#2
[Sousa Tavares]
Miguel Sousa Tavares tem dias.
dias em que acorda de esquerda, dias em que acorda de direita e dias em que acorda, simplesmente, parvo. foi num destes últimos que, há duas semanas, escreveu um texto onde atacava Sónia Fertuzinhos, uma das mais destacadas deputadas do PS na última legislatura, dizendo desconhecer o seu trabalho, bem como a importância das questões do género na política.
hoje tem a resposta que merece.
Os Homens
MADALENA BARBOSA *
Publico, 26 de Janeiro de 2005
Miguel Sousa Tavares é sem dúvida um homem abençoado. Bem-nascido, recebida a melhor educação, com o dom da palavra (mais escrita que oral), este nosso "troca-letras" escreve crónicas brilhantes desde que não toquem num assunto tabu: as mulheres. Para MST, as mulheres não são assunto de que se fale, pois não têm problemas nenhuns, não constituem uma das tais "espécies ameaçadas", nem nada justifica que se juntem em grupos de defesa de interesses próprios, pois não os têm. Se não, como a pergunta "O que será uma mulher socialista?".
Para o elucidar, eu conto-lhe - uma mulher socialista é uma mulher, antes de tudo: nasce-se mulher ou homem, não se nasce socialista ou comunista, ou social-democrata. Se não, teríamos o proverbial anúncio do bebé, na maternidade, quando se comunica à família o nascimento, em vez de "é uma menina ou é um menino", dir-se-ia "é comunista ou é PP".
Portanto, é-se primeiro mulher ou homem. Depois, normalmente já na idade da razão, escolhe-se uma ideologia que nos parece mais justa, mais de acordo com o nosso ideal de sociedade. E há mulheres que escolheram ser socialistas, daí o termo mulher socialista. Aos homens chama-se simplesmente socialistas. Afinal eles são o padrão, os representantes da espécie humana.
Não se diz homem socialista, porque eles são o partido, são o grupo. E sendo todos os partidos, grupos de rapazes (eu sei que não gostam que os chamem assim, mas enfim, também não gosto de ser espécie protegida), tornou-se clara e urgente e necessária a formação de grupos de mulheres nos partidos. E eles existem em todas as partes do mundo, creio que MST o deve saber, dada a vastidão da sua cultura geral, embora, nestas coisas do mulherio, pretenda sempre apresentar todas as questões como uma "carolice nacional". Existem grupos de mulheres nos partidos porque estas são discriminadas e precisam de uma voz colectiva que se faça ouvir. Porque têm coisas a dizer e a fazer que os homens não dizem nem fazem. Porque as suas experiências de vida são diferentes e essa diferença é uma mais valia para a política, ou seja, para a gestão das coisas públicas, feita para mulheres e homens.
Partidos sempre de maioria masculina, feitos por homens para homens, dizem representar o povo português, mas acabam representando apenas parte dele. De facto, pode-se chamar ao PS, ao PCP, ao PSD, ao PP, ao Bloco de Esquerda, a todos eles afinal, grupos dos homens socialistas, comunistas, etc.etc. Provas? As tais listas de deputados, de todos os partidos, ao longo de todos estes anos de democracia. Ou os governos, em todos este anos de democracia. Ou os directores gerais, em todos estes anos de democracia. Ou os membros das Comissões, os Presidentes dos Institutos, os patrões, os mandantes, enfim, o poder, neste pobre e mal governado país.
Não é portanto carolice que as mulheres se juntem num partido para conseguir, não protecção, mas aquilo a que têm direito - justiça, no cumprimento da Constituição Portuguesa, usufruto dos Direitos Humanos, participação na democracia, que, por enquanto, mais não é do que uma fantasia em que queremos acreditar. Enquanto as mulheres, 52 por cento da população, forem 20 por cento na AR e 13,5 por cento no Governo, é uma democracia paraplégica. Como dizia a ex-Secretária Geral do Conselho da Europa, esta democracia só vê com um olho, mexe um braço e anda com uma perna. Meninos, estamos a brincar ou quê? Talvez a voltar à ortodoxia da democracia grega, só cidadãos, mulheres ao gineceu.
Que todos os partidos, ou quase, falem de igualdade, é um lugar comum. Que se comportem em função dessa declaração de princípios, é um lugar vazio. Que o PS escolha não pôr nas suas listas a pessoa que foi eleita para ser a porta voz da consciência do partido que, tal como o grilo do Pinóquio, diria, de vez em quando - olhem que as mulheres existem - é uma ofensa a todas as mulheres que votaram em Sónia Fertuzinhos para que defendesse os seus interesses. Essa eleição não interessa? É menos do que os tais órgãos locais? Tem menos vozes? Ou são apenas mulheres?
Em 2005, as mulheres não precisam de protecção - organizam-se e lutam pelos direitos de cidadania que, garantidos por lei, lhes são tirados na prática. Um deles é ser eleita. Direito que lhe vem a ser negado pela tal escolha das tais listas. Elaboradas no segredo dos deuses, seguem que critérios? 90 por cento dos deputados entram e saem da A.R. sem nada que se saiba deles. Competências? Aptidões? Se fossem escolhidos por concursos, a Assembleia estaria repleta de mulheres, como as universidades, os centros de investigação, e cada vez mais todos os lugares que não são de nomeação.
E por isso estou de acordo com o que Inês Pedrosa diz, que a mulher, no dicionário mental da política portuguesa, pode ser usada nas campanhas eleitorais "Em caso de aguda necessidade podem utilizar-se mulheres notórias ou mesmo notáveis - mas por curtos períodos de modo a não perturbar as instituições". Repetidos estão os argumentos, que um passado Comandante da PSP exprimiu há anos - a entrada das mulheres na polícia, em número significativo, iria mudar a cultura da instituição. Esta, como outras, que estão em urgente necessidade de mudança, mas que persistem, caducas, mal geridas, mantendo o poder graças a que interesses?
Pois é MST, se o feminismo não lhe parece que esteja na moda, asseguro-lhe que a misoginia também não. E quanto ao aborto... sempre lhe digo que ao fim de 25 anos de tentar a sua descriminalização, é difícil de acreditar que venha naturalmente a acontecer. E é escusado acusar quem a defende de a prejudicar. Quer dizer que se todos e todas se calassem a evolução seria para a sociedade perfeita? Porque não deixa então de escrever e defender o que pensa? Tudo virá naturalmente a acontecer ou não - o fim da corrupção, a péssima governação, a cultura do povo, a distribuição justa da riqueza, o fim da fome e da pobreza, a justiça, enfim. Meu não amigo, já ninguém acredita na história teleológica, que tudo caminha para o bem comum. Nem tão pouco na maldição e perversidade das mulheres, filhas de Eva, como na Idade Média. Lembre-se doutra, limite-se às suas competências que são muitas. O assunto "mulheres" não é o seu forte.
*Feminista, socialista e mulher, chamada em outros lugares do mundo "gender expert"