[a contar os dias]
Para me perder nas paisagens do Douro, na serra Alentejana e nos seus sons do verão...
#1
[...]
Para onde nos leva o caminho escolhido…
Mês e meio após as eleições, as verdadeiras intenções das direitas estão desvendadas: cumprir a receita que a Troika impôs, e que PSD, CDS e PS fingiram negociar, e ir além destas exigências, submetendo a grande maioria da população a um regime de choque e pavor social.
Publicado na Edição nº 28 do Correio de Sintra, 22 de Julho de 2011

Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a
Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
#1
[...]
Quase experimental
Madrugadas tensas e
revoluções por fazer
Viagens com bilhetes
em aberto
Amores perdidos,
afogados, afogueados
Repetições, aliterações
metáforas duvidosas,
afirmações exaltadas
de uma coragem esquecida
O calor de um copo e a sede
nas margens da vida vivida
Os dedos que nunca tocam as
palavras sempre ausentes dos
dedos. Em silêncio.
Não sei que espécie
de conforto
(ou salvação)
procurar nos fundos
da poesia
16 de Julho de 2011

Uma fotografia de 2010, inspirada pela Legião Urbana

Este ano a minha época balnear começou na praia da Ursa, onde voltei, passados tantos anos (nem sei quantos...).
#1
[no miradouro mais bonito da cidade]
Sta Catarina, 3 da manhã
Falaste-me então da pororóca do Tejo
que, soube mais tarde,
também se chama macaréu.
E julguei antever, nos teus olhos,
a inquietação desse abraço
de águas aparentemente contrárias,
empurradas pelo improvável destino
de fertilizar terras secas.
Lá em baixo, acompanhando-nos,
uma estrada escura, silenciosa,
no seu curso para o mar.
4 de Julho de 2011
O último dia em Buenos Aires foi de clássico. A cidade parou para ver a partida entre o Boca e o River.Conseguimos lugar num café, entre uma maré azul e amarela de porteños, onde pontuava uma ou outra camisola branca e vermelha do arqui rival. Fomos olhados de lado até perceberem que a nossa curiosidade era sociológica e que não nutríamos nenhuma simpatia em especial – antes assim, esquisitos, que do River, terão pensado alguns.
Apesar da animação no estádio, que parecia um vulcão em actividade, e da vibração sentida por toda a cidade, o jogo foi realmente aborrecido. Acabou empatado, não me lembro se a um ou a zero. Foi chato.
No meio de tanta emoção vivida nas bancadas, saltou-nos aos olhos um cartaz exibido, de forma jucosa, pelos porteños aos de Rio de la Plata: io te vi en último (o sotaque disto é delicioso). Ainda hoje não sei o que estava por trás da inscrição, mas, e porque o futebol é um fenómeno global, aquilo cheirou-me a provocação da grossa.
Pergunto-me: o que pensarão agora os do Boca face ao descalabro do River, que acaba de descer à segunda divisão? Até deve estalar!
Fesde que vi, na capa do Público de hoje, a foto da tomada de posse do governo que não paro de pensar nesta outra
E não, não se trata de qualquer analogia fácil entre os senhores, até porque um é liberal e africanista enquanto o outro foi conservador e colonialista até ao fim.#1
[...]
Um dia olhei-o fundo nos olhos. Estendi-lhe o livro e, tremendo, declarei: compañero.
Algo se quebrou ali dentro, alterando a modorrenta rotina dos autógrafos. E, se não chegasse o brilho que lhe cresceu no olhar, o tremor com que agarrou o volume ou a voz sussurrante com que me falou, esta inesperada turbulência confirmou-se na posterior comparação da minha dedicatória com as de quem me acompanhava nessa peregrinação: foi a única que saiu da pauta.
Sepúlveda ensinou-me muito. A paixão pela patagónica imensidão do sul nasceu-me das suas mãos. O humor desconcertante de quem sofre e ainda se ri, a dignidade dos vencidos e das vencidas, a urgência de um amor que pode durar um fósforo ou uma vida. O vício das viagens. A babélica relação que, num qualquer ponto do planeta, podemos estabelecer com a mais inesperada pessoa: três palavras cruzadas, dois silêncios, um copo tocado, petiscos diversos, o prazer da risada ou a emoção de um jogo de bola. Ainda ensina.
Não resisto ao estilo mordaz, inverosímil. Às frases curtas, cheias de poesia, de filosofia, de despretensão. Às narrativas oblíquas, em volumes pequenos e sucintos, cheios de mundos e de fins de mundo, de cidades e selvas, de periferias da humanidade. Ao desvendar dos fantasmas que carregamos e aos diálogos com companheiros que estão do outro lado do espelho.
E depois há também as referências literárias, gastronómicas, geográficas ou políticas. E a estúpida sensação que um outro mundo não só é possível como existe, debaixo da aparência de normalidade que este transporta.
Pensei em tudo isto hoje, enquanto relia, de um tiro, o Diário de Um Killler Sentimental, procurando uma história de amor que, afinal, não estava ali. A certa altura, quase sem me aperceber, puxei da habitual prece: Obrigado compañero, vale sempre a pena voltar aqui.
#1
[...]
A pressão dos mercados
Emprestem-me palavras para o poema; ou dêem-me
sílabas a crédito, para que as ponha a render
no mercado. Mas sobem-me a cotação da metáfora,
para que me limite a imagens simples, as mais
baratas, as que ninguém quer: uma flor? Um perfume
do campo? Aquelas ondas que rebentam, umas
atrás das outras, sem pedir juros a quem as vê?
É que as palavras estão caras. Folheio dicionários
em busca de palavras pequenas, as que custem
menos a pagar, para que não exijam reembolsos
se as meter, ao desbarato, no fim do verso. O
problema é que as rimas me irão custar o dobro,
e por muito que corra os mercados o que me
propõem está acima das minhas posses, sem recobro.
E quando me vierem pedir o que tenho de pagar,
a quantos por cento o terei de dar? Abro a carteira,
esvazio os bolsos, vou às contas, e tudo vazio: símbolos,
a zero; alegorias, esgotadas; metáforas, nem uma.
A quem recorrer? Que fundo de emergência poética
me irá salvar? Então, no fim, resta-me uma sílaba - o ar -
ao menos com ela ninguém me impedirá de respirar.
Nuno Júdice in JL 1058,
20 de abril de 2011
Jean Echenoz in Correr
saber mais sobre Emil Zatopek
#2
[Doçura matinal]
#1
[...]
Os telegramas tornaram-se então o nosso único recurso. Seres ligados pela inteligência, pelo coração ou pela carne ficaram reduzidos a procurar os sinais desta comunhão antiga nas maiúsculas de um telegrama de dez palavras. E como, na realidade, as fórmulas que se podem utilizar num telegrama se esgotam depressa, longas vidas em comum ou paixões dolorosas resumiram-se rapidamente a uma troca periódica de fórmulas feitas, como «Estou bem. Penso em ti. Saudades».
Alber Camus in A Peste
Para concluir, volto ao tema do subtítulo deste livro: trabalho e capital na era do FMI. Escrevi no início que o FMI se dedica, desde há muitos anos, a forçar ajustamentos económicos cuja chave é a redução duradoura dos salários. Essa ideia tornou-se o dogma dominante da política económica europeia. É aplicada na Grécia, na Irlanda, em Portugal e em Espanha. O que o FMI propõe, portanto, é reconstruir a economia com o aumento da exploração. É a solução da teoria económica, acrescentará algum dos mandantes.

Anoitecer em Buenos Aires
As longas avenidas talvez imaginárias
demonstram-me a existência de lugares
que poderiam ter-me pertencido
numa idade passada; é irreal
agora percorrê-las: tê-lo-ia
sido sempre, não poderia haver
motivo para dor num tempo que como este
presente se divide; é um espectro tardio
o espaço finalmente criado pelo olhar:
aí estás olhando-me nos olhos
cidade sob a forma de jovem ser unívoco
ainda inexistente no tempo de uma vida
vivendo no espaço que não teve o seu tempo,
e tarde volta do tempo onde não esteve
Filme turco de Semih Kaplanoğlu (1963, İzmir, Turquia), Mel (Bal) (...) conta é a história do apicultor Yakup (Erdal Beşikçioğlu) que procura implantar as suas colmeias em novos locais de uma longínqua e ainda pouco desenvolvida região do Mar Negro. Um dia, ao subir a uma árvore para relocalizar a colmeia, o apicultor cai. (ler mais)#3
[a reler]
"Voltou então a sentar-se. Mas o meu advogado, a paciência esgotada, gritou levantando os braços, de tal forma que as mangas, caindo para trás, descobriram as pregas de uma camisa engomada: «Enfim, estão a acusá-lo de ter assassinado um homem ou de lhe ter morrido a mãe?». O público riu-se. Mas o procurador levantou-se outra vez, ajustou a toga e declarou que era preciso ter a ingenuidade do ilustre defensor, para não sentir que entre as duas ordens de factos havia uma relação profunda, patética, essencial. «Sim – exclamou ele com força - acuso este homem de ter assistido ao enterro da mãe com um coração de criminoso.» Esta declaração parece ter provocado um efeito considerável sobre o júri e sobre o público. O meu advogado encolheu os ombros e limpou o suor que lhe cobria a testa, Mas ele próprio parecia abalado e compreendi, nesta altura, que as coisas não iam bem para mim."
Albert Camus,
O Estrangeiro
"Uma vez disse a mim mesma; vou fazer uma orbita à Terra, 90 minutos. (…)
Através do pórtico vi a Terra a girar enquanto ouvia Callas a cantar Norma, no silêncio da noite, enquanto os meus colegas dormiam.
Desliguei as luzes e só tinha a luz vinda da Terra. Vi o dia, a noite, fogos nas florestas de África, o amanhecer, a Lua a crescer, Foi um momento de alegria extraordinária”
Claudie Haigneré, astronauta francesa,
Finacial Times, 1 de Abril de 2011
#1
[orvil]
Corrijo o comentário que fiz ontem, en passant, ao romance Última Paragem, Massamá: não se trata de um anti livro mas sim de um livro ao contrário.
Ao contrário porque o autor o vai desconstruindo à medida que escreve, dando umas no cravo e outras na ferradura, trocando as voltas ao leitor e virando-o do avesso.
É verdade que, vindo de quem vem, não seria de esperar outra coisa.
É uma estreia auspiciosa, embora um pouco marcado com uma certa arrogância intelectual sobre o que é isso de viver nos subúrbios. É que essa gente triste e à deriva, marcada por ritmos duros e vidas fodidas, está em todo o lado.
A primeira volta completa a explode, o novo dos The Gift, parece confirmar o que as audições parcelares (e a própria imagem da capa) já anunciavam: aquela que foi uma das mais criativas bandas nacionais é hoje, no regresso de um longo período de hibernação, uma caricatura de si mesmo.
#1
[...]
Os hábitos de luta a contra-corrente podem virar para o sectarismo. A desproporção entre a actividade teórica e a possibilidade de verificação prática levam a um exacerbar das disputas doutrinais e ao fetichismo dogmático da letra. Assim como existe um povo do livro, há de facto um comunismo do livro para o qual as divergências tácticas surgem como questão de vida ou de morte. Muitas vezes sem fundamento; às vezes com razão. Não o verificamos senão depois, quando o pássaro de Minerva iniciou o seu voo crepuscular.
Daniel Bensaïd,
in Trotskismos
#1
[escrito em 1993...]
É esta a questão central. É quem quer a mudança que decide que mudança. A Direita muda o que entende convir-lhe, e já vimos o que é, ou aquilo a que se vê politicamente forçada – até ver. As mudanças que a Esquerda propõe ou exige, só a ela cabe decidi-las ou julgá-las. Sendo certo que “só mudará tudo, se não ficar tudo na mesma”. Isto é, terão que mudar coisas essenciais.
João Martins Pereira,
in As voltas que o capitalismo (não) deu

Hoje comemoram-se, oficialmente, os 150 anos da unificação que deu origem a Itália.
Não sei do que gosto mais naquela bota, se da alegria com que se vive, se da volúpia com que se come e bebe, se da simpatia daquela gente ou das suas contradições.
Tenho grandes e doces memórias deste país onde vivi grandes dias (e noites também). São elas que me motivam a assinalar efeméride.
#1
[A Educação Sentimental]
O que chamar a um programa de rádio onde, dia após dia, um psiquiatra aborda assuntos do interesse geral, de cada um e cada uma, de um ponto de vista técnico e, sobretudo, vivido, e com uma conversa ao alcance de todos? Serviço Público de qualidade.
Posso não estar sempre de acordo com Júlio Machado Vaz, mas a verdade é que, sem saber, ele me tem dado uma ajuda preciosa para lidar com os dias que passam e a cimentar ideias, nem que seja por me estimular o exercício do contraditório ou por recordar coisas que já sei.
Recomendo a audição, especialmente para militantes do cepticismo...
#1
[foi o povo pá!]

Foi a poesia que voltou à rua e trouxe consigo a imaginação, a indignação, a raiva e a alegria de quem não consegue ficar calado perante tanta injustiça.
Não foram só os jovens. Foi todo um povo, com os seus sonhos por cumprir e as memórias de tantas lutas, com a sua força e as suas contradições, que se quis fazer ouvir.
Hoje, amanhã, depois e depois, a luta continua.