#3
[coisas de gajos apaixonados]
Este Relógio
José Luis Peixoto
A Capital, 22 de Dezembro, 2004
Antes de sair, olhou para este relógio e disse que voltava no início da noite. Eu não lhe perguntei a que horas voltava, mas ela disse que voltava às nove. Eram três horas da tarde. Eu lia um livro. Olhei--a quando aproximou o rosto e os lábios para nos beijarmos. Não a olhei quando saiu mas, agora, consigo imaginar a porta depois de a ter fechado, os passos a desaparecerem nos degraus da escada e, depois, o silêncio sem ela. Consigo até imaginá-la na rua. As mãos sobre a mala que comprou, os seus passos. Talvez a tenha imaginado durante alguns instantes depois de sair. No entanto, se o fiz, essas imagens misturaram-se com aquilo que lia e com a certeza triste de ela ir sair e de ter de aprender a estar sem ela durante tempo a parecer infinito. Demorei meia hora até olhar para o relógio, este relógio, o mesmo para onde ela olhou antes de sair quando disse que voltava às nove. Tinha passado meia hora e, por isso, continuei a ler. Tentei não pensar que faltava mais de dez vezes o tamanho daquele tempo que passei sem ela até a ver de novo. Continuei a ler. A minha atenção entrava dentro das palavras, mas voltava sempre para ela. Continuava a ler, mas ela estava no fim de cada parágrafo, escondida entre as frases, no momento de virar uma página. Tentei não olhar para este relógio. Quando olhei, eram cinco horas, eram seis e meia, eram sete e meia. Às oito horas, pousei o livro e comecei a esperá-la. Fiquei sentado neste sofá, nesta sala, a esperá-la. Olho para este relógio. São onze horas. Ainda não voltaste. Penso em tudo. Espero-te. Imagino tudo. Onde estás? Tudo me parece possível e impossível.