4.1.10
[posta restante]
Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.
Carlos Drummond de Andrade
31.12.09
28.12.09
#1
[estranha forma de vida]
Tenho lido por aí alguns desses habituais balanços que se fazem por alturas do fim de ano. Decidi fazer o mesmo.
Tive um ano intenso e trabalhei que nem um mouro, muitas horas por dia e muitas semanas sem uma pausa digna desse nome. Chego ao fim de Dezembro e ainda tenho sete dias úteis de férias para gozar. Fiz coisas chatas, que não me deram gozo nenhum.
Averbei duas derrotas de vulto. Embora tenham sido colectivas e eu tenha feito tudo o que podia, pelo papel central que tinha nos dois processos, fico a sensação de que vi a minha vida para sempre transformada.
Ainda mantenho velhas contas por acertar com o mestrado. É uma história trágico-existencial, que me provoca inércia, come o tempo livre e me enche de remorsos.
Viajei menos do que gostava. Mas mais do que a maioria das pessoa que conheço. As duas viagens que fiz foram maravilhosas e, posso dizê-lo, a Argentina ganhou um lugar especial no meu coração.
Tive poucos momentos em que consegui desligar da realidade e relaxar. Mas vi filmes que me marcaram, li muitos livros (muitos mesmo), fotografei, ouvi velhas e novas músicas, dei asas à criatividade, comi petiscos de fazer água na boca.
Apesar das dores de cabeça, os copos que bebi souberam-me sempre bem. E os outros excessos também.
Em Setembro lesionei-me numa perna, tive de parar durante 3 semanas. Durante o resto do ano corri centenas de quilómetros, andei largas dezenas e fartei-me de pedalar.
Houve momentos em que me senti profundamente só. Mas teci novas cumplicidades e reforcei laços de toda uma vida. Vi gente contente à minha volta.
Ao contrário do que seria de esperar, não me deixo impressionar pelas nuvens negras. Feitas as contas, evitando olhar as coisas pelo ângulo morto, este foi um ano cheio, onde aprendi imenso em tantas situações de grande exigência e em momentos de grande emotividade.
Saboreei algumas vitórias e continuo com alguns assuntos por resolver. Há episódios e experiências que não quero repetir e outras que gostava de compreender melhor.
Há coisas que faria de outra forma e outras que, por incrível que pareça, repetiria sem hesitar. Sei que podia ter feito tantas outras escolhas. Azar, fiz as que fiz e não há volta a dar.
Sei também que há muitas decisões por tomar e toda uma vida por (re)construir. Desde já, não preciso chegar a 2010 para pensar no assunto.
26.12.09
[das palavras]
"Como tudo, as palavras têm os seus quês, os seus comos e os seus porquês. Algumas, solenes, interpelam-nos com um ar pomposo, dando-se importância, como se estivessem destinadas a grandes coisas, e, vai-se ver, não eram mais do que uma brisa leve que não conseguiria mover uma vela de moinho, outras, das comuns, das habituais, das de todos os dias, viriam a ter, afinal, consequências que ninguém se atreveria a prever, não tinham nascido para isso, e contudo abalaram o mundo."
José Saramago, in Caim
25.12.09
[for something completely different...]
Natal
Nasce um deus. Outros Morrem. A verdade
Nem sei se foi: o Erro mudou.
Temos Agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
Fernando Pessoa,
in Ficções do Interlúdio
22.12.09
18.12.09
[falta resolver o problema do Sahara]
"Isto é uma vitória para o direito internacional, para a justiça internacional e para a causa saharauí", declarou a activista antes de partir para El Aiún. Aminetu Haidar regressou à sua terra.
| Aminetu Haidar em greve de fome há 32 dias, fez estas declarações à comunicação social no próprio hospital, onde tinha sido internada durante a madrugada desta quinta-feira, e antes de sair em direcção ao aeroporto de Lanzarote. Agora já está em sua casa, em El Aaiún, no Sáhara Ocidental. Partiu do aeroporto ontem à noite, às 22h23 (hora das Canárias) num avião medicalizado enviado pelo Governo espanhol. |
ler mais
17.12.09
A indefinição que paira sobre a cimeira de Copenhaga deixa o mundo em suspenso. Aguardamos para saber se há ou não acordo para diminuir as emissões e se os países ditos ricos estão ou não dispostos a compensar os países pobres e emergentes (
Enquanto isso, e totalmente em contra ciclo, o país anda preocupado com uma corrida de aviões que, ao que parece, se vai transferir do Porto para Lisboa...
16.12.09
Limpeza mais útil do que a Banca
CM, 15 de Dezembro de 2009
As empregadas de limpeza dos hospitais são muito mais úteis à sociedade do que, por exemplo, os banqueiros ou gestores, e por isso deveriam ter salários equiparados aos benefícios que trazem, afirma um estudo elaborado pela New Economics Foundation no Reino Unido. As funcionárias de limpeza criam uma riqueza de 11 euros por cada euro que ganham, ao passo que os banqueiros destroem 7,7 euros por cada euro que ganham.
ver estudo
14.12.09
[grande porra, isto da poesia]
Desertei das falanges do ouro
para vir sitiar a tua sombra.
Movias-te como se jamais te prendesse
outra lealdade
que não a interrogação
de um cais. E, porém,
os teus olhos silenciosos,
somando as imagens.
Qual pano,
desce sobre a cidade o músculo
das coisas prementes.
Das safras de pólvora colhi a tua incerteza
de rapariga. Depois, perdi-te
entre os prodígios.
in Cerco Voluntário
(Cadernos do Campo Alegre/13, 2009)
Tem dito que acredita que vai vencer, que Marrocos vai ceder. Mas, e se isso não acontecer?
Eu estou segura, tenho a certeza de que Marrocos prefere a minha morte. Estou segura, tenho a certeza. E que mantém a sua posição para me fazer perder tempo, que vai manter a sua posição à espera que me aconteça uma tragédia. Mas, ao mesmo tempo, confio na solidariedade internacional que se gerou. Eu não posso fazer previsões. Não posso dar nenhumas garantias. Não posso dizer que vou resistir. Mas também não posso dizer que não vou resistir. O momento pode chegar. Nem eu nem os médicos podemos controlar o meu estado. Entrei numa situação muito crítica. Tenho forças ainda, mas mesmo tendo forças, nada garante que num dado momento o meu coração não vá parar.
Aminetu Haidar, em entrevista ao Público, 14 de Dezembro de 2009
Ver entrevista completa
12.12.09
#1 [...]
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…
Ficções do Interlúdio
11.12.09
7.12.09
[à medida]
O tempo aqui parou
Desde que te foste embora
Só a saudade ficou
já não aguento tanta demora
6.12.09
5.12.09
Isso pode resvalar para o saudosismo, os bons tempos e semelhantes asnices, não há bons tempos, só há tempos. Nada de saudosismo, saudosismo é uma espécie de masturbação sem verdadeiro prazer, uma inutilidade atranvancadora, que no máximo pode ser empregada para brincadeiras, mas geralmente é perca de tempo mesmo. Não, nada disso. Aqueles tempos tinham o seu charme, mas eram duros também, cada tempo tem a sua dureza , com mil perdões pela filosofia de botequim.
João Ubaldo Ribeiro,
in A Casa dos Budas Ditosos
4.12.09
Chega um tempo em que um homem se interroga
sobre o último sentido ou o sem sentido
o como o quê o para quê e o para onde
um tempo de balanço em que se mede
o vivido e o não vivido. E o poema escreve-se
nesse pensar o que podia ter sido e que não foi
um amor adiado para sempre perdido
como parte da vida que fica para o dia seguinte
para aquela ocasião que nunca chega
e o poema escreve-se nesse quase remorso
ou essa nostalgia de si mesmo
(…)
2.12.09
1.12.09
[...]
Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
30.11.09
29.11.09
[a mastigar]
(...)
Num dia emigram as pessoas de um ano, nunca mais os "abraça-me" nem caroços de azeitona.
Eu fico e pelos menos esta noite não sinto falta deles.
Adormeço à mesa, acordo um pouco antes do amanhecer.
Tenho de recomeçar e habituar-me aos dias de boca calada.
Pego no livro suspenso na marca, volto a acertar o passo pelo dele, pela respiração de um outro que conta. Se também eu sou um outro é porque os livros mais do que os anos e as viagens mudam os homens.
Passadas muitas páginas acaba-se por aprender uma variante, um movimento diferente do executado e que se cria inevitável.
Afasto-me daquele que sou quando aprendo a tratar de outro modo a mesma vida.
(...)
Erri de Luca,
in Três cavalos
27.11.09
[nem se acredita...]
A activista iraniana dos direitos humanos Shirin Ebadi revelou que as autoridades iranianas lhe confiscaram a medalha e o diploma recebidos quando foi premiada com o Nobel da Paz, em 2003.
Ebadi foi juíza até à revolução islâmica de 1979, altura em que foi "despromovida" a secretária do ministério da justiça. Mais tarde conseguiu, ao fim de muitos anos de luta com as autoridades, reabrir um escritório para exercer advocacia.
Enquanto escritora, tornou-se conhecida com A Gaiola de Ouro, livro onde relata a história verídica de três irmãos que, durante as décadas de 70 e 80, se dividiram nas três principais facções da política iraniana - os apoiantes do Xá, os apoiantes do república islâmica e os comunistas.
O prémio Nobel da paz foi-lhe atribuído pelo papel de defesa dos direitos humanos e de denúncia dos atropelos cometidos pelo regime dos mullah.
23.11.09
And so she woke up
Woke up from where she was
Lying still
Said I gotta do something
About where we're going
(...)
*é uma das minhas favoritas dos 4 irlandeses
22.11.09
21.11.09
Na sua aparente invisibilidade, a precariedade está em muito do que são as nossas vidas, por detrás dos pequenos gestos do dia a dia, como aquele SMS onde dizemos do amor, da comida que nos mitiga a fome ou da roupa que conforta.
A precariedade está também na cultura. Não só no trabalho de quem a faz, como na lógica que procura determinar a sua produção.
Foi em defesa da cultura que se levantou um amplo movimento de contestação a uma alteração legal promotora da elitização, e consequente precarização, do ensino da música. O momento mais visível desta onda foi uma manifestação em frente à Assembleia da Republica, em Fevereiro de 2008.
Foi o protesto mais belo onde alguma vez estive. As massas trabalhadoras eram agora um coro, uma orquestra, um naipe, uma turma de iniciação. No meio de cartazes e pancartas, violinos, violoncelos e um piano. Por entre palavras de ordem, claves de sol.
A substituir os discursos inflamados, a música. Ainda hoje consigo ouvir o eco daquela heróica de Lopes Graça que, no conforto do sol invernal, a todos e todas incitava... Acordai!
** Este texto e esta foto são um contributo para a campanha Recibos Verdes: antes da Dívida temos Direitos
20.11.09
19.11.09
17.11.09
10.11.09
#1
[As minhas memórias do muro]
I
A cidade abria-se debaixo dos nossos pés. Estava sol.
De repente, dei com o seu sorriso expectante. Soube de imediato que ela vira algo que me ia surpreender.
Rodei sobre mim e foi então que vi o Muro. Ou um pouco do dele sobrava .
Emocionado, acariciei o betão, tentando roubar-lhe um pouco de memória.
II
A fúria de apagar as diferenças era por demais evidente. Mas, apesar dos esforços, havia ainda, nesse verão de 2000, um muro que se pressentia.
A cidade era desigual na arquitectura, com a do socialismo dito real e a degradação da arte nova nos nos bairros de leste a contrastar com o clean ocidental. Mas também a simpatia diferenciava aqueles que, anos antes, haviam recordado ao mundo que eram um só povo.
As gruas pareciam ser um elemento natural da paisagem. Foi a partir daí que a imagem desses gigantes que espreitam por entre os espaços abertos das cidade passou a ser por mim designada como “paisagem berlinense”.
No bolso trazíamos moedas de 2,5 escudos, tão parecidas com as de meio marco que as máquinas de chocolates as multiplicavam por 40 e ainda davam troco.
Procurávamos sinais do passado, o ar que inspirara David Bowie ou os U2, os restos dessa efusiva felicidade que me recordava ter visto na TV numa noite de quinta-feira (haverá algum convénio para que os grandes dias sejam à quinta?). Encontrámos um pouco de tudo isso e ainda mais: um sonho de uma noite de verão à beira do Spree com lua cheia, um chá e a vodka na casa de amizade da RDA e da República Soviética do Cazakistão, uma tempestade de verão, os restaurantes turcos, os jardins nos logradouros, os bares cheios de vida, gente a cuspir fogo, o inconfundível som dos trabants...
IV
Nos dias que se seguiram à queda, Stefan insistiu em dar o seu contributo para desmantelar a cortina de ferro. Como era um visionário, apesar de ter 6 anos, insistiu em guardar aquelas pedras. Martina, que já devia estar a sentir uma certa ostalgia bem disposta que a caracteriza, não teve como recusar a exigência do filho.
O Muro ficou lá por casa, como se fosse parte da família. E ainda hoje lá devam estar alguns desses pedaços de memória, guardados numa caixa de sapatos que se vai esvaziando à medida que viajantes ocasionais ou amigos de outras latitudes, como eu, lhes vão ocupando o sofá.
8.11.09

Encontro
Visito esse lugar.
Procuro-te nesse recanto habitual.
Sei que não estarás lá,
mas finjo ignorá-lo.
Procuro pensar que saíste,
que saíste há pouco,
numa ausência breve,
como se tivesses saído
para logo regressares.
Quando tu chegasses, se chegasses,
dir-te-ia: tu lembras-te?
E o verbo acordaria ecos,
nostalgias distantes,
velhos mitos privados.
Sei que não virás,
conjecturo até, por vezes,
teus distantes, inúteis,
diálogos numa praça gris
que imagino em tarde de invernia.
Então disfarço, ponho-me
a inventar, por exemplo,
uma longilínea praia deserta,
uma fina, fria, nebulosa
praia,
muito silenciosa e deserta.
Pensando nela fito de novo
este lugar e digo para mim
que apenas partiste
por um breve instante
E sigo. E de novo protelo
este encontro impossível.
Rui Knofli, in Álbum
(...)
Todas as utopias começam com conversões. As pessoas despedem-se das suas antigas religiões, convicções e modos de vida e empenham-se num projecto utópico. Despedir-se e empenhar-se - é isso que uma conversão significa, e não um raio caindo do céu, ou um renascer, ou um êxtase ou qualquer coisa do género. Embora isso também possa acontecer. (...)
Bernhard Schlink, in O outro homem e outras histórias
5.11.09
[Os dias sem ti]
Ao primeiro embate, algum desconforto.
Naquele álbum de título ligeiramente leninista, o “punk vermelhusco” estava cada vez mais travestido e o som entrava por territórios inesperados. A voz do João era mais grave, apesar de manter a alegria e a energia que já lhe conhecia. Dava vida à poesia e atrevia-se cada vez mais pelo fado, o que era difícil de encaixar.
A pouco e pouco fui digerindo tudo aquilo e o disco (já gravado numa cassete que rodou até se cansar) ganhou estatuto de indispensável. Além de transpirar ironia e boa disposição, aquelas canções falavam de coisas que eu vivia e sentia. Ainda hoje é assim. Tenho o dobro da idade e já não estou apaixonado pela colega da carteira da frente, mas o amor continua a ser um bicho e eu, cada vez mais, uma noz.
A releitura do primeiro tomo dos Sitiados foi o passo seguinte, porque, se a vida de marinheiro era já um clássico, muito havia ainda para descobrir.
Passei a acompanhar, ao longo dos anos, o trabalho do João e de seus comparsas. Nunca o conheci pessoalmente, mas as nossas estradas foram-se cruzando, já que tínhamos amigos e referências em comum.
Lembrei-me de tudo isto ontem no CCB. Estive no Megafone 5, uma bela festa que os amigos e as amigas do João lhe fizeram. Foi uma noite de boa música e de muitas emoções. Gostei muito dos Dead Combo, achei os Gaiteiros de Lisboa um pouco abaixo do que já lhes vi e, apesar de lhes reconhecer o virtuosismo, continuo sem me encontrar com os Oquestrada.
No princípio do espectáculo, o Carlos Guerreiro tratou de desmentir que “os dias sem ti são dias a mais”, essa frase que nos ecoa no íntimo desde Janeiro. Dizia o gaiteiro que estávamos ali para uma festa e não para uma homenagem. Era assim que o João gostava e, de facto, por mais dura que seja a realidade, não há dias a mais.
A fechar a noite, A Naifa. A Sandra ocupou o lugar do seu companheiro de sempre ao baixo e tudo rolou, com direito a confissões sobre o trabalho criativo e a subida ao palco dos pais do João, para um discurso emocionado (e emocionante).
Foi uma bela noite.
4.11.09
2.11.09
1.11.09
28.10.09
[...]
...
Drummer bleeding
It's his pulse you're feeling
Singer screaming
Words you been feeling
Oh you see it working
You and me been hurting
All the time we're being spun
Just to sing song
Sing song sung
...
Air - Sing Song sung
13.10.09
12.10.09
6.10.09
25.9.09
[...]
falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida
Bénédict Houard,
[in Aluimentos, Cotovia, 2009]
21.9.09
[that i've never forgotten]
(...)
We lean against railings
Describing the colours
And the smells of our homelands
Acting like lovers
How did we get here?
To this point of living?
I held my breath
And you said something
18.9.09
[...]
I dreamed it was a dream that you were gone
I woke up feeling so ripped by reality
Yeah, love is the king of the beasts
And when it gets hungry it must kill to eat
Yeah, love is the king of the beasts
A lion walking down city streets
Bill Callahan
12.9.09
[matinal]
Passa, lento vapor, passa e não fiques... Passa de mim, passa da minha vista, Vai-te de dentro do meu coração, Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... Eu quem sou para que chore e interrogue? Eu quem sou para que te fale e te ame? Eu quem sou para que me perturbe ver-te? Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, Luzem os telhados dos edifícios do cais, Todo o lado de cá da cidade brilha...
Álvaro de Campos In “Ode Marítima”
6.9.09
[Velhas canções]
Please open your hand when you don't know how to do,
You want my life, but you've just said no more,
Everything is just my fault, the life well done,
I can't understand you more yeah
4.9.09
3.9.09
#1
[...]
you know my love goes with you as your love stays with me,
it's just the way it changes, like the shoreline and the sea,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.
2.9.09
[para memória futura]
"Presto homenagem aos 60 milhões de mortos causados por esta guerra desencadeada pela Alemanha. Não existem palavras que possam descrever o sofrimento causado por esta guerra e pelo holocausto."
Angela Merkel, Chanceler Alemã, discursando na cerimónia que assinalou os 70 anos do início da II Grande Guerra.
[de passagem]
E quando tu olhares para o lado
Será que tens alguém
Alguém que sinta e que queira
Tanto mais que tu e eu
há muitos que um disco dos Xutos não me entusiasmava tanto.
31.8.09
#1 [há frases que valem por todo um livro]
(…)
Estávamos sentados à mesa quando ela, dando continuidade a algum pensamento do qual não nos deu pormenores, disse de repente, Quando às vezes vejo que se cometem tantos erros e que muitas coisas se fazem mal, dói-me e fico irritada, mas, ao contrário do que acontece a alguns, não me dá vontade de abandonar o barco, mas sim de trabalhar mais para deixar bem claro aos incompetentes, aos burocratas, aos preguiçosos e até a mim própria que não permitiremos que se deite a nosso Revolução a perder porque não voltaremos a ter outra oportunidade como esta e isso sabemos nós, os pobres, melhor que ninguém. (…)
29.8.09
22.8.09
[reflexos de um certo amanhecer com a Sicília]
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Alberto Caeiro, in Pastor Amoroso
20.8.09
18.8.09
O que na verdade sou e a verdade
Pode ser elevada à coisa sonhada
Reinventada por muito se querer
E eu quero ser o teu amante
13.8.09
(...)
I've given all I can
It's not enough
I've given all I can
But we're still on the payroll
Radiohead, Karma Police
9.8.09
6.8.09
2.8.09
A memória é tramada. Tentamos pôr-lhe portas corta fogo para controlar estragos, mas ela acaba sempre por nos apanhar desprevenidos.
Este ano, por razões diversas, chego a dois de Agosto e dou comigo em casa, sentado no sofá, a ver o céu raiado de vermelho e a lembrar-me por onde andei em anos anteriores: Estocolmo e Riga, Bucareste, Graz, Miranda do Douro, Florença. Em 2003 não me lembro onde andava, mas estava algures na estrada (disse-me o blog) e, faz hoje 7 anos, foi neste dia que acabei o curso.
Aqui continuarei, pela noite fora, a ler e a pensar no que tenho para fazer nos próximos dias, sonhando com a libertação.
31.7.09
[tão simples quanto isto...]
(...)
se parece tanto com a eternidade
e que o amor, na verdade
só se cansa de ti
se de ti mesmo te cansas
(...)
Sérgio Godinho, in Definição do Amor
26.7.09
20.7.09
#1 [tributo a Buzz Aldrin, Neil Armstrong e Michael Collins]*
Há Muito tempoPassos descalços restolhando pela estrada de macadame
pernas curtidas descrevendo arcos desengonçados
O destino incerto, a dúvida quente
O céu descoberto, o futuro longe
E o passado incapaz de conter a ambição imprudente
Há muito tempo, há muito tempo...
Demos tudo o que tivemos
Para agarrar o tempo
Teias de ferro fortificam a cidade industrial
Que se alimenta do suor dos corpos mecanizados
O aço temperado, a manufactura
O montro acordado, o inconsciente activo
E ninguém sabe aonde irá desembocar a aventura
Há muito tempo, há muito tempo...
Nós passámos tento tempo
Para estragar o tempo
Domingo à tarde, o planeta está colado à televisão
O astronauta domestica a lua com gestos lentos
O mar entulhado, o céu mais cinzento
A publicidade, o perigo iminente
E a sensação da alma não acompanhar o movimento
Há muito tempo, há muito tempo...
Ninguém fica indiferente
Ao sabor do tempo
Jorge Palma
* e ainda há quem não acredite que, faz hoje 40 anos, a Apolo 11 chegou à Lua...
11.7.09
#1
[Perfeito Vazio]
Aqui estou eu
Sou uma folha de papel vazia
Pequenas coisas
Pequenos pontos
Vão me mostrando o caminho
Às vezes aqui faz frio
Às vezes eu fico imóvel
Pairando no Vazio
As vezes aqui faz frio
Sei que me esperas
Não sei se vou lá chegar
Tenho coisas p’ra fazer
Tenho vidas para a acompanhar
Às vezes lá faz mais frio
Às vezes eu fico imóvel
Pairando no vazio
No perfeito vazio
Às vezes lá faz mais frio
(lá fora faz tanto frio)
Bem-vindos a minha casa
Ao meu lar mais profundo
De onde saio por vezes
Para conquistar o mundo
Às vezes tu tens mais frio
Às vezes eu fico imóvel
Pairando no vazio
No perfeito vazio
Às vezes lá faz mais frio
No teu peito vazio
Xutos e pontapés, 2009
6.7.09
15.6.09
3.6.09
[três lágrimas por Cavaco]
Aníbal serviu o capital durante anos. Era um homem sem mácula, bom aluno, dedicado e sisudo.
Preparou o país para um futuro de quimeras...
Amigos teve que lhe prometeram o sossego na reforma. Feitas as contas, muito se terá perdido das economias de uma vida.
Aníbal está triste, caiu no conto de um vigário da sua congregação.
16.5.09
#1 [...]
Adiantamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
8.5.09
5.4.09
Gravei, no telemóvel, um lembrete: hoje começam as férias. Temia não me lembrar delas e marcar algum compromisso.
Ainda não me habituei à ideia de desligar. Há mil coisas que parecem ter ficado esquecidas e outras tantas preocupações conexas. Tentarei sobreviver.
A mochila já tem o essencial. Falta apenas um caderno para anotar o essencial que não se mete na mochila.
É tempo de partir.
Entre as risadas que o burlesco gera, há uma infinita tristeza que cresce, uma profunda inquietação que se instala e um nó que se vai apertando.Tutta la vida davanti
29.3.09
8.3.09
1
Aproxima-te. É assim que consegues encontrar algumas palavras. Estão juntas. Têm um sentido
capaz de vir acompanhar-te como se pelos dedos escorresse um pouco de água, a sua transparência
súbita. Recebe o que elas te podem dar agora, a respiração que fica tranquila e o mesmo aceno
só para que depois consigas compreender como é fácil que tudo se perca nos teus olhos.
2
Que limites existem para a luz? Veio alguém acender esta candeia. À nossa volta, uma pequena chama principia a erguer-se, mas em vão é que ela se conserva perto de nós, quando abrimos devagar as leves páginas cujo sentido se ignora e as fechamos depois sem esperança, como se fosse este o seu destino no interior da noite. Estamos ali adormecidos e havemos de encontrar uma outra luz, maior, que as permita ler.
3
A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se
com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma
era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram
de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve
e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba
um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós
finalmente se encontra uma nova imagem abandonada
pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?
4
Quem veio escrever estas palavras? Abre
sem pressa o livro, mas nem sequer o leias
todo. Deixa que fiquem algumas dessas páginas
caídas ao teu lado. Assim talvez encontres
a imobilidade que finalmente existe
no seu interior. É tudo o que recebes
de alguém que nem sequer te pode conhecer
quando faz para ti um derradeiro gesto.
5
As mãos uniram-se e é mais perto que conservam
a dimensão de uma palavra, a última. A elas pertencem
igualmente as trevas que vinham ao encontro de tudo, leves
asas feridas pelo seu movimento, sem qualquer cor
e cada vez mais nossas. Aprendemos a acreditar neste voo,
na altura de uma haste, no próprio olhar atento
a uma linha mais alta para assim encontrarmos
no que nos rodeava a vinda destas aves.
6
Coloquemos um lenço sobre o rosto. Não para o ocultar
mas para que fique mais nítido o que vemos. Essa
há-de ser a margem das nossas feições, a sua mais próxima
brancura. A respiração nem o toca sequer. Outra brisa
começava a atravessar o peito. Ela vem agora ao nosso encontro
sem qualquer ruído, como se as mesmas folhas estivessem
ausentes. Sabemos há muito que é assim. Depois o silêncio
chega, porque foi sempre a ele que estas vozes pertenceram.
7
O que podemos esperar? É mais perto que vês
um caminho. A ele nos habituamos. É deste modo
que consegues compreender-me melhor. Reparas agora
como os gestos podem ficar reduzidos a um único
movimento e as cores à mesma transparência
que as há-de tornar maiores. Encontras o sentido
que pertencia a tudo, para que finalmente seja
apenas nosso, como se olhássemos para longe.
Fernando Guimarães
3.3.09
28.2.09
22.2.09
16.2.09
#1
[já chega! ]
A história do BPN é uma vergonha. Ainda não se sabe tudo, mas já percebemos que a morasca é grande. É tempo de levantar a voz da cidadania.
Sem condenar ninguém em antecipação, considero que a mentira de Dias Loureiro na comissão parlamentar de inquérito é motivo suficiente para exigir a sua saída do Conselho de Estado.
Por iniciativa própria ou sendo demitido por Cavaco.
Por isso assinei a petição e convido-vos a fazê-lo também.
Passem a Palavra
"Os cidadãos portugueses abaixo-assinados apelam ao ainda conselheiro Manuel Dias Loureiro que, a bem do bom-nome daquele órgão de soberania e da democracia e dando um sinal claro de que não vê o seu cargo como forma de protecção e que quer o cabal esclarecimento de todos os factos, se demita do Conselho de Estado.
E que, caso este teime em não o fazer, o Presidente da República, que o indicou para o cargo, deixe claro que este conselheiro de Estado já não conta com a sua confiança."
15.2.09
[Milk]

É um lugar comum classificar Milk como um filme notável. Pela interpretação de Sean Pen, diz-se.
Mas também pela história que conta, que eu desconhecia. Harvey Milk era um homem de coragem e teve um papel determinante na luta pelos civil rigths e pelo reconhecimento de um estatuto de "normalidade" a pessoas que, no fim de contas, amam outras pessoas.
E há também a forma intensa como nos faz sentir todo o despertar de um movimento. Para um activista, Milk tem esa dimensão particular, a de retratar a importância da estratégia, da liderança e do colectivo, da esperança e da mensagem, da capacidade de ler os acontecimentos e das escolhas necessárias(concorde-se ou não com elas).
Depois de A Valsa com Bashir e do Complexo Baden-Meinhof, aqui está mais um filme incontornável para quem quer compreender o século XX.
Sobre o filme, vale a pena ler o artigo Eles somos nós do Zé Soeiro.
6.2.09
[Phelps]

No verão passado, vibrei com todas as braçadas que Michael Phelps deu no Cubo de Água, em Pequim.
Dizia-se então que ele era uma máquina. Entretanto, algum amigo da onça pôs uma fotografia a circular, mostrando o nadador a fumar um charro numa festa de universidade.
Embora estivesse de férias desportivas e a consumir uma substância que não faz parte do index do dopping, a indignação foi geral e a condenação por parte da federação e de um dos seus patrocinadores não demoraram a aparecer.
Cá para mim, este o episódio só reforça a simpatia que já tinha por Phelps, uma vez que mostra a sua parte mais humana. O moralismo que hoje o condena será derrotado.
5.2.09
3.2.09
#1[...]
Hans Beck, o criador dos Playmobil, morreu na sexta-feira aos 79 anos, vítima de doença grave, noticiaram ontem as agências.
(...)
Beck levou três anos a desenvolver os famosos bonecos que se queriam rígidos - deviam ser capazes de segurar pequenos obejctos nas mãos - e resistentes.
O sucesso dos bonecos de sete centímetros de altura e "tamanho ideal para a mão de uma criança" pode também dever-se a uma crise do petróleo que disparou o preço do plástico e dos brinquedos de maiores dimensões.

























