática de Cavaco Silva que o iria levar à Figueira da Foz em 1985 para repor o projecto inicial da AD, o repescado projecto ideológico que ainda hoje conduz, como um bolsar incontinente, os impulsos estratégicos do PSD – uma maioria, um governo, um presidente... e tudo será nosso.
... a paladino do neoliberalismo
O eleito da Figueira iria acabar com o Bloco Central enquanto aliança governativa. E a sua vitória nas legislativas de 1985 de novo esperava pela eleição de um presidente que desse corpo ao desígnio carneirista. Porém a derrota de Freitas do Amaral deixou Cavaco sem presidente mas com com apoio oportuno do PRD .
Diga-se, em abono da verdade, que o anterior governo do Bloco Central dirigido por Mário Soares lhe abrira um largo e bem asfaltado caminho. Assim, a Cavaco bastou-lhe ressuscitar a proposta de lei dos depedimentos do Bloco Central em que tudo passou a ser motivo de despedimento com justa causa: inadequação à evolução tecnológica, necessidade de extinção do posto de trabalho, pois claro, e motivos económicos, tecnológicos e estruturais de mercado. Ou seja, quando o patrão quiser.
A reprivatização, ainda ao arrepio da Constituição, do sector nacionalizado, nomeadamente os sectores básicos da economia, foi também inspirada numa proposta governamental do Bloco Central que argumentava, nomeadamente, ser “um contrasenso a absolutização da irreversibilidade das nacionalizações” pois não permitiria a introdução de novas tecnologias ou a alienação de alguns equipamentos!...
Ninguém como Cavaco Silva foi tão activo ao serviço dos velhos interesses monopolistas. Ele foi, dentro da inspiração neoliberal, o seu homem de mão mais eficaz.
A reestruturação dos impérios financeiros, numa primeira fase mascarados de industriais, veio articulada com o ataque à indústria pesada metalomecânica.
A grande crise do distrito de Setúbal resultante do ataque concertado à produção da Lisnave, Setenave, Quimigal, Siderurgia, teve origem na política já traçada desde o início dos anos oitenta, mas Cavaco Silva deu-lhe o impulso decisivo. Nos finais de 1994 todo o processo de liquidção da Lisnave – o mais emblemático - com o despedimento final de mais 4 mil trabalhadores chegava ao fim, abrindo espaço à especulação imobiliária e conduzindo à morte da indústria de construção naval em larga escala.
A Siderurgia Nacional foi divida em três partes e vendida ao desbarato A SN/Empresa de Serviços ficou nas mãos do então IPE,hoje Parapública, para resolver o problema do despedimento de centenas de trabalhadores.
O ataque à Sorefame, como todos os ataques cavaquistas em forma, começa com grandes investimentos sem sentido e sem consequência na produção de material necessário aos caminhos de ferro, passando-se a alugar material de circulação a Espanha! O objectivo, nunca confessado mas alcançado, era o de dar liberdade de acção, sem concorrência, ao negócio das rodoviárias privadas, através do fecho de estações e apeadeiros e mesmo de linhas dos Caminhos de Ferro.
Já em 1986 D. Manuel Martins, bispo de Setúbal , alertava para o facto de nos três últimos anos terem fechado mais de setenta empresas no distrito aumentando o desemprego, a precariedade e os salários em atraso.
Tratou-se de processos cheios de fintas, cambalachos, torcidelas e violaçõs da lei e da Constituição, numa cumplicidade pornográfica entre o grande capital e Cavaco, que lenta mas dolorosamente iam acabando com o emprego e com o tecido industrial, lançando a praga do trabalho precário a seguir à dos salários em atraso.
Mas para estes tinha Cavaco uma solução: os trabalhadores que rescindissem amigavelmente os contratos teriam direito à indemnização e ainda a seis meses de subsídio de desemprego.
Aliás para Cavaco não havia salários em atraso: o que “há é falências em atraso” (sic).
O primeiro período, em 85, de governação em minoria, foi dos mais frutuosos para a direita e para o capital. Foi aí que Cavaco lançou as bases do que iria ser a sua governação até 1995. Ainda sem maioria absoluta mas contando com um discreto apoio do PRD até 1987.
Por essa altura, Dezembro de 1985, José António Saraiva lia-lhe o destino na palma da mão: “Cavaco não pertence à classe política. Cavaco é um tecnocrata com fé”
A fé de Cavaco era alimentada por uma conjuntura internacional favorável (baixa do dólar, das taxas de juro e dos preços do petróleo) e pelo maná dos fundos comunitários que chegou a ser de um milhão de contos por dia, grosso modo. Traduzia-se no apoio do governo aos capitalistas que lançaram os trabalhadores no desemprego, pagaram salários competitivos (mais baixos que no 3º mundo) que disfarçavam os despedimentos colectivos atirando milhares de trabalhadores para a inactividade dentro das empresas, em processos de chantagem e de uma violência moral inaudita, enfraquecendo energias a fim de impor a rescisão “voluntária”, enquanto eram alugados, à hora, trabalhadores de empreitada sem direitos.
Um homem de fé
Foi tal fé que inspirou a grande ofensiva para privatização dos sectores fundamentais da economia: agricultura, pescas, indústria, transportes.
Os grandes industriais, entretanto, iam preparando a passagem com armas e bagagens para o sector financeiro e imobiliário.
O ataque alastra ao serviço público do Estado: na saúde Leonor Beleza, prepara a lenta mas inexoravel caminhada para a privatização, desinvestindo nos hospitais. Os médicos, Ordem e Sindicatos, protestam que as verbas da saúde não permitem as condições mínimas para o exercício da medicina. Em Portugal gastava-se 15 contos por habitante enquanto na Grécia esse valor era de 36 contos e na RFA 150 contos. Por isso mesmo Leonor Beleza reintroduziu nos hospitais as taxas moderadoras que o governo do Bloco Central (o grande percursor), em Julho de 85, tentara impor mas vira serem consideradas inconstitucionais pelo TC. E para que tudo corresse pelo melhor, Beleza acabou com os gestores eleitos.
O plano de indemnizações pelas nacionalizações foi um autêntico forrobodó com a decuplicação do valor da cotação das empresas na Bolsa. Champallimaud, Mello e Quina, entre outros, felizes, puderam retomar o seu projecto de salvação do país.
O INE dá a garantia que os empresários estão optimistas e também temos a notícia que os salários nos têxteis estão abaixo do Terceiro Mundo, designadamente Coreia, Hong-Kong e Síria.
Cavaco distinguia o sucesso, a competição e a concorrência. Dos fracos não reza a história. É desta fase o lançamento do programa Jovens Empresários de Elevado Potencial, com o estimulante acrónimo JEEP. Eles levaram a coisa a sério e desataram a comprar jeep’s com os dinheiros do Fundo Social Europeu e dos fundos que a PAC destinou para acabar com a maior parte da produção agrícola. Assim, o verdadeiro e único projecto cavaquista para a agricultura foi o financiamento do milionário Thierry Russel que arrecadou milhões de contos a fundo perdido. De “O futuro da agricultura portuguesa”, como foi classificado por Cavaco, restaram centenas de hectares de plástico a apodrecer e a envenenar a terra, na zona de estufas do Brejão, depois de um ano e meio de brilhante investimento. O Russel foi à vida sem dizer água vai, deixando um monte de dívidas aos fornecedores, trabalhadores no desemprego e ao Deus dará “o futuro da agricultura portuguesa” que, entrando “em queda livre desde 1991” fez perder 142,7 milhões de contos em dois anos, ficando atrás de 1986 quanto ao rendimento líquido..
Enquanto privatiza o que pode à espera da grande revisão constitucional de 1989 que há-de revogar a cláusula de salvaguarda dos 51% nas mãos do Estado, Cavaco lança aquela que vai ser a sua marca de água: a política do betão, a contratualização gigantesca e duradoura com os grandes empreiteiros da construção civil (auto-estradas, ponte Vasco da Gama, Expo 98, Centro Cultural de Belém).
Porém Cavaco não se esquece dos pobrezinhos.. Entre 86 e 88 o poder dos salários aumentou 7 a 8% e o investimento aumentou 5%. E o desemprego baixou para 5% graças à precarização acelerada do trabalho.
No orçamento para 1989 atribuiu à educação 310 milhões de contos prevendo, para a modernização do sector educativo nos quatro anos seguintes, 340 milhões de contos. Só que essa verba anunciada para garantir o acesso e modernizar o ensino, tinha outro objectivo: o estrangulamento do ensino público universitário e o financiamento estatal das universidades privadas que devem a Cavaco o ímpeto do seu surgimento. As universidades privadas, desprovidas de base histórico-cultural que as justificasse, apareceram como cogumelos sem a mínima garantia ou exigência de qualidade do ensino. Tratou-se de abrir à gestão pró-lucro o sector mais sensível para o futuro do país. O slogan universal de Sá Carneiro e Cavaco Silva, alargou, assim, o seu âmbito – “ quem quer ensino paga-o”.
O mundo do negócio é, todavia, perverso: o ensino público, com garantia de qualidade, mas muito mais barato, acaba por ficar reservado para os filhos das elites e das classes com poder de compra, pois são essas que asseguram aos rebentos as condições básicas para poderem competir com o numerus clausus.. Os filhos dos menos felizardos, se querem estudar, têm de ir para as privadas onde deixam os olhos da cara e onde tiram cursos a metro.
O reitor da Universidade de Aveiro move um processo contra o Governo por violação da lei da concorrência.
Tudo o que mexe é para abater
Com Cavaco, ao mesmo tempo que íamos ficando sem caça, ficámos também sem pesca e sem indústria conserveira que vai praticamente desaparecer deitando milhares para o desemprego.
num abrir e fechar de olhos. Mais uma vez o impulso já vinha do governo do Bloco Central.
Toda a frota das empresas nacionalizadas, como a CPP, a SNAPA, SNAB e SAAP, de grande capacidade e produtividade na pesca industrial, foi entregue por tuta e meia aos armadores privados, colocando no desemprego centenas de trabalhadores. Tratava-se de entrada na CEE a todo o custo mais que a todo o vapor!
Cavaco Silva geriu, depois, com o maior secretismo um dossier com a Comunidade Europeia, escondendo a total ausência de política para o sector. Daí os grandes recursos financeiros para abater embarcações indiscriminadamente. De uma Tonelagem de Arqueação Bruta (TAB) de 106 mil em 1987, passou-se para 62 mil TAB em 1994. Só nessa altura perderam-se 10% dos postos de trabalho. O efeito comulativo fez com que se entrasse na fase de quebras permanentes nas capturas, numa queda acumulada de 120 mil toneladas. A importação de pescado disparou então e passou-se de 35 milhões de contos para 90 milhões em 1993.
Foi também durante o consulado cavaquista que a indústria mineira sofreu uma ofensiva sem precedentes. A luta dos trabalhadores mineiros foi longa e dura. O governo e o capital mancomunaram-se e, depois de milhões e milhões atribuídos supostamente para sanar os buracos financeiros e arrancar para novos voos, o que foi ficando semeado pelo caminho foi trabalhadores no desemprego e minas fechadas com as galerias abertas. Pejão, Panasqueira, Aljustrel, Borralha, Vale das Gatas, Arcozelo, Montesinho, Urgeiriça, Jales, Nelas são nomes que já preenchem o imaginário popular de homens esgotados pelo trabalho penoso, a silicose como recompensa, atirados para o desemprego, para fora das suas próprias casas a que julgavam ter direito. Porque o mercado mundial não garantia os lucros necessários e o Estado não estava disposto a assegurar a extracção do volfrâmio, do cobre, do urânio, do ouro nem que fosse para salvar a face e o bom nome.
O emprego vai, qualquer dia há-de vir. Diz Cavaco. Passou o tempo do emprego garantido. Flexibilidade – precariedade - é a palavra de ordem.
Com efeito, depois da assinatura em 1992 do novo acordo social entre o Governo e o patronato contra a lei da greve com o apoio da UGT, a precariedade passou a ser a situação normal : contratos a prazo e flexibilidade nos despedimentos.
Empresas emblemáticas do ponto de vista industrial e cultural foram liquidadas sem dó nem piedade. A Fábrica Escola Irmãos Stephan na Marinha Grande foi uma delas. Aliás, a luta dos vidreiros da Marinha Grande ao longo dos anos passou por sequestros, ocupações da estação da CP, arrancamento de 200 metros de linha, cortes de estradas, marchas sobre Lisboa, contando sempre ou quase sempre, com as respectivas cargas policiais que culminaram no Outono quente de 1994 com a invasão da própria CM da Marinha Grande pela polícia em perseguição dos trabalhadores..
Na Marinha Grande contra os vidreiros, na luta dos estudantes frente à Assembleia da República e na revolta da ponte 25 de Abril a polícia cavaquista deu sempre bboa conta do prestígio do patrão.
O Luís Miguel Figueiredo ficou hemiplégico por ter apanhado um tiro da polícia no primeiro dia da luta da ponte. Provou-se que o tiro foi disparado pela polícia...mas como os polícias eram muitos e não se sabe qual foi, a culpa morreu solteira e o Luís Miguel até hoje, passados onze anos, não teve direito a uma indemnização.
O mesmo aconteceu com as viúvas dos mortos no afundamento do Bolama. E com as famílias dos hemofílicos assassinados por sangue contaminado. O caso em que a responsável, a ministra Leonor Beleza, viu o processo prescrever e ainda queria que lhe pedissem desculpa pelo incómodo.
Estramos pois na fase do salve-se quem puder.
Cavaco, através do Ministro Falcão e Cunha, autoisenta o Estado de fiscalização das condições laborais. A Inspecção do Trabalho ficou, portanto, impedida de actuar junta das administrações central, regional e local, onde trabalhavam mais de 500 mil trabalhadores.
Rui Amaral (PSD), que presidiu à Comissão de Transportes do PE considerou que se “confundiu a política de transportes com infraestruturas, não se atribuiu a devida prioridade ao transporte urbano e sub-urbano, área que não é compatível com o livre jogo das regras do mercado, dado as obrigações de serviço público”
Bruxelas acusava o governo de tentar, por motivs eleitorais, que no QCA de 94/99 as ajudas se concentrassem em 95 e 96 e não de forma contínua até 99. Aliás o Director Geral do Desenvolvimento não se ensaiou nada para admitir “uma agenda escondida de fundos”, em que o Governo maquilhou o défice orçamenta l(fugindo às decisões de Edimburgo de Dezembro de 2002) fazendo os projectos deslizar para 2005.
Eis o Professor no seu esplendor, traçando a sua mais conhecida teoria económica e financeira, deixando Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix como razoáveis aprendizes e empenhados discípulos.
O frenesi do saque
Depois da revisão constitucional de 1989 as privatizações passaram a ser o desígnio de salvação nacional. Das privatizações resultou o desmembramento das empresas, a constituição de holdings e cada vez mais dificuldades para as organizações dos trabalhadores, paralelamente a um ataque desenfreado contra os seus direitos. Salve-se quem puder, o emprego seguro é uma reliquia do passado, entrámos na modernidade, diziam os testas de ferro Cadilhe, Catroga, Braga de Macedo e repetiam as vozes do dono espalhadas pela comunicação social.
Tudo isto com selo cavaquista: o da total falta de transparência, do casuísmo e de obediência directa e pessoal aos especuladores e financeiros interessados.
Os cambalachos eram a regra. José Roquete dizia publicamente que se tinha conluiado com José Manuel de Mello, antes de concorrer à compra do Totta & Açores; o Grupo Espírito Santo exigiu publicamente a Tranquilidade e o BESCL, sem outros concorrentes; o Grupo Mello impôs a compra da Sociedade Financeira Portuguesa sem oposição. António Champallimaud apoiou-se num “acordo de cavalheiros” para concorrer sozinho e adquirir, por metade do preço considerado justo internacionalmente, a Mundial Confiança. Ricardo Espírito Santo Silva ao retomar o controlo da Tranquilidade pelo Grupo Espírito Santo reconheceu ter havido subavaliação do património imobiliário.
Convém lembrar que, por vezes, era o próprio grupo interessado que procedia à avaliação, como aconteceu com o grupo que adquiriu o Fonsecas & Burnay. E quando assim não era o Governo de Cavaco, sem justificação conhecida, chegava a fixar os valores base da privatização a níveis inferiores aos propostos pelas empresas avaliadoras, como aconteceu no caso da Tranquilidade e na primeira fase de privatização do BPA.
Mas nesta competição de criatividade no cambalacho Champallimaud levou a palma: contra a opinião da CMVM adquiriu 50% do Totta sem uma OPA geral e com o dinheiro do próprio banco, alegando muito candidamente que se esse dinheiro, afinal, feita a compra, passava a ser seu, não fazia diferença!
No meio disto tudo ninguém se arriscaria a chamar incendiário a António Champalimaud. E de facto não era. No entanto, nos inícios de 94, Cavaco deu ordem aos seus ministros do Planeamento, Agricultura e Ambiente para o deixarem construir um empreendimento turístico na Quinta da Marinha exactamente onde ocorreram os piores incêndios de 1990, estando por isso proibida qualquer construção até ao ano de 2000.
A marca de Cavaco por todo o lado
Mas nem só de medidas de vanguarda na economia vive o país.
Durante a guerra Irão-Iraque um navio português é apresado na Grécia com armas israelitas e portuguesas, da INDEP, a caminho do Irão. Por essa altura a polícia de Cavaco espancava brutalmente os trabalhadores da INDEP e o governo de traficantes suspendia as respectivas organizações representativas.
Sete anos mais tarde o caso do desaparecimento do Bolama veio mostrar como Cavaco Silva foi a uma bruxa russa que afirmava que o navio andava perto de Cabo Verde. Para aí deslocou a marinha os seus meios para depois o navio ter sido encontrado afundado a algumas milhas da costa ao largo do Cabo da Roca, como sempre fora dito pelo Presidente do Sindicato Livre dos Pescadores, Joaquim Piló. Mas entretanto houvera tempo para retirar a carga que motivara saída do navio sem as devidas autorizações e o seu posterior afundamento com trinta pessoas a bordo para sempre desaparecidas . Curiosamente, exactamente por essa altura , desapareceram quantidades substanciais de urânio, facto noticiado largamente. A recusa do Governo de Cavaco Silva em averiguar tudo o que se passou compromete-o.
Na madrugada de 16 de Abril de 1986, 18 aviões F-111 estadounidenses, atravessaram o espaço aéreo português para irem bombardear a Líbia. Cavaco em íntima afinidade com o ataque, manda expulsar vários cidadãos líbios pelo simples facto de o serem.
Dias depois, o Parlamento Europeu condenava violentamente aquele acto de agressão dos Estados Unidos á Líbia.
Em Janeiro de 1995 rebenta o escândalo: as OGMA reparavam helicópteros indonésios, os mesmos que iriam bombardear depois a resistência timorense.
Na cultura e na acção cívica Cavaco e os seus governos também marcaram a agenda: o Subsecretário de Estado Sousa Lara, com o apoio do Secretário de Estado Santana Lopes e o aval circunspecto de Cavaco Silva, proibiram José Saramago de concorrer com o seu romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” a um prémio internacional. Consta que o livro era herético.
Cavaco e a sua equipa recusam, em Janeiro de 95, apoiar as comemorações em memória de Humberto Delgado.
Cavaco marcou a sua época com a nomeação de uma personalidade de primeira água, o Dr. Ladeiro Monteiro, para dirigir o SIS (1986-94) criado pelo Governo do Bloco Central um ano antes. Monteiro ficou célebre pelas escutas ilegais efectuadas durante anos, nomeadamente a dirigentes políticos. A secreta portuguesa no tempo de Cavaco contou ainda com a DINFO, secreta militar, que recrutou agentes para os GAL que em Espanha sequestravam e assassinavam militantes da ETA, patriotas bascos e outros que não eram nem uma coisa nem outra. Em Espanha o ministro e outros altos responsáveis pela guerra suja foram julgados e condenados. Ao contrário do que se passou em Portugal, onde, aliás, os próprios agentes estavam impedidos por Cavaco de depor em Tribunal.
No entanto, impoluto e rigoroso professor viu a sua carreira ferida pela proposta de demissão da Função Pública, avançada pelo Conselho de Reitores em 1985. O motivo foi ter-se ausentado do serviço docente que lhe fora atribuído. Atenuantes, pressurosamente surgidas, impediram que a proposta fosse de expulsão. Afinal, Deus Pinheiro, ministro da Educação do Bloco Central, tinha-lhe concedido licença sem vencimento sem que para isso tivesse qualquer competência. Era matéria do Conselho de Reitores.( Foi assim: Oh João, safa-me lá que tenho de ir à Figueira fazer a rodagem ao carro.)
E, mais tarde, já nos últimos estertores governamentais, quando decide não arriscar a ida às urnas para ser julgado pelos desmandos e pela situação a que conduziu o país, ainda se insurge contra a notícia de uma investigação da PGR a obras em sua casa. Seriam, no caso, obras a mais e IVA a menos, com 348 contos por pagar. Mas aí a culpa terá sido de D. Maria.
Perante a evidência do pagamento ilegal de subsídios à fundação do PSD, Cavaco encontra o argumento de que o IPSD apenas é dirigido por uma pessoa próxima do PSD: Leonor Beleza.
Quem se viu atrapalhado foi Pacheco Pereira que, para tentar esconder a desagregação vertiginosa da maioria cavaquista, teve que impor uma espécie de censura prévia aos jornalistas que trabalhavam no Parlamento, ou seja os corredores para onde davam as portas dos gabinetes do PSD, não podiam ser frequentados pelos jornalistas parlamentares. A bronca foi grande e Pacheco não sendo tão fero quanto o seu vetusto antepassado, não conseguiu impor os seus intentos. Mas certamente que, a partir daí, passou a ser considerado o paradigma do político democrata e paladino da liberdade de imprensa.
Cavaco e os cavaquistas não passam disto. A mediocridade impante e voraz. Quer se encontrem em estado de Tabú – a sua grande criação - quer falem a várias vozes, todos eles e elas evocam o golpista Sá Carneiro e invocam a sua sabedoria para servir a finança. O “Portugal precisa de si” de hoje e o “ Reecontro com a história de Portugal...” de há vinte anos são, afinal, a expressão de uma espécie parasita de velha estirpe que mantém uma considerável fixação e pensa ser, agora, finalmente, que de forma um tanto espúria, vai ter um presidente, um governo e uma maioria.
Belmiro de Azevedo já profetizou: Cavaco e Sócratas, uma só voz
Os portugueses vão mostrar que não estão pelos ajustes.
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