20.5.10

#2

[Linhas cruzadas]

Tenho a mania da poligamia literária. Não é raro andar agarrado a dois ou três livros ao mesmo tempo, num exercício de evasão que por vezes se revela uma estrada de múltiplas saídas, todas elas com bom argumentos para serem seguidas, ou então um ardiloso campo de obstáculos, onde tropeço e me chego a atolar.

Neste swing, por vezes as coisas misturam-se. Há personagens que têm por hábito dar uma perninha noutro livro e por lá armar grande confusão. Há escritores que se lembram de convidar outros escritores para as suas histórias, numa espécie de sessão de psicanálise ou de convocação de espíritos. Há momentos de premonição absoluta, em que um mistério se resolve nas páginas de outro tomo. Sobre tudo isto, muito haveria para dizer, mas do que quero falar é dos momentos de pura fusão, quando dois livros diferentes se interceptam num ponto nodal.

Como leitor poligâmico, sou suficientemente atento para não me perder e distraído quanto baste para me deixar enredar nestes negócios extra-sensoriais que os livros proporcionam. Deu-se o caso de, numa destas manhãs de primavera que convidam aos livros, ter lido sobre uma das angústias de Daniel Pennac (vénias!): para que escrevemos?

Escrevemos para nos sentirmos em paz mas também com o desejo de sermos lidos, não há maneira de escapar a esta contradição. É como se nos estivéssemos a afogar gritando “Olha mamã, sei nadar!”. Os que clamam mais alto por autenticidade lançam-se de um décimo quinto andar, dando o salto do anjo: “Vejam, sou apenas eu!”. Quando pretendemos escrever sem querermos ser lidos (manter um diário íntimo, por exemplo), equivale a prolongar até ao ridículo o sonho de ser autor e ao mesmo tempo leitor. (in O Ditador e a Cama de Rede).

Estocada fatal, que me empurrou para as catacumbas deste blogue e para outras coisas que, de momento, não são para aqui chamadas. Fechei o livro e fui pensar noutro assunto menos inquietante.

Mais tarde dei comigo a reler o texto. Confirmei ter captado a ideia lida, mas achei que a abordagem era diversa. Foi então que percebi que tinha chegado a uma zona de interface entre o livro de Pennac e um dos que de momento me acompanham. Nesse Fim de Romance na Patagónia (um dia talvez vos fale das ironias não declaradas que os livros transportam), Mempo Giardinelli acabava de me revelar o ponto nodal:

A minha resposta é sempre a mesma: que não sei, embora saiba que escrevo para ser lido. Não consigo acreditar que alguém escreva, na realidade, para si próprio, ainda que muitos o proclamem. Não creio na escrita onanista e penso que temos sempre o que chamo um “leitor ideal implícito” (…).

Não é espantoso?

É neste momento que o leitor monogâmico – ou a leitora, pois curiosamente esta poligamia é sempre mais incompreendida entre as leitoras com que me vou cruzando - franze o nariz. É pueril a minha conclusão. Nada como um exercício de memória e de disciplinada leitura para juntar estes dois com os outros dois e fazer os quatro necessários à lógica que pretendo montar…

Tudo bem. Dou de barato. Mas não dispenso o prazer que este navegar sem rumo aparente me traz.

Lá dizia o outro, boa noite e bons livros!

#1
[das férias]

Hoje tomei o meu primeiro banho de mar do ano. E que bom que foi.

19.5.10

#1

[Tu disseste]

Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."

"o que é que isso interessa?"

Tu disseste "...nada

17.5.10

1
[ashes to ashes]

aqui vou eu enfrentar o vulcao. Vejamos se a mae natureza nao me prega uma partida :)

13.5.10

[Mesmo a calhar]

Hoje, voltando a pensar no caso, a multiplica,cao do papa nos ecras de televisao (que nao deu origem 'a dos paes), e mais geralmente toda a especie de duplica,coes com que nos satura o nosso culto da imagem, tem alguma coisa a ver com esta histo'ria de so'osias encaixados uns nos outros. Um mundo semelhante 'a Vache qui rit, e' este o sonho dos nossos "comunicadores". Todos apanhados pela voragem...

Daniel Pennac (o meu escritor fetiche)
in O Ditador e a Cama de Rede

11.5.10

#1

[Algumas ironias de um fim-de-semana]

Matar vários coelhos, sem me socorrer da tradicional cajadada

Há a estratégia, a táctica e o resto.

Os filósofos que querem mudar o mundo pela acção também divagam pela inacção.

Há ilusões fáceis de criar. E há algumas fáceis de dinamitar.

O tempo passa e as caravanas ladram.

Descobri, ao nível do solo, que tenho queda para os patins.

O Benfica foi campeão.

6.5.10

#2
[deve ser do facebook]


Tantos meses depois, ainda há gente que pára na rua a olhar e a dizer que tem ideia de me conhecer de algum lado...
#1
[Sábias palavras]

Quero dizer-lhe leitor: "Ouça, a Patagónia vale a pena, mas juro-lhe que o mais belo de viajar por ela, é descobri-la por si mesmo, por si só. Vá e devore-a com os seus próprios olhos!"

Mempo Giardinelli
In Final de Romance na Patagónia

4.5.10

#2
[voltar aos poetas que me dizem tudo]

Neste espaço a si próprio condenado


Neste espaço a si próprio condenado
Dum momento para o outro pode entrar
Um pássaro que levante o céu
E sustente o olhar
....................................
Com a tristeza acender a alegria
Com a miséria atear a felicidade
E no céu inocente da visão
Fazer pulsar um pássaro por vir
Fazer voar um novo coração

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

#1 [...]

Quando eu passo, as árvores ficam sempre*

Publicado no nº 5 do Correio de Sintra, 1 de Maio de 2010

Há cerca de um ano recebi um telefonema que me encheu de tristeza. As árvores de Rio de Mouro, algumas plantadas com a minha ajuda, estavam a ser violentadas.

Alergias! Reclamações! Perigo! Argumentavam os responsáveis pela intervenção e o autarca que assistiam à “poda”.

As árvores da minha infância ficaram indefesas e, durante o verão, encheram-se de fungos. Os pássaros que as costumavam habitar viram-se despejados.

25.4.10

A Salgueiro Maia*


A Salgueiro Maia*
Originally uploaded by André Beja

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

Sophia de Mello Breyner Andresen

*a foto rouba o título ao poema, numa dupla homenagem muito pessoal a estes dois vultos de Abril.

23.4.10

#1
[outra variação]

Contra grandes males (e nenhum remédio), decisões radicais.

20.4.10

#1
[variação do efeito borboleta]

Um vulcão arrota na Islândia e os produtores do Quénia vêm-se obrigados a destruir toneladas de rosas devido ao cancelamento de voos para a Europa.

11.4.10

#1
[...]

Quando a vida de alguém nos escapa entre os dedos todas as questões são válidas (e retóricas).
Há muito que não me acontecia. O embate lembrou-me de como tudo pode ser relativo.

9.4.10

ruta 40


ruta 40
Originally uploaded by André Beja

há um ano estava aqui. O horizonte era largo. Ou parecia ser.

7.4.10

#2
[...]

Então, vendo que os Persas guardavam silêncio, sem se atrever a manifestar uma opinião contrária à que tinha sido proposta, Artabano, filho de Histaspes, que era tio paterno de Xerxes, confiando precisamente no dito parentesco, disse o seguinte:
(...)
"A precipitação, em suma, engendra erros em todo o tipo de assuntos; e dos erros costumam derivar graves danos. Na cautela, em contrapartida, radicam uma série de vantagens que, embora não se manifestem imediatamente, passado muito tempo, chegam a detectar-se"
(..)

Heródoto de Halicarnaso, in
A Batalha das Termópilas
#1
[una musica brutal]

6.4.10

#1 [O capitalismo dá-me crises]
Em Dezembro passado, o anúncio de aumento da electricidade para 2010 foi justificado pela existência de 2 mil milhões de défice de tarifário. Em 2006, o presidente da ERSE demitiu-se porque o governo se acobardou no momento de aplicar a sua recomendação de, pelas mesmas razões, aumentar a factura dos consumidores domésticos em cerca de 15%.
No passado mês de Março, a CMVM foi informada de que, apesar de ter recuado 6% face ao ano anterior, o resultado líquido da EDP em 2009 foi de 1.024 milhões.
Agora ficámos a saber que António Mexia, Presidente do Conselho de Administração da EDP, foi, entre os CEO do PSI 20 (bonitos chavões), aquele que mais recebeu em 2009, empochando uns míseros 3,1 milhões (há quem fale em 3,3, mas acho que é um abuso...). Se Mexia conseguiu uma folha salarial melhor do que a de Steve Jobs, da Aple, nem quero imaginar os gastos com @s restantes colegas do CA**.
...


** ADENDA: entretando descobri, foram 17 milhões em prémios e remunerações...

4.4.10

O drama do corredor


O drama do corredor
Originally uploaded by André Beja

tantos km corridos, tantas horas de satisfação... que fazer com todos estes sapatos?

2.4.10

#1
[mão morta revisitada]

A esperança é a trela da submissão
Raoul Vaneigem

eles andam aí

1.4.10

#2
[that's it]

Viva a Preguiça

Tanta preguiça, tanto mar, tanto, para dar e vender
Tanta injustiça, tanto esconder, tanto não querer saber
Tanto soninho, fazer tudo sozinho
Quanto desleixo, quanto roubar ao próprio desejo
Quanto menos penso ainda menos aguento grande tormento
Poupar-te um beijo, volta desejo
Viva a preguiça, sem mexer um dedo, bocejar na missa
Tenho receio, metes-me medo, acordas-me a meio
Quanto lamento, dormir no parlamento
Viva a preguiça, mexer um dedo, dormir na missa
Tenho receio, metes-me medo, acordas-me a meio
Viva a preguiça, poupar-te um beijo, dormir na missa
Tenho receio, volta desejo, acorda-me a meio

GNR - para ouvir aqui

red vinyl


red vinyl
Originally uploaded by André Beja

Março foi um mês de muitas fotos. Não sei se para celebrar o sol, distrair o raciocínio, afastar algumas nuvens negras ou se as novas lentes dos meus óculos me estão a dar outra perspectiva da vida e a muscular a imaginação.
Nunca, em quase 6 anos, tinha fotografado e partilhado tanto.
Espero que tenham gostado. Vou continuara a esforçar-me :)

30.3.10

#1 [O Homem que gosta de nuvens]

Tenho a certeza que Nuri Belgi Ceilam passa os dias com o nariz no ar a perscrutar as nuvens.
Só não sei se as suas nuvens existem de facto ou se são apenas fruto da sua imaginação e desejo.
A mim inquietam-me. As suas formas, textura e contraste contam-me histórias para lá do filme. Acendem-me silenciosas vontades. Transportam-me para longe e apertam-se dentro de mim com todas as perguntas que encerram.
Deste filme, fica também a urgência de Istambul

29.3.10

#1 [...]

ÍTACA

Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu

Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Constantino Kavafis

28.3.10

#1
[Tiago]

Decidiste aparecer três semanas mais cedo e dar razão à sabedoria popular, que diz que é na lua cheia que nascem as criaturas.
A partir de hoje deixei de ser o menino da família. Sê bem vindo.
Tio André

26.3.10

#1
[KGlamour]

Conheci a São Trindade na noite. Foi em silêncio que fomos construindo uma certa cumplicidade. Um dia, a propósito da sua máquina fotográfica e de um retrato que com ela fiz, descobrimos uma paixão comum. E descobri também que, ao contrario de mim - que sou um mero aprendiz de feiticeiro -, aquela moça de tranças era (e é) uma fotógrafa a sério.
Vem esta conversa a propósito da nova exposição da Kgaleria, um conjunto de retratos tirados pela São. Passem por lá, até 30 de Abril, porque a inspiração cinematográfica, a luz e os sentidos deste conjunto de imagens de composição clássica, além de deliciosas, dão muito que pensar.

Mais sobre a Kglamour

18.3.10

#1
[...]

Estrela

Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar é entristecer
sem corrompermos
nada.

Carlos de Oliveira

17.3.10

#1
[10]

Bastam dez minutos para atravessar a Kgaleria de uma ponta à outra e ver a exposição 10 de Alexandre Almeida.

A vistia é rápida (o espaço não é muito grande), mas o intervalo é suficiente para que algumas ideias comecem a fermentar.

Há, em cada um daqueles qua(dra)dos, uma história e um elemento dissonante, linhas de força e algo que lhes quebra a harmonia, novas narrativas que despontam.

Vale a pena dar lá um salto.


Site da Kgaleria

11.3.10

#2
[este homem é um senhor]

O PEC peca por parco

"Aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote."

Ricardo Araújo Pereira, Visão, 11 de Março de 2010


É irónico que os problemas económicos possam ser responsáveis pelas maiores desigualdades sociais mas que a economia, enquanto ciência, seja tão igualitária. Alguns dos maiores especialistas em economia previram tanto como eu o aparecimento da crise. A economia tem essa característica fascinante: por muito que alguém se dedique a estudá-la, aparentemente continua a ser um leigo. Um grande administrador tem tanta dificuldade em evitar a calamitosa falência de um banco como um merceeiro versado apenas em contas de somar. Por isso, é com a consciência invulgarmente tranquila que me dedico à análise económica: na pior das hipóteses, os meus comentários farão tão pouco sentido como os de um professor de economia.

Quando o governo propôs o Programa de Estabilidade e Crescimento, a minha primeira impressão foi a de que o PEC tinha um E a mais. Duvido de que a nossa economia precise da ajuda de um programa para estabilizar, uma vez que se encontra estável (no sentido em que um paciente em estado comatoso se mantém estável) há muitos anos. As críticas de alguma oposição parecem-me ainda menos pertinentes. É falso que o Programa de Estabilidade e Crescimento obrigue uma parte significativa dos portugueses a apertar o cinto. E é falso sobretudo na medida em que aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote. O que vai ser preciso apertar agora é o garrote.

O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?

A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições.

Resta a consolação de constatar que o congelamento dos salários dos funcionários públicos não é uma medida assim tão áspera. Os salários, a bem dizer, têm estado no frigorífico. Não vão propriamente sofrer um choque térmico.

#1 [...]

à beira de água

Estive sempre sentado nesta pedra
Escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

Eugénio de Andrade

1.3.10

#1 [Correio de Sintra]

Artigo de opinião publicado no primeiro número do jornal Correio de Sintra.


Correio de Cintra: Jornal político, illustrado, litterario e commercial

A minha primeira reacção, depois do telefonema do Director deste jornal a convidar-me para escrever um artigo de opinião para a primeira edição, foi perguntar ao Google o que sabia sobre a nova publicação. Um gesto quase inconsciente, não fosse eu filho deste tempo de hiper comunicação.

Nada consegui apurar sobre o Correio de Sintra que hoje podemos ler. Mas esse googlar mecanizado não deixou de surpreender e encantar, já que me deu a conhecer o Correio de Cintra, semanário que, entre 1896 e 1904, noticiou os grandes acontecimentos, tragédias e avanços de Sintra nesse conturbado virar de século.

23.2.10

#1
[memória do futuro]

a formiga no carreiro, andava à roda da vida

21.2.10

#1
[um parênteses na vida normal]
A história de um tipo que um dia se desleixou e não cumpriu as regras da sua filosofia de vida. Quando deu por ela, já estava tramado. Já terei lido isto em algum lado?

18.2.10

#1
[é um rio que só eu sei]

Sei de um rio, sei de um rio
Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio, sei de um rio
Onde a própria mentira tem o sabor da verdade
Sei de um rio…
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Sei de um rio, até quando

Pedro Homem de Melo

17.2.10

#1
[Jace Everett]

Lá no fundo, este gajo tem qualquer coisa que me faz lembrar os saudosos Morphine.

16.2.10

#1
[simple pleasures]

Acordar de madrugada, ao som da chuva.
Ver o amanhecer a cair, em silêncio.
Ler, pelo simples exercício de juntar as palavras.
Ouvir um disco antigo e descobrir novas sonoridades na voz de Stuart Staples.

12.2.10

#1
[Perhaps the world's empty]

Ninguém perde um livro
no comboio, ninguém o acha
inutilmente sublinhado
noutra terra, noutra cama.
Ninguém fuma na arcada
rente ao frio de Dezembro,
ninguém sangra no passeio
à mesma hora.
Ninguém parte de repente
à procura de mais mundo,
ninguém chega por acaso
ao seu nenhum sentido
olhando simplesmente
da varanda.

Rui Pires Cabral, em Oráculos de Cabeceira,

4.2.10

#1
[sons de uma adolescência distante :)]

3.2.10

#2
[onde está o wally??*]



* no minuto 5:55
#1
[contra natura??]

para quem diz que a adopção por casais de pessoas do mesmo sexo contraria a natureza, que tome nota:

Lesbian albatrosses to raise their chick
Two females set up 'unusual' family unit after successfully incubating egg
Ver

The independent, 03-02-2010

1.2.10

#1
[a ouvir]

Só mais uma volta

31.1.10

respeito e dignidade


respeito e dignidade
Originally uploaded by André Beja

25.1.10

#1
[coerência? estupidez?]

Há 183 dias (e noites sobretudo) que me faço as mesmas perguntas.
Há seis meses (qualquer coisa quatro mil e tal horas) que espero ver aparecer alguma resposta.

20.1.10

#1
[oh my... Placebo meets Pixies]

With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
If there's nothing in it
And you'll ask yourself

Where is my mind

19.1.10

#1
[vão lá, vão lá!]Segunda Escolha, por António Pedro Ferreira
Kgaleria, Lisboa

São duas dezenas de trabalhos que António Pedro Ferreira fez, no início dos anos 80, quando demandou França com uma bolsa do Ministério da Cultura para fotografar os emigrantes portugueses. A exposição chama-se Segunda escolha e está na galeria Kameraphoto, à rua da Rosa, no Bairro Alto, em Lisboa.
In Jornal de Letras Online

14.1.10

#1
[Mesmo com atraso, feliz aniversário Al]

noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas

al berto

13.1.10

#1
[faltando outra canção do mesmo autor]

Piove, senti come piove
madonna come piove
senti come viene giu'!
piove, senti come piove
madonna come piove

12.1.10

#2
[Com este tempo...]



11.1.10

#1
[dos dias que passam]


- Diga trinta e três.
- 33..?
- Na, ainda não está no ponto. Volte daqui a um ano!

10.1.10

#1
[dos evangelhos]


O cobarde é uma pessoa que foge pra trás
o herói é uma pessoa que foge prá frente
em maior ou menor grau
todos nós fugimos ao
medo que faz o cobarde
medo que faz o valente

6.1.10

#1
[raios]

Tenho na cabeça (e em modo repeat) mil palavras cantadas pela Lhasa.
:(

4.1.10

#2
[posta restante]

Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.


Carlos Drummond de Andrade
#1
[llorando...]

It has snowed more than 40 hours in Montreal since Lhasa's departure.

2.1.10

#1
[só não percebo o nariz... :) ]

Tio André  8-)
Tio André
Técnica Mista: foto sobre quadro de Marta Beja Coelho, 3 anos e meio.

31.12.09

#2
[12 fotos para 2009]

Janeiro
desassossego
Desassossego

Fevereiro
detergente com cheirinho a flores
Detergente com cheirinho a flores

Março
As bandeiras dos nossos Pais
As bandeiras dos nossos pais

Abril
glaciar break
Glaciar Break

Maio
there's a tree
There's a tree

Junho
içar
Içar

Julho
oil
Oil

Agosto
is this love?
Is this love?

Setembro
chess
Chess

Outubro
roof on a table
roof on a table

Novembro
não há acordo
Não há acordo

Dezembro
s
S
#1
[o meu maior desejo para 2010]

É voltar a acreditar na poesia. E nos sinais.
Até lá, ofereçam-me apenas prosa e não me peçam para afinar nas entrelinhas.

30.12.09

#1
[a não perder]
Os barbudos de Alberto Korda
Korda DESconhecido
até 31/01/2010 na Cordoaria
www.korda.com.pt

28.12.09

#1

[estranha forma de vida]

Tenho lido por aí alguns desses habituais balanços que se fazem por alturas do fim de ano. Decidi fazer o mesmo.

Tive um ano intenso e trabalhei que nem um mouro, muitas horas por dia e muitas semanas sem uma pausa digna desse nome. Chego ao fim de Dezembro e ainda tenho sete dias úteis de férias para gozar. Fiz coisas chatas, que não me deram gozo nenhum.

Averbei duas derrotas de vulto. Embora tenham sido colectivas e eu tenha feito tudo o que podia, pelo papel central que tinha nos dois processos, fico a sensação de que vi a minha vida para sempre transformada.

Ainda mantenho velhas contas por acertar com o mestrado. É uma história trágico-existencial, que me provoca inércia, come o tempo livre e me enche de remorsos.

Viajei menos do que gostava. Mas mais do que a maioria das pessoa que conheço. As duas viagens que fiz foram maravilhosas e, posso dizê-lo, a Argentina ganhou um lugar especial no meu coração.

Tive poucos momentos em que consegui desligar da realidade e relaxar. Mas vi filmes que me marcaram, li muitos livros (muitos mesmo), fotografei, ouvi velhas e novas músicas, dei asas à criatividade, comi petiscos de fazer água na boca.

Apesar das dores de cabeça, os copos que bebi souberam-me sempre bem. E os outros excessos também.

Em Setembro lesionei-me numa perna, tive de parar durante 3 semanas. Durante o resto do ano corri centenas de quilómetros, andei largas dezenas e fartei-me de pedalar.

Houve momentos em que me senti profundamente só. Mas teci novas cumplicidades e reforcei laços de toda uma vida. Vi gente contente à minha volta.

Ao contrário do que seria de esperar, não me deixo impressionar pelas nuvens negras. Feitas as contas, evitando olhar as coisas pelo ângulo morto, este foi um ano cheio, onde aprendi imenso em tantas situações de grande exigência e em momentos de grande emotividade.

Saboreei algumas vitórias e continuo com alguns assuntos por resolver. Há episódios e experiências que não quero repetir e outras que gostava de compreender melhor.

Há coisas que faria de outra forma e outras que, por incrível que pareça, repetiria sem hesitar. Sei que podia ter feito tantas outras escolhas. Azar, fiz as que fiz e não há volta a dar.

Sei também que há muitas decisões por tomar e toda uma vida por (re)construir. Desde já, não preciso chegar a 2010 para pensar no assunto.

#1
[basta determinar a fronteira]


Vale mais tarde do que nunca, respondeu o anjo com prosápia, como se acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde, respondeu-lhe caim.

José Saramago, in Caim

26.12.09

#1
[das palavras]

"Como tudo, as palavras têm os seus quês, os seus comos e os seus porquês. Algumas, solenes, interpelam-nos com um ar pomposo, dando-se importância, como se estivessem destinadas a grandes coisas, e, vai-se ver, não eram mais do que uma brisa leve que não conseguiria mover uma vela de moinho, outras, das comuns, das habituais, das de todos os dias, viriam a ter, afinal, consequências que ninguém se atreveria a prever, não tinham nascido para isso, e contudo abalaram o mundo."

José Saramago, in Caim

25.12.09

#1
[for something completely different...]


Natal
Nasce um deus. Outros Morrem. A verdade
Nem sei se foi: o Erro mudou.
Temos Agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Fernando Pessoa,
in Ficções do Interlúdio

23.12.09

#1
[ainda podem ver]

Gangland, de João Pina
Kgaleria, Lisboa

22.12.09

#1
[do primeiro dia de inverno]

A parte boa é que, a partir de hoje, os dias começam a crescer.

18.12.09

#3
[Así es]

Onde começou problema das alterações climáticas? Quem é responsável? Se queremos salvar o planeta temos mudar o sistema capitalista.

Evo Morales, discursando hoje na cimeira de Copenhaga
#2
[manual para abordar miúdas giras I]

Ontem provoquei uma reacção em cadeia: derrubei um escaparate de livros.
Juro que não foi de propósito.
#1
[falta resolver o problema do Sahara]

Aminatu

"Isto é uma vitória para o direito internacional, para a justiça internacional e para a causa saharauí", declarou a activista antes de partir para El Aiún. Aminetu Haidar regressou à sua terra.

Aminetu Haidar em greve de fome há 32 dias, fez estas declarações à comunicação social no próprio hospital, onde tinha sido internada durante a madrugada desta quinta-feira, e antes de sair em direcção ao aeroporto de Lanzarote. Agora já está em sua casa, em El Aaiún, no Sáhara Ocidental. Partiu do aeroporto ontem à noite, às 22h23 (hora das Canárias) num avião medicalizado enviado pelo Governo espanhol.


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17.12.09

#2 [Vá-se lá perceber...]

A indefinição que paira sobre a cimeira de Copenhaga deixa o mundo em suspenso. Aguardamos para saber se há ou não acordo para diminuir as emissões e se os países ditos ricos estão ou não dispostos a compensar os países pobres e emergentes (pela exploração e por tudo o que lhes roubaram) para que a sua economia se possa adaptar às exigências globais.
Enquanto isso, e totalmente em contra ciclo, o país anda preocupado com uma corrida de aviões que, ao que parece, se vai transferir do Porto para Lisboa...
#1 [Dos terramotos]

As estruturas rijas não tremem. Às vezes caiem e nem se apercebem.
Outras vezes ficam estupidamente de pé, enquanto as ruínas se espalham à sua volta.

16.12.09

#1 [juro... isto vinha no Correio da Manhã]

Limpeza mais útil do que a Banca
CM, 15 de Dezembro de 2009

As empregadas de limpeza dos hospitais são muito mais úteis à sociedade do que, por exemplo, os banqueiros ou gestores, e por isso deveriam ter salários equiparados aos benefícios que trazem, afirma um estudo elaborado pela New Economics Foundation no Reino Unido. As funcionárias de limpeza criam uma riqueza de 11 euros por cada euro que ganham, ao passo que os banqueiros destroem 7,7 euros por cada euro que ganham.

ver estudo

14.12.09

#2
[grande porra, isto da poesia]

Desertei das falanges do ouro
para vir sitiar a tua sombra.
Movias-te como se jamais te prendesse
outra lealdade
que não a interrogação
de um cais. E, porém,
os teus olhos silenciosos,
somando as imagens.
Qual pano,
desce sobre a cidade o músculo
das coisas prementes.
Das safras de pólvora colhi a tua incerteza
de rapariga. Depois, perdi-te
entre os prodígios.

Vasco Gato,
in Cerco Voluntário
(Cadernos do Campo Alegre/13, 2009)

#1 [ensaio sobre a lucidez]

Tem dito que acredita que vai vencer, que Marrocos vai ceder. Mas, e se isso não acontecer?

Eu estou segura, tenho a certeza de que Marrocos prefere a minha morte. Estou segura, tenho a certeza. E que mantém a sua posição para me fazer perder tempo, que vai manter a sua posição à espera que me aconteça uma tragédia. Mas, ao mesmo tempo, confio na solidariedade internacional que se gerou. Eu não posso fazer previsões. Não posso dar nenhumas garantias. Não posso dizer que vou resistir. Mas também não posso dizer que não vou resistir. O momento pode chegar. Nem eu nem os médicos podemos controlar o meu estado. Entrei numa situação muito crítica. Tenho forças ainda, mas mesmo tendo forças, nada garante que num dado momento o meu coração não vá parar.

Aminetu Haidar, em entrevista ao Público, 14 de Dezembro de 2009
Ver entrevista completa

12.12.09

#1 [...]

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…


Álvaro de Campos,

Ficções do Interlúdio

11.12.09

#1
[a inocência é uma virtude]

7.12.09

#1
[à medida]

O tempo aqui parou
Desde que te foste embora
Só a saudade ficou
já não aguento tanta demora

6.12.09

#1
[e a liberdade uma maluca]


que sabe quanto vale um beijo
#1
[Companheiro Victor Jara...]

Presente!!!

5.12.09

#1 [...]

Isso pode resvalar para o saudosismo, os bons tempos e semelhantes asnices, não há bons tempos, só há tempos. Nada de saudosismo, saudosismo é uma espécie de masturbação sem verdadeiro prazer, uma inutilidade atranvancadora, que no máximo pode ser empregada para brincadeiras, mas geralmente é perca de tempo mesmo. Não, nada disso. Aqueles tempos tinham o seu charme, mas eram duros também, cada tempo tem a sua dureza , com mil perdões pela filosofia de botequim.

João Ubaldo Ribeiro,
in A Casa dos Budas Ditosos

4.12.09

#1[...]

Chega um tempo em que um homem se interroga
sobre o último sentido ou o sem sentido
o como o quê o para quê e o para onde
um tempo de balanço em que se mede
o vivido e o não vivido. E o poema escreve-se

nesse pensar o que podia ter sido e que não foi
um amor adiado para sempre perdido
como parte da vida que fica para o dia seguinte
para aquela ocasião que nunca chega
e o poema escreve-se nesse quase remorso

ou essa nostalgia de si mesmo
(…)

Manuel Alegre, in Sete Partidas

3.12.09

#1 [Tetro] A história e a forma como é contada, o preto e o branco, as sombras e a luz, o Gallo e a Maribel Verdú... e Buenos Aires.

2.12.09

#1 [A pastelaria Suíça esclarece]

Informam-se os estimados clientes que as pirâmides de chocolate à venda neste estabelecimento não devem ser confundidas com minaretes.

A Gerência

1.12.09

#1
[...]

Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah

30.11.09

#1
[efemérides]

Há cinco anos, mais ou menos por esta hora, Sampaio anunciava a Santana Lopes que o seu (des)governo tinha chegado ao fim da linha.

29.11.09

#1
[a mastigar]


(...)
Num dia emigram as pessoas de um ano, nunca mais os "abraça-me" nem caroços de azeitona.
Eu fico e pelos menos esta noite não sinto falta deles.
Adormeço à mesa, acordo um pouco antes do amanhecer.
Tenho de recomeçar e habituar-me aos dias de boca calada.
Pego no livro suspenso na marca, volto a acertar o passo pelo dele, pela respiração de um outro que conta. Se também eu sou um outro é porque os livros mais do que os anos e as viagens mudam os homens.
Passadas muitas páginas acaba-se por aprender uma variante, um movimento diferente do executado e que se cria inevitável.
Afasto-me daquele que sou quando aprendo a tratar de outro modo a mesma vida.

(...)

Erri de Luca,
in Três cavalos

27.11.09

#1
[nem se acredita...]

A activista iraniana dos direitos humanos Shirin Ebadi revelou que as autoridades iranianas lhe confiscaram a medalha e o diploma recebidos quando foi premiada com o Nobel da Paz, em 2003.
Ebadi foi juíza até à revolução islâmica de 1979, altura em que foi "despromovida" a secretária do ministério da justiça. Mais tarde conseguiu, ao fim de muitos anos de luta com as autoridades, reabrir um escritório para exercer advocacia.
Enquanto escritora, tornou-se conhecida com A Gaiola de Ouro, livro onde relata a história verídica de três irmãos que, durante as décadas de 70 e 80, se dividiram nas três principais facções da política iraniana - os apoiantes do Xá, os apoiantes do república islâmica e os comunistas.
O prémio Nobel da paz foi-lhe atribuído pelo papel de defesa dos direitos humanos e de denúncia dos atropelos cometidos pelo regime dos mullah.

24.11.09

#1
[Separados à nascença?]















Digam lá que o PR e o personagem do filme deste natal não são parecidos?

23.11.09

#2
[antes que me esqueça]


A crítica é demolidora. Eu adorei.
# [já ouvi isto em algum lado...*]

And so she woke up
Woke up from where she was
Lying still
Said I gotta do something
About where we're going


(...)


*é uma das minhas favoritas dos 4 irlandeses

22.11.09

#1 [pure]

21.11.09

#1 [Acordai**]

VOZ

Na sua aparente invisibilidade, a precariedade está em muito do que são as nossas vidas, por detrás dos pequenos gestos do dia a dia, como aquele SMS onde dizemos do amor, da comida que nos mitiga a fome ou da roupa que conforta.

A precariedade está também na cultura. Não só no trabalho de quem a faz, como na lógica que procura determinar a sua produção.

Foi em defesa da cultura que se levantou um amplo movimento de contestação a uma alteração legal promotora da elitização, e consequente precarização, do ensino da música. O momento mais visível desta onda foi uma manifestação em frente à Assembleia da Republica, em Fevereiro de 2008.

Foi o protesto mais belo onde alguma vez estive. As massas trabalhadoras eram agora um coro, uma orquestra, um naipe, uma turma de iniciação. No meio de cartazes e pancartas, violinos, violoncelos e um piano. Por entre palavras de ordem, claves de sol.

A substituir os discursos inflamados, a música. Ainda hoje consigo ouvir o eco daquela heróica de Lopes Graça que, no conforto do sol invernal, a todos e todas incitava... Acordai!


** Este texto e esta foto são um contributo para a campanha Recibos Verdes: antes da Dívida temos Direitos

20.11.09

#1 [...]

19.11.09

#1
[da literatura]

A EDP escreveu ao coronel.

17.11.09

#1
[a arte de nomear]

Dar um nome às coisas, aos sentimentos ou a alguns objectos quotidianos, é um primeiro passo para um convívio mais confortável, para (des)construir ideias persistentes.
Ontem burilei uma palavra. Talvez agora consiga aprimorar.

10.11.09

#1

[As minhas memórias do muro]

I

A cidade abria-se debaixo dos nossos pés. Estava sol.

De repente, dei com o seu sorriso expectante. Soube de imediato que ela vira algo que me ia surpreender.

Rodei sobre mim e foi então que vi o Muro. Ou um pouco do dele sobrava .

Emocionado, acariciei o betão, tentando roubar-lhe um pouco de memória.

II

A fúria de apagar as diferenças era por demais evidente. Mas, apesar dos esforços, havia ainda, nesse verão de 2000, um muro que se pressentia.

A cidade era desigual na arquitectura, com a do socialismo dito real e a degradação da arte nova nos nos bairros de leste a contrastar com o clean ocidental. Mas também a simpatia diferenciava aqueles que, anos antes, haviam recordado ao mundo que eram um só povo.

As gruas pareciam ser um elemento natural da paisagem. Foi a partir daí que a imagem desses gigantes que espreitam por entre os espaços abertos das cidade passou a ser por mim designada como “paisagem berlinense”.

III

No bolso trazíamos moedas de 2,5 escudos, tão parecidas com as de meio marco que as máquinas de chocolates as multiplicavam por 40 e ainda davam troco.

Procurávamos sinais do passado, o ar que inspirara David Bowie ou os U2, os restos dessa efusiva felicidade que me recordava ter visto na TV numa noite de quinta-feira (haverá algum convénio para que os grandes dias sejam à quinta?). Encontrámos um pouco de tudo isso e ainda mais: um sonho de uma noite de verão à beira do Spree com lua cheia, um chá e a vodka na casa de amizade da RDA e da República Soviética do Cazakistão, uma tempestade de verão, os restaurantes turcos, os jardins nos logradouros, os bares cheios de vida, gente a cuspir fogo, o inconfundível som dos trabants...

IV

Nos dias que se seguiram à queda, Stefan insistiu em dar o seu contributo para desmantelar a cortina de ferro. Como era um visionário, apesar de ter 6 anos, insistiu em guardar aquelas pedras. Martina, que já devia estar a sentir uma certa ostalgia bem disposta que a caracteriza, não teve como recusar a exigência do filho.

O Muro ficou lá por casa, como se fosse parte da família. E ainda hoje lá devam estar alguns desses pedaços de memória, guardados numa caixa de sapatos que se vai esvaziando à medida que viajantes ocasionais ou amigos de outras latitudes, como eu, lhes vão ocupando o sofá.

8.11.09

#2 [...]
bye

Encontro
Visito esse lugar.
Procuro-te nesse recanto habitual.
Sei que não estarás lá,
mas finjo ignorá-lo.
Procuro pensar que saíste,
que saíste há pouco,
numa ausência breve,
como se tivesses saído
para logo regressares.
Quando tu chegasses, se chegasses,
dir-te-ia: tu lembras-te?
E o verbo acordaria ecos,
nostalgias distantes,
velhos mitos privados.
Sei que não virás,
conjecturo até, por vezes,
teus distantes, inúteis,
diálogos numa praça gris
que imagino em tarde de invernia.
Então disfarço, ponho-me
a inventar, por exemplo,
uma longilínea praia deserta,
uma fina, fria, nebulosa
praia,
muito silenciosa e deserta.
Pensando nela fito de novo
este lugar e digo para mim
que apenas partiste
por um breve instante
E sigo. E de novo protelo
este encontro impossível.

Rui Knofli, in Álbum
#1 [...]

(...)
Todas as utopias começam com conversões. As pessoas despedem-se das suas antigas religiões, convicções e modos de vida e empenham-se num projecto utópico. Despedir-se e empenhar-se - é isso que uma conversão significa, e não um raio caindo do céu, ou um renascer, ou um êxtase ou qualquer coisa do género. Embora isso também possa acontecer. (...)


Bernhard Schlink, in O outro homem e outras histórias

5.11.09

#1
[Os dias sem ti]

Megafone 5

Ao primeiro embate, algum desconforto.

Naquele álbum de título ligeiramente leninista, o “punk vermelhusco” estava cada vez mais travestido e o som entrava por territórios inesperados. A voz do João era mais grave, apesar de manter a alegria e a energia que já lhe conhecia. Dava vida à poesia e atrevia-se cada vez mais pelo fado, o que era difícil de encaixar.

A pouco e pouco fui digerindo tudo aquilo e o disco (já gravado numa cassete que rodou até se cansar) ganhou estatuto de indispensável. Além de transpirar ironia e boa disposição, aquelas canções falavam de coisas que eu vivia e sentia. Ainda hoje é assim. Tenho o dobro da idade e já não estou apaixonado pela colega da carteira da frente, mas o amor continua a ser um bicho e eu, cada vez mais, uma noz.

A releitura do primeiro tomo dos Sitiados foi o passo seguinte, porque, se a vida de marinheiro era já um clássico, muito havia ainda para descobrir.

Passei a acompanhar, ao longo dos anos, o trabalho do João e de seus comparsas. Nunca o conheci pessoalmente, mas as nossas estradas foram-se cruzando, já que tínhamos amigos e referências em comum.

Lembrei-me de tudo isto ontem no CCB. Estive no Megafone 5, uma bela festa que os amigos e as amigas do João lhe fizeram. Foi uma noite de boa música e de muitas emoções. Gostei muito dos Dead Combo, achei os Gaiteiros de Lisboa um pouco abaixo do que já lhes vi e, apesar de lhes reconhecer o virtuosismo, continuo sem me encontrar com os Oquestrada.

No princípio do espectáculo, o Carlos Guerreiro tratou de desmentir que “os dias sem ti são dias a mais”, essa frase que nos ecoa no íntimo desde Janeiro. Dizia o gaiteiro que estávamos ali para uma festa e não para uma homenagem. Era assim que o João gostava e, de facto, por mais dura que seja a realidade, não há dias a mais.

A fechar a noite, A Naifa. A Sandra ocupou o lugar do seu companheiro de sempre ao baixo e tudo rolou, com direito a confissões sobre o trabalho criativo e a subida ao palco dos pais do João, para um discurso emocionado (e emocionante).

Foi uma bela noite.

4.11.09

#2 [happy birthday]

As personagens de plasticina da série Wallace & Gromit , criada por Nick Park em 1989, celebram hoje o seu vigésimo aniversário.

2.11.09

#1
[Alda Merini, 1931-2009]

Torna amore
vela delicata e libera
che occupi
il pensiero della mia terra

sto morendo sulla grandiosità di un fiume
che è rosso di desiderio
e vorrebbe
travolgere il tuo amore.

1.11.09

#1
[...]

Os muros. Todos
os muros. Um
só muro. E toda
a sede. E todo
o sal
do mar

no peito.

Albano Martins,
in
As vogais aliterantes