Sobre Deus no Telhado e os Novos
Anjos, de Giuseppe Morandi
Quando a Eduarda Dionísio me convidou para participar numa conversa sobre a exposição de fotografia “Deus no Telhado e os Novos Anjos” aceitei sem hesitar. Não sabia quem era esse tal de Giuseppe Morandi nem o que poderia valer a pena dizer num encontro com o autor, a sua trupe e mais alguns fotógrafos…Consultei os oráculos, em busca de inspiração.
E que oráculos escolhi eu neste tempo
de hipercomunicação? O primeiro foi o Google, que sabe quase (ou julga saber) quase tudo. A segunda
escolha, para contrabalançar, recaiu num clássico: fui recordar o que dizia
Susan Sontag no seu manifesto/ensaio Olhando
o sofrimento dos outros.
Quando a Eduarda Dionísio me convidou para participar numa conversa sobre a exposição de fotografia “Deus no Telhado e os Novos Anjos” aceitei sem hesitar. Não sabia quem era esse tal de Giuseppe Morandi nem o que poderia valer a pena dizer num encontro com o autor, a sua trupe e mais alguns fotógrafos…Consultei os oráculos, em busca de inspiração.
Com a ajuda da internet percebi um
pouco mais sobre os “artistas” com quem partilharia a mesa do debate. As suas
motivações, a sua intervenção, o trabalho persistente e prolongado em torno da
cultura.
E encontrei também o poema que dá
mote à mostra, Deus no Telhado, de Lise Rouillard, que não resisti traduzir:
Num manhã quente acordei e
levei os olhos à janela
do sótão,
Normalmente livre perante o ceú
o meu olhar recaiu num tipo que
caminhava sobre o telhado
muito
loiro, muito dourado
muito
nú e muito “habillis”
desci ao quintal
para anunciar a boa notícia
“Está um Deus no telhado!”
E depois esperei pelas fotografias.
E o que foi que elas me suscitaram
quando as encontrei na Casa da Achada?
Devo dizer-vos que sou apaixonado
por Itália, pela sua gente, pela sua cultura. Ao longo dos últimos 15 anos
viajei várias vezes por ali e conheço um pouco do país. E, depois de muito
pensar sobre o assunto, chego à conclusão do que o que gosto neste país são os
seus contrastes, as suas idiossincrasias que umas vezes são burlescas e outras
tão dramáticas.
Como é que o país de Tonino Guerra,
Tabuchi ou Ecco gerou um fenómeno como Berlusconi?
Itália é um dos berços da
arquitectura moderna e eu não consigo deixar de pensar na maravilhosa cúpula de
Bruneleschi no Duomo de Florença quando me recordo das casas que caíram como castelos
de areia no sismo de Aquila, em 2009.
A cultura gastronómica e a dieta
mediterrânica contrastam com o crescimento da obesidade: Itália é dos países com
maior taxa de obesidade infantil na Europa.
Há italianos de várias gerações
radicados em todo mundo, mas esta diáspora e o facto dos italianos continuarem
a ser grandes viajantes, não apaga a existência de uma fronteira ao sul que delimita
a Europa e barra a entrada a milhares de migrantes, com mortes diárias.
Como é que a diáspora e a miscigenação
que se pode ver nas cidades italianas se conciliam como facto do governo ter
sido integrado até há pouco tempo por dois partidos xenófobos?
E foi este contraste, esta
contradição permanente, que encontrei nas fotografias de Morandi, na sua
estética, na antropologia que faz do mundo do trabalho, da transformação do
espaço, do diferente está em todo o lado em nós também.
Dei comigo a perguntar, como o
Sérgio Godinho, Que força é essa amigo? Que força é essa que nos transmites com
tanta emoção? Que força é essa que nos convidas a olhar com os outros que aqui trazes?
E com isto chego ao segundo Oráculo
por mim consultado. Susan Sontag convidou-nos a olhar o sofrimento do outro
para o compreender melhor. Alguém disse que, com a sua fotografia, Morandi
havia superado a ideia do operário como deus de Cesare Zavattini
em Un Paese. Pois eu considero que,
com estas imagens, Morandi também supera Sontag, porque nos convida a olhar não
o sofrimento do outro mas sim o outro, aquele que nos passa
diante da porta de casa.
E assim, também pela
reconstrução do imaginário, ajuda-nos a compreender o mundo em que vivemos,
recordando que este outro está em todos os lugares. Estas fotografias foram
feitas em Piadena, mas podiam ser de Lisboa: diante dos indianos a jogar
cricket, recordei-me que, numa noite destas, dei com a praça do Martim Moniz
ocupada por algumas dezenas de paquistaneses a jogar cricket. E não os
fotografei…
André Beja, Abril de
2012