17.8.14

#1 [leituras de verão...]



(…)
Foi isso que disse a Barbara, que seguia ao meu lado no carro. – Nunca vamos chegar a Persépolis – disse eu, - não vamos resistir à viagem.
- Quatrocentos quilómetros – disse ela. – Mas tu não fizeste já esta viagem?
- Precisamente por isso- respondi, - na primeira vez ousamos tudo, porque não conhecemos a modéstia. Mas depois, depois não devemos cair em tentação outra vez.
 - Quanto a isso – disse Barbara, - fui eu quem te fez cair em tentação. Fui eu quem te convenceu a faz der esta viagem. Não me digas agora que estás arrependida!
- De qualquer maneira, teria tentado outra vez.
- De qualquer maneira?
- É que neste país temos de estar duas vezes certos das coisas que amamos.
- Uma defesa contra esta impressão de estarmos a sonhar?
- Sim – disse eu, - faz-me medo. Tenho medo do efémero.
Mas já o nome de Persépolis era imperecível e intocável, e ninguém podia esquecer a visão das suas ruínas.
- Este país faz de nós cobardes – disse Barbara.
 (...)

Annemarie Schwarzenbach 
in Morte na Pérsia

7.8.14

#2 [Mães e Avós da Praça de Maio]


Buenos Aires 5 de agosto 2014, Estela de Carlotto e Guido Carlotto

Após 36 anos, Estela Carlotto, presidenta da ONG Avós da Praça de Maio, recuperou o seu neto Guido. Mais uma homenagem à luta, à coragem, à persistencia e à dignidade. Já são 114 @s net@s recuperad@s.

#1 [será que passa?]


3.8.14

# [das esperanças e das dúvidas que o tempo constrói]



(…) As guerras terminaram, segundo se diz agora em Paris e em Berlim e em toda a parte; os conflitos hão-de ser resolvidos por essa famosa Sociedade das Nações e as armas só servirão para os desfiles, os museus e a caça. Oxalá seja verdade, embora eu me permita duvidar, (…). 

Eduardo Mendonza, in 
A verdade sobre o caso Savolta

26.7.14

#1 [...]

Nesse fim de Julho as luzes pareciam outras. Os odores eram fortes e as estrelas revelavam-se em perfeitas constelações, deixando os sentidos à flor da pele.
De um momento pra o outro, sem aviso, o bosque encantado foi ocupado por personagens de uma história fantástica, vinda de outros tempos.
Desenrolou-se então uma série de encontros e desencontros, de histórias de amores impossíveis, de partidas do destino, que se estenderam noite fora e se esfumaram nos alvores do novo dia.
Ao acordar, o cansaço no corpo e memória difusa de algo que, apesar de indizível, foi bom. Terá tudo isto sido real ou apenas mais um sonho de uma noite de verão?

23.7.14

#1 [disso de se gostar sem explicação]

Alguns gostam de poesia 

Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska

18.7.14

#1 [palavras que nos marcam]

Lí a notícia da morte do João Ubaldo Ribeiro e, vai daí, bateu um enorme saudosismo das suas palavras...

11.7.14

#1 [Em busca do tempo perdido]



(…)
Procurou uma forma mais precisa de explanar o seu raciocínio.
- É como se estivesse a sonhar o sonho de outra pessoa. Como se partilhássemos os mesmos sentimentos em simultâneo. Só que não consigo perceber exactamente o que significa essa simultaneidade. Os nossos sentimentos parecem estar extremamente próximos, mas, na realidade, existe uma considerável distância entre nós.
- Quem sabe se Proust não teria intenção de criar esse tipo de sensação?
Aomame não fazia a menor ideia.
- No entanto, por outro lado – disse Tamaru -, no mundo real, o tempo avança sempre em frente. Nunca se detém e nunca retrocede.
- Sim, claro. No mundo real, o tempo avança sempre.
Ao mesmo tempo que dizia isto, Aomame olhou para a porta de vidro. Seria mesmo verdade? Que o tempo avança sempre?
(…)
Haruki Murakami in 1Q84 (3)

7.7.14

#1 [guia de leitura de 1Q84]

- Certo: duas luas. É esse o sinal de que as agulhas da vida mudaram. É assim que se distinguem os dois mundos. Contudo, nem toda a gente consegue ver as duas luas. Para falar verdade, a maior parte das pessoas nem sequer tem consciência disso. Por outras palavras, o número de pessoas que tem consciência de que estamos em 1Q84 é bastante limitado.
- A maior parte das pessoas do mundo não sabe que o correr do tempo foi alterado?
- Certo. Para a maior parte das pessoas, estamos no mesmo velho mundo vulgar, onde sempre estivemos. É a isto que me refiro quando digo que “este é o mundo real”.
- Então as agulhas da via mudaram – disse Aomame. – Se não tivessem mudado, não estaríamos os dois aqui reunidos. Será isto o que está a tentar dizer?
- Isso é a única coisa que ninguém sabe. É uma questão de probabilidades. Mas, provavelmente, é esse o caso.
- O que está a afirmar é um facto concreto, ou não passa de uma hipótese?
- Boa pergunta. No entanto. É praticamente impossível estabelecer uma distinção oentre os dois. Lembras-te da canção? Without your love, it’s a honky-tonk parade – trauteou a melodia – conheces?
- Isso mesmo. Basicamente, 1984 e 1Q84 funcionam Segundo os mesmos princípios. Se não acreditas no mundo e se não há amor, então tudo é falso. Não importa de que mundo falamos, não importa de que tipo de mundo falamos, a linha que separa os actos das hipóteses quase não existe. Só se pode ver com o olhar interior, o olho da mente.
- Quem mudou as agulhas da via?
- Quem mudou as agulhas? Eis outra questão difícil. Trata-se de um caso em que a lógica de causa efeito é pouco relevante.
(…) 

Haruki Murakami in 1Q84 (2)

2.7.14

[quanto tempo caberá dentro destes dez anos?]

http://saldalingua.files.wordpress.com/2011/01/fernando_lemos_sophia_de_mello_breyner_a_guerreira.jpg
Sophia, por Fernando Lemos


XIV 
 
Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho

Sophia de Mello Breyner Andresen
 in Navegações

1.7.14

#2 sobre o Emmy atribuido a Carlos do Carmo

É isto que há para dizer



e, já agora, é de repetir a dose pela voz da Ana Bacalhau.