
ruta 40
Originally uploaded by André Beja
há um ano estava aqui. O horizonte era largo. Ou parecia ser.

há um ano estava aqui. O horizonte era largo. Ou parecia ser.
Em Dezembro passado, o anúncio de aumento da electricidade para 2010 foi justificado pela existência de 2 mil milhões de défice de tarifário. Em 2006, o presidente da ERSE demitiu-se porque o governo se acobardou no momento de aplicar a sua recomendação de, pelas mesmas razões, aumentar a factura dos consumidores domésticos em cerca de 15%.
tantos km corridos, tantas horas de satisfação... que fazer com todos estes sapatos?

Março foi um mês de muitas fotos. Não sei se para celebrar o sol, distrair o raciocínio, afastar algumas nuvens negras ou se as novas lentes dos meus óculos me estão a dar outra perspectiva da vida e a muscular a imaginação.
Nunca, em quase 6 anos, tinha fotografado e partilhado tanto.
Espero que tenham gostado. Vou continuara a esforçar-me :)
Tenho a certeza que Nuri Belgi Ceilam passa os dias com o nariz no ar a perscrutar as nuvens.#1 [...]
ÍTACA
Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.
Constantino Kavafis
Conheci a São Trindade na noite. Foi em silêncio que fomos construindo uma certa cumplicidade. Um dia, a propósito da sua máquina fotográfica e de um retrato que com ela fiz, descobrimos uma paixão comum. E descobri também que, ao contrario de mim - que sou um mero aprendiz de feiticeiro -, aquela moça de tranças era (e é) uma fotógrafa a sério.
Bastam dez minutos para atravessar a Kgaleria de uma ponta à outra e ver a exposição 10 de Alexandre Almeida.
A vistia é rápida (o espaço não é muito grande), mas o intervalo é suficiente para que algumas ideias comecem a fermentar.
Há, em cada um daqueles qua(dra)dos, uma história e um elemento dissonante, linhas de força e algo que lhes quebra a harmonia, novas narrativas que despontam.
Vale a pena dar lá um salto.
Quando o governo propôs o Programa de Estabilidade e Crescimento, a minha primeira impressão foi a de que o PEC tinha um E a mais. Duvido de que a nossa economia precise da ajuda de um programa para estabilizar, uma vez que se encontra estável (no sentido em que um paciente em estado comatoso se mantém estável) há muitos anos. As críticas de alguma oposição parecem-me ainda menos pertinentes. É falso que o Programa de Estabilidade e Crescimento obrigue uma parte significativa dos portugueses a apertar o cinto. E é falso sobretudo na medida em que aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote. O que vai ser preciso apertar agora é o garrote.
O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?
A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições.
Resta a consolação de constatar que o congelamento dos salários dos funcionários públicos não é uma medida assim tão áspera. Os salários, a bem dizer, têm estado no frigorífico. Não vão propriamente sofrer um choque térmico.
#1 [Correio de Sintra]
Artigo de opinião publicado no primeiro número do jornal Correio de Sintra.
Correio de Cintra: Jornal político, illustrado, litterario e commercial
A minha primeira reacção, depois do telefonema do Director deste jornal a convidar-me para escrever um artigo de opinião para a primeira edição, foi perguntar ao Google o que sabia sobre a nova publicação. Um gesto quase inconsciente, não fosse eu filho deste tempo de hiper comunicação.
Nada consegui apurar sobre o Correio de Sintra que hoje podemos ler. Mas esse googlar mecanizado não deixou de surpreender e encantar, já que me deu a conhecer o Correio de Cintra, semanário que, entre 1896 e 1904, noticiou os grandes acontecimentos, tragédias e avanços de Sintra nesse conturbado virar de século.
Pedro Homem de Melo
#1
[estranha forma de vida]
Tenho lido por aí alguns desses habituais balanços que se fazem por alturas do fim de ano. Decidi fazer o mesmo.
Tive um ano intenso e trabalhei que nem um mouro, muitas horas por dia e muitas semanas sem uma pausa digna desse nome. Chego ao fim de Dezembro e ainda tenho sete dias úteis de férias para gozar. Fiz coisas chatas, que não me deram gozo nenhum.
Averbei duas derrotas de vulto. Embora tenham sido colectivas e eu tenha feito tudo o que podia, pelo papel central que tinha nos dois processos, fico a sensação de que vi a minha vida para sempre transformada.
Ainda mantenho velhas contas por acertar com o mestrado. É uma história trágico-existencial, que me provoca inércia, come o tempo livre e me enche de remorsos.
Viajei menos do que gostava. Mas mais do que a maioria das pessoa que conheço. As duas viagens que fiz foram maravilhosas e, posso dizê-lo, a Argentina ganhou um lugar especial no meu coração.
Tive poucos momentos em que consegui desligar da realidade e relaxar. Mas vi filmes que me marcaram, li muitos livros (muitos mesmo), fotografei, ouvi velhas e novas músicas, dei asas à criatividade, comi petiscos de fazer água na boca.
Apesar das dores de cabeça, os copos que bebi souberam-me sempre bem. E os outros excessos também.
Em Setembro lesionei-me numa perna, tive de parar durante 3 semanas. Durante o resto do ano corri centenas de quilómetros, andei largas dezenas e fartei-me de pedalar.
Houve momentos em que me senti profundamente só. Mas teci novas cumplicidades e reforcei laços de toda uma vida. Vi gente contente à minha volta.
Ao contrário do que seria de esperar, não me deixo impressionar pelas nuvens negras. Feitas as contas, evitando olhar as coisas pelo ângulo morto, este foi um ano cheio, onde aprendi imenso em tantas situações de grande exigência e em momentos de grande emotividade.
Saboreei algumas vitórias e continuo com alguns assuntos por resolver. Há episódios e experiências que não quero repetir e outras que gostava de compreender melhor.
Há coisas que faria de outra forma e outras que, por incrível que pareça, repetiria sem hesitar. Sei que podia ter feito tantas outras escolhas. Azar, fiz as que fiz e não há volta a dar.
Sei também que há muitas decisões por tomar e toda uma vida por (re)construir. Desde já, não preciso chegar a 2010 para pensar no assunto.
| Aminetu Haidar em greve de fome há 32 dias, fez estas declarações à comunicação social no próprio hospital, onde tinha sido internada durante a madrugada desta quinta-feira, e antes de sair em direcção ao aeroporto de Lanzarote. Agora já está em sua casa, em El Aaiún, no Sáhara Ocidental. Partiu do aeroporto ontem à noite, às 22h23 (hora das Canárias) num avião medicalizado enviado pelo Governo espanhol. |
Desertei das falanges do ouro
para vir sitiar a tua sombra.
Movias-te como se jamais te prendesse
outra lealdade
que não a interrogação
de um cais. E, porém,
os teus olhos silenciosos,
somando as imagens.
Qual pano,
desce sobre a cidade o músculo
das coisas prementes.
Das safras de pólvora colhi a tua incerteza
de rapariga. Depois, perdi-te
entre os prodígios.
#1 [...]
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…
Ficções do Interlúdio
nesse pensar o que podia ter sido e que não foi
um amor adiado para sempre perdido
como parte da vida que fica para o dia seguinte
para aquela ocasião que nunca chega
e o poema escreve-se nesse quase remorso
ou essa nostalgia de si mesmo
(…)
Na sua aparente invisibilidade, a precariedade está em muito do que são as nossas vidas, por detrás dos pequenos gestos do dia a dia, como aquele SMS onde dizemos do amor, da comida que nos mitiga a fome ou da roupa que conforta.
A precariedade está também na cultura. Não só no trabalho de quem a faz, como na lógica que procura determinar a sua produção.
Foi em defesa da cultura que se levantou um amplo movimento de contestação a uma alteração legal promotora da elitização, e consequente precarização, do ensino da música. O momento mais visível desta onda foi uma manifestação em frente à Assembleia da Republica, em Fevereiro de 2008.
Foi o protesto mais belo onde alguma vez estive. As massas trabalhadoras eram agora um coro, uma orquestra, um naipe, uma turma de iniciação. No meio de cartazes e pancartas, violinos, violoncelos e um piano. Por entre palavras de ordem, claves de sol.
A substituir os discursos inflamados, a música. Ainda hoje consigo ouvir o eco daquela heróica de Lopes Graça que, no conforto do sol invernal, a todos e todas incitava... Acordai!
** Este texto e esta foto são um contributo para a campanha Recibos Verdes: antes da Dívida temos Direitos
#1
[As minhas memórias do muro]
I
A cidade abria-se debaixo dos nossos pés. Estava sol.
De repente, dei com o seu sorriso expectante. Soube de imediato que ela vira algo que me ia surpreender.
Rodei sobre mim e foi então que vi o Muro. Ou um pouco do dele sobrava .
Emocionado, acariciei o betão, tentando roubar-lhe um pouco de memória.
II
A fúria de apagar as diferenças era por demais evidente. Mas, apesar dos esforços, havia ainda, nesse verão de 2000, um muro que se pressentia.
A cidade era desigual na arquitectura, com a do socialismo dito real e a degradação da arte nova nos nos bairros de leste a contrastar com o clean ocidental. Mas também a simpatia diferenciava aqueles que, anos antes, haviam recordado ao mundo que eram um só povo.
As gruas pareciam ser um elemento natural da paisagem. Foi a partir daí que a imagem desses gigantes que espreitam por entre os espaços abertos das cidade passou a ser por mim designada como “paisagem berlinense”.
No bolso trazíamos moedas de 2,5 escudos, tão parecidas com as de meio marco que as máquinas de chocolates as multiplicavam por 40 e ainda davam troco.
Procurávamos sinais do passado, o ar que inspirara David Bowie ou os U2, os restos dessa efusiva felicidade que me recordava ter visto na TV numa noite de quinta-feira (haverá algum convénio para que os grandes dias sejam à quinta?). Encontrámos um pouco de tudo isso e ainda mais: um sonho de uma noite de verão à beira do Spree com lua cheia, um chá e a vodka na casa de amizade da RDA e da República Soviética do Cazakistão, uma tempestade de verão, os restaurantes turcos, os jardins nos logradouros, os bares cheios de vida, gente a cuspir fogo, o inconfundível som dos trabants...
IV
Nos dias que se seguiram à queda, Stefan insistiu em dar o seu contributo para desmantelar a cortina de ferro. Como era um visionário, apesar de ter 6 anos, insistiu em guardar aquelas pedras. Martina, que já devia estar a sentir uma certa ostalgia bem disposta que a caracteriza, não teve como recusar a exigência do filho.
O Muro ficou lá por casa, como se fosse parte da família. E ainda hoje lá devam estar alguns desses pedaços de memória, guardados numa caixa de sapatos que se vai esvaziando à medida que viajantes ocasionais ou amigos de outras latitudes, como eu, lhes vão ocupando o sofá.

Ao primeiro embate, algum desconforto.
Naquele álbum de título ligeiramente leninista, o “punk vermelhusco” estava cada vez mais travestido e o som entrava por territórios inesperados. A voz do João era mais grave, apesar de manter a alegria e a energia que já lhe conhecia. Dava vida à poesia e atrevia-se cada vez mais pelo fado, o que era difícil de encaixar.
A pouco e pouco fui digerindo tudo aquilo e o disco (já gravado numa cassete que rodou até se cansar) ganhou estatuto de indispensável. Além de transpirar ironia e boa disposição, aquelas canções falavam de coisas que eu vivia e sentia. Ainda hoje é assim. Tenho o dobro da idade e já não estou apaixonado pela colega da carteira da frente, mas o amor continua a ser um bicho e eu, cada vez mais, uma noz.
A releitura do primeiro tomo dos Sitiados foi o passo seguinte, porque, se a vida de marinheiro era já um clássico, muito havia ainda para descobrir.
Passei a acompanhar, ao longo dos anos, o trabalho do João e de seus comparsas. Nunca o conheci pessoalmente, mas as nossas estradas foram-se cruzando, já que tínhamos amigos e referências em comum.
Lembrei-me de tudo isto ontem no CCB. Estive no Megafone 5, uma bela festa que os amigos e as amigas do João lhe fizeram. Foi uma noite de boa música e de muitas emoções. Gostei muito dos Dead Combo, achei os Gaiteiros de Lisboa um pouco abaixo do que já lhes vi e, apesar de lhes reconhecer o virtuosismo, continuo sem me encontrar com os Oquestrada.
No princípio do espectáculo, o Carlos Guerreiro tratou de desmentir que “os dias sem ti são dias a mais”, essa frase que nos ecoa no íntimo desde Janeiro. Dizia o gaiteiro que estávamos ali para uma festa e não para uma homenagem. Era assim que o João gostava e, de facto, por mais dura que seja a realidade, não há dias a mais.
A fechar a noite, A Naifa. A Sandra ocupou o lugar do seu companheiro de sempre ao baixo e tudo rolou, com direito a confissões sobre o trabalho criativo e a subida ao palco dos pais do João, para um discurso emocionado (e emocionante).
Foi uma bela noite.
#1
[...]
you know my love goes with you as your love stays with me,
it's just the way it changes, like the shoreline and the sea,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.