26.1.05

#3
[em memória]

Comemoram-se agora os 60 anos da libertação do campo de Auschwitz pelas tropas do exercito vermelho. Foi em janeiro que o mundo teve de abrir os olhos e parar de fingir que o holocausto era uma parte menor da cruzada de hitler. As organizações internacionais sionistas já vinham denunciando o terror vivido nos campos e nos ghetos, mas poucos foram os governos que confrontaram o reich com esta situação - salazar, por exemplo, encheu os cofres do estado com ouro vindo directamente das proteses arrancadas aos prisioneiros, entregou suspeitos e fez de tudo para agradar a berlim, como retirar a nacionalidade portuguesa a Vieira da Silva, por esta ser casada com um judeu.
Para lá da desgraça, ficam gestos de homens e mulheres, como Aristides de Souza Mendes - consul português em Bordéus que, contrariando as ordens do governo, facilitou milhares de passaportes a fugitivos -, que nos fazem acreditar um pouco mais no bicho humano.
Deixo-vos um texto retirado do meu caderno de viagem, quando, durante um interrail, visitei Auschwitz.
Antes de terminar, não queria deixar de lamentar que, tantos anos, mortos e horrores depois, o estado de Israel esteja a fazer na Palestina algo que, não se comparando na dimensão fisica, tem uma dimensão ética e simbólica muito similares.

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18 de Agosto de 2000

(...) vamos a caminho do campo de concentração. A R ainda não decidiu se o vai visitar. Eu tenho de ir, preciso de ver com os meus olhos como é esse lugar maquiavélico... por mim, pela memória das vitimas de toda aquela loucura, por Anne Frank, pelo não esquecimento.
Há anos que me interesso pela guerra: vi filmes, li e estudei muito, já estive em alguns lugares... tenho de ir ali, por mais que custe, por mais que doa.
(...)
Não sei muito bem o que dizer sobre a visita.
A história, já a sabia, mas os pormenores, as imagens... imagens impressionantes que são uma fracção mínima do terror que ali se viveu e da loucura a que o III reich chegou. Toneladas de cabelos, que serviriam para fazer têxteis, milhares de sapatos, que seriam entregues a quem, na Alemanha, deles tivesse necessidade, tal como as roupas e os utensílios pessoais...
Casas frias, tarimbas alinhadas, formando longas camas comuns onde dormiam milhares de pessoas, refeições escassas, trabalhos forçados...
Na entrada do campo de Auschwitz (o nome dado pelos Alemães ao lugar de Oswiecien) era dito aos prisioneiros, já no período final da guerra, que dali só tinham uma saída: a chaminé do crematório... logo se fazia uma selecção: as crianças, as mulheres e os incapacitados para o trabalho eram, geralmente, gaseados e cremados, servindo as cinzas como fertilizante. Os homens capazes eram orientados para o trabalho, que faziam quase ininterruptamente, de forma desumana e escrava.
Durante 5 anos, neste campo e nos que o rodeavam – existia ali uma extensa e “bem pensada” rede de campos – morreram cerca de 1,5 milhões de pessoas, entre judeus, ciganos, presos políticos, presos de guerra, homossexuais e outros. Além da Polónia e da Alemanha, chegavam também de Roma, Lyon, da Hungria, da Rússia e de outras paragens longínquas.
Hoje o espaço até é bonito: verde, ordenado e silencioso. Mas a Memória torna aquele sitio num lugar maldito, onde, diariamente, acorrem milhares de pessoas para recordar, pessoas que, com atitudes de todo o género – há quem mantenha o silêncio, há quem converse ao telemóvel dentro da câmara de gás... -, são olhadas à distância pelos habitantes da povoação que dá nome à estação de comboio mais próxima. E é preciso recordar, não deixar que o horror fique escondido atrás dos muros, para que se esgotem as possibilidades de repetição de tudo isto, de acontecer qualquer coisa semelhante.
Saí do campo com vontade de muitas coisa, de gritar, de chorar, de não dizer nada... com muita raiva de toda a crua realidade da história, de todo o ódio que, em nome das ideias, se pode gerar.
Não me arrependo nada de ter ido.