el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
Convido-vos para uma visita às Caves da Murganheira através da minha lente.
Duas mil fotos desde Novembro de 2004, as últimas mil desde Setembro de 2008. Muita água correu debaixo das muitas pontes destes quase sete anos. E correram também livros, jornais, revistas e uma exposição... nada mal.
Apesar do título que dei a esta foto, já estou a pensar nas próximas mil...
Dizia Jaime Cortesão, sobre os vinhedos do Douro e quem os ergueu, que são os Lusíadas sem Camões. Não encontro melhor descrição.
#1
[...]
Para onde nos leva o caminho escolhido…
Mês e meio após as eleições, as verdadeiras intenções das direitas estão desvendadas: cumprir a receita que a Troika impôs, e que PSD, CDS e PS fingiram negociar, e ir além destas exigências, submetendo a grande maioria da população a um regime de choque e pavor social.
Publicado na Edição nº 28 do Correio de Sintra, 22 de Julho de 2011

Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a
Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
#1
[...]
Quase experimental
Madrugadas tensas e
revoluções por fazer
Viagens com bilhetes
em aberto
Amores perdidos,
afogados, afogueados
Repetições, aliterações
metáforas duvidosas,
afirmações exaltadas
de uma coragem esquecida
O calor de um copo e a sede
nas margens da vida vivida
Os dedos que nunca tocam as
palavras sempre ausentes dos
dedos. Em silêncio.
Não sei que espécie
de conforto
(ou salvação)
procurar nos fundos
da poesia
16 de Julho de 2011

Uma fotografia de 2010, inspirada pela Legião Urbana

Este ano a minha época balnear começou na praia da Ursa, onde voltei, passados tantos anos (nem sei quantos...).
#1
[no miradouro mais bonito da cidade]
Sta Catarina, 3 da manhã
Falaste-me então da pororóca do Tejo
que, soube mais tarde,
também se chama macaréu.
E julguei antever, nos teus olhos,
a inquietação desse abraço
de águas aparentemente contrárias,
empurradas pelo improvável destino
de fertilizar terras secas.
Lá em baixo, acompanhando-nos,
uma estrada escura, silenciosa,
no seu curso para o mar.
4 de Julho de 2011
O último dia em Buenos Aires foi de clássico. A cidade parou para ver a partida entre o Boca e o River.Conseguimos lugar num café, entre uma maré azul e amarela de porteños, onde pontuava uma ou outra camisola branca e vermelha do arqui rival. Fomos olhados de lado até perceberem que a nossa curiosidade era sociológica e que não nutríamos nenhuma simpatia em especial – antes assim, esquisitos, que do River, terão pensado alguns.
Apesar da animação no estádio, que parecia um vulcão em actividade, e da vibração sentida por toda a cidade, o jogo foi realmente aborrecido. Acabou empatado, não me lembro se a um ou a zero. Foi chato.
No meio de tanta emoção vivida nas bancadas, saltou-nos aos olhos um cartaz exibido, de forma jucosa, pelos porteños aos de Rio de la Plata: io te vi en último (o sotaque disto é delicioso). Ainda hoje não sei o que estava por trás da inscrição, mas, e porque o futebol é um fenómeno global, aquilo cheirou-me a provocação da grossa.
Pergunto-me: o que pensarão agora os do Boca face ao descalabro do River, que acaba de descer à segunda divisão? Até deve estalar!
Fesde que vi, na capa do Público de hoje, a foto da tomada de posse do governo que não paro de pensar nesta outra
E não, não se trata de qualquer analogia fácil entre os senhores, até porque um é liberal e africanista enquanto o outro foi conservador e colonialista até ao fim.#1
[...]
Um dia olhei-o fundo nos olhos. Estendi-lhe o livro e, tremendo, declarei: compañero.
Algo se quebrou ali dentro, alterando a modorrenta rotina dos autógrafos. E, se não chegasse o brilho que lhe cresceu no olhar, o tremor com que agarrou o volume ou a voz sussurrante com que me falou, esta inesperada turbulência confirmou-se na posterior comparação da minha dedicatória com as de quem me acompanhava nessa peregrinação: foi a única que saiu da pauta.
Sepúlveda ensinou-me muito. A paixão pela patagónica imensidão do sul nasceu-me das suas mãos. O humor desconcertante de quem sofre e ainda se ri, a dignidade dos vencidos e das vencidas, a urgência de um amor que pode durar um fósforo ou uma vida. O vício das viagens. A babélica relação que, num qualquer ponto do planeta, podemos estabelecer com a mais inesperada pessoa: três palavras cruzadas, dois silêncios, um copo tocado, petiscos diversos, o prazer da risada ou a emoção de um jogo de bola. Ainda ensina.
Não resisto ao estilo mordaz, inverosímil. Às frases curtas, cheias de poesia, de filosofia, de despretensão. Às narrativas oblíquas, em volumes pequenos e sucintos, cheios de mundos e de fins de mundo, de cidades e selvas, de periferias da humanidade. Ao desvendar dos fantasmas que carregamos e aos diálogos com companheiros que estão do outro lado do espelho.
E depois há também as referências literárias, gastronómicas, geográficas ou políticas. E a estúpida sensação que um outro mundo não só é possível como existe, debaixo da aparência de normalidade que este transporta.
Pensei em tudo isto hoje, enquanto relia, de um tiro, o Diário de Um Killler Sentimental, procurando uma história de amor que, afinal, não estava ali. A certa altura, quase sem me aperceber, puxei da habitual prece: Obrigado compañero, vale sempre a pena voltar aqui.
#1
[...]
A pressão dos mercados
Emprestem-me palavras para o poema; ou dêem-me
sílabas a crédito, para que as ponha a render
no mercado. Mas sobem-me a cotação da metáfora,
para que me limite a imagens simples, as mais
baratas, as que ninguém quer: uma flor? Um perfume
do campo? Aquelas ondas que rebentam, umas
atrás das outras, sem pedir juros a quem as vê?
É que as palavras estão caras. Folheio dicionários
em busca de palavras pequenas, as que custem
menos a pagar, para que não exijam reembolsos
se as meter, ao desbarato, no fim do verso. O
problema é que as rimas me irão custar o dobro,
e por muito que corra os mercados o que me
propõem está acima das minhas posses, sem recobro.
E quando me vierem pedir o que tenho de pagar,
a quantos por cento o terei de dar? Abro a carteira,
esvazio os bolsos, vou às contas, e tudo vazio: símbolos,
a zero; alegorias, esgotadas; metáforas, nem uma.
A quem recorrer? Que fundo de emergência poética
me irá salvar? Então, no fim, resta-me uma sílaba - o ar -
ao menos com ela ninguém me impedirá de respirar.
Nuno Júdice in JL 1058,
20 de abril de 2011
Jean Echenoz in Correr
saber mais sobre Emil Zatopek
#2
[Doçura matinal]
#1
[...]
Os telegramas tornaram-se então o nosso único recurso. Seres ligados pela inteligência, pelo coração ou pela carne ficaram reduzidos a procurar os sinais desta comunhão antiga nas maiúsculas de um telegrama de dez palavras. E como, na realidade, as fórmulas que se podem utilizar num telegrama se esgotam depressa, longas vidas em comum ou paixões dolorosas resumiram-se rapidamente a uma troca periódica de fórmulas feitas, como «Estou bem. Penso em ti. Saudades».
Alber Camus in A Peste
Para concluir, volto ao tema do subtítulo deste livro: trabalho e capital na era do FMI. Escrevi no início que o FMI se dedica, desde há muitos anos, a forçar ajustamentos económicos cuja chave é a redução duradoura dos salários. Essa ideia tornou-se o dogma dominante da política económica europeia. É aplicada na Grécia, na Irlanda, em Portugal e em Espanha. O que o FMI propõe, portanto, é reconstruir a economia com o aumento da exploração. É a solução da teoria económica, acrescentará algum dos mandantes.