23.6.10

#1
[do ofício desolado
de elevar torres sem andaimes]

Sonhamos com um leitor perfeito.
Superior a nós.
Melhor ainda do que a própria leitura
de nós mesmos.

Para ele escrevemos,
mesmo que não exista.
Não podemos deixar de sentir
que se esconde por trás desse silêncio
que arrasta as palavras
como uma túnica partida.

Talvez ao persistirmos
neste ofício desolado
de elevar torres sem andaimes
o leitor que não existe
desperte nalgum momento
lá onde o leitor
já não é necessário,
porque afinal toda a leitura se lê só.

Roberto Juarroz, Poesia Vertical,

Roubado no blog d'A Trama, a pensar neste texto que escrevi em Maio.

21.6.10

#1
[porque hoje é dia 21]

(...)
One of these mornings
You're going to rise up singing
Then you'll spread your wings
And you'll take to the sky

(...)

18.6.10

#1
[em jeito de tributo]


Levantado do Chão é um dos livros da minha vida.
Nele aprendi um pouco mais sobre o Alentejo a as eternas desigualdades deste país.
Foi o livro que me ajudou a perceber, de facto, o que é isso da luta de classes.

11.6.10

#1
[que voz...]


Experimentem também esta...

9.6.10

#1
[hoje deu-me para aqui]

E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

6.6.10

# 1
[Onde se denunciam os coveiros deste país]

5.6.10

#2
[dos arquivos]

Deleuze scrisse una volta che l’incontro è un evento, procede a zig zag, quello che conta non é il risultato, ma “quello che passa tra le due persone””.

céu impressionista
Originally uploaded by André Beja

JIM CAIN
I started out in search of ordinary things
How much of a tree bends in the wind
I started telling the story without knowing the end

I used to be darker, then I got lighter, then I got dark again
Something to be seen was passing over and over me
Well it seemed like the routine case at first
With the death of the shadow came a lightness of verse
But the darkest of nights, in truth, still dazzles
And I woke myself until I'm frazzled

I ended up in search of ordinary things
Like how can a wave possibly be?
I started running, and the concrete turned to sand
I started running, and things didn't pan out as planned

In case things go poorly and I not return
Remember the good things I've done
In case things go poorly and I not return
Remember the good things I've done
Done me in

Bill Callahan , Sometimes I Wish we were an eagle


4.6.10

#1
[I was carried ...]

I'll rest my eyes till the fevers outta me
I'll rest my eyes to the rivers in the sea

30.5.10

#1
[...]

Quando ouço, vejo ou leio coisas que, de tão inverosímeis, surreais ou injustas, algo se torce no meu estômago. E é como se me transformasse numa garrafa de refrigerante agitada pouco antes de abrir.
Por vezes, não me resta mais do que morder a língua, esperando que o veneno não sufoque.

28.5.10

#1
[Caixa de música]

Três dias de, pelo menos, 18h acordado? Ter dormido apenas 4h na última noite?
Tudo bem, desde que não faltem rimas e ritmos para acompanhar.
:)

26.5.10

#1
[tenho-me esquecido de vos dizer]

Que o melhor do voltar de férias foi mesmo encontrar os jacarandás de Lisboa absolutamente roxos de felicidade.
É contagiante. :)

25.5.10

#1
[Cumpleaños feliz]

tanguero
Tanguero
Buenos Aires, Abril de 2009

Hoje a República da Argentina completa 200 anos enquanto nação independente.
É uma velhinha simpática, com as suas manias e os seus trejeitos, com as nódoas negras, os cadáveres no armário e os gloriosos momentos que o passado lhe deixou.
É uma terra encantadora, que se estende, literalmente, até ao fim do mundo, cujas gente, os lugares, as estradas, as cores e os sabores rapidamente se transformam em paixão.
Fica a nota da efeméride, com o desejo de, no próximo século argentino, lá voltar.

22.5.10

#1 [...]

Magoito

Pela tarde sentado,

nesta primavera que

não sabe como começar,

sonho verão nos teus braços.


Perdido na orla,

fixo ondas, gaivotas,

a arriba em queda,

com ternura de te olhar.


Contradizendo os rochedos,

o mar encheu-te de areia

e promessas do beijo

que só as águas sabem.


No teu ventre, um rio

desafia o destino salgado:

Haverá tempo ainda

para nova ilusão?


Sintra, Maio de 2010

20.5.10

#2

[Linhas cruzadas]

Tenho a mania da poligamia literária. Não é raro andar agarrado a dois ou três livros ao mesmo tempo, num exercício de evasão que por vezes se revela uma estrada de múltiplas saídas, todas elas com bom argumentos para serem seguidas, ou então um ardiloso campo de obstáculos, onde tropeço e me chego a atolar.

Neste swing, por vezes as coisas misturam-se. Há personagens que têm por hábito dar uma perninha noutro livro e por lá armar grande confusão. Há escritores que se lembram de convidar outros escritores para as suas histórias, numa espécie de sessão de psicanálise ou de convocação de espíritos. Há momentos de premonição absoluta, em que um mistério se resolve nas páginas de outro tomo. Sobre tudo isto, muito haveria para dizer, mas do que quero falar é dos momentos de pura fusão, quando dois livros diferentes se interceptam num ponto nodal.

Como leitor poligâmico, sou suficientemente atento para não me perder e distraído quanto baste para me deixar enredar nestes negócios extra-sensoriais que os livros proporcionam. Deu-se o caso de, numa destas manhãs de primavera que convidam aos livros, ter lido sobre uma das angústias de Daniel Pennac (vénias!): para que escrevemos?

Escrevemos para nos sentirmos em paz mas também com o desejo de sermos lidos, não há maneira de escapar a esta contradição. É como se nos estivéssemos a afogar gritando “Olha mamã, sei nadar!”. Os que clamam mais alto por autenticidade lançam-se de um décimo quinto andar, dando o salto do anjo: “Vejam, sou apenas eu!”. Quando pretendemos escrever sem querermos ser lidos (manter um diário íntimo, por exemplo), equivale a prolongar até ao ridículo o sonho de ser autor e ao mesmo tempo leitor. (in O Ditador e a Cama de Rede).

Estocada fatal, que me empurrou para as catacumbas deste blogue e para outras coisas que, de momento, não são para aqui chamadas. Fechei o livro e fui pensar noutro assunto menos inquietante.

Mais tarde dei comigo a reler o texto. Confirmei ter captado a ideia lida, mas achei que a abordagem era diversa. Foi então que percebi que tinha chegado a uma zona de interface entre o livro de Pennac e um dos que de momento me acompanham. Nesse Fim de Romance na Patagónia (um dia talvez vos fale das ironias não declaradas que os livros transportam), Mempo Giardinelli acabava de me revelar o ponto nodal:

A minha resposta é sempre a mesma: que não sei, embora saiba que escrevo para ser lido. Não consigo acreditar que alguém escreva, na realidade, para si próprio, ainda que muitos o proclamem. Não creio na escrita onanista e penso que temos sempre o que chamo um “leitor ideal implícito” (…).

Não é espantoso?

É neste momento que o leitor monogâmico – ou a leitora, pois curiosamente esta poligamia é sempre mais incompreendida entre as leitoras com que me vou cruzando - franze o nariz. É pueril a minha conclusão. Nada como um exercício de memória e de disciplinada leitura para juntar estes dois com os outros dois e fazer os quatro necessários à lógica que pretendo montar…

Tudo bem. Dou de barato. Mas não dispenso o prazer que este navegar sem rumo aparente me traz.

Lá dizia o outro, boa noite e bons livros!

#1
[das férias]

Hoje tomei o meu primeiro banho de mar do ano. E que bom que foi.

19.5.10

#1

[Tu disseste]

Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."

"o que é que isso interessa?"

Tu disseste "...nada

17.5.10

1
[ashes to ashes]

aqui vou eu enfrentar o vulcao. Vejamos se a mae natureza nao me prega uma partida :)

13.5.10

[Mesmo a calhar]

Hoje, voltando a pensar no caso, a multiplica,cao do papa nos ecras de televisao (que nao deu origem 'a dos paes), e mais geralmente toda a especie de duplica,coes com que nos satura o nosso culto da imagem, tem alguma coisa a ver com esta histo'ria de so'osias encaixados uns nos outros. Um mundo semelhante 'a Vache qui rit, e' este o sonho dos nossos "comunicadores". Todos apanhados pela voragem...

Daniel Pennac (o meu escritor fetiche)
in O Ditador e a Cama de Rede

11.5.10

#1

[Algumas ironias de um fim-de-semana]

Matar vários coelhos, sem me socorrer da tradicional cajadada

Há a estratégia, a táctica e o resto.

Os filósofos que querem mudar o mundo pela acção também divagam pela inacção.

Há ilusões fáceis de criar. E há algumas fáceis de dinamitar.

O tempo passa e as caravanas ladram.

Descobri, ao nível do solo, que tenho queda para os patins.

O Benfica foi campeão.