8.11.09

#1 [...]

(...)
Todas as utopias começam com conversões. As pessoas despedem-se das suas antigas religiões, convicções e modos de vida e empenham-se num projecto utópico. Despedir-se e empenhar-se - é isso que uma conversão significa, e não um raio caindo do céu, ou um renascer, ou um êxtase ou qualquer coisa do género. Embora isso também possa acontecer. (...)


Bernhard Schlink, in O outro homem e outras histórias

5.11.09

#1
[Os dias sem ti]

Megafone 5

Ao primeiro embate, algum desconforto.

Naquele álbum de título ligeiramente leninista, o “punk vermelhusco” estava cada vez mais travestido e o som entrava por territórios inesperados. A voz do João era mais grave, apesar de manter a alegria e a energia que já lhe conhecia. Dava vida à poesia e atrevia-se cada vez mais pelo fado, o que era difícil de encaixar.

A pouco e pouco fui digerindo tudo aquilo e o disco (já gravado numa cassete que rodou até se cansar) ganhou estatuto de indispensável. Além de transpirar ironia e boa disposição, aquelas canções falavam de coisas que eu vivia e sentia. Ainda hoje é assim. Tenho o dobro da idade e já não estou apaixonado pela colega da carteira da frente, mas o amor continua a ser um bicho e eu, cada vez mais, uma noz.

A releitura do primeiro tomo dos Sitiados foi o passo seguinte, porque, se a vida de marinheiro era já um clássico, muito havia ainda para descobrir.

Passei a acompanhar, ao longo dos anos, o trabalho do João e de seus comparsas. Nunca o conheci pessoalmente, mas as nossas estradas foram-se cruzando, já que tínhamos amigos e referências em comum.

Lembrei-me de tudo isto ontem no CCB. Estive no Megafone 5, uma bela festa que os amigos e as amigas do João lhe fizeram. Foi uma noite de boa música e de muitas emoções. Gostei muito dos Dead Combo, achei os Gaiteiros de Lisboa um pouco abaixo do que já lhes vi e, apesar de lhes reconhecer o virtuosismo, continuo sem me encontrar com os Oquestrada.

No princípio do espectáculo, o Carlos Guerreiro tratou de desmentir que “os dias sem ti são dias a mais”, essa frase que nos ecoa no íntimo desde Janeiro. Dizia o gaiteiro que estávamos ali para uma festa e não para uma homenagem. Era assim que o João gostava e, de facto, por mais dura que seja a realidade, não há dias a mais.

A fechar a noite, A Naifa. A Sandra ocupou o lugar do seu companheiro de sempre ao baixo e tudo rolou, com direito a confissões sobre o trabalho criativo e a subida ao palco dos pais do João, para um discurso emocionado (e emocionante).

Foi uma bela noite.

4.11.09

#2 [happy birthday]

As personagens de plasticina da série Wallace & Gromit , criada por Nick Park em 1989, celebram hoje o seu vigésimo aniversário.

2.11.09

#1
[Alda Merini, 1931-2009]

Torna amore
vela delicata e libera
che occupi
il pensiero della mia terra

sto morendo sulla grandiosità di un fiume
che è rosso di desiderio
e vorrebbe
travolgere il tuo amore.

1.11.09

#1
[...]

Os muros. Todos
os muros. Um
só muro. E toda
a sede. E todo
o sal
do mar

no peito.

Albano Martins,
in
As vogais aliterantes

28.10.09

#1
[...]

...
Drummer bleeding
It's his pulse you're feeling
Singer screaming
Words you been feeling

Oh you see it working
You and me been hurting
All the time we're being spun
Just to sing song
Sing song sung
...

Air - Sing Song sung

13.10.09

#1
[Isto é um até já...* ]

Allegria di naufragi

E subito riprende
il viaggio
come
dopo il naufragio
un superstite
lupo di mare

Giuseppe Ungaretti

* com pena que haja quem tenha escolhido ficar em terra
 

12.10.09

#1 [um dia que acaba, outro que começa]

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia (1944)

10.10.09

#1
[there's hope]
there's hope
Depois de meses a mirrar, a buganvília cá de casa volta a encher-se de vida, como que uma esperança que se sobrepõe à incerteza.

25.9.09

#1
[...]

falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida

Bénédict Houard,
[in Aluimentos, Cotovia, 2009]

21.9.09

#1
[that i've never forgotten]

(...)
We lean against railings
Describing the colours
And the smells of our homelands
Acting like lovers
How did we get here?
To this point of living?
I held my breath
And you said something

18.9.09

#1
[...]

I dreamed it was a dream that you were gone
I woke up feeling so ripped by reality
Yeah, love is the king of the beasts
And when it gets hungry it must kill to eat
Yeah, love is the king of the beasts
A lion walking down city streets


Bill Callahan

12.9.09

#1
[matinal]

Passa, lento vapor, passa e não fiques... Passa de mim, passa da minha vista, Vai-te de dentro do meu coração, Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... Eu quem sou para que chore e interrogue? Eu quem sou para que te fale e te ame? Eu quem sou para que me perturbe ver-te? Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, Luzem os telhados dos edifícios do cais, Todo o lado de cá da cidade brilha...

Álvaro de Campos In “Ode Marítima”

6.9.09

#1
[Velhas canções]


Please open your hand when you don't know how to do,
You want my life, but you've just said no more,
Everything is just my fault, the life well done,
I can't understand you more yeah

4.9.09

#1 [dos sonhos]

Ignorar as mensagem que o subconsciente nos transmite é não ter coragem de olhar para nós próprios.

3.9.09

#1 
[...]

you know my love goes with you as your love stays with me,
it's just the way it changes, like the shoreline and the sea,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

2.9.09

#2
[para memória futura]

"Presto homenagem aos 60 milhões de mortos causados por esta guerra desencadeada pela Alemanha. Não existem palavras que possam descrever o sofrimento causado por esta guerra e pelo holocausto."

Angela Merkel, Chanceler Alemã, discursando na cerimónia que assinalou os 70 anos do início da II Grande Guerra.
#1
[de passagem]


E quando tu olhares para o lado
Será que tens alguém
Alguém que sinta e que queira
Tanto mais que tu e eu

há muitos que um disco dos Xutos não me entusiasmava tanto.