31.8.09

#1 [há frases que valem por todo um livro]

(…)

Estávamos sentados à mesa quando ela, dando continuidade a algum pensamento do qual não nos deu pormenores, disse de repente, Quando às vezes vejo que se cometem tantos erros e que muitas coisas se fazem mal, dói-me e fico irritada, mas, ao contrário do que acontece a alguns, não me dá vontade de abandonar o barco, mas sim de trabalhar mais para deixar bem claro aos incompetentes, aos burocratas, aos preguiçosos e até a mim própria que não permitiremos que se deite a nosso Revolução a perder porque não voltaremos a ter outra oportunidade como esta e isso sabemos nós, os pobres, melhor que ninguém. (…)

Senel Paz, in No céu com diamantes

29.8.09

#1
[noite de verão]

falta quem queira
partilhar os grilos

24.8.09

# [da insónia]

Continuo sem perceber em que curva nos perdemos do caminho.

22.8.09

#1
[reflexos de um certo amanhecer com a Sicília]

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Alberto Caeiro, in Pastor Amoroso

20.8.09

#1
[antes que o dia termine*]

Hoje o dia foi um pouco mais luminoso: Nasceu a Clara.
Sumo na vida é o que eu lhe desejo.

*Afinal nasceu a 19. tudo o resto é válido.

19.8.09

#1
[..]

eu perco a hora
eu chego no fim
eu deixo a porta aberta
eu não moro mais em mim


18.8.09

#1 [...]

O que na verdade sou e a verdade
Pode ser elevada à coisa sonhada
Reinventada por muito se querer
E eu quero ser o teu amante


13.8.09

#1[it's a Karma]

(...)
I've given all I can
It's not enough
I've given all I can
But we're still on the payroll

Radiohead, Karma Police

9.8.09

#1 [lost sounds]

6.8.09

#1 [...]

2.8.09

#1 [porque hoje é 2 de Agosto]

A memória é tramada. Tentamos pôr-lhe portas corta fogo para controlar estragos, mas ela acaba sempre por nos apanhar desprevenidos.
Este ano, por razões diversas, chego a dois de Agosto e dou comigo em casa, sentado no sofá, a ver o céu raiado de vermelho e a lembrar-me por onde andei em anos anteriores: Estocolmo e Riga, Bucareste, Graz, Miranda do Douro, Florença. Em 2003 não me lembro onde andava, mas estava algures na estrada (disse-me o blog) e, faz hoje 7 anos, foi neste dia que acabei o curso.
Aqui continuarei, pela noite fora, a ler e a pensar no que tenho para fazer nos próximos dias, sonhando com a libertação.

31.7.09

#1
[tão simples quanto isto...]


(...)

se parece tanto com a eternidade
e que o amor, na verdade
só se cansa de ti
se de ti mesmo te cansas

(...)

Sérgio Godinho, in Definição do Amor

26.7.09

20.7.09

#1 [tributo a Buzz Aldrin, Neil Armstrong e Michael Collins]*

Há Muito tempo
Passos descalços restolhando pela estrada de macadame
pernas curtidas descrevendo arcos desengonçados
O destino incerto, a dúvida quente
O céu descoberto, o futuro longe
E o passado incapaz de conter a ambição imprudente

Há muito tempo, há muito tempo...
Demos tudo o que tivemos
Para agarrar o tempo

Teias de ferro fortificam a cidade industrial
Que se alimenta do suor dos corpos mecanizados
O aço temperado, a manufactura
O montro acordado, o inconsciente activo
E ninguém sabe aonde irá desembocar a aventura

Há muito tempo, há muito tempo...
Nós passámos tento tempo
Para estragar o tempo

Domingo à tarde, o planeta está colado à televisão
O astronauta domestica a lua com gestos lentos
O mar entulhado, o céu mais cinzento
A publicidade, o perigo iminente
E a sensação da alma não acompanhar o movimento

Há muito tempo, há muito tempo...
Ninguém fica indiferente
Ao sabor do tempo

Jorge Palma

* e ainda há quem não acredite que, faz hoje 40 anos, a Apolo 11 chegou à Lua...

11.7.09

#1

[Perfeito Vazio]

Aqui estou eu
Sou uma folha de papel vazia
Pequenas coisas
Pequenos pontos
Vão me mostrando o caminho

Às vezes aqui faz frio
Às vezes eu fico imóvel
Pairando no Vazio
As vezes aqui faz frio

Sei que me esperas
Não sei se vou lá chegar
Tenho coisas p’ra fazer
Tenho vidas para a acompanhar

Às vezes lá faz mais frio
Às vezes eu fico imóvel
Pairando no vazio
No perfeito vazio
Às vezes lá faz mais frio

(lá fora faz tanto frio)

Bem-vindos a minha casa
Ao meu lar mais profundo
De onde saio por vezes
Para conquistar o mundo

Às vezes tu tens mais frio
Às vezes eu fico imóvel
Pairando no vazio
No perfeito vazio
Às vezes lá faz mais frio
No teu peito vazio

Xutos e pontapés, 2009

Ouvir aqui

6.7.09

#1
[vou embarcar, mordam-se!!]

não sei quem me mandou este SMS nem para onde ia.... mas fiquei cheio de inveja.

15.6.09

#1 [O Leitor]

Não vi aquele que foi considerado um dos filmes do ano. Tenho pena.
Ontem li o livro. De uma ponta à outra, quase sem respirar.
Apesar da escuridão, sinto-me luminoso.

3.6.09

#1
[três lágrimas por Cavaco]

Aníbal serviu o capital durante anos. Era um homem sem mácula, bom aluno, dedicado e sisudo.
Preparou o país para um futuro de quimeras...
Amigos teve que lhe prometeram o sossego na reforma. Feitas as contas, muito se terá perdido das economias de uma vida.
Aníbal está triste, caiu no conto de um vigário da sua congregação.

1.6.09

#1
[no dia 7, responde ao PS]Vital entrou na graça e reforçou: ”São duas candidatas fantasmas de carne e osso que existem” e Ana Gomes respondeu prontamente “ fazem assombrações, somos especializadas em assombrar”.

16.5.09

#1 [...]

Adiantamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos