30.5.10

#1
[...]

Quando ouço, vejo ou leio coisas que, de tão inverosímeis, surreais ou injustas, algo se torce no meu estômago. E é como se me transformasse numa garrafa de refrigerante agitada pouco antes de abrir.
Por vezes, não me resta mais do que morder a língua, esperando que o veneno não sufoque.

28.5.10

#1
[Caixa de música]

Três dias de, pelo menos, 18h acordado? Ter dormido apenas 4h na última noite?
Tudo bem, desde que não faltem rimas e ritmos para acompanhar.
:)

26.5.10

#1
[tenho-me esquecido de vos dizer]

Que o melhor do voltar de férias foi mesmo encontrar os jacarandás de Lisboa absolutamente roxos de felicidade.
É contagiante. :)

25.5.10

#1
[Cumpleaños feliz]

tanguero
Tanguero
Buenos Aires, Abril de 2009

Hoje a República da Argentina completa 200 anos enquanto nação independente.
É uma velhinha simpática, com as suas manias e os seus trejeitos, com as nódoas negras, os cadáveres no armário e os gloriosos momentos que o passado lhe deixou.
É uma terra encantadora, que se estende, literalmente, até ao fim do mundo, cujas gente, os lugares, as estradas, as cores e os sabores rapidamente se transformam em paixão.
Fica a nota da efeméride, com o desejo de, no próximo século argentino, lá voltar.

22.5.10

#1 [...]

Magoito

Pela tarde sentado,

nesta primavera que

não sabe como começar,

sonho verão nos teus braços.


Perdido na orla,

fixo ondas, gaivotas,

a arriba em queda,

com ternura de te olhar.


Contradizendo os rochedos,

o mar encheu-te de areia

e promessas do beijo

que só as águas sabem.


No teu ventre, um rio

desafia o destino salgado:

Haverá tempo ainda

para nova ilusão?


Sintra, Maio de 2010

20.5.10

#2

[Linhas cruzadas]

Tenho a mania da poligamia literária. Não é raro andar agarrado a dois ou três livros ao mesmo tempo, num exercício de evasão que por vezes se revela uma estrada de múltiplas saídas, todas elas com bom argumentos para serem seguidas, ou então um ardiloso campo de obstáculos, onde tropeço e me chego a atolar.

Neste swing, por vezes as coisas misturam-se. Há personagens que têm por hábito dar uma perninha noutro livro e por lá armar grande confusão. Há escritores que se lembram de convidar outros escritores para as suas histórias, numa espécie de sessão de psicanálise ou de convocação de espíritos. Há momentos de premonição absoluta, em que um mistério se resolve nas páginas de outro tomo. Sobre tudo isto, muito haveria para dizer, mas do que quero falar é dos momentos de pura fusão, quando dois livros diferentes se interceptam num ponto nodal.

Como leitor poligâmico, sou suficientemente atento para não me perder e distraído quanto baste para me deixar enredar nestes negócios extra-sensoriais que os livros proporcionam. Deu-se o caso de, numa destas manhãs de primavera que convidam aos livros, ter lido sobre uma das angústias de Daniel Pennac (vénias!): para que escrevemos?

Escrevemos para nos sentirmos em paz mas também com o desejo de sermos lidos, não há maneira de escapar a esta contradição. É como se nos estivéssemos a afogar gritando “Olha mamã, sei nadar!”. Os que clamam mais alto por autenticidade lançam-se de um décimo quinto andar, dando o salto do anjo: “Vejam, sou apenas eu!”. Quando pretendemos escrever sem querermos ser lidos (manter um diário íntimo, por exemplo), equivale a prolongar até ao ridículo o sonho de ser autor e ao mesmo tempo leitor. (in O Ditador e a Cama de Rede).

Estocada fatal, que me empurrou para as catacumbas deste blogue e para outras coisas que, de momento, não são para aqui chamadas. Fechei o livro e fui pensar noutro assunto menos inquietante.

Mais tarde dei comigo a reler o texto. Confirmei ter captado a ideia lida, mas achei que a abordagem era diversa. Foi então que percebi que tinha chegado a uma zona de interface entre o livro de Pennac e um dos que de momento me acompanham. Nesse Fim de Romance na Patagónia (um dia talvez vos fale das ironias não declaradas que os livros transportam), Mempo Giardinelli acabava de me revelar o ponto nodal:

A minha resposta é sempre a mesma: que não sei, embora saiba que escrevo para ser lido. Não consigo acreditar que alguém escreva, na realidade, para si próprio, ainda que muitos o proclamem. Não creio na escrita onanista e penso que temos sempre o que chamo um “leitor ideal implícito” (…).

Não é espantoso?

É neste momento que o leitor monogâmico – ou a leitora, pois curiosamente esta poligamia é sempre mais incompreendida entre as leitoras com que me vou cruzando - franze o nariz. É pueril a minha conclusão. Nada como um exercício de memória e de disciplinada leitura para juntar estes dois com os outros dois e fazer os quatro necessários à lógica que pretendo montar…

Tudo bem. Dou de barato. Mas não dispenso o prazer que este navegar sem rumo aparente me traz.

Lá dizia o outro, boa noite e bons livros!

#1
[das férias]

Hoje tomei o meu primeiro banho de mar do ano. E que bom que foi.

19.5.10

#1

[Tu disseste]

Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."

"o que é que isso interessa?"

Tu disseste "...nada

17.5.10

1
[ashes to ashes]

aqui vou eu enfrentar o vulcao. Vejamos se a mae natureza nao me prega uma partida :)

13.5.10

[Mesmo a calhar]

Hoje, voltando a pensar no caso, a multiplica,cao do papa nos ecras de televisao (que nao deu origem 'a dos paes), e mais geralmente toda a especie de duplica,coes com que nos satura o nosso culto da imagem, tem alguma coisa a ver com esta histo'ria de so'osias encaixados uns nos outros. Um mundo semelhante 'a Vache qui rit, e' este o sonho dos nossos "comunicadores". Todos apanhados pela voragem...

Daniel Pennac (o meu escritor fetiche)
in O Ditador e a Cama de Rede

11.5.10

#1

[Algumas ironias de um fim-de-semana]

Matar vários coelhos, sem me socorrer da tradicional cajadada

Há a estratégia, a táctica e o resto.

Os filósofos que querem mudar o mundo pela acção também divagam pela inacção.

Há ilusões fáceis de criar. E há algumas fáceis de dinamitar.

O tempo passa e as caravanas ladram.

Descobri, ao nível do solo, que tenho queda para os patins.

O Benfica foi campeão.

6.5.10

#2
[deve ser do facebook]


Tantos meses depois, ainda há gente que pára na rua a olhar e a dizer que tem ideia de me conhecer de algum lado...
#1
[Sábias palavras]

Quero dizer-lhe leitor: "Ouça, a Patagónia vale a pena, mas juro-lhe que o mais belo de viajar por ela, é descobri-la por si mesmo, por si só. Vá e devore-a com os seus próprios olhos!"

Mempo Giardinelli
In Final de Romance na Patagónia

4.5.10

#2
[voltar aos poetas que me dizem tudo]

Neste espaço a si próprio condenado


Neste espaço a si próprio condenado
Dum momento para o outro pode entrar
Um pássaro que levante o céu
E sustente o olhar
....................................
Com a tristeza acender a alegria
Com a miséria atear a felicidade
E no céu inocente da visão
Fazer pulsar um pássaro por vir
Fazer voar um novo coração

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

#1 [...]

Quando eu passo, as árvores ficam sempre*

Publicado no nº 5 do Correio de Sintra, 1 de Maio de 2010

Há cerca de um ano recebi um telefonema que me encheu de tristeza. As árvores de Rio de Mouro, algumas plantadas com a minha ajuda, estavam a ser violentadas.

Alergias! Reclamações! Perigo! Argumentavam os responsáveis pela intervenção e o autarca que assistiam à “poda”.

As árvores da minha infância ficaram indefesas e, durante o verão, encheram-se de fungos. Os pássaros que as costumavam habitar viram-se despejados.

25.4.10

A Salgueiro Maia*


A Salgueiro Maia*
Originally uploaded by André Beja

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

Sophia de Mello Breyner Andresen

*a foto rouba o título ao poema, numa dupla homenagem muito pessoal a estes dois vultos de Abril.

23.4.10

#1
[outra variação]

Contra grandes males (e nenhum remédio), decisões radicais.

20.4.10

#1
[variação do efeito borboleta]

Um vulcão arrota na Islândia e os produtores do Quénia vêm-se obrigados a destruir toneladas de rosas devido ao cancelamento de voos para a Europa.

11.4.10

#1
[...]

Quando a vida de alguém nos escapa entre os dedos todas as questões são válidas (e retóricas).
Há muito que não me acontecia. O embate lembrou-me de como tudo pode ser relativo.

9.4.10

ruta 40


ruta 40
Originally uploaded by André Beja

há um ano estava aqui. O horizonte era largo. Ou parecia ser.