É banal
dizer de determinado livro que desperta em nós uma vontade enorme de largar
tudo e viajar. Prometo não voltar a usar frases feitas para descrever o que me
provocou o Caderno Afegão, de Alexandra Lucas Coelho.
Aliás, o
Caderno é, todo ele, uma alternativa àqueles lugares comuns sobre o Afeganistão
que pululam na imprensa e nas redes sociais. É antes um olhar curioso e, de
certa forma, desapegado de uma cultura e de um povo (vários aliás) que, desde
2001, os especialistas instantâneos se fartaram de analisar e descrever,
recorrendo vezes sem conta a lugares comuns e passando ao lado da vida real de
quem sofre na pele os resultados das contradições que a geopolítica tece.
Como já
fizera nessa mítica jornada mexicana ou enquanto choviam bombas na palestina e
suicidas em Israel, ALC propôs-se entrar na nuvem de poeira que encobre o
caminho e contar o que ali encontrou. Não naquela poeira que vem na TV e que os
jornalistas embeed retratam à hora de jantar, mas na poeira-que-existe, a dos
dias da ocupação.
Mas ALC quis
mais do que a poeira e, dando bom uso ao ofício de jornalista, procura
mostrar-nos a desgraça e a miséria daqueles e daquelas quem vivem com os piores
indicadores de saúde do mundo ou segundo regras tribais que nos parecem
anacrónicas, expos fraquezas de gente e organizações que estão a enriquecer com
a desgraça alheia e o suor de quem dá muito sem pedir muito em troca.
E aproveitou
a estadia para mostrar um pouco do que está para lá de tudo isto. A força do
olhar de quem passa. As palavras das mulheres que se soltam em alguns momentos,
os vultos disformes na curva do caminho, os corpos dançando, o ponto sem nó que
a caneta disfarça, as poses para a fotografia. Os desejos de outra vida, de
outras oportunidades, os sonhos e os projectos de tanta gente. As estradas
desertas, a memória dos budas, a raiva que nasce entre os dentes. As encruzilhadas
da história.
O que mais
me tocou no Caderno, além das páginas preenchidas pelo hospital da cruz
vermelha, foi forma impressionista como ALC conseguiu registar as cores. O
verde dos vales a grande altitude. O encarnado papoila do vestido da menina que
pastava. O azul do lago. O rosa das rosas das rotundas de Cabul. Mesmo no meio
do horror e da tensão, a simplicidade do belo.
Podem ter um cheirinho do Caderno Afegão aqui