3.8.14

# [das esperanças e das dúvidas que o tempo constrói]



(…) As guerras terminaram, segundo se diz agora em Paris e em Berlim e em toda a parte; os conflitos hão-de ser resolvidos por essa famosa Sociedade das Nações e as armas só servirão para os desfiles, os museus e a caça. Oxalá seja verdade, embora eu me permita duvidar, (…). 

Eduardo Mendonza, in 
A verdade sobre o caso Savolta

26.7.14

#1 [...]

Nesse fim de Julho as luzes pareciam outras. Os odores eram fortes e as estrelas revelavam-se em perfeitas constelações, deixando os sentidos à flor da pele.
De um momento pra o outro, sem aviso, o bosque encantado foi ocupado por personagens de uma história fantástica, vinda de outros tempos.
Desenrolou-se então uma série de encontros e desencontros, de histórias de amores impossíveis, de partidas do destino, que se estenderam noite fora e se esfumaram nos alvores do novo dia.
Ao acordar, o cansaço no corpo e memória difusa de algo que, apesar de indizível, foi bom. Terá tudo isto sido real ou apenas mais um sonho de uma noite de verão?

23.7.14

#1 [disso de se gostar sem explicação]

Alguns gostam de poesia 

Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska

18.7.14

#1 [palavras que nos marcam]

Lí a notícia da morte do João Ubaldo Ribeiro e, vai daí, bateu um enorme saudosismo das suas palavras...

11.7.14

#1 [Em busca do tempo perdido]



(…)
Procurou uma forma mais precisa de explanar o seu raciocínio.
- É como se estivesse a sonhar o sonho de outra pessoa. Como se partilhássemos os mesmos sentimentos em simultâneo. Só que não consigo perceber exactamente o que significa essa simultaneidade. Os nossos sentimentos parecem estar extremamente próximos, mas, na realidade, existe uma considerável distância entre nós.
- Quem sabe se Proust não teria intenção de criar esse tipo de sensação?
Aomame não fazia a menor ideia.
- No entanto, por outro lado – disse Tamaru -, no mundo real, o tempo avança sempre em frente. Nunca se detém e nunca retrocede.
- Sim, claro. No mundo real, o tempo avança sempre.
Ao mesmo tempo que dizia isto, Aomame olhou para a porta de vidro. Seria mesmo verdade? Que o tempo avança sempre?
(…)
Haruki Murakami in 1Q84 (3)

7.7.14

#1 [guia de leitura de 1Q84]

- Certo: duas luas. É esse o sinal de que as agulhas da vida mudaram. É assim que se distinguem os dois mundos. Contudo, nem toda a gente consegue ver as duas luas. Para falar verdade, a maior parte das pessoas nem sequer tem consciência disso. Por outras palavras, o número de pessoas que tem consciência de que estamos em 1Q84 é bastante limitado.
- A maior parte das pessoas do mundo não sabe que o correr do tempo foi alterado?
- Certo. Para a maior parte das pessoas, estamos no mesmo velho mundo vulgar, onde sempre estivemos. É a isto que me refiro quando digo que “este é o mundo real”.
- Então as agulhas da via mudaram – disse Aomame. – Se não tivessem mudado, não estaríamos os dois aqui reunidos. Será isto o que está a tentar dizer?
- Isso é a única coisa que ninguém sabe. É uma questão de probabilidades. Mas, provavelmente, é esse o caso.
- O que está a afirmar é um facto concreto, ou não passa de uma hipótese?
- Boa pergunta. No entanto. É praticamente impossível estabelecer uma distinção oentre os dois. Lembras-te da canção? Without your love, it’s a honky-tonk parade – trauteou a melodia – conheces?
- Isso mesmo. Basicamente, 1984 e 1Q84 funcionam Segundo os mesmos princípios. Se não acreditas no mundo e se não há amor, então tudo é falso. Não importa de que mundo falamos, não importa de que tipo de mundo falamos, a linha que separa os actos das hipóteses quase não existe. Só se pode ver com o olhar interior, o olho da mente.
- Quem mudou as agulhas da via?
- Quem mudou as agulhas? Eis outra questão difícil. Trata-se de um caso em que a lógica de causa efeito é pouco relevante.
(…) 

Haruki Murakami in 1Q84 (2)

2.7.14

[quanto tempo caberá dentro destes dez anos?]

http://saldalingua.files.wordpress.com/2011/01/fernando_lemos_sophia_de_mello_breyner_a_guerreira.jpg
Sophia, por Fernando Lemos


XIV 
 
Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho

Sophia de Mello Breyner Andresen
 in Navegações

1.7.14

#2 sobre o Emmy atribuido a Carlos do Carmo

É isto que há para dizer



e, já agora, é de repetir a dose pela voz da Ana Bacalhau.

#1 [assim é a Lua...]



A Lua observava a Terra de perto há mais tempo do que qualquer pessoa. Deve ter testemunhado todos os fenómenos que ocorreram – e todos os actos levados a cabo – à face da Terra. Mas a Lua mantinha-se em silêncio: não contava histórias. Limitava-se a carregar o peso do passado, fria e apropriadamente. Na Lua não havia ar ou vento. O seu vácuo era perfeito para preservar memórias intocadas. Ninguém podia abrir o coração da Lua. Aomane ergueu o copo para ela e perguntou:
- Dormiste abraçada a alguém nos últimos tempos?
A Lua não respondeu.
- Tens amigos? – perguntou.
A Lua não respondeu.
- Nunca te cansas de levar uma vida tão fria?
A Lua não respondeu.

Haruki Murakami in 1Q84 (1)

16.6.14

#1 [da história...]

Então a metrópole afinal é isto.

Dulce Maria Cardoso, in O Retorno

12.6.14

#1 [a importância ]

De voltar onde já fomos felizes.

6.6.14

#1 [depois de dois anos de maturação]

O resultado está, finalmente, no papel.

Beja, A; Ferrinho, P; Craveiro, I; (2014): Evolução da prevenção e combate à obesidade de crianças e jovens em Portugal ao nível do planeamento estratégico. Revista  Portuguesa de Saúde Pública 32:10-7.  (aqui)

5.6.14

#1 [chama ainda acesa]



(...)
Tentei tranquiliza-lo.
- Coisas de um Japonês que escreveu um livro chamado O Fim da História.
- Um Japonês? Nunca entendi os japoneses… Não havia japoneses nas Brigadas Internacionais.
Sorri àquela recordação. Tudo partia da referência única, dessa guerra tão distante, de amor consumado e morte vencida, dessa guerra mal perdida e bem vivida, e sofrida, e cruel, aval de martírios futuros, ocultação dos mitos. Meu pai não parava de me contar a guerra civil. O resto da sua vida não passara dum longo pós-guerra, dum epílogo da sua juventude, dum passado da sua paixão. Porventura teria resistido se assim não fosse? Eu imaginava esse balanço terrível, com o qual não ousara confrontá-lo. Se, no fundo, ele passara em claro nas suas memórias faladas quase tudo o que viera depois, é porque se lhe esvaíra o futuro com o sangue vertido na terra de Espanha. O que viera depois era, portanto, supérfluo.
(...)

Álvaro Guerra, in
No Jardim das Paixões Extintas

30.5.14

#1 [Sempre eles...]

Jacarandás
São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar.

Eugénio de Andrade

29.5.14

#1 [Miss You]

Ontem, na Antena 3, ouvi um programa sobre a passagem dos Stones pelo Disco Sound.
Uma verdadeira surpresa  :)
(...)
Oh everybody waits so long
Oh baby why you wait so long
Won't you come on! Come on!
(...)

28.5.14

#1 [para que a memória sirva o futuro...]

Aqui jazem 
cinco soldados franceses,
mortos com as botas nos pés, 
em busca do vento, 
onde murcham as rosas, 
há muito tempo.

Sebastien Japrisot, in 

26.5.14

# [Dos dias que passam]

Nothing is absolute.

Everything changes, everything moves, everything revolves, everything flies and goes away.

Frida Kahlo

23.5.14

#1 [...]

"Num mesmo dia, com poucas horas de intervalo, as minhas mãos alternavam a delicadeza do artista com a frieza do verdugo, e posso garantir que esse duplo comportamento não teve em mim qualquer efeito de esquizofrenia ou desiquilíbrio."

Eugenio Fuentes, in As mãos do Pianista