14.1.17

#1 [contributos para a nissologia]

(...)
Fala como se não fosse daqui.
Sou completamente daqui, contestou. Deu um longo gole na cerveja e limpou o bigode com o polegar. Sou tão daqui que não me imaginava a viver em terra firme.
Terra firme?
Desculpe. É a doença da insularidade. Para mim, uma ilha é um lugar em movimento. Na minha cabeça, todos os dias nos afastamos ou aproximamos um bocadinho da península. Dependendo dos ventos e das vontades. São tenazes, deixam-me à deriva.
Também me tem sucedido, disse eu. Parece que, neste lugar, sonhamos com maior clareza e intensidade.
Talvez seja isso.
(...)

João Tordo, in O Luto de Elias Gro

11.1.17

#1 [59]

Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto, in 'Salsugem'

6.1.17

#1 [o último de 2016]

Que foi também o primeiro de 2017.
A Queda dos Gigantes, o primeiro tomo da trilogia do Século XX de Ken Follet.
Este volume toca os primeiros 25 anos do século, partindo das causas que conduziram à grande guerra, aborda o conflito e o que dele ficou, lançando sementes para o que aí vem (na história e nos próximos dois volumes).
São cerca de 900 páginas de escrita leve e um pouco previsível, que passa ao lado de acontecimentos importantes - a fim do império Otomano, outro gigante, a participação de Itália ou, numa escala muito menor mas não menos relevante, de Portugal, ou as consequências da gripe espanhola...
Apesar desta constatação e de alguma irritação que a tradução me causou, as tramas da estória e a leitura que Follet faz da história foram suficientes para dissipar o meu cepticismo inicial.  
 

10.12.16

#1 [as leis da fronteira]

No verão de 1978, com Espanha a sair ainda do franquismo e sem ter entrado definitivamente na democracia, quando as fronteiras sociais e morais parecem mais porosas do que nunca, um adolescente chamado Ignacio Cañas conhece por acaso Zarco e Tere, dois delinquentes da sua idade, e esse encontro mudará para sempre a sua vida.

Um Livro de Javier Cercas

15.11.16

#1 [coisas que não conseguimos esquecer]



I'll be there today
With a big bouquet of cactus
I got this rig that runs on memories
And I promise, cross my heart,
They'll never catch us
But if they do, just tell them it was me
Leonard Cohen, I can't Forget

11.11.16

#1 [Cohen]


And remember when I moved in you
And the Holy Dark was moving too
And every breath we drew was hallelujah

23.10.16

#1 [Divodignos]

A vantagem de romances históricos de qualidade é recordar coisas que quase não se estudaram na escola, despertando a curiosidade para aprender muito mais.
Com as palavras de Sérgio Luís de Carvalho, no seu "O Exílio do Último Liberal", fui transportado para as guerras liberais portuguesas e para o ambiente de Londres que, por esses anos, veio a inspirar muitos dos escritos de Marx.E conheci a história dos Divodignos.

23.9.16

#1 [ser dono da verdade]



“Tentei dissuadir o senhor Ulme de falar com a Beatriz daquela maneira cínica que ele usa para descrever o mundo há sua volta.
- O cavalheiro não aprecia a verdade?
- O senhor não é dono da verdade.
- Felizmente que não. Ainda bem que não sou dono da verdade, que não tenho tempo de lhe dar comida e levá-la a passear no jardim e apanhar-lhe o cocó com um saco de plástico.
- A Beatriz é uma criança e o senhor vai acabar por magoá-la.
- Como o cavalheiro fez com ela?
- Eu não…”

Afonso Cruz, in Flores

18.9.16

17.9.16

#1 [da antropologia...]

"I have always felt that the action most worth watching is not at the center of things but where edges meet. I like shorelines, weather fronts, international borders. There are interesting frictions and incongruities in these places, and often, if you stand at the point of tangency, you can see both sides better than if you were in the middle of either one. This is especially true, I think, when the apposition is cultural. (...)"

Anne Fadiman
The Spirit Catches You and You Fall Down: A Hmong Child, Her American Doctors, and the Collision of Two Cultures  (pp 7)