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[sobre os sismos II]
Zero graus na escala de Peixoto
José Luís Peixoto
A Capital, 14 de Dezembro, 2004
Não senti nada. A minha mãe telefonou-me a meio da tarde e, antes de dizer qualquer coisa, perguntou-me: «sentiste?» E eu, que passei o dia sentado a escrever, com os estores da janela corridos à minha frente - nem sequer a imagem da rua, das pessoas e dos carros que passam, do dia a anoitecer - respondi-lhe: «senti o quê?» E ela, admirada com a minha admiração, a falar-me do terramoto, da cadeira a tremer lentamente sobre os mosaicos, quase como um zumbido, quase a andar sozinha. Não senti nada. E parece-me que não posso achar que gostava de ter sentido. Parece-me que, se confessar a mim próprio «gostava de ter sentido», tenho de bater três vezes na madeira, tenho de dizer lagarto lagarto lagarto, porque não posso desejar apenas para satisfação da minha curiosidade aquilo que pode trazer tanto sofrimento. Mas a verdade é que invejo - bater três vezes na madeira, lagarto lagarto lagarto - o entusiasmo com que a minha mãe me perguntou: «sentiste?» Não senti nada. Tento convencer-me que ter uma vida em que se escreve romances é assim. Ganha-se e perde-se. Ganha-se exactamente onde se perde. Muitas vezes tive amigos a dizerem-me: «tens de vir comigo a tal parte», ou «não podes perder tal coisa». Quase sempre, troquei isso por parágrafos, por capítulos ou, nos dias piores, como hoje, troquei isso pela frustração de passar o dia inteiro sentado, com os estores corridos à minha frente, a tentar escrever e a não gostar do resultado, a tentar de novo e a achar que todas as tentativas eram más, cada vez piores e, à noite, a não ter nada que me conforte, nem um parágrafo bem conseguido, nem uma metáfora certeira, nem um terramoto - bater três vezes na madeira, lagarto lagarto lagarto - que me mostre que foi um dia em que estive vivo.