26.8.14

#1 [livros inesperados]



Passado na Catalunha rural do início dos anos sessenta do século XX, Cânfora é uma história de amores e desamores, de ciúmes e invejas, de ternura e sofrimento, que convoca os fantasmas do passado, as luz e o conforto que chegam, os ares e os ecos da cidade de Barcelona e os sonhos de uma vida melhor.
   

22.8.14

#1 [e aos primeiros raios do amanhecer...]

(...) Vi-me por fim, depois da batalha, caminhando por uma planície desolada, tão só como fria é a eternidade... às vezes ainda encontro uma marca do combate, ou um antigo companheiro que se cruza comigo sem se atrever a levantar os olhos.
- Porquê eu, então? Porque não procuraste no outro grupo, entre os que vencem?... Eu só ganho batalhas à escala de 1:5000.
A jovem voltou-se para o longe, para a distância. O sol despontava nesse instante e o primeiro raio de luz horizontal cortou a manhã como um traço fino e avermelhado que incidia directamente no seu olhar. Quando se voltou de novo para Corso, este sentiu uma vertigem ao encarar toda aquela luz reflectida nos olhos verdes.
- Porque a lucidez nunca vence. E nunca valeu a pena seduzir um imbecil.
Aproximou então os lábios e beijou-o lentamente, com infinita doçura. Como se tivesse esperado uma eternidade para fazer aquilo.
(...)

Arturo Pérez-RevertPérez-Reverte
in O Clube Dumas

17.8.14

#2 [Sepúlveda igual a si mesmo...]


Os caracóis que vivem no prado chamado País do Dente-de-Leão, sob a frondosa planta do calicanto, estão habituados a um estilo de vida pachorrento e silencioso, escondidos do olhar ávido dos outros animais, e a chamar uns aos outros simplesmente «caracol». Um deles, no entanto, acha injusto não ter um nome e fica especialmente interessado em conhecer os motivos da lentidão. Por isso, e apesar da reprovação dos restantes caracóis, embarca numa viagem que o vai levar ao encontro de uma coruja melancólica e de uma tartaruga sábia, que o guiam na compreensão do valor da memória e da verdadeira natureza da coragem, e o ajudam a orientar os seus companheiros numa aventura ousada rumo à liberdade.

#1 [leituras de verão...]



(…)
Foi isso que disse a Barbara, que seguia ao meu lado no carro. – Nunca vamos chegar a Persépolis – disse eu, - não vamos resistir à viagem.
- Quatrocentos quilómetros – disse ela. – Mas tu não fizeste já esta viagem?
- Precisamente por isso- respondi, - na primeira vez ousamos tudo, porque não conhecemos a modéstia. Mas depois, depois não devemos cair em tentação outra vez.
 - Quanto a isso – disse Barbara, - fui eu quem te fez cair em tentação. Fui eu quem te convenceu a faz der esta viagem. Não me digas agora que estás arrependida!
- De qualquer maneira, teria tentado outra vez.
- De qualquer maneira?
- É que neste país temos de estar duas vezes certos das coisas que amamos.
- Uma defesa contra esta impressão de estarmos a sonhar?
- Sim – disse eu, - faz-me medo. Tenho medo do efémero.
Mas já o nome de Persépolis era imperecível e intocável, e ninguém podia esquecer a visão das suas ruínas.
- Este país faz de nós cobardes – disse Barbara.
 (...)

Annemarie Schwarzenbach 
in Morte na Pérsia

7.8.14

#2 [Mães e Avós da Praça de Maio]


Buenos Aires 5 de agosto 2014, Estela de Carlotto e Guido Carlotto

Após 36 anos, Estela Carlotto, presidenta da ONG Avós da Praça de Maio, recuperou o seu neto Guido. Mais uma homenagem à luta, à coragem, à persistencia e à dignidade. Já são 114 @s net@s recuperad@s.

#1 [será que passa?]


3.8.14

# [das esperanças e das dúvidas que o tempo constrói]



(…) As guerras terminaram, segundo se diz agora em Paris e em Berlim e em toda a parte; os conflitos hão-de ser resolvidos por essa famosa Sociedade das Nações e as armas só servirão para os desfiles, os museus e a caça. Oxalá seja verdade, embora eu me permita duvidar, (…). 

Eduardo Mendonza, in 
A verdade sobre o caso Savolta

26.7.14

#1 [...]

Nesse fim de Julho as luzes pareciam outras. Os odores eram fortes e as estrelas revelavam-se em perfeitas constelações, deixando os sentidos à flor da pele.
De um momento pra o outro, sem aviso, o bosque encantado foi ocupado por personagens de uma história fantástica, vinda de outros tempos.
Desenrolou-se então uma série de encontros e desencontros, de histórias de amores impossíveis, de partidas do destino, que se estenderam noite fora e se esfumaram nos alvores do novo dia.
Ao acordar, o cansaço no corpo e memória difusa de algo que, apesar de indizível, foi bom. Terá tudo isto sido real ou apenas mais um sonho de uma noite de verão?

23.7.14

#1 [disso de se gostar sem explicação]

Alguns gostam de poesia 

Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska

18.7.14

#1 [palavras que nos marcam]

Lí a notícia da morte do João Ubaldo Ribeiro e, vai daí, bateu um enorme saudosismo das suas palavras...