8.7.10
[...]
Anda, faz uma pausa,
encosta o carro,
sai da corrida,
larga essa guerra,
que a tua meta,
está deste lado,
da tua vida.
7.7.10
6.7.10
3.7.10
#1
[A farsa]
Texto publicado na Edição nº 9 do Correio de Sintra
A visita de Cavaco Silva a Sintra, no âmbito do Roteiro da Presidência para a Juventude, ficou marcada por um episódio que, não tendo sido muito falado, é revelador dos tempos que correm.
A presidencial comitiva começou o dia na casa da Juventude da Tapada das Mercês, equipamento fundamental para a comunidade onde está instalado, um bairro cujos problemas de ordenamento do espaço público tardam em ter solução e onde os sinais de tensão social e exclusão começam a ser indisfarçáveis. Seguiu-se uma deslocação até ao largo D. Rainha Amélia, defronte do Palácio da Vila, para visitar uma mostra de jovens empreendedores do Concelho.
23.6.10
[do ofício desolado
de elevar torres sem andaimes]
Sonhamos com um leitor perfeito.
Superior a nós.
Melhor ainda do que a própria leitura
de nós mesmos.
Para ele escrevemos,
mesmo que não exista.
Não podemos deixar de sentir
que se esconde por trás desse silêncio
que arrasta as palavras
como uma túnica partida.
Talvez ao persistirmos
neste ofício desolado
de elevar torres sem andaimes
o leitor que não existe
desperte nalgum momento
lá onde o leitor
já não é necessário,
porque afinal toda a leitura se lê só.
Roberto Juarroz, Poesia Vertical,
Roubado no blog d'A Trama, a pensar neste texto que escrevi em Maio.
21.6.10
18.6.10
9.6.10
5.6.10

céu impressionista
Originally uploaded by André Beja
JIM CAIN
I started out in search of ordinary things
How much of a tree bends in the wind
I started telling the story without knowing the end
I used to be darker, then I got lighter, then I got dark again
Something to be seen was passing over and over me
Well it seemed like the routine case at first
With the death of the shadow came a lightness of verse
But the darkest of nights, in truth, still dazzles
And I woke myself until I'm frazzled
I ended up in search of ordinary things
Like how can a wave possibly be?
I started running, and the concrete turned to sand
I started running, and things didn't pan out as planned
In case things go poorly and I not return
Remember the good things I've done
In case things go poorly and I not return
Remember the good things I've done
Done me in
Bill Callahan , Sometimes I Wish we were an eagle
4.6.10
30.5.10
28.5.10
[Caixa de música]
Três dias de, pelo menos, 18h acordado? Ter dormido apenas 4h na última noite?
Tudo bem, desde que não faltem rimas e ritmos para acompanhar.
:)
26.5.10
25.5.10
Buenos Aires, Abril de 2009
É uma velhinha simpática, com as suas manias e os seus trejeitos, com as nódoas negras, os cadáveres no armário e os gloriosos momentos que o passado lhe deixou.
É uma terra encantadora, que se estende, literalmente, até ao fim do mundo, cujas gente, os lugares, as estradas, as cores e os sabores rapidamente se transformam em paixão.
Fica a nota da efeméride, com o desejo de, no próximo século argentino, lá voltar.
22.5.10
#1 [...]
Magoito
nesta primavera que
não sabe como começar,
sonho verão nos teus braços.
Perdido na orla,
fixo ondas, gaivotas,
a arriba em queda,
com ternura de te olhar.
Contradizendo os rochedos,
o mar encheu-te de areia
e promessas do beijo
que só as águas sabem.
No teu ventre, um rio
desafia o destino salgado:
Haverá tempo ainda
para nova ilusão?
Sintra, Maio de 2010
20.5.10
#2
[Linhas cruzadas]
Tenho a mania da poligamia literária. Não é raro andar agarrado a dois ou três livros ao mesmo tempo, num exercício de evasão que por vezes se revela uma estrada de múltiplas saídas, todas elas com bom argumentos para serem seguidas, ou então um ardiloso campo de obstáculos, onde tropeço e me chego a atolar.
Neste swing, por vezes as coisas misturam-se. Há personagens que têm por hábito dar uma perninha noutro livro e por lá armar grande confusão. Há escritores que se lembram de convidar outros escritores para as suas histórias, numa espécie de sessão de psicanálise ou de convocação de espíritos. Há momentos de premonição absoluta, em que um mistério se resolve nas páginas de outro tomo. Sobre tudo isto, muito haveria para dizer, mas do que quero falar é dos momentos de pura fusão, quando dois livros diferentes se interceptam num ponto nodal.
Como leitor poligâmico, sou suficientemente atento para não me perder e distraído quanto baste para me deixar enredar nestes negócios extra-sensoriais que os livros proporcionam. Deu-se o caso de, numa destas manhãs de primavera que convidam aos livros, ter lido sobre uma das angústias de Daniel Pennac (vénias!): para que escrevemos?
Escrevemos para nos sentirmos em paz mas também com o desejo de sermos lidos, não há maneira de escapar a esta contradição. É como se nos estivéssemos a afogar gritando “Olha mamã, sei nadar!”. Os que clamam mais alto por autenticidade lançam-se de um décimo quinto andar, dando o salto do anjo: “Vejam, sou apenas eu!”. Quando pretendemos escrever sem querermos ser lidos (manter um diário íntimo, por exemplo), equivale a prolongar até ao ridículo o sonho de ser autor e ao mesmo tempo leitor. (in O Ditador e a Cama de Rede).
Mais tarde dei comigo a reler o texto. Confirmei ter captado a ideia lida, mas achei que a abordagem era diversa. Foi então que percebi que tinha chegado a uma zona de interface entre o livro de Pennac e um dos que de momento me acompanham. Nesse Fim de Romance na Patagónia (um dia talvez vos fale das ironias não declaradas que os livros transportam), Mempo Giardinelli acabava de me revelar o ponto nodal:
A minha resposta é sempre a mesma: que não sei, embora saiba que escrevo para ser lido. Não consigo acreditar que alguém escreva, na realidade, para si próprio, ainda que muitos o proclamem. Não creio na escrita onanista e penso que temos sempre o que chamo um “leitor ideal implícito” (…).
Não é espantoso?
É neste momento que o leitor monogâmico – ou a leitora, pois curiosamente esta poligamia é sempre mais incompreendida entre as leitoras com que me vou cruzando - franze o nariz. É pueril a minha conclusão. Nada como um exercício de memória e de disciplinada leitura para juntar estes dois com os outros dois e fazer os quatro necessários à lógica que pretendo montar…
Tudo bem. Dou de barato. Mas não dispenso o prazer que este navegar sem rumo aparente me traz.
Lá dizia o outro, boa noite e bons livros!
19.5.10
#1
[Tu disseste]
Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."
17.5.10
13.5.10
11.5.10
#1
[Algumas ironias de um fim-de-semana]
Matar vários coelhos, sem me socorrer da tradicional cajadada
Há a estratégia, a táctica e o resto.
Os filósofos que querem mudar o mundo pela acção também divagam pela inacção.
Há ilusões fáceis de criar. E há algumas fáceis de dinamitar.
O tempo passa e as caravanas ladram.
Descobri, ao nível do solo, que tenho queda para os patins.
O Benfica foi campeão.
6.5.10
4.5.10
[voltar aos poetas que me dizem tudo]
Neste espaço a si próprio condenado
Neste espaço a si próprio condenado
Dum momento para o outro pode entrar
Um pássaro que levante o céu
E sustente o olhar
....................................
Com a tristeza acender a alegria
Com a miséria atear a felicidade
E no céu inocente da visão
Fazer pulsar um pássaro por vir
Fazer voar um novo coração
Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca
#1 [...]
Quando eu passo, as árvores ficam sempre*
Publicado no nº 5 do Correio de Sintra, 1 de Maio de 2010Há cerca de um ano recebi um telefonema que me encheu de tristeza. As árvores de Rio de Mouro, algumas plantadas com a minha ajuda, estavam a ser violentadas.
Alergias! Reclamações! Perigo! Argumentavam os responsáveis pela intervenção e o autarca que assistiam à “poda”.
As árvores da minha infância ficaram indefesas e, durante o verão, encheram-se de fungos. Os pássaros que as costumavam habitar viram-se despejados.
25.4.10
A Salgueiro Maia*

A Salgueiro Maia*
Originally uploaded by André Beja
Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse
Sophia de Mello Breyner Andresen
*a foto rouba o título ao poema, numa dupla homenagem muito pessoal a estes dois vultos de Abril.
20.4.10
11.4.10
9.4.10
ruta 40

ruta 40
Originally uploaded by André Beja
há um ano estava aqui. O horizonte era largo. Ou parecia ser.
7.4.10
[...]
Então, vendo que os Persas guardavam silêncio, sem se atrever a manifestar uma opinião contrária à que tinha sido proposta, Artabano, filho de Histaspes, que era tio paterno de Xerxes, confiando precisamente no dito parentesco, disse o seguinte:
(...)
"A precipitação, em suma, engendra erros em todo o tipo de assuntos; e dos erros costumam derivar graves danos. Na cautela, em contrapartida, radicam uma série de vantagens que, embora não se manifestem imediatamente, passado muito tempo, chegam a detectar-se"
(..)
Heródoto de Halicarnaso, in
A Batalha das Termópilas
6.4.10
Em Dezembro passado, o anúncio de aumento da electricidade para 2010 foi justificado pela existência de 2 mil milhões de défice de tarifário. Em 2006, o presidente da ERSE demitiu-se porque o governo se acobardou no momento de aplicar a sua recomendação de, pelas mesmas razões, aumentar a factura dos consumidores domésticos em cerca de 15%.No passado mês de Março, a CMVM foi informada de que, apesar de ter recuado 6% face ao ano anterior, o resultado líquido da EDP em 2009 foi de 1.024 milhões.
Agora ficámos a saber que António Mexia, Presidente do Conselho de Administração da EDP, foi, entre os CEO do PSI 20 (bonitos chavões), aquele que mais recebeu em 2009, empochando uns míseros 3,1 milhões (há quem fale em 3,3, mas acho que é um abuso...). Se Mexia conseguiu uma folha salarial melhor do que a de Steve Jobs, da Aple, nem quero imaginar os gastos com @s restantes colegas do CA**.
...
** ADENDA: entretando descobri, foram 17 milhões em prémios e remunerações...
4.4.10
O drama do corredor

O drama do corredor
Originally uploaded by André Beja
tantos km corridos, tantas horas de satisfação... que fazer com todos estes sapatos?
1.4.10
[that's it]
Viva a Preguiça
Tanta preguiça, tanto mar, tanto, para dar e vender
Tanta injustiça, tanto esconder, tanto não querer saber
Tanto soninho, fazer tudo sozinho
Quanto desleixo, quanto roubar ao próprio desejo
Quanto menos penso ainda menos aguento grande tormento
Poupar-te um beijo, volta desejo
Viva a preguiça, sem mexer um dedo, bocejar na missa
Tenho receio, metes-me medo, acordas-me a meio
Quanto lamento, dormir no parlamento
Viva a preguiça, mexer um dedo, dormir na missa
Tenho receio, metes-me medo, acordas-me a meio
Viva a preguiça, poupar-te um beijo, dormir na missa
Tenho receio, volta desejo, acorda-me a meio
GNR - para ouvir aqui
red vinyl

red vinyl
Originally uploaded by André Beja
Março foi um mês de muitas fotos. Não sei se para celebrar o sol, distrair o raciocínio, afastar algumas nuvens negras ou se as novas lentes dos meus óculos me estão a dar outra perspectiva da vida e a muscular a imaginação.
Nunca, em quase 6 anos, tinha fotografado e partilhado tanto.
Espero que tenham gostado. Vou continuara a esforçar-me :)
30.3.10
Tenho a certeza que Nuri Belgi Ceilam passa os dias com o nariz no ar a perscrutar as nuvens.Só não sei se as suas nuvens existem de facto ou se são apenas fruto da sua imaginação e desejo.
A mim inquietam-me. As suas formas, textura e contraste contam-me histórias para lá do filme. Acendem-me silenciosas vontades. Transportam-me para longe e apertam-se dentro de mim com todas as perguntas que encerram.
Deste filme, fica também a urgência de Istambul
29.3.10
#1 [...]
ÍTACA
Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.
Constantino Kavafis
28.3.10
26.3.10
[KGlamour]
Conheci a São Trindade na noite. Foi em silêncio que fomos construindo uma certa cumplicidade. Um dia, a propósito da sua máquina fotográfica e de um retrato que com ela fiz, descobrimos uma paixão comum. E descobri também que, ao contrario de mim - que sou um mero aprendiz de feiticeiro -, aquela moça de tranças era (e é) uma fotógrafa a sério.Vem esta conversa a propósito da nova exposição da Kgaleria, um conjunto de retratos tirados pela São. Passem por lá, até 30 de Abril, porque a inspiração cinematográfica, a luz e os sentidos deste conjunto de imagens de composição clássica, além de deliciosas, dão muito que pensar.
Mais sobre a Kglamour
18.3.10
17.3.10
[10]
Bastam dez minutos para atravessar a Kgaleria de uma ponta à outra e ver a exposição 10 de Alexandre Almeida.
A vistia é rápida (o espaço não é muito grande), mas o intervalo é suficiente para que algumas ideias comecem a fermentar.
Há, em cada um daqueles qua(dra)dos, uma história e um elemento dissonante, linhas de força e algo que lhes quebra a harmonia, novas narrativas que despontam.
Vale a pena dar lá um salto.
11.3.10
#2
[este homem é um senhor]
O PEC peca por parco
"Aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote." Ricardo Araújo Pereira, Visão, 11 de Março de 2010
É irónico que os problemas económicos possam ser responsáveis pelas maiores desigualdades sociais mas que a economia, enquanto ciência, seja tão igualitária. Alguns dos maiores especialistas em economia previram tanto como eu o aparecimento da crise. A economia tem essa característica fascinante: por muito que alguém se dedique a estudá-la, aparentemente continua a ser um leigo. Um grande administrador tem tanta dificuldade em evitar a calamitosa falência de um banco como um merceeiro versado apenas em contas de somar. Por isso, é com a consciência invulgarmente tranquila que me dedico à análise económica: na pior das hipóteses, os meus comentários farão tão pouco sentido como os de um professor de economia.
Quando o governo propôs o Programa de Estabilidade e Crescimento, a minha primeira impressão foi a de que o PEC tinha um E a mais. Duvido de que a nossa economia precise da ajuda de um programa para estabilizar, uma vez que se encontra estável (no sentido em que um paciente em estado comatoso se mantém estável) há muitos anos. As críticas de alguma oposição parecem-me ainda menos pertinentes. É falso que o Programa de Estabilidade e Crescimento obrigue uma parte significativa dos portugueses a apertar o cinto. E é falso sobretudo na medida em que aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote. O que vai ser preciso apertar agora é o garrote.
O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?
A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições.
Resta a consolação de constatar que o congelamento dos salários dos funcionários públicos não é uma medida assim tão áspera. Os salários, a bem dizer, têm estado no frigorífico. Não vão propriamente sofrer um choque térmico.
Estive sempre sentado nesta pedra
Escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
Eugénio de Andrade
1.3.10
#1 [Correio de Sintra]
Artigo de opinião publicado no primeiro número do jornal Correio de Sintra.
Correio de Cintra: Jornal político, illustrado, litterario e commercial
A minha primeira reacção, depois do telefonema do Director deste jornal a convidar-me para escrever um artigo de opinião para a primeira edição, foi perguntar ao Google o que sabia sobre a nova publicação. Um gesto quase inconsciente, não fosse eu filho deste tempo de hiper comunicação.
Nada consegui apurar sobre o Correio de Sintra que hoje podemos ler. Mas esse googlar mecanizado não deixou de surpreender e encantar, já que me deu a conhecer o Correio de Cintra, semanário que, entre 1896 e 1904, noticiou os grandes acontecimentos, tragédias e avanços de Sintra nesse conturbado virar de século.
23.2.10
21.2.10
18.2.10
[é um rio que só eu sei]
Sei de um rio, sei de um rio
Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio, sei de um rio
Onde a própria mentira tem o sabor da verdade
Sei de um rio…
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Sei de um rio, até quando
Pedro Homem de Melo
17.2.10
16.2.10
12.2.10
[Perhaps the world's empty]
Ninguém perde um livro
no comboio, ninguém o acha
inutilmente sublinhado
noutra terra, noutra cama.
Ninguém fuma na arcada
rente ao frio de Dezembro,
ninguém sangra no passeio
à mesma hora.
Ninguém parte de repente
à procura de mais mundo,
ninguém chega por acaso
ao seu nenhum sentido
olhando simplesmente
da varanda.
Rui Pires Cabral, em Oráculos de Cabeceira,
4.2.10
3.2.10
1.2.10
31.1.10
25.1.10
[coerência? estupidez?]
Há 183 dias (e noites sobretudo) que me faço as mesmas perguntas.
Há seis meses (qualquer coisa quatro mil e tal horas) que espero ver aparecer alguma resposta.
20.1.10
[oh my... Placebo meets Pixies]
With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
If there's nothing in it
And you'll ask yourself
Where is my mind
19.1.10
In Jornal de Letras Online
14.1.10
13.1.10
[faltando outra canção do mesmo autor]
Piove, senti come piove
madonna come piove
senti come viene giu'!
piove, senti come piove
madonna come piove
12.1.10
11.1.10
10.1.10
[dos evangelhos]
O cobarde é uma pessoa que foge pra trás
o herói é uma pessoa que foge prá frente
em maior ou menor grau
todos nós fugimos ao
medo que faz o cobarde
medo que faz o valente
4.1.10
[posta restante]
Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.
Carlos Drummond de Andrade
31.12.09
28.12.09
#1
[estranha forma de vida]
Tenho lido por aí alguns desses habituais balanços que se fazem por alturas do fim de ano. Decidi fazer o mesmo.
Tive um ano intenso e trabalhei que nem um mouro, muitas horas por dia e muitas semanas sem uma pausa digna desse nome. Chego ao fim de Dezembro e ainda tenho sete dias úteis de férias para gozar. Fiz coisas chatas, que não me deram gozo nenhum.
Averbei duas derrotas de vulto. Embora tenham sido colectivas e eu tenha feito tudo o que podia, pelo papel central que tinha nos dois processos, fico a sensação de que vi a minha vida para sempre transformada.
Ainda mantenho velhas contas por acertar com o mestrado. É uma história trágico-existencial, que me provoca inércia, come o tempo livre e me enche de remorsos.
Viajei menos do que gostava. Mas mais do que a maioria das pessoa que conheço. As duas viagens que fiz foram maravilhosas e, posso dizê-lo, a Argentina ganhou um lugar especial no meu coração.
Tive poucos momentos em que consegui desligar da realidade e relaxar. Mas vi filmes que me marcaram, li muitos livros (muitos mesmo), fotografei, ouvi velhas e novas músicas, dei asas à criatividade, comi petiscos de fazer água na boca.
Apesar das dores de cabeça, os copos que bebi souberam-me sempre bem. E os outros excessos também.
Em Setembro lesionei-me numa perna, tive de parar durante 3 semanas. Durante o resto do ano corri centenas de quilómetros, andei largas dezenas e fartei-me de pedalar.
Houve momentos em que me senti profundamente só. Mas teci novas cumplicidades e reforcei laços de toda uma vida. Vi gente contente à minha volta.
Ao contrário do que seria de esperar, não me deixo impressionar pelas nuvens negras. Feitas as contas, evitando olhar as coisas pelo ângulo morto, este foi um ano cheio, onde aprendi imenso em tantas situações de grande exigência e em momentos de grande emotividade.
Saboreei algumas vitórias e continuo com alguns assuntos por resolver. Há episódios e experiências que não quero repetir e outras que gostava de compreender melhor.
Há coisas que faria de outra forma e outras que, por incrível que pareça, repetiria sem hesitar. Sei que podia ter feito tantas outras escolhas. Azar, fiz as que fiz e não há volta a dar.
Sei também que há muitas decisões por tomar e toda uma vida por (re)construir. Desde já, não preciso chegar a 2010 para pensar no assunto.
26.12.09
[das palavras]
"Como tudo, as palavras têm os seus quês, os seus comos e os seus porquês. Algumas, solenes, interpelam-nos com um ar pomposo, dando-se importância, como se estivessem destinadas a grandes coisas, e, vai-se ver, não eram mais do que uma brisa leve que não conseguiria mover uma vela de moinho, outras, das comuns, das habituais, das de todos os dias, viriam a ter, afinal, consequências que ninguém se atreveria a prever, não tinham nascido para isso, e contudo abalaram o mundo."
José Saramago, in Caim
25.12.09
[for something completely different...]
Natal
Nasce um deus. Outros Morrem. A verdade
Nem sei se foi: o Erro mudou.
Temos Agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
Fernando Pessoa,
in Ficções do Interlúdio
22.12.09
18.12.09
[falta resolver o problema do Sahara]
"Isto é uma vitória para o direito internacional, para a justiça internacional e para a causa saharauí", declarou a activista antes de partir para El Aiún. Aminetu Haidar regressou à sua terra.
| Aminetu Haidar em greve de fome há 32 dias, fez estas declarações à comunicação social no próprio hospital, onde tinha sido internada durante a madrugada desta quinta-feira, e antes de sair em direcção ao aeroporto de Lanzarote. Agora já está em sua casa, em El Aaiún, no Sáhara Ocidental. Partiu do aeroporto ontem à noite, às 22h23 (hora das Canárias) num avião medicalizado enviado pelo Governo espanhol. |
ler mais
17.12.09
A indefinição que paira sobre a cimeira de Copenhaga deixa o mundo em suspenso. Aguardamos para saber se há ou não acordo para diminuir as emissões e se os países ditos ricos estão ou não dispostos a compensar os países pobres e emergentes (
Enquanto isso, e totalmente em contra ciclo, o país anda preocupado com uma corrida de aviões que, ao que parece, se vai transferir do Porto para Lisboa...
16.12.09
Limpeza mais útil do que a Banca
CM, 15 de Dezembro de 2009
As empregadas de limpeza dos hospitais são muito mais úteis à sociedade do que, por exemplo, os banqueiros ou gestores, e por isso deveriam ter salários equiparados aos benefícios que trazem, afirma um estudo elaborado pela New Economics Foundation no Reino Unido. As funcionárias de limpeza criam uma riqueza de 11 euros por cada euro que ganham, ao passo que os banqueiros destroem 7,7 euros por cada euro que ganham.
ver estudo
14.12.09
[grande porra, isto da poesia]
Desertei das falanges do ouro
para vir sitiar a tua sombra.
Movias-te como se jamais te prendesse
outra lealdade
que não a interrogação
de um cais. E, porém,
os teus olhos silenciosos,
somando as imagens.
Qual pano,
desce sobre a cidade o músculo
das coisas prementes.
Das safras de pólvora colhi a tua incerteza
de rapariga. Depois, perdi-te
entre os prodígios.
in Cerco Voluntário
(Cadernos do Campo Alegre/13, 2009)
Tem dito que acredita que vai vencer, que Marrocos vai ceder. Mas, e se isso não acontecer?
Eu estou segura, tenho a certeza de que Marrocos prefere a minha morte. Estou segura, tenho a certeza. E que mantém a sua posição para me fazer perder tempo, que vai manter a sua posição à espera que me aconteça uma tragédia. Mas, ao mesmo tempo, confio na solidariedade internacional que se gerou. Eu não posso fazer previsões. Não posso dar nenhumas garantias. Não posso dizer que vou resistir. Mas também não posso dizer que não vou resistir. O momento pode chegar. Nem eu nem os médicos podemos controlar o meu estado. Entrei numa situação muito crítica. Tenho forças ainda, mas mesmo tendo forças, nada garante que num dado momento o meu coração não vá parar.
Aminetu Haidar, em entrevista ao Público, 14 de Dezembro de 2009
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12.12.09
#1 [...]
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…
Ficções do Interlúdio
11.12.09
7.12.09
[à medida]
O tempo aqui parou
Desde que te foste embora
Só a saudade ficou
já não aguento tanta demora
6.12.09
5.12.09
Isso pode resvalar para o saudosismo, os bons tempos e semelhantes asnices, não há bons tempos, só há tempos. Nada de saudosismo, saudosismo é uma espécie de masturbação sem verdadeiro prazer, uma inutilidade atranvancadora, que no máximo pode ser empregada para brincadeiras, mas geralmente é perca de tempo mesmo. Não, nada disso. Aqueles tempos tinham o seu charme, mas eram duros também, cada tempo tem a sua dureza , com mil perdões pela filosofia de botequim.
João Ubaldo Ribeiro,
in A Casa dos Budas Ditosos
4.12.09
Chega um tempo em que um homem se interroga
sobre o último sentido ou o sem sentido
o como o quê o para quê e o para onde
um tempo de balanço em que se mede
o vivido e o não vivido. E o poema escreve-se
nesse pensar o que podia ter sido e que não foi
um amor adiado para sempre perdido
como parte da vida que fica para o dia seguinte
para aquela ocasião que nunca chega
e o poema escreve-se nesse quase remorso
ou essa nostalgia de si mesmo
(…)
2.12.09
1.12.09
[...]
Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah






















