19.11.09
17.11.09
10.11.09
#1
[As minhas memórias do muro]
I
A cidade abria-se debaixo dos nossos pés. Estava sol.
De repente, dei com o seu sorriso expectante. Soube de imediato que ela vira algo que me ia surpreender.
Rodei sobre mim e foi então que vi o Muro. Ou um pouco do dele sobrava .
Emocionado, acariciei o betão, tentando roubar-lhe um pouco de memória.
II
A fúria de apagar as diferenças era por demais evidente. Mas, apesar dos esforços, havia ainda, nesse verão de 2000, um muro que se pressentia.
A cidade era desigual na arquitectura, com a do socialismo dito real e a degradação da arte nova nos nos bairros de leste a contrastar com o clean ocidental. Mas também a simpatia diferenciava aqueles que, anos antes, haviam recordado ao mundo que eram um só povo.
As gruas pareciam ser um elemento natural da paisagem. Foi a partir daí que a imagem desses gigantes que espreitam por entre os espaços abertos das cidade passou a ser por mim designada como “paisagem berlinense”.
No bolso trazíamos moedas de 2,5 escudos, tão parecidas com as de meio marco que as máquinas de chocolates as multiplicavam por 40 e ainda davam troco.
Procurávamos sinais do passado, o ar que inspirara David Bowie ou os U2, os restos dessa efusiva felicidade que me recordava ter visto na TV numa noite de quinta-feira (haverá algum convénio para que os grandes dias sejam à quinta?). Encontrámos um pouco de tudo isso e ainda mais: um sonho de uma noite de verão à beira do Spree com lua cheia, um chá e a vodka na casa de amizade da RDA e da República Soviética do Cazakistão, uma tempestade de verão, os restaurantes turcos, os jardins nos logradouros, os bares cheios de vida, gente a cuspir fogo, o inconfundível som dos trabants...
IV
Nos dias que se seguiram à queda, Stefan insistiu em dar o seu contributo para desmantelar a cortina de ferro. Como era um visionário, apesar de ter 6 anos, insistiu em guardar aquelas pedras. Martina, que já devia estar a sentir uma certa ostalgia bem disposta que a caracteriza, não teve como recusar a exigência do filho.
O Muro ficou lá por casa, como se fosse parte da família. E ainda hoje lá devam estar alguns desses pedaços de memória, guardados numa caixa de sapatos que se vai esvaziando à medida que viajantes ocasionais ou amigos de outras latitudes, como eu, lhes vão ocupando o sofá.
8.11.09

Encontro
Visito esse lugar.
Procuro-te nesse recanto habitual.
Sei que não estarás lá,
mas finjo ignorá-lo.
Procuro pensar que saíste,
que saíste há pouco,
numa ausência breve,
como se tivesses saído
para logo regressares.
Quando tu chegasses, se chegasses,
dir-te-ia: tu lembras-te?
E o verbo acordaria ecos,
nostalgias distantes,
velhos mitos privados.
Sei que não virás,
conjecturo até, por vezes,
teus distantes, inúteis,
diálogos numa praça gris
que imagino em tarde de invernia.
Então disfarço, ponho-me
a inventar, por exemplo,
uma longilínea praia deserta,
uma fina, fria, nebulosa
praia,
muito silenciosa e deserta.
Pensando nela fito de novo
este lugar e digo para mim
que apenas partiste
por um breve instante
E sigo. E de novo protelo
este encontro impossível.
Rui Knofli, in Álbum
(...)
Todas as utopias começam com conversões. As pessoas despedem-se das suas antigas religiões, convicções e modos de vida e empenham-se num projecto utópico. Despedir-se e empenhar-se - é isso que uma conversão significa, e não um raio caindo do céu, ou um renascer, ou um êxtase ou qualquer coisa do género. Embora isso também possa acontecer. (...)
Bernhard Schlink, in O outro homem e outras histórias
5.11.09
[Os dias sem ti]
Ao primeiro embate, algum desconforto.
Naquele álbum de título ligeiramente leninista, o “punk vermelhusco” estava cada vez mais travestido e o som entrava por territórios inesperados. A voz do João era mais grave, apesar de manter a alegria e a energia que já lhe conhecia. Dava vida à poesia e atrevia-se cada vez mais pelo fado, o que era difícil de encaixar.
A pouco e pouco fui digerindo tudo aquilo e o disco (já gravado numa cassete que rodou até se cansar) ganhou estatuto de indispensável. Além de transpirar ironia e boa disposição, aquelas canções falavam de coisas que eu vivia e sentia. Ainda hoje é assim. Tenho o dobro da idade e já não estou apaixonado pela colega da carteira da frente, mas o amor continua a ser um bicho e eu, cada vez mais, uma noz.
A releitura do primeiro tomo dos Sitiados foi o passo seguinte, porque, se a vida de marinheiro era já um clássico, muito havia ainda para descobrir.
Passei a acompanhar, ao longo dos anos, o trabalho do João e de seus comparsas. Nunca o conheci pessoalmente, mas as nossas estradas foram-se cruzando, já que tínhamos amigos e referências em comum.
Lembrei-me de tudo isto ontem no CCB. Estive no Megafone 5, uma bela festa que os amigos e as amigas do João lhe fizeram. Foi uma noite de boa música e de muitas emoções. Gostei muito dos Dead Combo, achei os Gaiteiros de Lisboa um pouco abaixo do que já lhes vi e, apesar de lhes reconhecer o virtuosismo, continuo sem me encontrar com os Oquestrada.
No princípio do espectáculo, o Carlos Guerreiro tratou de desmentir que “os dias sem ti são dias a mais”, essa frase que nos ecoa no íntimo desde Janeiro. Dizia o gaiteiro que estávamos ali para uma festa e não para uma homenagem. Era assim que o João gostava e, de facto, por mais dura que seja a realidade, não há dias a mais.
A fechar a noite, A Naifa. A Sandra ocupou o lugar do seu companheiro de sempre ao baixo e tudo rolou, com direito a confissões sobre o trabalho criativo e a subida ao palco dos pais do João, para um discurso emocionado (e emocionante).
Foi uma bela noite.
4.11.09
2.11.09
1.11.09
28.10.09
[...]
...
Drummer bleeding
It's his pulse you're feeling
Singer screaming
Words you been feeling
Oh you see it working
You and me been hurting
All the time we're being spun
Just to sing song
Sing song sung
...
Air - Sing Song sung
13.10.09
12.10.09
6.10.09
25.9.09
[...]
falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida
Bénédict Houard,
[in Aluimentos, Cotovia, 2009]
21.9.09
[that i've never forgotten]
(...)
We lean against railings
Describing the colours
And the smells of our homelands
Acting like lovers
How did we get here?
To this point of living?
I held my breath
And you said something
18.9.09
[...]
I dreamed it was a dream that you were gone
I woke up feeling so ripped by reality
Yeah, love is the king of the beasts
And when it gets hungry it must kill to eat
Yeah, love is the king of the beasts
A lion walking down city streets
Bill Callahan
12.9.09
[matinal]
Passa, lento vapor, passa e não fiques... Passa de mim, passa da minha vista, Vai-te de dentro do meu coração, Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... Eu quem sou para que chore e interrogue? Eu quem sou para que te fale e te ame? Eu quem sou para que me perturbe ver-te? Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, Luzem os telhados dos edifícios do cais, Todo o lado de cá da cidade brilha...
Álvaro de Campos In “Ode Marítima”
6.9.09
[Velhas canções]
Please open your hand when you don't know how to do,
You want my life, but you've just said no more,
Everything is just my fault, the life well done,
I can't understand you more yeah


