12.12.09

#1 [...]

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…


Álvaro de Campos,

Ficções do Interlúdio

11.12.09

#1
[a inocência é uma virtude]

7.12.09

#1
[à medida]

O tempo aqui parou
Desde que te foste embora
Só a saudade ficou
já não aguento tanta demora

6.12.09

#1
[e a liberdade uma maluca]


que sabe quanto vale um beijo
#1
[Companheiro Victor Jara...]

Presente!!!

5.12.09

#1 [...]

Isso pode resvalar para o saudosismo, os bons tempos e semelhantes asnices, não há bons tempos, só há tempos. Nada de saudosismo, saudosismo é uma espécie de masturbação sem verdadeiro prazer, uma inutilidade atranvancadora, que no máximo pode ser empregada para brincadeiras, mas geralmente é perca de tempo mesmo. Não, nada disso. Aqueles tempos tinham o seu charme, mas eram duros também, cada tempo tem a sua dureza , com mil perdões pela filosofia de botequim.

João Ubaldo Ribeiro,
in A Casa dos Budas Ditosos

4.12.09

#1[...]

Chega um tempo em que um homem se interroga
sobre o último sentido ou o sem sentido
o como o quê o para quê e o para onde
um tempo de balanço em que se mede
o vivido e o não vivido. E o poema escreve-se

nesse pensar o que podia ter sido e que não foi
um amor adiado para sempre perdido
como parte da vida que fica para o dia seguinte
para aquela ocasião que nunca chega
e o poema escreve-se nesse quase remorso

ou essa nostalgia de si mesmo
(…)

Manuel Alegre, in Sete Partidas

3.12.09

#1 [Tetro] A história e a forma como é contada, o preto e o branco, as sombras e a luz, o Gallo e a Maribel Verdú... e Buenos Aires.

2.12.09

#1 [A pastelaria Suíça esclarece]

Informam-se os estimados clientes que as pirâmides de chocolate à venda neste estabelecimento não devem ser confundidas com minaretes.

A Gerência

1.12.09

#1
[...]

Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah

30.11.09

#1
[efemérides]

Há cinco anos, mais ou menos por esta hora, Sampaio anunciava a Santana Lopes que o seu (des)governo tinha chegado ao fim da linha.

29.11.09

#1
[a mastigar]


(...)
Num dia emigram as pessoas de um ano, nunca mais os "abraça-me" nem caroços de azeitona.
Eu fico e pelos menos esta noite não sinto falta deles.
Adormeço à mesa, acordo um pouco antes do amanhecer.
Tenho de recomeçar e habituar-me aos dias de boca calada.
Pego no livro suspenso na marca, volto a acertar o passo pelo dele, pela respiração de um outro que conta. Se também eu sou um outro é porque os livros mais do que os anos e as viagens mudam os homens.
Passadas muitas páginas acaba-se por aprender uma variante, um movimento diferente do executado e que se cria inevitável.
Afasto-me daquele que sou quando aprendo a tratar de outro modo a mesma vida.

(...)

Erri de Luca,
in Três cavalos

27.11.09

#1
[nem se acredita...]

A activista iraniana dos direitos humanos Shirin Ebadi revelou que as autoridades iranianas lhe confiscaram a medalha e o diploma recebidos quando foi premiada com o Nobel da Paz, em 2003.
Ebadi foi juíza até à revolução islâmica de 1979, altura em que foi "despromovida" a secretária do ministério da justiça. Mais tarde conseguiu, ao fim de muitos anos de luta com as autoridades, reabrir um escritório para exercer advocacia.
Enquanto escritora, tornou-se conhecida com A Gaiola de Ouro, livro onde relata a história verídica de três irmãos que, durante as décadas de 70 e 80, se dividiram nas três principais facções da política iraniana - os apoiantes do Xá, os apoiantes do república islâmica e os comunistas.
O prémio Nobel da paz foi-lhe atribuído pelo papel de defesa dos direitos humanos e de denúncia dos atropelos cometidos pelo regime dos mullah.

24.11.09

#1
[Separados à nascença?]















Digam lá que o PR e o personagem do filme deste natal não são parecidos?

23.11.09

#2
[antes que me esqueça]


A crítica é demolidora. Eu adorei.
# [já ouvi isto em algum lado...*]

And so she woke up
Woke up from where she was
Lying still
Said I gotta do something
About where we're going


(...)


*é uma das minhas favoritas dos 4 irlandeses

22.11.09

#1 [pure]

21.11.09

#1 [Acordai**]

VOZ

Na sua aparente invisibilidade, a precariedade está em muito do que são as nossas vidas, por detrás dos pequenos gestos do dia a dia, como aquele SMS onde dizemos do amor, da comida que nos mitiga a fome ou da roupa que conforta.

A precariedade está também na cultura. Não só no trabalho de quem a faz, como na lógica que procura determinar a sua produção.

Foi em defesa da cultura que se levantou um amplo movimento de contestação a uma alteração legal promotora da elitização, e consequente precarização, do ensino da música. O momento mais visível desta onda foi uma manifestação em frente à Assembleia da Republica, em Fevereiro de 2008.

Foi o protesto mais belo onde alguma vez estive. As massas trabalhadoras eram agora um coro, uma orquestra, um naipe, uma turma de iniciação. No meio de cartazes e pancartas, violinos, violoncelos e um piano. Por entre palavras de ordem, claves de sol.

A substituir os discursos inflamados, a música. Ainda hoje consigo ouvir o eco daquela heróica de Lopes Graça que, no conforto do sol invernal, a todos e todas incitava... Acordai!


** Este texto e esta foto são um contributo para a campanha Recibos Verdes: antes da Dívida temos Direitos

20.11.09

#1 [...]

19.11.09

#1
[da literatura]

A EDP escreveu ao coronel.