5.4.09

#2 [...]

Gravei, no telemóvel, um lembrete: hoje começam as férias. Temia não me lembrar delas e marcar algum compromisso.
Ainda não me habituei à ideia de desligar. Há mil coisas que parecem ter ficado esquecidas e outras tantas preocupações conexas. Tentarei sobreviver.
A mochila já tem o essencial. Falta apenas um caderno para anotar o essencial que não se mete na mochila.
É tempo de partir.
#1 [tutta la vita davanti]
Entre as risadas que o burlesco gera, há uma infinita tristeza que cresce, uma profunda inquietação que se instala e um nó que se vai apertando.

Tutta la vida davanti

29.3.09

#1
[Roça a genialidade]
Será da idade?

8.3.09

Acerca do sentido

1
Aproxima-te. É assim que consegues encontrar algumas palavras. Estão juntas. Têm um sentido
capaz de vir acompanhar-te como se pelos dedos escorresse um pouco de água, a sua transparência
súbita. Recebe o que elas te podem dar agora, a respiração que fica tranquila e o mesmo aceno
só para que depois consigas compreender como é fácil que tudo se perca nos teus olhos.

2
Que limites existem para a luz? Veio alguém acender esta candeia. À nossa volta, uma pequena chama principia a erguer-se, mas em vão é que ela se conserva perto de nós, quando abrimos devagar as leves páginas cujo sentido se ignora e as fechamos depois sem esperança, como se fosse este o seu destino no interior da noite. Estamos ali adormecidos e havemos de encontrar uma outra luz, maior, que as permita ler.

3
A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se
com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma
era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram
de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve
e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba
um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós
finalmente se encontra uma nova imagem abandonada
pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?

4
Quem veio escrever estas palavras? Abre
sem pressa o livro, mas nem sequer o leias
todo. Deixa que fiquem algumas dessas páginas
caídas ao teu lado. Assim talvez encontres
a imobilidade que finalmente existe
no seu interior. É tudo o que recebes
de alguém que nem sequer te pode conhecer
quando faz para ti um derradeiro gesto.

5
As mãos uniram-se e é mais perto que conservam
a dimensão de uma palavra, a última. A elas pertencem
igualmente as trevas que vinham ao encontro de tudo, leves
asas feridas pelo seu movimento, sem qualquer cor
e cada vez mais nossas. Aprendemos a acreditar neste voo,
na altura de uma haste, no próprio olhar atento
a uma linha mais alta para assim encontrarmos
no que nos rodeava a vinda destas aves.

6
Coloquemos um lenço sobre o rosto. Não para o ocultar
mas para que fique mais nítido o que vemos. Essa
há-de ser a margem das nossas feições, a sua mais próxima
brancura. A respiração nem o toca sequer. Outra brisa
começava a atravessar o peito. Ela vem agora ao nosso encontro
sem qualquer ruído, como se as mesmas folhas estivessem
ausentes. Sabemos há muito que é assim. Depois o silêncio
chega, porque foi sempre a ele que estas vozes pertenceram.

7
O que podemos esperar? É mais perto que vês
um caminho. A ele nos habituamos. É deste modo
que consegues compreender-me melhor. Reparas agora
como os gestos podem ficar reduzidos a um único
movimento e as cores à mesma transparência
que as há-de tornar maiores. Encontras o sentido
que pertencia a tudo, para que finalmente seja
apenas nosso, como se olhássemos para longe.

Fernando Guimarães

3.3.09

#1 [...]

As primeiras linhas são sempre as mais complicadas.

28.2.09

#1
[so happy!]

(...)
Bicycle bicycle bicycle
I want to ride my bicycle bicycle bicycle
I want to ride my bicycle
I want to ride my bike
I want to ride my bicycle
I want to ride my
Bicycle races are coming your way
So forget all your duties oh yeah!

(...)

Queen, Bycicle Races

22.2.09

#1
[Gigante]

(...)
Património Mundial
é orgulho com certeza

Falta pôr num pedestal
Aqui não entra a pobreza...

SG, In Domingo no Mundo

16.2.09

#1

[já chega! ]

A história do BPN é uma vergonha. Ainda não se sabe tudo, mas já percebemos que a morasca é grande. É tempo de levantar a voz da cidadania.

Sem condenar ninguém em antecipação, considero que a mentira de Dias Loureiro na comissão parlamentar de inquérito é motivo suficiente para exigir a sua saída do Conselho de Estado.

Por iniciativa própria ou sendo demitido por Cavaco.

Por isso assinei a petição e convido-vos a fazê-lo também.

Passem a Palavra

Ver aqui


"Os cidadãos portugueses abaixo-assinados apelam ao ainda conselheiro Manuel Dias Loureiro que, a bem do bom-nome daquele órgão de soberania e da democracia e dando um sinal claro de que não vê o seu cargo como forma de protecção e que quer o cabal esclarecimento de todos os factos, se demita do Conselho de Estado.

E que, caso este teime em não o fazer, o Presidente da República, que o indicou para o cargo, deixe claro que este conselheiro de Estado já não conta com a sua confiança."



15.2.09

#1
[Milk]
É um lugar comum classificar Milk como um filme notável. Pela interpretação de Sean Pen, diz-se.
Mas também pela história que conta, que eu desconhecia. Harvey Milk era um homem de coragem e teve um papel determinante na luta pelos civil rigths e pelo reconhecimento de um estatuto de "normalidade" a pessoas que, no fim de contas, amam outras pessoas.
E há também a forma intensa como nos faz sentir todo o despertar de um movimento. Para um activista, Milk tem esa dimensão particular, a de retratar a importância da estratégia, da liderança e do colectivo, da esperança e da mensagem, da capacidade de ler os acontecimentos e das escolhas necessárias(concorde-se ou não com elas).
Depois de A Valsa com Bashir e do Complexo Baden-Meinhof, aqui está mais um filme incontornável para quem quer compreender o século XX.

Sobre o filme, vale a pena ler o artigo Eles somos nós do Zé Soeiro.

12.2.09

#1
[Em tempo de reedição]


As Cidadãs, pelas palavras da autora

6.2.09

#1
[Phelps]

No verão passado, vibrei com todas as braçadas que Michael Phelps deu no Cubo de Água, em Pequim.
Dizia-se então que ele era uma máquina. Entretanto, algum amigo da onça pôs uma fotografia a circular, mostrando o nadador a fumar um charro numa festa de universidade.
Embora estivesse de férias desportivas e a consumir uma substância que não faz parte do index do dopping, a indignação foi geral e a condenação por parte da federação e de um dos seus patrocinadores não demoraram a aparecer.
Cá para mim, este o episódio só reforça a simpatia que já tinha por Phelps, uma vez que mostra a sua parte mais humana. O moralismo que hoje o condena será derrotado.

5.2.09

#1
[...]

Só não é belo o que não se deseja
ou que ao nosso desejo mal responde

Jorge de Sena, Exorcismos

4.2.09

#1
[Terra do Fogo]

Há ilhas que, dentro de nós, vão ganhando espaço ao silêncio.

3.2.09

#1
[...]

Hans Beck, o criador dos Playmobil, morreu na sexta-feira aos 79 anos, vítima de doença grave, noticiaram ontem as agências.
(...)
Beck levou três anos a desenvolver os famosos bonecos que se queriam rígidos - deviam ser capazes de segurar pequenos obejctos nas mãos - e resistentes.

O sucesso dos bonecos de sete centímetros de altura e "tamanho ideal para a mão de uma criança" pode também dever-se a uma crise do petróleo que disparou o preço do plástico e dos brinquedos de maiores dimensões.

31.1.09

#1

[...]

Diário de reportagem

Com palavras precisas

(e fina ironia)

relatas o improvável

trajecto do projéctil,

as casas esventradas,

os milagres quotidianos,

a morte lenta e particular

de um povo inteiro.


Se a tensão adensa

e o grito já sufoca,

dizes-nos da dignidade,

oferecendo ao papel

pequenos morangos

cuja doçura, em Gaza,

é antagonista dessa miséria

nada humana.


Pergunto:

haverá suficiente lucidez,

ternura ou raiva,

para escrever tudo

o que os teus olhos

nos querem contar?


Sintra, 31 de Janeiro de 2009

À Alexandra Lucas Coelho, que está em Gaza

30.1.09

#2
[e o aquecimento global também...]


Cavaco Silva teme que nova lei do divórcio aumente número de "novos pobres"
In Público on-line, 30/01/2009
#1
[não estou bem a ver porquê...]

dizem que este anúncio, com Kilie Minogue, foi considerado o mais popular de sempre, entre os que passaram nas salas de cinema britânicas...

27.1.09

#1
[como castigo, fica sem sobremesa durante uma semana...]

"O tio do primeiro-ministro, Júlio Monteiro, confirmou hoje que o filho teve uma reunião com os responsáveis do Freeport, na sequência de um email onde invocava ser familiar de José Sócrates."

Público, 26 de Janeiro de 2009

24.1.09

#2
[diário de reportagem]

Alexandra Lucas Coelho conhece um pouco de Israel e da Palestina. Tem amigos dos dois lados e acompanhou de perto os últimos anos deste conflito.
Desde o início desta ofensiva Israelita na faixa de Gaza, há mais de um mês, que se pressentia, nas entrelinhas dos seus textos, uma indomável vontade de deixar Lisboa e ir ver com os próprios olhos aquilo que lhe iam dizendo por telefone ou chat.
Já lá está, testemunhando e cumprindo o seu ofício de relatar - não deixem de a ler.

#1

[não me venham cá dizer "ah e tal e os rockets..."]

A melhor escola no chão

Alexandra Lucas Coelho, Público, 24.01.2009

É como se um meteorito gigante tivesse caído e esmagado a Escola Americana Internacional de Gaza. Com investimento palestiniano e curriculum americano, era a melhor escola do território, e agora professores e alunos andam entre as ruínas em estado de choque.

Uma mulher encontra um livro de Ciência e agarra-o contra o peito. É Alia, a bibliotecária. Fatin, uma das professoras, abraça Zena, de nove anos, ambas voltadas para os destroços. "Isto aconteceu no dia 3 de Janeiro." Porquê aqui, se à volta não há nada? "Pergunte-lhes", sugere Fatin. "O corpo do guarda foi encontrado em partes, uma metade aqui na frente, outra metade nas traseiras."

Quantos alunos tem a escola? "230", responde logo, num óptimo inglês, a pequena Zena, que mora em Gaza, e até hoje não tem vidro nas janelas. O que fazem para não ter frio? "Vestimos mais roupas."

"Agora não sabemos o que fazer aos estudantes", diz Fatin.

Duas delas estão ao cimo das escadas a discutir. Nur, que tem rabo-de-cavalo e 14 anos, está indignada. "Usam as casas para disparar rockets e se as pessoas não querem têm que deixar a sua casa!" Depois conta que uma das suas melhores amigas morreu na guerra, até que a voz lhe falta, ela baixa a cabeça para se controlar, e começam a pingar lágrimas do nariz.

Fatin, a professora, corre a abraçá-la, e então Nur chora convulsivamente. Quando recupera, diz: "Estou muito zangada com o Hamas. Acho que isto tudo aconteceu por causa dos rockets".

À volta, as colegas contestam. "Não é por causa dos rockets que Israel tem o direito de destruir uma escola destas", clama Habir, de 16 anos. "Eles querem destruir tudo o que é novo, histórico, educacional. Isto é um crime." Dana, de 16 anos com muito acne, concorda, e Habir continua, apaixonadamente. "Se isto é contra o Hamas, porque é que tantos mortos não são do Hamas? E dizem que se estão a defender! Defendem-se de uns rockets que são uma desculpa, só causam um buraco no chão."

Esta discussão sobre o papel do Hamas é geral? "Estamos a discutir desde o princípio da guerra. É difícil não questionar quando não podemos dormir e ir a qualquer lado, e estão a usar armas do céu, da terra e do mar contra nós."

O que querem agora?

"Queremos um governo de unidade nacional", diz Habir. "Só queremos continuar a estudar nesta escola", acrescenta um rapaz, Adam, que veio com os colegas ver a destruição. "Trabalhámos tanto para isto acabar assim."

Yunis, de 18 anos, aparece de chinelos numa pilha de entulho. É irmão do guarda morto. Conta que o pai teve um primeiro filho Salim, que foi morto há anos, e um segundo filho Salim, que morreu - e o terceiro filho Salim era o guarda que foi desfeito em pedaços aqui.

Israel alega que estavam a ser disparados tiros do interior. "Mas a escola estava vazia, e se estivesse aqui alguém o guarda tinha-nos dito", contrapõe Lucy, outra professora. "Eu acordei às três da manhã com o primeiro míssil e antes não ouvi nada", acrescenta o irmão do guarda. "O meu irmão sentia-se seguro, porque era uma escola americana. Antes de morrer, telefonou à família e disse: 'Se sentirem perigo, venham para aqui'.