[got it?]
And love is not the easy thing
The only baggage you can bring...
And love is not the easy thing....
#1
[orvil]
Corrijo o comentário que fiz ontem, en passant, ao romance Última Paragem, Massamá: não se trata de um anti livro mas sim de um livro ao contrário.
Ao contrário porque o autor o vai desconstruindo à medida que escreve, dando umas no cravo e outras na ferradura, trocando as voltas ao leitor e virando-o do avesso.
É verdade que, vindo de quem vem, não seria de esperar outra coisa.
É uma estreia auspiciosa, embora um pouco marcado com uma certa arrogância intelectual sobre o que é isso de viver nos subúrbios. É que essa gente triste e à deriva, marcada por ritmos duros e vidas fodidas, está em todo o lado.
A primeira volta completa a explode, o novo dos The Gift, parece confirmar o que as audições parcelares (e a própria imagem da capa) já anunciavam: aquela que foi uma das mais criativas bandas nacionais é hoje, no regresso de um longo período de hibernação, uma caricatura de si mesmo.
#1
[...]
Os hábitos de luta a contra-corrente podem virar para o sectarismo. A desproporção entre a actividade teórica e a possibilidade de verificação prática levam a um exacerbar das disputas doutrinais e ao fetichismo dogmático da letra. Assim como existe um povo do livro, há de facto um comunismo do livro para o qual as divergências tácticas surgem como questão de vida ou de morte. Muitas vezes sem fundamento; às vezes com razão. Não o verificamos senão depois, quando o pássaro de Minerva iniciou o seu voo crepuscular.
Daniel Bensaïd,
in Trotskismos
#1
[escrito em 1993...]
É esta a questão central. É quem quer a mudança que decide que mudança. A Direita muda o que entende convir-lhe, e já vimos o que é, ou aquilo a que se vê politicamente forçada – até ver. As mudanças que a Esquerda propõe ou exige, só a ela cabe decidi-las ou julgá-las. Sendo certo que “só mudará tudo, se não ficar tudo na mesma”. Isto é, terão que mudar coisas essenciais.
João Martins Pereira,
in As voltas que o capitalismo (não) deu

Hoje comemoram-se, oficialmente, os 150 anos da unificação que deu origem a Itália.
Não sei do que gosto mais naquela bota, se da alegria com que se vive, se da volúpia com que se come e bebe, se da simpatia daquela gente ou das suas contradições.
Tenho grandes e doces memórias deste país onde vivi grandes dias (e noites também). São elas que me motivam a assinalar efeméride.
#1
[A Educação Sentimental]
O que chamar a um programa de rádio onde, dia após dia, um psiquiatra aborda assuntos do interesse geral, de cada um e cada uma, de um ponto de vista técnico e, sobretudo, vivido, e com uma conversa ao alcance de todos? Serviço Público de qualidade.
Posso não estar sempre de acordo com Júlio Machado Vaz, mas a verdade é que, sem saber, ele me tem dado uma ajuda preciosa para lidar com os dias que passam e a cimentar ideias, nem que seja por me estimular o exercício do contraditório ou por recordar coisas que já sei.
Recomendo a audição, especialmente para militantes do cepticismo...
#1
[foi o povo pá!]

Foi a poesia que voltou à rua e trouxe consigo a imaginação, a indignação, a raiva e a alegria de quem não consegue ficar calado perante tanta injustiça.
Não foram só os jovens. Foi todo um povo, com os seus sonhos por cumprir e as memórias de tantas lutas, com a sua força e as suas contradições, que se quis fazer ouvir.
Hoje, amanhã, depois e depois, a luta continua.
É incrível como é que, passados 12 anos da formação do Bloco de Esquerda, a direcção do PCP continua tão enleada no seu sectarismo...
O secretário-geral comunista afastou hoje qualquer possibilidade de convergência com o Bloco de Esquerda, questionando qual é a ideologia do partido liderado por Francisco Louçã, e afirmou que o PCP "é a esquerda verdadeira" - LUSA, 05 mar
#2
[é só fazer algumas adaptações]
“Ora, basta um mínimo de atenção e de reflexão para nos convencermos de que existem os meios de combater a catástrofe e a fome, de que as meias são absolutamente claras e simples, perfeitamente realizáveis, inteiramente à medida das forças do povo e de que se estas medidas não são tomadas é única e exclusivamente porque a sua aplicação traria prejuízo aos lucros exorbitantes dum punhado de grandes proprietários rurais e de capitalistas”
V. I. Lenine
in A Catástrofe Iminente e os Meios de a Conjurar
#2
Razões para uma censura
Ao garantir a sobrevivência do governo, PSD, CDS e os seus comentadores mostraram que, apesar da gritaria com que se costumam tratar, estão com a política da crise e com os interesses que a precipitam. É tempo de lhes dizer basta.
Artigo publicado no Correio de Sintra, 2 de Março de 2011

O post de ontem foi de corrida.
Hoje, já em casa e depois de ver as fotografias das fotografias, escrevo com mais tempo.
Fica a história, em episódios, do segundo round, para mais tarde recordar.
#2
[Second round]
Depois de um mês pelo Agito, onde as visitas foram muitas e as reacções positivas, hoje Bir Sokak/Uma Rua transfere-se para o Alinhavar, em Leiria.
Três notas, horas antes de abrir portas:
Apesar dos contratempos, há sempre quem esteja disponível para ajudar. Não há palavras para a gratidão.
Desta vez, a montagem da exposição ficou a cargo do dono do bar. Mesmo que o quisesse ter feito, acho que não me tinha safado. Deixei-o fazer o que quis e limitei-me a fotografar o processo. É giro ver as coisas a ganharem outras leituras.
Estou contente com mais este passo.
Então desço as escadas, como se descesse ao submundo dos aztecas de agora, os incontáveis milhões que percorrem todos os dias as entranhas da cidade e, quando a corrente espessa me apanha, deixo-me ir, sem pé. Um místico chamaria a isto o êxtase da dissolução. A humanidade a convergir debaixo da terra, pele com pele.
Aqui faz calor e a religião não tapa. Os mexicanos têm muito corpo, sempre a sobrar.
E há ventoinhas que nos borrifam com água. Os letreiros são dos anos 70, descomunais. As bichas para os bilhetes desfazem-se num ápice. Cada viagem custou 18 cêntimos, e é porque aumentou este ano. O cais reluz de limpo, parece interminável e em menos de dois minutos fica repleto.
Nunca me senti tão alta entre tantas cabeças escuras, índios ou misturados de índios: os pobres. Só tenho uma palavra, e repito-a atónita, porque não me lembro de ter sido levada assim de enxurrada por um país. Comovente. O México é comovente. Se alguém falar comigo agora desato a chorar.
Alexandra Lucas Coelho, in Viva México
#1
[...]
Nicola ensinou-me o mar sem dizer: faz-se assim. Fazia o assim e o assim estava certo, não apenas preciso mas também belo de ver, nunca à toa. O assim de Nicola tinha o jeito das ondas, os gestos tinham uma rima que eu ia aprendendo a entender. Cortava as potas em bocados do tamanho de unhas: um corte e a seguir passava as costas da faca para os afastar para o lado, seguindo um ritmo seu, absorto, igual. (…). Ele podia olhar para outro lado, o longe, ou nada; os olhos deixavam as mãos fazer tudo sem ajuda. O trabalho era aquilo, o que se via, enquanto o resto do corpo era apenas um arrimo de paciência.
Erri de Luca
in Tu, Meu
Vasco Gato, in Rusga
#1
[dia de reflexão é dia de non sense*]
Um país inteiro que confia as suas decisões num presidente da República, mesmo sendo o melhor, como é o meu caso, parece-me uma manada de naifs, e é preferível irem fazer, aos magotes, exposições de pintura para o Casino do Estoril!
(…)
Mas nós acreditamos nas opiniões sensatas, mesmo sábias, de cada cidadão. Cada cidadão é de facto uma imensa minoria, mais ou menos tagarelante e mais ou menos silenciosa, uma alternativa viável, ao governo que, regra geral, é a melhor forma de oposição a si mesmo.
Manuel João Vieira, In
Livro Rosé de sua santidade o Camarada Presidente Vieira
* Este momento de descontracção não é um apelo à abstenção ou à anulação do voto. Ao olhar o boletim, e passando o primeiro embate, feito de desconforto e desalento, teremos uma mão cheia hipóteses para escolher. Em nome da memória, em nome do futuro.
#2
[coisas que me acontecem]
Desafiando todas as probabilidades, na noite de fim de ano, apaixonei-me por uma canadiana.
Ia a passar para os lados da Praça da Figueira quando tudo aconteceu. Ao primeiro olhar fiquei logo caidinho por aquele azul intenso, pelo charme discreto.
Foi um instante apenas, poucos segundos em que tudo à volta se transformou em silêncio, mas a minha imaginação já só navegava pelas curvas e alinhamentos que se adivinhavam.
Desse encontro casual cresceu em mim, ao longo das últimas semanas, um imenso desejo. Procurei distrair-me com outras coisas...
Fui olhando para a concorrência, procurei alternativas. Não a consegui esquecer.
(bolas, quem me conhece sabe que uma canadiana vai contra todas as lógicas!)
Hoje voltámos a cruzar-nos no mesmo sítio. Desta vez não me escapou. :)

BIR SOKAK/UMA RUA
Até 1 de Maio no Café Saudade, Sintra
(Rua que desce da estação para a Câmara Municipal)Esta é a história de uma rua.
Sei apenas três ou quatro palavras em turco, as suficientes para quebrar a barreira invisível que se impõe entre desconhecidos. Durante uma tarde, conversei com os homens no largo da mesquita, com o padeiro, com o dono da loja de café, com o marinheiro e com o barbeiro que lhe aparava a beleza. Comi do seu pão, bebi a água e o chá que me ofereceram, partilhei o narguilé. E ouvi.
Esta não é a história de uma rua. É um pouco da vida de um bairro popular de Izmir, onde o acaso me levou.
Carlos Paredes, por Eduardo Gageiro#1
[a viagem continua, ainda em Paris]
Canto IV, 22
Lembra-se bem, Bloom, que certos fracassos
foram, para alguns dos seus familiares,
uma rápida educação da coragem.
Mas para outros existiu sempre a confusão
entre dois conceitos simétricos: fracassar e terminar.
Um fracasso Excelente produz inumeráveis formas
de um homem se levantar.
In Uma Viagem à Índia,
Gonçalo M Tavares
Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador
Al Berto
Foi ontem, mas aqui ficam os parabéns para ti
#1 [...]
Canto II, 47
Por vezes receberás ameaças, caro Bloom:#1
[tem a sua lógica...*]
"Os paraísos fiscais só existem porque os países ricos querem. E se querem é para que as grandes empresas possam, com toda a impunidade, roubar os cidadãos. É esse o papel do Estado: fazer com que os ricos se tornem mais ricos.
Assim, se essas empresas podem roubar os cidadãos pelo facto de terem refúgios off shore e não pagarem impostos, por que diabo os iriam impedir?"
Noam Chomsky, in Duas Horas de Lucidez
*lembrei-me disto durante o debate quinzenal com o Primeiro Ministro, que aconteceu hoje na AR

Tradition says...
Que é nos grandes momentos, sozinho ou (muito bem) acompanhado, que o copo vermelho se ergue.