23.9.16

#1 [ser dono da verdade]



“Tentei dissuadir o senhor Ulme de falar com a Beatriz daquela maneira cínica que ele usa para descrever o mundo há sua volta.
- O cavalheiro não aprecia a verdade?
- O senhor não é dono da verdade.
- Felizmente que não. Ainda bem que não sou dono da verdade, que não tenho tempo de lhe dar comida e levá-la a passear no jardim e apanhar-lhe o cocó com um saco de plástico.
- A Beatriz é uma criança e o senhor vai acabar por magoá-la.
- Como o cavalheiro fez com ela?
- Eu não…”

Afonso Cruz, in Flores

18.9.16

17.9.16

#1 [da antropologia...]

"I have always felt that the action most worth watching is not at the center of things but where edges meet. I like shorelines, weather fronts, international borders. There are interesting frictions and incongruities in these places, and often, if you stand at the point of tangency, you can see both sides better than if you were in the middle of either one. This is especially true, I think, when the apposition is cultural. (...)"

Anne Fadiman
The Spirit Catches You and You Fall Down: A Hmong Child, Her American Doctors, and the Collision of Two Cultures  (pp 7)

14.9.16

#1 [como numa jangada de pedra à deriva]

Uma foto publicada por André Beja (@metrografista) a

"Fevereiro de 2008, Barcelona

Sonho com o que ela escreve. Fui buscar um conto dela a um livro e sonho-a a escrever. Ela contaminou-me tanto que já consigo sonhar com o que ela sonha.
Escrevo-o eu.
Não sei quando deixei de ser humano e passei a ser este monstro.
Se ela fosse eu, teria escrito isto.
Transmutamo-nos tão intensa e visceralmente que já não consigo distinguir-nos.
É por isso que a odeio. E a amo ainda mais."

Raquel Freire in Transiberic Love

1.9.16

#3 [Némirovsky, Irène]

O Senhor das Almas confirmou-me o que Suite Francesa, obra inacabada e (também por isso) muito badalada, deixara antever: uma escritora prodigiosa, que soube captar e transmitir as particularidades do seu tempo e o que nele havia de intemporal.

#2 [ontem como hoje]



Dois cães à porta lambiam os beiços e pingavam a calçada de baba, coitados, que o cheiro a carne e a molho atazanava-lhes os corpos magros. Olhavam a taberna tal e qual como os refugiados que aguardavam à porta da Polícia de Estrangeiros a renovação dos vistos de estadia e os bilhetes nos navios para Nova Iorque, que aquilo era tudo o mesmo olhar, o mesmo cansaço e ansiedade, a mesma esperança no destino, o mesmo desatino e um amanhã igual a anteontem. Até aquela espera do lado de fora, sempre do lado de fora, era a mesma, como se o ausente deus dos homens e dos bichos fosse também o mesmo.

Sérgio Luís de Carvalho in "Uma Terra Prometida (contos sobre refugiados)"

#1 [Caminho que começa]



Estrada de Santiago

Todos somos peregrinos. Embora por vezes nos esqueçamos dessa condição. E abandonemos as sandálias e o burel. Mais cedo ou mais tarde temos que voltar à estrada. Em noites como esta – tão clara – quase se distinguem os vultos dos peregrinos. Outros que não nós prosseguem a sua marcha por entre as estrelas. A princípio, alguns ainda começam a contar os dias. Depois desistem, porque os dias se confundem com as estrelas – cada vez mais inumeráveis e luminosos... E no fim de cada jornada recolhem cuidadosamente o ouro acumulado nos seus pés.

Jorge Sousa Braga, in O Poeta Nu

11.8.16

#1 [onde mora a felicidade]

"Ao completar quarenta anos, Madame Wu leva a cabo a decisão que tem planeado há já algum tempo: comunica ao marido que após vinte e quatro anos de casamento não deseja ter mais contacto físico com ele e pede-lhe que tome uma segunda esposa. A Casa de Wu, uma das mais antigas e reverenciadas da China é tomada de surpresa e indigna-se com esta decisão, mas Madame Wu não se deixa dissuadir e escolhe uma jovem camponesa para tomar a sua vez no leito conjugal. Elegante e distante, Madame Wu planeia esta alteração na sua vida da mesma forma como sempre geriu uma casa onde co-habitam mais de sessenta familiares e criados. Sozinha nos seus aposentos, aprecia a sua liberdade e finalmente tem a possibilidade de ler os livros que lhe estavam vedados. Quando o seu filho inicia lições de inglês, percebe que também gostava de aprender esta língua e em breve está também a aprender com o Irmão André, um padre progressista que irá alterar a sua vida."

Mais informação aqui




9.7.16

#2 [Camilla Läckberg]

O nome de Camilla Lackberg é demasiadas vezes associado ao de Stieg Larsson.
Ambos escritores, ambos suecos, caíram nas bocas do mundo na mesma época. Ele primeiro, ao tempo da sua morte, ela um pouco mais tarde, beneficiando do impulso que Larsson deu ao romance policial sueco.
Depois de alguns anos a resistir, li o primeiro livro de Lackberg, A Princesa de Gelo. As comparações são sempre más e não me entusiasmaram. 
E confesso que, mesmo desconfiado, esperava mais de alguém que ganhou o prémio de escritora do ano de 2004 e 2005 e tem uma carreira de sucesso... Apesar de algumas fragilidades, a trama está bem montada, mas a narrativa é pueril, pouco arrebatadora.
Talvez volte a pegar num dos seus livros. esperando que a maturidade e a experiência lhe tenham permitido evoluir para uma escrita mais convincente, mas estou certo que irá demorar tempo até voltar a ter coragem.
 

#1 [tão bom...]

13.6.16

#1 [Tu es bicho*]

Vieira da Silva, Biblioteca em Fogo, óleo sobre tela, 1974

*Recordar Viera da Silva nos 108 anos do seu nascimento

1.6.16

#1 [Espera...]

Uma foto publicada por André Beja (@metrografista) a

21.5.16

#1 [Vladimir Tostoff, compositor imaginário]



Impelido pelo filme, 12 anos depois regressei a O Grande Gatsby
É, de facto, um livro extraordinário.