#1
[dos regressos]
faz calor nesta terra. a primavera instalou-se definitivamente, aproveitando-se da minha ausencia.
31.3.05
28.3.05
#2
[o presente]
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
morre lentamente quem destroi o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar,
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoínho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos.
morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante...
morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre
que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade "
Pablo Neruda
ouvi dizer que estás triste...
não podes estar, há muito mais entre o ceu e a terrra do que imaginamos e há pessoas que nos estão sempre a fazer lembrar isso.
gosto muito de ti, a tua amizade fez muito desta pessoa que sou hoje.por isso o teu peito apertado dá um nó estrangulado no meu.
lê o texto com toda a seriedade que merece e que mereces, estarei cá no entanto para apanhar tudo o que se partir e acompanhar tudo o que se despoletar.
mil beijos
XXX
[o presente]
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
morre lentamente quem destroi o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar,
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoínho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos.
morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante...
morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre
que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade "
Pablo Neruda
ouvi dizer que estás triste...
não podes estar, há muito mais entre o ceu e a terrra do que imaginamos e há pessoas que nos estão sempre a fazer lembrar isso.
gosto muito de ti, a tua amizade fez muito desta pessoa que sou hoje.por isso o teu peito apertado dá um nó estrangulado no meu.
lê o texto com toda a seriedade que merece e que mereces, estarei cá no entanto para apanhar tudo o que se partir e acompanhar tudo o que se despoletar.
mil beijos
XXX
#1
[interludio]
hoje atravessei um lago, vi neve, ouvi o silencio, olhei para pessoas, explorei uma cidade vazia, fotografei a imensidao, senti...
hoje sonhei, irritei-me, tomei decisoes e voltei ao ponto de partida, tive a certeza do meu mais brilhante amor, levei com um balde de agua fria, fui parado por policias e ignorado por ladroes.
hoje uma das minhas melhores amigas deu-me um presente que me levou äs lagrimas. outra houve que disse que deveriamos fazer dele roupa interior para usar todos os dias, para nos lembrarmos sempre. outra havera que, em ultima instancia, dira que fica distante do seu entendimento.
[interludio]
hoje atravessei um lago, vi neve, ouvi o silencio, olhei para pessoas, explorei uma cidade vazia, fotografei a imensidao, senti...
hoje sonhei, irritei-me, tomei decisoes e voltei ao ponto de partida, tive a certeza do meu mais brilhante amor, levei com um balde de agua fria, fui parado por policias e ignorado por ladroes.
hoje uma das minhas melhores amigas deu-me um presente que me levou äs lagrimas. outra houve que disse que deveriamos fazer dele roupa interior para usar todos os dias, para nos lembrarmos sempre. outra havera que, em ultima instancia, dira que fica distante do seu entendimento.
22.3.05
#1
[da poesia]
O autor propõe analisar
os efeitos do Amor
Eu cantarei de amor tão docemente
o instante em que fugir às suas dores
que o peito jamais sentiu amores
a confessar comece que amores sente.
Verá que não há dita permanente
aqui debaixo dos céus superiores,
e que as ditas altas ou menores
imitam sobre o chão sua corrente.
Verá que nem em amar alguém alcança
firmeza (embora a tenha no tormento
de idolatrar um marmor' com beleza).
porque se todo oo amor é esperança
e a esperança, é vinculo do vento,
- quem certo pode amar em tal firmeza?
Gabriel Bocángel (1603-1658)
in Antologia da poesia Espanhola do siglo de oro - barroco
[da poesia]
O autor propõe analisar
os efeitos do Amor
Eu cantarei de amor tão docemente
o instante em que fugir às suas dores
que o peito jamais sentiu amores
a confessar comece que amores sente.
Verá que não há dita permanente
aqui debaixo dos céus superiores,
e que as ditas altas ou menores
imitam sobre o chão sua corrente.
Verá que nem em amar alguém alcança
firmeza (embora a tenha no tormento
de idolatrar um marmor' com beleza).
porque se todo oo amor é esperança
e a esperança, é vinculo do vento,
- quem certo pode amar em tal firmeza?
Gabriel Bocángel (1603-1658)
in Antologia da poesia Espanhola do siglo de oro - barroco
21.3.05
#3
[deixasses tu e seriamos...]
The White Birds
I would that we were, my beloved, white birds on the foam of the sea!
We tire of the flame of the meteor, before it can fade and flee;
And the flame of the blue star of twilight, hung low on the rim of the sky,
Has awakened in our hearts, my beloved, a sadness that may not die.
A weariness comes from those dreamers, dew-dabbled, the lily and rose;
Ah, dream not of them, my beloved, the flame of the meteor that goes,
Or the flame of the blue star that lingers hung low in the fall of the dew:
For I would we were changed to white birds on the wandering foam: I and you!
I am haunted by numberless islands, and many a Danaan shore,
Where Time would surely forget us, and Sorrow come near us no more;
Soon far from the rose and the lily, and fret of the flames would we be,
Were we only white birds, my beloved, buoyed out on the foam of the sea!
W.B. Yeats,
The Rose (1893)
[deixasses tu e seriamos...]
The White Birds
I would that we were, my beloved, white birds on the foam of the sea!
We tire of the flame of the meteor, before it can fade and flee;
And the flame of the blue star of twilight, hung low on the rim of the sky,
Has awakened in our hearts, my beloved, a sadness that may not die.
A weariness comes from those dreamers, dew-dabbled, the lily and rose;
Ah, dream not of them, my beloved, the flame of the meteor that goes,
Or the flame of the blue star that lingers hung low in the fall of the dew:
For I would we were changed to white birds on the wandering foam: I and you!
I am haunted by numberless islands, and many a Danaan shore,
Where Time would surely forget us, and Sorrow come near us no more;
Soon far from the rose and the lily, and fret of the flames would we be,
Were we only white birds, my beloved, buoyed out on the foam of the sea!
W.B. Yeats,
The Rose (1893)
18.3.05
#1
[Continuas assim...]
e o José Manuel Fernanades ainda acaba por mandar o teu retrato para o Largo do Rato.
(...)
Mais do que esperança, o que os portugueses sentem, desde 20 de Fevereiro, é uma sensação de alívio. Sócrates pode governar bem ou mal, mas ninguém espera dele uma atitude de leviandade, enquadrada por uma constante e primária cobertura de propaganda e promoção da imagem.
Apesar deste nenhum tempo decorrido, há já quem reclame que os colunistas que antes criticavam Santana Lopes comecem já a fazer o mesmo com Sócrates, abolindo, como o fizeram com Santana, o tradicional período do "estado de graça". E, mais curioso ainda, até há quem o tenha já começado a fazer, com medo de que lhe chamem incoerente. Pois eu, que não só não respeitei o período de graça, como até comecei a criticar o Governo de Santana antes mesmo de ele ter tomado posse, não enfio o barrete. Porque as diferenças são, à partida, abissais: Sócrates não é Santana, e esse é o ponto essencial. O homem que escolhe os cargos políticos de acordo com as suas conveniências pessoais não merece dúvida nem condescendência - ou então acabemos com o choradinho sobre a falta de categoria da classe política. Por outro lado, Sócrates foi eleito por metade dos portugueses, e Santana foi cooptado, e também por razões de interesse pessoal, por aquele que eu, pessoalmente, considero o mais vazio e o mais profiteur de todos os políticos portugueses contemporâneos: Durão Barroso.
As tentativas de encontrar, desde já, terreno para atacar o Governo de Sócrates, de tão esforçadas, tornam-se ridículas. Vítor Constâncio abre a boca, defendendo impostos sobre o sector automóvel e, apenas porque é socialista, toda a gente toma as suas palavras como uma declaração do Governo, passando logo a criticar a "medida governamental". O ministro das Finanças diz uma coisa perfeitamente banal - que, se não se conseguir conter a despesa pública, será fatal aumentar impostos - e os mesmos que criticaram o descontrolo do défice, as manobras de encobrimento, como a expropriação das reformas dos pensionistas da Caixa Geral de Depósitos, ou o célebre discurso do "milagre das rosas" de Santana Lopes (aumento dos salários e das pensões, descida dos impostos), e que exigiram uma "política de verdade", caem-lhe em cima, como se ele fosse obrigado, em alternativa, e descobrir jazidas de ouro ou poços de petróleo.
(...)
Miguel Sousa Tavares, in Publico 18 de Março 2005
[Continuas assim...]
e o José Manuel Fernanades ainda acaba por mandar o teu retrato para o Largo do Rato.
(...)
Mais do que esperança, o que os portugueses sentem, desde 20 de Fevereiro, é uma sensação de alívio. Sócrates pode governar bem ou mal, mas ninguém espera dele uma atitude de leviandade, enquadrada por uma constante e primária cobertura de propaganda e promoção da imagem.
Apesar deste nenhum tempo decorrido, há já quem reclame que os colunistas que antes criticavam Santana Lopes comecem já a fazer o mesmo com Sócrates, abolindo, como o fizeram com Santana, o tradicional período do "estado de graça". E, mais curioso ainda, até há quem o tenha já começado a fazer, com medo de que lhe chamem incoerente. Pois eu, que não só não respeitei o período de graça, como até comecei a criticar o Governo de Santana antes mesmo de ele ter tomado posse, não enfio o barrete. Porque as diferenças são, à partida, abissais: Sócrates não é Santana, e esse é o ponto essencial. O homem que escolhe os cargos políticos de acordo com as suas conveniências pessoais não merece dúvida nem condescendência - ou então acabemos com o choradinho sobre a falta de categoria da classe política. Por outro lado, Sócrates foi eleito por metade dos portugueses, e Santana foi cooptado, e também por razões de interesse pessoal, por aquele que eu, pessoalmente, considero o mais vazio e o mais profiteur de todos os políticos portugueses contemporâneos: Durão Barroso.
As tentativas de encontrar, desde já, terreno para atacar o Governo de Sócrates, de tão esforçadas, tornam-se ridículas. Vítor Constâncio abre a boca, defendendo impostos sobre o sector automóvel e, apenas porque é socialista, toda a gente toma as suas palavras como uma declaração do Governo, passando logo a criticar a "medida governamental". O ministro das Finanças diz uma coisa perfeitamente banal - que, se não se conseguir conter a despesa pública, será fatal aumentar impostos - e os mesmos que criticaram o descontrolo do défice, as manobras de encobrimento, como a expropriação das reformas dos pensionistas da Caixa Geral de Depósitos, ou o célebre discurso do "milagre das rosas" de Santana Lopes (aumento dos salários e das pensões, descida dos impostos), e que exigiram uma "política de verdade", caem-lhe em cima, como se ele fosse obrigado, em alternativa, e descobrir jazidas de ouro ou poços de petróleo.
(...)
Miguel Sousa Tavares, in Publico 18 de Março 2005
17.3.05
#1
[nem mais]
hey
been trying to meet you
hey
must be a devil between us
or whores in my head
whores at my door
whores in my bed
but hey
where
have you
been if you go i will surely die
we're chained
uh said the man to the lady
uh said the lady to the man she adored
and the whores like a choir
go uh all night
and mary ain't you tired of this
uh
is
the
sound
that the mother makes when the baby breaks
we're chained"
Pixies
[nem mais]
hey
been trying to meet you
hey
must be a devil between us
or whores in my head
whores at my door
whores in my bed
but hey
where
have you
been if you go i will surely die
we're chained
uh said the man to the lady
uh said the lady to the man she adored
and the whores like a choir
go uh all night
and mary ain't you tired of this
uh
is
the
sound
that the mother makes when the baby breaks
we're chained"
Pixies
16.3.05
#1
[Limpando arquivos]
Favorecer os processos de reciclagem e síntese.
sacudir o pó acumulado pela imobilidade.
Vasculhar as marcas de uma existência, revendo os passos que deram corpo ao projecto.
Ordenar, arrumar, eliminar... verbos a conjugar.
Abrandar o emocional, procurando separar o essencial do acessório.
Respirar junto ao vidro, enquanto lá fora a primavera se espalha.
[Limpando arquivos]
Favorecer os processos de reciclagem e síntese.
sacudir o pó acumulado pela imobilidade.
Vasculhar as marcas de uma existência, revendo os passos que deram corpo ao projecto.
Ordenar, arrumar, eliminar... verbos a conjugar.
Abrandar o emocional, procurando separar o essencial do acessório.
Respirar junto ao vidro, enquanto lá fora a primavera se espalha.
15.3.05
#2
[SG Gigante]
(...)
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?
[SG Gigante]
(...)
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?
14.3.05
11.3.05
#2
[sobre o papagaio delgado]
O estranho caso de Luís Delgado
Eduardo Prado Coelho, Público, 11 de Março de 2005
É mais um cronista e um administrador de jornalistas do que um jornalista propriamente dito. Nunca o vi fazer uma reportagem ou uma entrevista. Começou a ganhar alguma presença com uma coluna no Diário de Notícias correspondendo ao ponto de vista da direita mais convictamente liberal. Era, e é, uma coluna previsível. Luís Delgado aparece como um defensor da mais conservadora (no sentido amplo do termo) doutrina americana. Em determinada altura, assumia as funções de porta-voz, e, quando Bush começa a exercer o poder, escreve como se tivesse recolhido as suas confidências da véspera. Fala como se estivesse no segredo dos deuses - mas que deuses! Conhece números que só ele conhece.
De repente, deu-se uma metamorfose. Onde havia um discreto comentador, capaz de falar sobre as eleições americanas mas também sobre o euro, onde havia um ponto de vista que se cruzava com muitos outros, surge um potentado da imprensa portuguesa, com o mundo a seus pés. Ele é Lusa, grupos de imprensa, projectos de aquisição, retratos na comunicação social. O resultado foi um processo de comentarite aguda.
A gente acordava, ligava o rádio e lá estava Luís Delgado. A gente comprava o jornal e lá tinha a crónica de Luís Delgado. A gente ouvia um debate ao fim da tarde, e lá tínhamos, incansável e insone, a voz de Luís Delgado. A gente esperava um confronto no noticiário na televisão e Luís Delgado já tinha chegado. A gente adormecia, exausta, com a voz incessante de Luís Delgado, certa de que no dia seguinte lá teríamos a presença de Luís Delgado. Este homem não dorme, não descansa, não faz uma sesta, não vai a um cinema? Aparentemente, não. Indómito samurai da imprensa portuguesa, cultiva o ascetismo: é uma espécie de monge da palavra escrita e da administração de empresas. Como se os seus deuses tutelares estivessem sempre do lado de lá do telemóvel a enviar mensagens que são ordens: agora diga isto, agora digo aquilo. Na inequívoca "direitização" dos comentadores portugueses, em que Mário Bettencourt Resendes aparece como um homem de extrema-esquerda, um radical da política, Luís Delgado era o centro, a luz da evidência, o lugar de equilíbrio, o alfa e o ómega. Tudo isto ganhou o seu máximo esplendor nos tempos de Santana Lopes, embora já tivesse começado com a direita de Durão Barroso.
Na noite eleitoral, nesse estendal de desastres em torno de Santana Lopes, Luís Delgado ainda tentou dizer que as primeiras freguesias eram dos pardais, mas que depois é que íamos ver. Vimos, e ele próprio viu. Tivemos, mais tarde, um momento de extrema densidade dramática. Luís Delgado despiu a máscara que ele parece supor ser do comentarista neutro, e disse que ia falar do amigo, o Pedro. Porque o Pedro era uma vítima. E então veio a grande tese: era uma vítima de quem? De Durão Barroso, que tinha mentido ao Pedro e ao país. Sentimos a voz embargada pela emoção e tivemos direito em voz e em escrita a uma espantosa condenação daquele que tinha, num momento de precipitação, feito de Santana Lopes o nosso primeiro-ministro.
Nos últimos dias, sentimos a tristeza de Luís Delgado. Teve o seu quarto de hora de glória, parece estar a amarelecer. Já não aparece, já não comenta, já não tem música na voz. Vai-nos fazer muita falta.
[sobre o papagaio delgado]
O estranho caso de Luís Delgado
Eduardo Prado Coelho, Público, 11 de Março de 2005
É mais um cronista e um administrador de jornalistas do que um jornalista propriamente dito. Nunca o vi fazer uma reportagem ou uma entrevista. Começou a ganhar alguma presença com uma coluna no Diário de Notícias correspondendo ao ponto de vista da direita mais convictamente liberal. Era, e é, uma coluna previsível. Luís Delgado aparece como um defensor da mais conservadora (no sentido amplo do termo) doutrina americana. Em determinada altura, assumia as funções de porta-voz, e, quando Bush começa a exercer o poder, escreve como se tivesse recolhido as suas confidências da véspera. Fala como se estivesse no segredo dos deuses - mas que deuses! Conhece números que só ele conhece.
De repente, deu-se uma metamorfose. Onde havia um discreto comentador, capaz de falar sobre as eleições americanas mas também sobre o euro, onde havia um ponto de vista que se cruzava com muitos outros, surge um potentado da imprensa portuguesa, com o mundo a seus pés. Ele é Lusa, grupos de imprensa, projectos de aquisição, retratos na comunicação social. O resultado foi um processo de comentarite aguda.
A gente acordava, ligava o rádio e lá estava Luís Delgado. A gente comprava o jornal e lá tinha a crónica de Luís Delgado. A gente ouvia um debate ao fim da tarde, e lá tínhamos, incansável e insone, a voz de Luís Delgado. A gente esperava um confronto no noticiário na televisão e Luís Delgado já tinha chegado. A gente adormecia, exausta, com a voz incessante de Luís Delgado, certa de que no dia seguinte lá teríamos a presença de Luís Delgado. Este homem não dorme, não descansa, não faz uma sesta, não vai a um cinema? Aparentemente, não. Indómito samurai da imprensa portuguesa, cultiva o ascetismo: é uma espécie de monge da palavra escrita e da administração de empresas. Como se os seus deuses tutelares estivessem sempre do lado de lá do telemóvel a enviar mensagens que são ordens: agora diga isto, agora digo aquilo. Na inequívoca "direitização" dos comentadores portugueses, em que Mário Bettencourt Resendes aparece como um homem de extrema-esquerda, um radical da política, Luís Delgado era o centro, a luz da evidência, o lugar de equilíbrio, o alfa e o ómega. Tudo isto ganhou o seu máximo esplendor nos tempos de Santana Lopes, embora já tivesse começado com a direita de Durão Barroso.
Na noite eleitoral, nesse estendal de desastres em torno de Santana Lopes, Luís Delgado ainda tentou dizer que as primeiras freguesias eram dos pardais, mas que depois é que íamos ver. Vimos, e ele próprio viu. Tivemos, mais tarde, um momento de extrema densidade dramática. Luís Delgado despiu a máscara que ele parece supor ser do comentarista neutro, e disse que ia falar do amigo, o Pedro. Porque o Pedro era uma vítima. E então veio a grande tese: era uma vítima de quem? De Durão Barroso, que tinha mentido ao Pedro e ao país. Sentimos a voz embargada pela emoção e tivemos direito em voz e em escrita a uma espantosa condenação daquele que tinha, num momento de precipitação, feito de Santana Lopes o nosso primeiro-ministro.
Nos últimos dias, sentimos a tristeza de Luís Delgado. Teve o seu quarto de hora de glória, parece estar a amarelecer. Já não aparece, já não comenta, já não tem música na voz. Vai-nos fazer muita falta.
9.3.05
8.3.05
#2
[eis uma canção...]
que, desde que tenho memória dela, sempre me apareceu (e confortou) em momentos precisos e nos lugares mais inusitados: num restaurante em Dublin, num café à beira mar, numa loja de discos em Paris, numa livraria de Donostia, num cyber café em Florença, na planura de uma estrada alentejana...
Hoje foi numa estação de metro, em Lisboa.
When the day is long and the night, the night is yours alone,
When you’re sure you’ve had enough of this life, well hang on.
Don’t let yourself go, everybody cries and everybody hurts sometimes.
Sometimes everything is wrong. Now it’s time to sing along.
When your day is night alone, (hold on, hold on)
If you feel like letting go, (hold on)
When you think you’ve had too much of this life, well hang on.
(...)
REM
[eis uma canção...]
que, desde que tenho memória dela, sempre me apareceu (e confortou) em momentos precisos e nos lugares mais inusitados: num restaurante em Dublin, num café à beira mar, numa loja de discos em Paris, numa livraria de Donostia, num cyber café em Florença, na planura de uma estrada alentejana...
Hoje foi numa estação de metro, em Lisboa.
When the day is long and the night, the night is yours alone,
When you’re sure you’ve had enough of this life, well hang on.
Don’t let yourself go, everybody cries and everybody hurts sometimes.
Sometimes everything is wrong. Now it’s time to sing along.
When your day is night alone, (hold on, hold on)
If you feel like letting go, (hold on)
When you think you’ve had too much of this life, well hang on.
(...)
REM
7.3.05
#1
[post à José Luis Peixoto]
[post à José Luis Peixoto]
tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, , tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão…
6.3.05
#1
[ora toma]
Cada Barreiro sua Cascais
José Neves, Público, 4 de Março 2005
A simpatia de alguns jornalistas em relação ao BE marcou o crescimento inicial deste mas, por si só, não o explica. Aquela simpatia inicial não chega para fazer uma tese e muito menos uma teoria da conspiração. Ela não se compara à simpatia de que em regra beneficiam PS ou PSD
Algumas das análises para o sentido do meu voto têm-me convidado a acreditar na minha leviandade social e na minha falta de cultura política. Perante os analistas que em tais termos me convidam sou tentado a concluir que eles são maus psicanalistas. E, todavia, o conhecimento e a inteligência por demais evidentes em alguns desses analistas impedem-me de cair na tentação. Tomo então as posições desses analistas em relação ao BE não propriamente enquanto análise, mas mais como contestação do Bloco. Em lugar de me indignar com essa legítima contestação, talvez que prefira compreender a razão das teses que sustentam essa contestação.
1) Gato escondido com o rabo de fora. Esta tese diz-nos que por detrás de um Bloco que se apresenta como uma novidade estarão os perigosos revolucionários de sempre. Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes (J.M.F.), nomeadamente, denunciam Francisco Louçã por ser um herdeiro do trotskismo. O facto é efectivamente verdadeiro e Louçã nunca o escondeu. O que, a meu ver, não implica que ele tenha que se referir às hipóteses revolucionárias na China nos anos 20 para propor políticas de combate ao desemprego em Portugal. Atrás do novo Louçã de hoje estará em parte o velho Louçã de sempre - eis um facto que não chega para uma denúncia nem para uma acusação. E mesmo se Louçã guardasse esqueletos no seu armário político - se tivesse apoiado a Albânia ou o Camboja - ele ainda teria todo o direito à cidade, tal como têm J.M.F. ou Pacheco Pereira.
2) O efeito pernicioso desta tese é a redução da experiência política do BE a uma mera artimanha - ele não seria mais do que a "soma das partes", uma sigla ao serviço de velhas siglas. Ora, é esta ideia que desde logo impede que os nossos analistas juntem novas análises à sua contestação. Eles não chegam a encarar o BE como uma realidade com uma história própria ainda que curta; antes fazem dele o novo rosto do "Demónio Vermelho". Perdem assim a oportunidade de, pensando sobre a breve história do BE, juntarem mais argumentos à sua própria contestação. Mantendo viva uma polémica com argumentos da guerra fria, eles sintetizam com originalidade o antitrotskismo estalinista e o anticomunismo liberal.
3) O BE como produção mediática por excelência. Nesta tese, a incapacidade dos nossos analistas em explicar uma certa afinidade entre o BE e a comunicação social leva-os a sugerir essa relação em termos de teoria da conspiração. A mim parece claro que a simpatia de alguns jornalistas em relação ao BE marcou o crescimento inicial deste. Mas, por si só, ela não o explica. Aquela simpatia inicial não chega para fazer uma tese e muito menos uma teoria da conspiração. Ela não se compara à simpatia de que em regra beneficiam PS ou PSD. A este nível, parece-me sim plausível sugerir diferenças favoráveis ao BE em comparação com o PCP. Será contudo precipitado reduzir a capacidade mediática do BE ao "complexo de esquerda" dos "media" que Pacheco Pereira refere. Mantendo-nos por aspectos politicamente superficiais é hoje em dia bem mais evidente, desde logo, o encontro entre o tipo de retórica de Louçã e as gramáticas comunicacionais dominantes. Como, em geral, parece também claro que entre a "estética" do BE e as "estéticas" da comunicação social existem várias zonas de contacto. Isto não se explica por "cedências" do BE: por exemplo, onde este claramente cedeu - a personalização hierárquica da campanha num líder -, já o PCP há muito tinha cedido sem que tal resolvesse o seu divórcio com os "media". Em suma, creio que será sempre ridículo reduzir a questão à "forma" como são ditas as coisas, pois faz toda a diferença aquilo que é dito. É por exemplo evidente que a clareza da posição do BE face ao aborto ou face à guerra lhe garantiu algum protagonismo face a um PS que se contradisse em relação a ambas as questões.
As teorias da conspiração e os seus processos de intenção são pouco mais do que mistificações. J.M.F. - vezes sem conta primitivamente acusado de ser a "voz do dono" - e Pacheco Pereira - reduzido a "inimigo interno" do seu próprio partido - sabem-no melhor do que muitos.
4) O voto politicamente inculto. Avançada sobretudo na última campanha, esta tese assenta sobre a invenção de um conceito universal de "cultura política". Ela é arrogante não por defender que não se vote no BE, mas por argumentar em termos de autoridade: começando por destituir de qualquer racionalidade as razões políticas do voto no BE, ela acaba o debate antes de o começar. A tese é fraca a menos que se entenda que qualquer definição formal de "cultura política" depende estritamente dos conteúdos particulares da "cultura política" dos analistas que contestam o BE.
5) O voto elitista. Eis a tese mais criticável. Apetece caricaturá-la e dizer que, com os presentes resultados eleitorais, esta tese seria sustentável apenas deslocando a marina de Cascais para pleno Tejo, até à beira do Barreiro, onde o BE teve uma enorme votação. A tese diz que só vota no BE quem é rico e quem não tem problemas na vida. Mais do que relativizar a tese, interessa-nos atacar um pressuposto da mesma, o que concebe as questões de "moral" como assunto exclusivo de ricos e das suas "burguesias". O "povo", esse, será inconsciente e amoral. Porque sobrevive estupidificado pelas suas necessidades materiais de subsistência, ele não se preocupa com as "questões pós-materiais" e "pós-modernas" da agenda do BE.
Deixando de lado ícones bloquistas tão "materiais" e "modernos" como o desemprego e a guerra, peguemos então nos "pós-materiais": aborto, feminismo, homossexuais e droga. Sem sofisticar a análise, podemos ver como estas questões são profundamente "materiais" e imanentes à vida do "povo": A gravidez indesejada bate à porta de todas as casas; a violência doméstica chega tanto a operárias quanto a burguesas; a repressão da homossexualidade é pelo menos tão sentida na fábrica como na universidade; e a toxicodependência não respeita as fronteiras de classe.
A tese do "voto elitista" é ela sim elitista, porque a ela subjaze uma concepção de certos problemas como preocupações próprias de uma imaginada intimidade burguesa. Não por acaso, essa concepção alimenta tanto o pior da tradição marxista-leninista como o mais cínico conservadorismo. Em ambos os casos, a concepção limita os sentidos da qualidade de vida e os seus ícones "pós-materiais", no tempo de hoje, a uns poucos privilegiados. Em ambos os casos, o direito de todos ao sentido da qualidade de vida é apenas prometido para o tempo dos amanhãs que cantam. Como se a questão fosse "mais" e não "melhor".
5) A resposta de Bertolucci. Foi precisamente contra esta privatização do direito de todos à espiritualidade pessoal que Bertolucci um dia filmou um funcionário comunista em profunda depressão por causa de uma desilusão amorosa. Na cena seguinte, o funcionário pede ao seu superior que lhe explique como era possível que ele tivesse perdido a vontade de fazer o seu trabalho político apenas por razão de uma depressão amorosa. Este, um velho comunista romântico, disse-lhe que ele há muito deveria ter percebido que as "coisas do espírito" são sempre "coisas da matéria": "O amor não é uma superestrutura." Estou certo de que não foi por amor que tanta gente votou no BE. Mas também não foi por falta de cultura política.
[ora toma]
Cada Barreiro sua Cascais
José Neves, Público, 4 de Março 2005
A simpatia de alguns jornalistas em relação ao BE marcou o crescimento inicial deste mas, por si só, não o explica. Aquela simpatia inicial não chega para fazer uma tese e muito menos uma teoria da conspiração. Ela não se compara à simpatia de que em regra beneficiam PS ou PSD
Algumas das análises para o sentido do meu voto têm-me convidado a acreditar na minha leviandade social e na minha falta de cultura política. Perante os analistas que em tais termos me convidam sou tentado a concluir que eles são maus psicanalistas. E, todavia, o conhecimento e a inteligência por demais evidentes em alguns desses analistas impedem-me de cair na tentação. Tomo então as posições desses analistas em relação ao BE não propriamente enquanto análise, mas mais como contestação do Bloco. Em lugar de me indignar com essa legítima contestação, talvez que prefira compreender a razão das teses que sustentam essa contestação.
1) Gato escondido com o rabo de fora. Esta tese diz-nos que por detrás de um Bloco que se apresenta como uma novidade estarão os perigosos revolucionários de sempre. Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes (J.M.F.), nomeadamente, denunciam Francisco Louçã por ser um herdeiro do trotskismo. O facto é efectivamente verdadeiro e Louçã nunca o escondeu. O que, a meu ver, não implica que ele tenha que se referir às hipóteses revolucionárias na China nos anos 20 para propor políticas de combate ao desemprego em Portugal. Atrás do novo Louçã de hoje estará em parte o velho Louçã de sempre - eis um facto que não chega para uma denúncia nem para uma acusação. E mesmo se Louçã guardasse esqueletos no seu armário político - se tivesse apoiado a Albânia ou o Camboja - ele ainda teria todo o direito à cidade, tal como têm J.M.F. ou Pacheco Pereira.
2) O efeito pernicioso desta tese é a redução da experiência política do BE a uma mera artimanha - ele não seria mais do que a "soma das partes", uma sigla ao serviço de velhas siglas. Ora, é esta ideia que desde logo impede que os nossos analistas juntem novas análises à sua contestação. Eles não chegam a encarar o BE como uma realidade com uma história própria ainda que curta; antes fazem dele o novo rosto do "Demónio Vermelho". Perdem assim a oportunidade de, pensando sobre a breve história do BE, juntarem mais argumentos à sua própria contestação. Mantendo viva uma polémica com argumentos da guerra fria, eles sintetizam com originalidade o antitrotskismo estalinista e o anticomunismo liberal.
3) O BE como produção mediática por excelência. Nesta tese, a incapacidade dos nossos analistas em explicar uma certa afinidade entre o BE e a comunicação social leva-os a sugerir essa relação em termos de teoria da conspiração. A mim parece claro que a simpatia de alguns jornalistas em relação ao BE marcou o crescimento inicial deste. Mas, por si só, ela não o explica. Aquela simpatia inicial não chega para fazer uma tese e muito menos uma teoria da conspiração. Ela não se compara à simpatia de que em regra beneficiam PS ou PSD. A este nível, parece-me sim plausível sugerir diferenças favoráveis ao BE em comparação com o PCP. Será contudo precipitado reduzir a capacidade mediática do BE ao "complexo de esquerda" dos "media" que Pacheco Pereira refere. Mantendo-nos por aspectos politicamente superficiais é hoje em dia bem mais evidente, desde logo, o encontro entre o tipo de retórica de Louçã e as gramáticas comunicacionais dominantes. Como, em geral, parece também claro que entre a "estética" do BE e as "estéticas" da comunicação social existem várias zonas de contacto. Isto não se explica por "cedências" do BE: por exemplo, onde este claramente cedeu - a personalização hierárquica da campanha num líder -, já o PCP há muito tinha cedido sem que tal resolvesse o seu divórcio com os "media". Em suma, creio que será sempre ridículo reduzir a questão à "forma" como são ditas as coisas, pois faz toda a diferença aquilo que é dito. É por exemplo evidente que a clareza da posição do BE face ao aborto ou face à guerra lhe garantiu algum protagonismo face a um PS que se contradisse em relação a ambas as questões.
As teorias da conspiração e os seus processos de intenção são pouco mais do que mistificações. J.M.F. - vezes sem conta primitivamente acusado de ser a "voz do dono" - e Pacheco Pereira - reduzido a "inimigo interno" do seu próprio partido - sabem-no melhor do que muitos.
4) O voto politicamente inculto. Avançada sobretudo na última campanha, esta tese assenta sobre a invenção de um conceito universal de "cultura política". Ela é arrogante não por defender que não se vote no BE, mas por argumentar em termos de autoridade: começando por destituir de qualquer racionalidade as razões políticas do voto no BE, ela acaba o debate antes de o começar. A tese é fraca a menos que se entenda que qualquer definição formal de "cultura política" depende estritamente dos conteúdos particulares da "cultura política" dos analistas que contestam o BE.
5) O voto elitista. Eis a tese mais criticável. Apetece caricaturá-la e dizer que, com os presentes resultados eleitorais, esta tese seria sustentável apenas deslocando a marina de Cascais para pleno Tejo, até à beira do Barreiro, onde o BE teve uma enorme votação. A tese diz que só vota no BE quem é rico e quem não tem problemas na vida. Mais do que relativizar a tese, interessa-nos atacar um pressuposto da mesma, o que concebe as questões de "moral" como assunto exclusivo de ricos e das suas "burguesias". O "povo", esse, será inconsciente e amoral. Porque sobrevive estupidificado pelas suas necessidades materiais de subsistência, ele não se preocupa com as "questões pós-materiais" e "pós-modernas" da agenda do BE.
Deixando de lado ícones bloquistas tão "materiais" e "modernos" como o desemprego e a guerra, peguemos então nos "pós-materiais": aborto, feminismo, homossexuais e droga. Sem sofisticar a análise, podemos ver como estas questões são profundamente "materiais" e imanentes à vida do "povo": A gravidez indesejada bate à porta de todas as casas; a violência doméstica chega tanto a operárias quanto a burguesas; a repressão da homossexualidade é pelo menos tão sentida na fábrica como na universidade; e a toxicodependência não respeita as fronteiras de classe.
A tese do "voto elitista" é ela sim elitista, porque a ela subjaze uma concepção de certos problemas como preocupações próprias de uma imaginada intimidade burguesa. Não por acaso, essa concepção alimenta tanto o pior da tradição marxista-leninista como o mais cínico conservadorismo. Em ambos os casos, a concepção limita os sentidos da qualidade de vida e os seus ícones "pós-materiais", no tempo de hoje, a uns poucos privilegiados. Em ambos os casos, o direito de todos ao sentido da qualidade de vida é apenas prometido para o tempo dos amanhãs que cantam. Como se a questão fosse "mais" e não "melhor".
5) A resposta de Bertolucci. Foi precisamente contra esta privatização do direito de todos à espiritualidade pessoal que Bertolucci um dia filmou um funcionário comunista em profunda depressão por causa de uma desilusão amorosa. Na cena seguinte, o funcionário pede ao seu superior que lhe explique como era possível que ele tivesse perdido a vontade de fazer o seu trabalho político apenas por razão de uma depressão amorosa. Este, um velho comunista romântico, disse-lhe que ele há muito deveria ter percebido que as "coisas do espírito" são sempre "coisas da matéria": "O amor não é uma superestrutura." Estou certo de que não foi por amor que tanta gente votou no BE. Mas também não foi por falta de cultura política.
4.3.05
3.3.05
#1
[Da Lanterna Mágica]
Filmes da última semana
Vera Drake

Tal como nos dias de hoje em Portugal, na Inglaterra dos anos 50 quem tinha dinheiro pagava para abortar em segurança e anónimato, quem não tinha ficava à mercê do destino.
Mar Adentro

A história de Rámon Sanpedro e a sua luta pelo direito à dignidade na morte.
Sideways

A vida a correr.
A cor do vinho.
A natureza de ambos.
Filmes da última semana
Vera Drake

Tal como nos dias de hoje em Portugal, na Inglaterra dos anos 50 quem tinha dinheiro pagava para abortar em segurança e anónimato, quem não tinha ficava à mercê do destino.
Mar Adentro

A história de Rámon Sanpedro e a sua luta pelo direito à dignidade na morte.
Sideways

A vida a correr.
A cor do vinho.
A natureza de ambos.
2.3.05
#2
[da lógica]
Premissa
As mulheres Portuguesas são parvas
(Maria Filomena Mónica, In Público, 2 de Março 2005)
Premissa
Maria Filomena Mónica é mulher e portuguesa
Conclusão
Maria Filomena Mónica É parva
Nota: apesar de não concordar com a validade da primeira premissa, o autor deste post reconhece validade à conclusão emanada da lógica aristoteliana.
[da lógica]
Premissa
As mulheres Portuguesas são parvas
(Maria Filomena Mónica, In Público, 2 de Março 2005)
Premissa
Maria Filomena Mónica é mulher e portuguesa
Conclusão
Maria Filomena Mónica É parva
Nota: apesar de não concordar com a validade da primeira premissa, o autor deste post reconhece validade à conclusão emanada da lógica aristoteliana.
28.2.05
#3
[vagueando]
na semana que passou andei longe deste espaço. por estar em regime de descanso, por não ter acesso à net com tanta facilidade e, vistas as coisas, por não saber muito bem o que escrever.
Andei de bicicleta, limpei a casa, fotografei, fui ao cinema, cocei a barriga, cozinhei, e pensei muito... durante esta (merecido) dolce fare niente, esteva uma pregunta sempre a latejar-me no espírito: que fiz eu às ideias?
[vagueando]
na semana que passou andei longe deste espaço. por estar em regime de descanso, por não ter acesso à net com tanta facilidade e, vistas as coisas, por não saber muito bem o que escrever.
Andei de bicicleta, limpei a casa, fotografei, fui ao cinema, cocei a barriga, cozinhei, e pensei muito... durante esta (merecido) dolce fare niente, esteva uma pregunta sempre a latejar-me no espírito: que fiz eu às ideias?
#2
[o embuste]
A partilha da venda dos bilhetes para o concerto dos U2 entre uma gasolineira, uma agencia, os terminais de multibanco e a fnac provocou a inacessibilidade aos mesmos. Foi uma loucura ver a malta a dormir à porta, ver (e estar!) nas filas que se geraram, desesperar e não conseguir obter uma entrada.
Nesta altura do campeonato, ao que parece, faltam ainda vender 22 mil bilhetes, mas parece-me que só estarão à disposição de quem dormir na dita gasolineira ou tiver uma boa cunha. Fala-se da possibilidade de um segundo concerto, a loucura será a mesma.
já não bastava a imoralidade dos preços (53 euros para um país onde a média salarial anda à roda dos 600 e onde há uma crise instalada)...
[o embuste]
A partilha da venda dos bilhetes para o concerto dos U2 entre uma gasolineira, uma agencia, os terminais de multibanco e a fnac provocou a inacessibilidade aos mesmos. Foi uma loucura ver a malta a dormir à porta, ver (e estar!) nas filas que se geraram, desesperar e não conseguir obter uma entrada.
Nesta altura do campeonato, ao que parece, faltam ainda vender 22 mil bilhetes, mas parece-me que só estarão à disposição de quem dormir na dita gasolineira ou tiver uma boa cunha. Fala-se da possibilidade de um segundo concerto, a loucura será a mesma.
já não bastava a imoralidade dos preços (53 euros para um país onde a média salarial anda à roda dos 600 e onde há uma crise instalada)...
#1
[esta noite]
andei de electrico por Roma.

Foi uma viagem de sonho, pela linha 14, que liga as Viale Palmiro Togliatti e Giovanni Amendola, que atravessa a via Prenestina (uma das estrada que dava entrada na RomaImperial), passando, entre outros locais, pela aqua bullicante, pelo limiar do bairro de S. Lorenzo (quartieri rosso!), pela estação central de Roma e pela piazza vittor Emanuelle II.
[esta noite]
andei de electrico por Roma.

Foi uma viagem de sonho, pela linha 14, que liga as Viale Palmiro Togliatti e Giovanni Amendola, que atravessa a via Prenestina (uma das estrada que dava entrada na RomaImperial), passando, entre outros locais, pela aqua bullicante, pelo limiar do bairro de S. Lorenzo (quartieri rosso!), pela estação central de Roma e pela piazza vittor Emanuelle II.
25.2.05
#2
[post de dizer]
que estou ainda de molho, com saudades de Itália, de florença, do sul, de comer um gelado de chocolate, passear na beira do Arno, perder-me nas livrarias,
beijar doces lábios com demoras... de me perder, de encontrar palavras e trabalha-las, de me emocionar com pequenas coisas, de dormir até à exaustão, de ver o mundo a correr para lá do vidro do comboio, de enrolar a lingua noutras linguas, de mergulhar no mar, do calor e de pouca roupa.
...
[post de dizer]
que estou ainda de molho, com saudades de Itália, de florença, do sul, de comer um gelado de chocolate, passear na beira do Arno, perder-me nas livrarias,
beijar doces lábios com demoras... de me perder, de encontrar palavras e trabalha-las, de me emocionar com pequenas coisas, de dormir até à exaustão, de ver o mundo a correr para lá do vidro do comboio, de enrolar a lingua noutras linguas, de mergulhar no mar, do calor e de pouca roupa.
...
24.2.05
22.2.05
21.2.05
#1
[o primeiro dia]
Ontem foi um dia de grandes emoções. O investimento e a aposta de anos de trabalho - 6 para para tant@s, 10 para mim, 30 ou mais para muit@s-, foi posto à prova. com muito sucesso, por sinal.
Algo em mim parou quando, pela festa fora, Sérgio Godinho afinou o primeiro dia. Ao meu redor muita gente dizia que não voltaremos a ter uma noite assim, naquele momento, eu, que sou um optimista céptico, tive a certeza que voltaremos a festejar grandes vitórias. Porque somos gente de projecto, de ideia, de convicção e, sobretudo, somos gente decente. E não pude deixar de me lembrar das pessoas que marcaram este mês e meio de loucura que vivi. D@s amig@s que, no meu cansaço e na minha ausência, estando longe ou perto, olharam por mim e fizeram a ponte com uma certa normalidade; D@s companheir@s de estrada que, para lá de tudo, me incentivaram sempre e ensinaram tanta coisa a cada dia; da minha avó, da escritora, do professor, do enfermeiro, da palhaça e da controler financeiro favorit@s... e de ti.
Hoje acordei feliz e aliviado. com poucas palavras, em quase extase. Há uma nova esperança, apesar do risco que a maioria absoluta do socrates encerra em si. há a certeza de este ser o primeiro dia.
[o primeiro dia]
Ontem foi um dia de grandes emoções. O investimento e a aposta de anos de trabalho - 6 para para tant@s, 10 para mim, 30 ou mais para muit@s-, foi posto à prova. com muito sucesso, por sinal.
Algo em mim parou quando, pela festa fora, Sérgio Godinho afinou o primeiro dia. Ao meu redor muita gente dizia que não voltaremos a ter uma noite assim, naquele momento, eu, que sou um optimista céptico, tive a certeza que voltaremos a festejar grandes vitórias. Porque somos gente de projecto, de ideia, de convicção e, sobretudo, somos gente decente. E não pude deixar de me lembrar das pessoas que marcaram este mês e meio de loucura que vivi. D@s amig@s que, no meu cansaço e na minha ausência, estando longe ou perto, olharam por mim e fizeram a ponte com uma certa normalidade; D@s companheir@s de estrada que, para lá de tudo, me incentivaram sempre e ensinaram tanta coisa a cada dia; da minha avó, da escritora, do professor, do enfermeiro, da palhaça e da controler financeiro favorit@s... e de ti.
Hoje acordei feliz e aliviado. com poucas palavras, em quase extase. Há uma nova esperança, apesar do risco que a maioria absoluta do socrates encerra em si. há a certeza de este ser o primeiro dia.
20.2.05
19.2.05
18.2.05
17.2.05
15.2.05
#1
[post de passagem]
algumas coisas que voces precisam de saber deste bloguista
1- ando a trabalhar que nem um doido, não tenho tempo para pensar.
2- não estou chocado nem de luto pela morte da ultima espectadora do primeiro ciclo de cinema experimental da cova da iria.
3- não festejei o dia d@s namorad@s.
4- adoro estes dias de sol
[post de passagem]
algumas coisas que voces precisam de saber deste bloguista
1- ando a trabalhar que nem um doido, não tenho tempo para pensar.
2- não estou chocado nem de luto pela morte da ultima espectadora do primeiro ciclo de cinema experimental da cova da iria.
3- não festejei o dia d@s namorad@s.
4- adoro estes dias de sol
10.2.05
#1
[Eu cá acho...]
que esta história do Cavaco acreditar na maioria absoluta do PS, não só é um boato, como tem em Santana e naquele brasuca intrujão que o acompanha os seus mentores.
E das duas três: ou o sr. Silva se define ou fica, cada vez mais, fora de jogo.
Isto porque, para Santana, nesta política de terra queimada, dá igual perder por cem ou por mil.
[Eu cá acho...]
que esta história do Cavaco acreditar na maioria absoluta do PS, não só é um boato, como tem em Santana e naquele brasuca intrujão que o acompanha os seus mentores.
E das duas três: ou o sr. Silva se define ou fica, cada vez mais, fora de jogo.
Isto porque, para Santana, nesta política de terra queimada, dá igual perder por cem ou por mil.
7.2.05
#1
[post de dizer...]
que há coisas que nunca são em excesso
Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.
Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guia
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.
Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.
Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva
José Gomes Ferreira
[post de dizer...]
que há coisas que nunca são em excesso
Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.
Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guia
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.
Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.
Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva
José Gomes Ferreira
5.2.05
4.2.05
A cena inicial é fantástica. um plano em movimento de dois estranhos que se filam entre uma multidão que avança... e abrem-se as portas para um filme perturbante, onde os (des)encontros são a tónica e onde se sublinha que a vida é feita de escolhas, assim as queiramos fazer.
ficam as palavras do cinecartaz do público
É a história de quatro estranhos - Anna, Dan, Alice e Larry -, dos seus encontros, atracções fatais e traições, num perigoso jogo de sedução de que ninguém sairá incólume. Anna (Julia Roberts) é uma fotógrafa bem sucedida que, após o seu divórcio, se envolve com Dan, que se torna seu amante mesmo depois de Anna se voltar a casar com Larry. Dan (Jude Law) é um aspirante a escritor que ganha a vida a escrever obituários. Alice (Natalie Portman) é uma jovem que encontra Dan e lhe conta que não tem família, só tem a roupa que traz vestida e que chegou a Londres fugida da América e de um namorado demasiado possessivo. Larry é um dermatologista que começa a jogar à defensiva depois de lhe partirem o coração, magoando todos à sua volta. "Perto de Mais" foi realizado por Mike Nichols, realizador da premiada série "Anjos na América", recentemente exibida na televisão portuguesa.
#2
[karma surrealista]
e é preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir
é preciso suor
é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda
o fogo de artifício
é preciso o demónio ainda corpolento
é preciso a rosa sob o cavalinho
é preciso o revólver de um só tiro na boca
é preciso o amor de repente de graça
é preciso a relva de bichos ignotos
e o lago é preciso digam que é preciso
é preciso comprar movimentar comércio
é preciso ter feira nas vértebras todas
é preciso o fato é preciso a vida
da mulher cadáver até de manhã
é preciso um risco na boca do pobre
para averiguar de como é que eles entram
é preciso a máquina a quatro mil vóltios
é preciso a ponte rolante no espaço
é preciso o porco é preciso a valsa
o estrídulo o roxo o palavrão de costas
é preciso uma vista para ver sem perfume
e outra menos vista para olhar em silêncio
é preciso o logro a infância depressa
o peso de um homem é demais aqui
é preciso a faca é preciso o touro
é preciso o miúdo despenhado no túnel
é preciso forças para a hemoptise
é preciso a mosca um por cento doméstica
é preciso o braço coberto de espuma
a luz o grito o grande olho gelado
E é preciso gente para a debandada
é preciso o raio a cabeça o trovão
a rua a memória a panóplia das árvores
é preciso a chuva para correres ainda
é preciso ainda que caias de borco
na cama no choro no rogo na treva
é precisa a treva para ficar um verme
roendo cidades de trapo sem pernas
Mário Cesariny
"Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano"
Manual de prestidigitação, Assírio & Alvim, 1981.
[karma surrealista]
e é preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir
é preciso suor
é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda
o fogo de artifício
é preciso o demónio ainda corpolento
é preciso a rosa sob o cavalinho
é preciso o revólver de um só tiro na boca
é preciso o amor de repente de graça
é preciso a relva de bichos ignotos
e o lago é preciso digam que é preciso
é preciso comprar movimentar comércio
é preciso ter feira nas vértebras todas
é preciso o fato é preciso a vida
da mulher cadáver até de manhã
é preciso um risco na boca do pobre
para averiguar de como é que eles entram
é preciso a máquina a quatro mil vóltios
é preciso a ponte rolante no espaço
é preciso o porco é preciso a valsa
o estrídulo o roxo o palavrão de costas
é preciso uma vista para ver sem perfume
e outra menos vista para olhar em silêncio
é preciso o logro a infância depressa
o peso de um homem é demais aqui
é preciso a faca é preciso o touro
é preciso o miúdo despenhado no túnel
é preciso forças para a hemoptise
é preciso a mosca um por cento doméstica
é preciso o braço coberto de espuma
a luz o grito o grande olho gelado
E é preciso gente para a debandada
é preciso o raio a cabeça o trovão
a rua a memória a panóplia das árvores
é preciso a chuva para correres ainda
é preciso ainda que caias de borco
na cama no choro no rogo na treva
é precisa a treva para ficar um verme
roendo cidades de trapo sem pernas
Mário Cesariny
"Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano"
Manual de prestidigitação, Assírio & Alvim, 1981.
3.2.05
#1
[para acrescentar às palavras ditas]
Tenho que fingir que a tua boca não foi assim tão dulcíssima e que afinal a tua respiração não era assim tão ciclónica. Tenho que me convencer que o que carrego no peito não são brasas. Acreditar que a tua língua já não me encerra nos sonhos.
E acima de tudo tenho que me amarrar, cada vez que me lembro que também tu derivas numa vida que julgas ser a certa.
(roubado aqui.)
[para acrescentar às palavras ditas]
Tenho que fingir que a tua boca não foi assim tão dulcíssima e que afinal a tua respiração não era assim tão ciclónica. Tenho que me convencer que o que carrego no peito não são brasas. Acreditar que a tua língua já não me encerra nos sonhos.
E acima de tudo tenho que me amarrar, cada vez que me lembro que também tu derivas numa vida que julgas ser a certa.
(roubado aqui.)
2.2.05
1.2.05
#1
[porque]
há palavras, pequenas, simples, casuais, repentinas, que mudam a disposição dos nossos dias.
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
[porque]
há palavras, pequenas, simples, casuais, repentinas, que mudam a disposição dos nossos dias.
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
31.1.05
28.1.05
#3
[procura-se]
post simples, desempoeirado, poetico, literário, aberto ao sonho, original, inteligente, apaixonado, apaixonante, com substância e cultura, arejado, viajado, letrado, dinâmico, aventureiro, bem disposto...
para compromisso sério e durador num blogue perto de si.
resposta endereçada ao contacto desta espelunca.
agradecido
a gerencia
[procura-se]
post simples, desempoeirado, poetico, literário, aberto ao sonho, original, inteligente, apaixonado, apaixonante, com substância e cultura, arejado, viajado, letrado, dinâmico, aventureiro, bem disposto...
para compromisso sério e durador num blogue perto de si.
resposta endereçada ao contacto desta espelunca.
agradecido
a gerencia
#1
[de fazer inveja]
Algumas razões que me levam a classificar Santana como um ditadorzeco sul americano em potência:
- a forma como chegou ao poder
- a evocação constante do pai fundador - este tem estátua no Areeiro e não se chama Simon.
- aquele ar grave e sério de quem moi um sentimento
- a postura de estadista solitário que enfrenta ventos e marés,
- a vitimização constante
- a sesta que não dormiu e os seguranças que despediu por um deles ter bufado essa obvia e caluniosa mentira
- Ter-se mudado de facto (e com todo o guarda fatos) para a residencia oficial, algo que já não se via desde a morte do único ditador a sério tivemos no último século.
- o kit de emergência requisitado ao INEM desde Julho e que o acompanaha diariamente - note-se que, no nosso país, existem apenas 3 daqueles equipamentos e que Sampaio, que tem alto risco cardiaco, só se faz acompanhar de um quando sai para fora do país...
- as gafes que mete, os disparates que diz, a incompetencia que demonstra, as ratoeiras onde constantemente se deixa cair.
- as ameaças às agencias de sondagens
- os inimigos velados que cultiva nas suas fileiras.
- o estilo informal que pratica em alguns circulos
- a cabeleira cuspidinha para trás - dizem que lhe dá charme...
- ...
São argumentos de fazer inveja a qualquer ditator sul americano, dos veraddeiros ou daqueles que, à imagem do real, Garcia Marquez satirizou...
[de fazer inveja]
Algumas razões que me levam a classificar Santana como um ditadorzeco sul americano em potência:
- a forma como chegou ao poder
- a evocação constante do pai fundador - este tem estátua no Areeiro e não se chama Simon.
- aquele ar grave e sério de quem moi um sentimento
- a postura de estadista solitário que enfrenta ventos e marés,
- a vitimização constante
- a sesta que não dormiu e os seguranças que despediu por um deles ter bufado essa obvia e caluniosa mentira
- Ter-se mudado de facto (e com todo o guarda fatos) para a residencia oficial, algo que já não se via desde a morte do único ditador a sério tivemos no último século.
- o kit de emergência requisitado ao INEM desde Julho e que o acompanaha diariamente - note-se que, no nosso país, existem apenas 3 daqueles equipamentos e que Sampaio, que tem alto risco cardiaco, só se faz acompanhar de um quando sai para fora do país...
- as gafes que mete, os disparates que diz, a incompetencia que demonstra, as ratoeiras onde constantemente se deixa cair.
- as ameaças às agencias de sondagens
- os inimigos velados que cultiva nas suas fileiras.
- o estilo informal que pratica em alguns circulos
- a cabeleira cuspidinha para trás - dizem que lhe dá charme...
- ...
São argumentos de fazer inveja a qualquer ditator sul americano, dos veraddeiros ou daqueles que, à imagem do real, Garcia Marquez satirizou...
27.1.05
26.1.05
#3
[em memória]
Comemoram-se agora os 60 anos da libertação do campo de Auschwitz pelas tropas do exercito vermelho. Foi em janeiro que o mundo teve de abrir os olhos e parar de fingir que o holocausto era uma parte menor da cruzada de hitler. As organizações internacionais sionistas já vinham denunciando o terror vivido nos campos e nos ghetos, mas poucos foram os governos que confrontaram o reich com esta situação - salazar, por exemplo, encheu os cofres do estado com ouro vindo directamente das proteses arrancadas aos prisioneiros, entregou suspeitos e fez de tudo para agradar a berlim, como retirar a nacionalidade portuguesa a Vieira da Silva, por esta ser casada com um judeu.
Para lá da desgraça, ficam gestos de homens e mulheres, como Aristides de Souza Mendes - consul português em Bordéus que, contrariando as ordens do governo, facilitou milhares de passaportes a fugitivos -, que nos fazem acreditar um pouco mais no bicho humano.
Deixo-vos um texto retirado do meu caderno de viagem, quando, durante um interrail, visitei Auschwitz.
Antes de terminar, não queria deixar de lamentar que, tantos anos, mortos e horrores depois, o estado de Israel esteja a fazer na Palestina algo que, não se comparando na dimensão fisica, tem uma dimensão ética e simbólica muito similares.
********************
18 de Agosto de 2000
(...) vamos a caminho do campo de concentração. A R ainda não decidiu se o vai visitar. Eu tenho de ir, preciso de ver com os meus olhos como é esse lugar maquiavélico... por mim, pela memória das vitimas de toda aquela loucura, por Anne Frank, pelo não esquecimento.
Há anos que me interesso pela guerra: vi filmes, li e estudei muito, já estive em alguns lugares... tenho de ir ali, por mais que custe, por mais que doa.
(...)
Não sei muito bem o que dizer sobre a visita.
A história, já a sabia, mas os pormenores, as imagens... imagens impressionantes que são uma fracção mínima do terror que ali se viveu e da loucura a que o III reich chegou. Toneladas de cabelos, que serviriam para fazer têxteis, milhares de sapatos, que seriam entregues a quem, na Alemanha, deles tivesse necessidade, tal como as roupas e os utensílios pessoais...
Casas frias, tarimbas alinhadas, formando longas camas comuns onde dormiam milhares de pessoas, refeições escassas, trabalhos forçados...
Na entrada do campo de Auschwitz (o nome dado pelos Alemães ao lugar de Oswiecien) era dito aos prisioneiros, já no período final da guerra, que dali só tinham uma saída: a chaminé do crematório... logo se fazia uma selecção: as crianças, as mulheres e os incapacitados para o trabalho eram, geralmente, gaseados e cremados, servindo as cinzas como fertilizante. Os homens capazes eram orientados para o trabalho, que faziam quase ininterruptamente, de forma desumana e escrava.
Durante 5 anos, neste campo e nos que o rodeavam – existia ali uma extensa e “bem pensada” rede de campos – morreram cerca de 1,5 milhões de pessoas, entre judeus, ciganos, presos políticos, presos de guerra, homossexuais e outros. Além da Polónia e da Alemanha, chegavam também de Roma, Lyon, da Hungria, da Rússia e de outras paragens longínquas.
Hoje o espaço até é bonito: verde, ordenado e silencioso. Mas a Memória torna aquele sitio num lugar maldito, onde, diariamente, acorrem milhares de pessoas para recordar, pessoas que, com atitudes de todo o género – há quem mantenha o silêncio, há quem converse ao telemóvel dentro da câmara de gás... -, são olhadas à distância pelos habitantes da povoação que dá nome à estação de comboio mais próxima. E é preciso recordar, não deixar que o horror fique escondido atrás dos muros, para que se esgotem as possibilidades de repetição de tudo isto, de acontecer qualquer coisa semelhante.
Saí do campo com vontade de muitas coisa, de gritar, de chorar, de não dizer nada... com muita raiva de toda a crua realidade da história, de todo o ódio que, em nome das ideias, se pode gerar.
Não me arrependo nada de ter ido.
[em memória]
Comemoram-se agora os 60 anos da libertação do campo de Auschwitz pelas tropas do exercito vermelho. Foi em janeiro que o mundo teve de abrir os olhos e parar de fingir que o holocausto era uma parte menor da cruzada de hitler. As organizações internacionais sionistas já vinham denunciando o terror vivido nos campos e nos ghetos, mas poucos foram os governos que confrontaram o reich com esta situação - salazar, por exemplo, encheu os cofres do estado com ouro vindo directamente das proteses arrancadas aos prisioneiros, entregou suspeitos e fez de tudo para agradar a berlim, como retirar a nacionalidade portuguesa a Vieira da Silva, por esta ser casada com um judeu.
Para lá da desgraça, ficam gestos de homens e mulheres, como Aristides de Souza Mendes - consul português em Bordéus que, contrariando as ordens do governo, facilitou milhares de passaportes a fugitivos -, que nos fazem acreditar um pouco mais no bicho humano.
Deixo-vos um texto retirado do meu caderno de viagem, quando, durante um interrail, visitei Auschwitz.
Antes de terminar, não queria deixar de lamentar que, tantos anos, mortos e horrores depois, o estado de Israel esteja a fazer na Palestina algo que, não se comparando na dimensão fisica, tem uma dimensão ética e simbólica muito similares.
********************
18 de Agosto de 2000
(...) vamos a caminho do campo de concentração. A R ainda não decidiu se o vai visitar. Eu tenho de ir, preciso de ver com os meus olhos como é esse lugar maquiavélico... por mim, pela memória das vitimas de toda aquela loucura, por Anne Frank, pelo não esquecimento.
Há anos que me interesso pela guerra: vi filmes, li e estudei muito, já estive em alguns lugares... tenho de ir ali, por mais que custe, por mais que doa.
(...)
Não sei muito bem o que dizer sobre a visita.
A história, já a sabia, mas os pormenores, as imagens... imagens impressionantes que são uma fracção mínima do terror que ali se viveu e da loucura a que o III reich chegou. Toneladas de cabelos, que serviriam para fazer têxteis, milhares de sapatos, que seriam entregues a quem, na Alemanha, deles tivesse necessidade, tal como as roupas e os utensílios pessoais...
Casas frias, tarimbas alinhadas, formando longas camas comuns onde dormiam milhares de pessoas, refeições escassas, trabalhos forçados...
Na entrada do campo de Auschwitz (o nome dado pelos Alemães ao lugar de Oswiecien) era dito aos prisioneiros, já no período final da guerra, que dali só tinham uma saída: a chaminé do crematório... logo se fazia uma selecção: as crianças, as mulheres e os incapacitados para o trabalho eram, geralmente, gaseados e cremados, servindo as cinzas como fertilizante. Os homens capazes eram orientados para o trabalho, que faziam quase ininterruptamente, de forma desumana e escrava.
Durante 5 anos, neste campo e nos que o rodeavam – existia ali uma extensa e “bem pensada” rede de campos – morreram cerca de 1,5 milhões de pessoas, entre judeus, ciganos, presos políticos, presos de guerra, homossexuais e outros. Além da Polónia e da Alemanha, chegavam também de Roma, Lyon, da Hungria, da Rússia e de outras paragens longínquas.
Hoje o espaço até é bonito: verde, ordenado e silencioso. Mas a Memória torna aquele sitio num lugar maldito, onde, diariamente, acorrem milhares de pessoas para recordar, pessoas que, com atitudes de todo o género – há quem mantenha o silêncio, há quem converse ao telemóvel dentro da câmara de gás... -, são olhadas à distância pelos habitantes da povoação que dá nome à estação de comboio mais próxima. E é preciso recordar, não deixar que o horror fique escondido atrás dos muros, para que se esgotem as possibilidades de repetição de tudo isto, de acontecer qualquer coisa semelhante.
Saí do campo com vontade de muitas coisa, de gritar, de chorar, de não dizer nada... com muita raiva de toda a crua realidade da história, de todo o ódio que, em nome das ideias, se pode gerar.
Não me arrependo nada de ter ido.
#2
[Sousa Tavares]
Miguel Sousa Tavares tem dias.
dias em que acorda de esquerda, dias em que acorda de direita e dias em que acorda, simplesmente, parvo. foi num destes últimos que, há duas semanas, escreveu um texto onde atacava Sónia Fertuzinhos, uma das mais destacadas deputadas do PS na última legislatura, dizendo desconhecer o seu trabalho, bem como a importância das questões do género na política.
hoje tem a resposta que merece.
Os Homens
MADALENA BARBOSA *
Publico, 26 de Janeiro de 2005
Miguel Sousa Tavares é sem dúvida um homem abençoado. Bem-nascido, recebida a melhor educação, com o dom da palavra (mais escrita que oral), este nosso "troca-letras" escreve crónicas brilhantes desde que não toquem num assunto tabu: as mulheres. Para MST, as mulheres não são assunto de que se fale, pois não têm problemas nenhuns, não constituem uma das tais "espécies ameaçadas", nem nada justifica que se juntem em grupos de defesa de interesses próprios, pois não os têm. Se não, como a pergunta "O que será uma mulher socialista?".
Para o elucidar, eu conto-lhe - uma mulher socialista é uma mulher, antes de tudo: nasce-se mulher ou homem, não se nasce socialista ou comunista, ou social-democrata. Se não, teríamos o proverbial anúncio do bebé, na maternidade, quando se comunica à família o nascimento, em vez de "é uma menina ou é um menino", dir-se-ia "é comunista ou é PP".
Portanto, é-se primeiro mulher ou homem. Depois, normalmente já na idade da razão, escolhe-se uma ideologia que nos parece mais justa, mais de acordo com o nosso ideal de sociedade. E há mulheres que escolheram ser socialistas, daí o termo mulher socialista. Aos homens chama-se simplesmente socialistas. Afinal eles são o padrão, os representantes da espécie humana.
Não se diz homem socialista, porque eles são o partido, são o grupo. E sendo todos os partidos, grupos de rapazes (eu sei que não gostam que os chamem assim, mas enfim, também não gosto de ser espécie protegida), tornou-se clara e urgente e necessária a formação de grupos de mulheres nos partidos. E eles existem em todas as partes do mundo, creio que MST o deve saber, dada a vastidão da sua cultura geral, embora, nestas coisas do mulherio, pretenda sempre apresentar todas as questões como uma "carolice nacional". Existem grupos de mulheres nos partidos porque estas são discriminadas e precisam de uma voz colectiva que se faça ouvir. Porque têm coisas a dizer e a fazer que os homens não dizem nem fazem. Porque as suas experiências de vida são diferentes e essa diferença é uma mais valia para a política, ou seja, para a gestão das coisas públicas, feita para mulheres e homens.
Partidos sempre de maioria masculina, feitos por homens para homens, dizem representar o povo português, mas acabam representando apenas parte dele. De facto, pode-se chamar ao PS, ao PCP, ao PSD, ao PP, ao Bloco de Esquerda, a todos eles afinal, grupos dos homens socialistas, comunistas, etc.etc. Provas? As tais listas de deputados, de todos os partidos, ao longo de todos estes anos de democracia. Ou os governos, em todos este anos de democracia. Ou os directores gerais, em todos estes anos de democracia. Ou os membros das Comissões, os Presidentes dos Institutos, os patrões, os mandantes, enfim, o poder, neste pobre e mal governado país.
Não é portanto carolice que as mulheres se juntem num partido para conseguir, não protecção, mas aquilo a que têm direito - justiça, no cumprimento da Constituição Portuguesa, usufruto dos Direitos Humanos, participação na democracia, que, por enquanto, mais não é do que uma fantasia em que queremos acreditar. Enquanto as mulheres, 52 por cento da população, forem 20 por cento na AR e 13,5 por cento no Governo, é uma democracia paraplégica. Como dizia a ex-Secretária Geral do Conselho da Europa, esta democracia só vê com um olho, mexe um braço e anda com uma perna. Meninos, estamos a brincar ou quê? Talvez a voltar à ortodoxia da democracia grega, só cidadãos, mulheres ao gineceu.
Que todos os partidos, ou quase, falem de igualdade, é um lugar comum. Que se comportem em função dessa declaração de princípios, é um lugar vazio. Que o PS escolha não pôr nas suas listas a pessoa que foi eleita para ser a porta voz da consciência do partido que, tal como o grilo do Pinóquio, diria, de vez em quando - olhem que as mulheres existem - é uma ofensa a todas as mulheres que votaram em Sónia Fertuzinhos para que defendesse os seus interesses. Essa eleição não interessa? É menos do que os tais órgãos locais? Tem menos vozes? Ou são apenas mulheres?
Em 2005, as mulheres não precisam de protecção - organizam-se e lutam pelos direitos de cidadania que, garantidos por lei, lhes são tirados na prática. Um deles é ser eleita. Direito que lhe vem a ser negado pela tal escolha das tais listas. Elaboradas no segredo dos deuses, seguem que critérios? 90 por cento dos deputados entram e saem da A.R. sem nada que se saiba deles. Competências? Aptidões? Se fossem escolhidos por concursos, a Assembleia estaria repleta de mulheres, como as universidades, os centros de investigação, e cada vez mais todos os lugares que não são de nomeação.
E por isso estou de acordo com o que Inês Pedrosa diz, que a mulher, no dicionário mental da política portuguesa, pode ser usada nas campanhas eleitorais "Em caso de aguda necessidade podem utilizar-se mulheres notórias ou mesmo notáveis - mas por curtos períodos de modo a não perturbar as instituições". Repetidos estão os argumentos, que um passado Comandante da PSP exprimiu há anos - a entrada das mulheres na polícia, em número significativo, iria mudar a cultura da instituição. Esta, como outras, que estão em urgente necessidade de mudança, mas que persistem, caducas, mal geridas, mantendo o poder graças a que interesses?
Pois é MST, se o feminismo não lhe parece que esteja na moda, asseguro-lhe que a misoginia também não. E quanto ao aborto... sempre lhe digo que ao fim de 25 anos de tentar a sua descriminalização, é difícil de acreditar que venha naturalmente a acontecer. E é escusado acusar quem a defende de a prejudicar. Quer dizer que se todos e todas se calassem a evolução seria para a sociedade perfeita? Porque não deixa então de escrever e defender o que pensa? Tudo virá naturalmente a acontecer ou não - o fim da corrupção, a péssima governação, a cultura do povo, a distribuição justa da riqueza, o fim da fome e da pobreza, a justiça, enfim. Meu não amigo, já ninguém acredita na história teleológica, que tudo caminha para o bem comum. Nem tão pouco na maldição e perversidade das mulheres, filhas de Eva, como na Idade Média. Lembre-se doutra, limite-se às suas competências que são muitas. O assunto "mulheres" não é o seu forte.
*Feminista, socialista e mulher, chamada em outros lugares do mundo "gender expert"
[Sousa Tavares]
Miguel Sousa Tavares tem dias.
dias em que acorda de esquerda, dias em que acorda de direita e dias em que acorda, simplesmente, parvo. foi num destes últimos que, há duas semanas, escreveu um texto onde atacava Sónia Fertuzinhos, uma das mais destacadas deputadas do PS na última legislatura, dizendo desconhecer o seu trabalho, bem como a importância das questões do género na política.
hoje tem a resposta que merece.
Os Homens
MADALENA BARBOSA *
Publico, 26 de Janeiro de 2005
Miguel Sousa Tavares é sem dúvida um homem abençoado. Bem-nascido, recebida a melhor educação, com o dom da palavra (mais escrita que oral), este nosso "troca-letras" escreve crónicas brilhantes desde que não toquem num assunto tabu: as mulheres. Para MST, as mulheres não são assunto de que se fale, pois não têm problemas nenhuns, não constituem uma das tais "espécies ameaçadas", nem nada justifica que se juntem em grupos de defesa de interesses próprios, pois não os têm. Se não, como a pergunta "O que será uma mulher socialista?".
Para o elucidar, eu conto-lhe - uma mulher socialista é uma mulher, antes de tudo: nasce-se mulher ou homem, não se nasce socialista ou comunista, ou social-democrata. Se não, teríamos o proverbial anúncio do bebé, na maternidade, quando se comunica à família o nascimento, em vez de "é uma menina ou é um menino", dir-se-ia "é comunista ou é PP".
Portanto, é-se primeiro mulher ou homem. Depois, normalmente já na idade da razão, escolhe-se uma ideologia que nos parece mais justa, mais de acordo com o nosso ideal de sociedade. E há mulheres que escolheram ser socialistas, daí o termo mulher socialista. Aos homens chama-se simplesmente socialistas. Afinal eles são o padrão, os representantes da espécie humana.
Não se diz homem socialista, porque eles são o partido, são o grupo. E sendo todos os partidos, grupos de rapazes (eu sei que não gostam que os chamem assim, mas enfim, também não gosto de ser espécie protegida), tornou-se clara e urgente e necessária a formação de grupos de mulheres nos partidos. E eles existem em todas as partes do mundo, creio que MST o deve saber, dada a vastidão da sua cultura geral, embora, nestas coisas do mulherio, pretenda sempre apresentar todas as questões como uma "carolice nacional". Existem grupos de mulheres nos partidos porque estas são discriminadas e precisam de uma voz colectiva que se faça ouvir. Porque têm coisas a dizer e a fazer que os homens não dizem nem fazem. Porque as suas experiências de vida são diferentes e essa diferença é uma mais valia para a política, ou seja, para a gestão das coisas públicas, feita para mulheres e homens.
Partidos sempre de maioria masculina, feitos por homens para homens, dizem representar o povo português, mas acabam representando apenas parte dele. De facto, pode-se chamar ao PS, ao PCP, ao PSD, ao PP, ao Bloco de Esquerda, a todos eles afinal, grupos dos homens socialistas, comunistas, etc.etc. Provas? As tais listas de deputados, de todos os partidos, ao longo de todos estes anos de democracia. Ou os governos, em todos este anos de democracia. Ou os directores gerais, em todos estes anos de democracia. Ou os membros das Comissões, os Presidentes dos Institutos, os patrões, os mandantes, enfim, o poder, neste pobre e mal governado país.
Não é portanto carolice que as mulheres se juntem num partido para conseguir, não protecção, mas aquilo a que têm direito - justiça, no cumprimento da Constituição Portuguesa, usufruto dos Direitos Humanos, participação na democracia, que, por enquanto, mais não é do que uma fantasia em que queremos acreditar. Enquanto as mulheres, 52 por cento da população, forem 20 por cento na AR e 13,5 por cento no Governo, é uma democracia paraplégica. Como dizia a ex-Secretária Geral do Conselho da Europa, esta democracia só vê com um olho, mexe um braço e anda com uma perna. Meninos, estamos a brincar ou quê? Talvez a voltar à ortodoxia da democracia grega, só cidadãos, mulheres ao gineceu.
Que todos os partidos, ou quase, falem de igualdade, é um lugar comum. Que se comportem em função dessa declaração de princípios, é um lugar vazio. Que o PS escolha não pôr nas suas listas a pessoa que foi eleita para ser a porta voz da consciência do partido que, tal como o grilo do Pinóquio, diria, de vez em quando - olhem que as mulheres existem - é uma ofensa a todas as mulheres que votaram em Sónia Fertuzinhos para que defendesse os seus interesses. Essa eleição não interessa? É menos do que os tais órgãos locais? Tem menos vozes? Ou são apenas mulheres?
Em 2005, as mulheres não precisam de protecção - organizam-se e lutam pelos direitos de cidadania que, garantidos por lei, lhes são tirados na prática. Um deles é ser eleita. Direito que lhe vem a ser negado pela tal escolha das tais listas. Elaboradas no segredo dos deuses, seguem que critérios? 90 por cento dos deputados entram e saem da A.R. sem nada que se saiba deles. Competências? Aptidões? Se fossem escolhidos por concursos, a Assembleia estaria repleta de mulheres, como as universidades, os centros de investigação, e cada vez mais todos os lugares que não são de nomeação.
E por isso estou de acordo com o que Inês Pedrosa diz, que a mulher, no dicionário mental da política portuguesa, pode ser usada nas campanhas eleitorais "Em caso de aguda necessidade podem utilizar-se mulheres notórias ou mesmo notáveis - mas por curtos períodos de modo a não perturbar as instituições". Repetidos estão os argumentos, que um passado Comandante da PSP exprimiu há anos - a entrada das mulheres na polícia, em número significativo, iria mudar a cultura da instituição. Esta, como outras, que estão em urgente necessidade de mudança, mas que persistem, caducas, mal geridas, mantendo o poder graças a que interesses?
Pois é MST, se o feminismo não lhe parece que esteja na moda, asseguro-lhe que a misoginia também não. E quanto ao aborto... sempre lhe digo que ao fim de 25 anos de tentar a sua descriminalização, é difícil de acreditar que venha naturalmente a acontecer. E é escusado acusar quem a defende de a prejudicar. Quer dizer que se todos e todas se calassem a evolução seria para a sociedade perfeita? Porque não deixa então de escrever e defender o que pensa? Tudo virá naturalmente a acontecer ou não - o fim da corrupção, a péssima governação, a cultura do povo, a distribuição justa da riqueza, o fim da fome e da pobreza, a justiça, enfim. Meu não amigo, já ninguém acredita na história teleológica, que tudo caminha para o bem comum. Nem tão pouco na maldição e perversidade das mulheres, filhas de Eva, como na Idade Média. Lembre-se doutra, limite-se às suas competências que são muitas. O assunto "mulheres" não é o seu forte.
*Feminista, socialista e mulher, chamada em outros lugares do mundo "gender expert"
#1
[crónicas do influenza]
Ao fim de quase 3 dias de hibernação forçada (gripe a quanto obrigas!!), o blogger saiu de casa para fazer coisas importantes, a saber:
1- pagar contas :(
2- beber café :)))
3- comprar laranjas no supermercado - os saldos do psd só começam na noite de dia 20 e não penso que a oferta venha a ser de interesse.
4- vir à biblioteca e encher-me de net à pala do Seara.
5- apagar 50 mails e ler os 5 que valiam realmente a pena.
6- postar, postar e repostar.
E amanhã volto ao trabalho, não vá o grande chefe acusar-me de baixa fraudulenta.
[crónicas do influenza]
Ao fim de quase 3 dias de hibernação forçada (gripe a quanto obrigas!!), o blogger saiu de casa para fazer coisas importantes, a saber:
1- pagar contas :(
2- beber café :)))
3- comprar laranjas no supermercado - os saldos do psd só começam na noite de dia 20 e não penso que a oferta venha a ser de interesse.
4- vir à biblioteca e encher-me de net à pala do Seara.
5- apagar 50 mails e ler os 5 que valiam realmente a pena.
6- postar, postar e repostar.
E amanhã volto ao trabalho, não vá o grande chefe acusar-me de baixa fraudulenta.
24.1.05
#4
[homenagem ao fdp]
eis um texto que me agrada muito.
Discurso do filho-da-puta
Balada ditirâmbica
do pequeno e do grande filho-da-puta
Pela mão de Alberto Pimenta
[homenagem ao fdp]
eis um texto que me agrada muito.
Discurso do filho-da-puta
Balada ditirâmbica
do pequeno e do grande filho-da-puta
Pela mão de Alberto Pimenta
#3
[em memória...]
Bésame, bésame mucho,
Como si fuera esta noche la última vez.
Besame, besame mucho,
Que tengo miedo perderte,
Perderte otra vez.
Quiero tenerte muy
Cerca, mirarme en tus
Ojos, verte junto a mí,
Piensa que tal vez
Mañana yo ya estaré
Lejos, muy lejos de ti.
Bésame, bésame mucho,
Como si fuera esta noche la última vez.
Bésame mucho,
Que tengo miedo perderte,
Perderte después.
Consuelo Velazquez
1924-2005
[em memória...]
Bésame, bésame mucho,
Como si fuera esta noche la última vez.
Besame, besame mucho,
Que tengo miedo perderte,
Perderte otra vez.
Quiero tenerte muy
Cerca, mirarme en tus
Ojos, verte junto a mí,
Piensa que tal vez
Mañana yo ya estaré
Lejos, muy lejos de ti.
Bésame, bésame mucho,
Como si fuera esta noche la última vez.
Bésame mucho,
Que tengo miedo perderte,
Perderte después.
Consuelo Velazquez
1924-2005
21.1.05
#2
[sobre a vida]
Não sei se, do ponto de vista estratégico, isto traz algo à questão do aborto ou ao Bloco de Esquerda, mas deu muito gozo ver o Portas entalado desta maneira....
Os líderes do CDS/PP, Paulo Portas, e do Bloco de Esquerda (BE), Francisco Louçã, travaram ontem à noite um aceso debate na SIC Notícias, com troca de acusações a propósito do aborto e da banca.
No final do debate, que durou cerca de uma hora, Paulo Portas acusou o BE de não defender o direito ao nascimento e Francisco Louçã reagiu, argumentando que o líder do CDS/PP "não tem direito a falar de vida"."Há uma vida que tem o direito a nascer, ou não. De acordo com o BE, não tem; de acordo connosco, tem", disse Paulo Portas, para justificar a posição do CDS/PP a favor do "actual quadro legal" que penaliza o aborto com pena de prisão até três anos.
"Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida", interrompeu o dirigente do BE.
"Quem é o senhor para me dar ou não o direito de falar?", protestou Paulo Portas, levando Louçã a responder: "O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança".
última Hora, Público, sobre o debate da SIC notícas de ontem.
[sobre a vida]
Não sei se, do ponto de vista estratégico, isto traz algo à questão do aborto ou ao Bloco de Esquerda, mas deu muito gozo ver o Portas entalado desta maneira....
Os líderes do CDS/PP, Paulo Portas, e do Bloco de Esquerda (BE), Francisco Louçã, travaram ontem à noite um aceso debate na SIC Notícias, com troca de acusações a propósito do aborto e da banca.
No final do debate, que durou cerca de uma hora, Paulo Portas acusou o BE de não defender o direito ao nascimento e Francisco Louçã reagiu, argumentando que o líder do CDS/PP "não tem direito a falar de vida"."Há uma vida que tem o direito a nascer, ou não. De acordo com o BE, não tem; de acordo connosco, tem", disse Paulo Portas, para justificar a posição do CDS/PP a favor do "actual quadro legal" que penaliza o aborto com pena de prisão até três anos.
"Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida", interrompeu o dirigente do BE.
"Quem é o senhor para me dar ou não o direito de falar?", protestou Paulo Portas, levando Louçã a responder: "O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança".
última Hora, Público, sobre o debate da SIC notícas de ontem.
#1
[da doçaria II]
diz-me a amaranta, via e-mail
Então tu achas improvável amoras e framboesas com chocolate quente??? De onde é que tu vens??? É essa gente do sul que não sabe o que é bom e de vez em quando apanha surpresas. Qualquer dos frutos vermelhos tipo baga (aquela secção imensa que em inglês acaba sempre em berry) fica bem com chocolate. Aliás, se gostaste dessa combinação prova o bolo conhecido como Floresta Negra (da região indicada). consiste em várias camadas de 2/3 cm de bolo de chocolate intercaladas com frutos vermelhos variados e natas batidas, tudo coberto com frutos vermelhos e raspas de chocolate. Isso sim é um manjar dos deuses.
Pronto, não se fala mais nisso...
[da doçaria II]
diz-me a amaranta, via e-mail
Então tu achas improvável amoras e framboesas com chocolate quente??? De onde é que tu vens??? É essa gente do sul que não sabe o que é bom e de vez em quando apanha surpresas. Qualquer dos frutos vermelhos tipo baga (aquela secção imensa que em inglês acaba sempre em berry) fica bem com chocolate. Aliás, se gostaste dessa combinação prova o bolo conhecido como Floresta Negra (da região indicada). consiste em várias camadas de 2/3 cm de bolo de chocolate intercaladas com frutos vermelhos variados e natas batidas, tudo coberto com frutos vermelhos e raspas de chocolate. Isso sim é um manjar dos deuses.
Pronto, não se fala mais nisso...
20.1.05
18.1.05
#4
[da ideologia]
José Victor Malheiros sintetiza, no publico de hoje, uma ideia que há muito defendo: as ideologias não morreram, são necessárias e fazem sentido no contexto social do ser humano. Dizer o contrário é, por si só, uma atitude ideológica, de quem lida só até certo ponto com o contraditório.
Ideologia
Por JOSÉ VITOR MALHEIROS
Publico, 18 de Janeiro de 2005
Há uns dias, numa reunião no Centro Cultural de Belém, José Sócrates afirmava que, caso o PS ganhasse as eleições legislativas, iria introduzir alterações ao Código do Trabalho aprovado pela actual maioria, mas que mas não iria revogá-lo "apenas por objecções ideológicas".
As razões ideológicas têm, é evidente, má imagem e, desse ponto de vista Sócrates pode ter marcado um ponto. As pessoas estão habituadas a ouvir falar de erros (quando não de massacres) cometidos em nome da ideologia e alguém que apresente "razões ideológicas" para os seus actos parece na melhor das hipóteses um velho casmurro caminhando para o abismo.
"Razões ideológicas" soam a sectarismo partidário, a irracionalidade, a fanatismo, enquanto a sua recusa tem a imagem do pragmatismo, da flexibilidade e da razoabilidade.
Acontece porém que o que se espera de um partido político é que ele possua de facto uma ideologia - que possua uma visão do mundo e objectivos para a sua mudança, que possua um sistema de ideias racionais e práticas que (entre outras coisas) nos permita ter uma ideia da sua actuação futura, caso ele seja eleito para fazer leis e formar governo. Claro que um partido político não pode usar a sua ideologia como uma doutrina cega e tomar decisões com base em preconceitos. Um partido precisa também de ser pragmático e de se adaptar tacticamente à realidade - não se pode seguir uma receita ignorando quais os ingredientes disponíveis. Mas o pragmatismo deve apenas fornecer o grau de liberdade com que se tentam atingir os grandes objectivos da ideologia.
É evidente que a ideologia vai mudando - e, em geral, por imposição da realidade. Houve uma altura em que ser de esquerda significava inevitavelmente defender a propriedade estatal dos meios de produção - o que hoje parece não só manifestamente desfasado da realidade, como até desservir os objectivos igualitários que a medida pretendia atingir.
Mas há sempre algo que se mantém. Um partido com a ideologia na gaveta é um grupo oportunista que não pode oferecer qualquer garantia de coerência - não é por acaso que o Bloco de Esquerda escolheu como "slogan" da sua campanha "Esquerda de confiança". Uma "objecção ideológica" não é uma birra sem sentido.
É evidente que o PS possui uma ideologia, mas seria útil e pedagógico que não o esquecesse e que não fingisse não a ter. A escolha de um governo numa democracia tem de ter como base uma visão do mundo que é sancionada pelos eleitores. Não o guarda-roupa do líder, nem as "boutades" de campanha. A fuga da ideologia está no ar do tempo e é um luxo a que a direita (economicamente) liberal se pode dar, entregando como entrega tanto da política às mãos invisíveis do mercado e de Deus (o que é ideológico, mas pode dar-se ao luxo de ser menos voluntarista). Mas a esquerda, se não viver da sua ideologia e do sonho de querer mudar o mundo, não viverá de todo. Será indistinguível da direita tecnocrática da boa gestão, para quem os objectivos da política se resumem a encontrar as melhores medidas do ponto de vista técnico, ideologicamente neutras, com que acreditam que o mundo gerará mais riqueza - o que permitirá resolver todos os problemas.
O pragmatismo da esquerda envergonhada foi visível esta semana também nas declarações de Sampaio sobre a China. Não é possível manifestar compreensão a respeito dos atropelos dos direitos humanos na China apenas porque o seu poder económico é imenso. Pode-se sim, pragmaticamente, considerar que a defesa dos direitos humanos naquele país deve ser um esforço a prosseguir numa via não confrontacional e de diálogo, porque essa parece ser a melhor táctica, mas a prosseguir com tenacidade e sem recuos.
Para eleger um homem ou uma mulher não nos basta saber se é hábil ou inteligente. Queremos saber para onde vai, o que o/a faz mover, qual é o seu sonho. A ideologia é a ambição que os partidos têm para a sociedade, o seu sonho (as vezes o nosso pesadelo). Se um partido não tem grandes ambições, tem apenas para nos oferecer a pequenez das suas invejas.
[da ideologia]
José Victor Malheiros sintetiza, no publico de hoje, uma ideia que há muito defendo: as ideologias não morreram, são necessárias e fazem sentido no contexto social do ser humano. Dizer o contrário é, por si só, uma atitude ideológica, de quem lida só até certo ponto com o contraditório.
Ideologia
Por JOSÉ VITOR MALHEIROS
Publico, 18 de Janeiro de 2005
Há uns dias, numa reunião no Centro Cultural de Belém, José Sócrates afirmava que, caso o PS ganhasse as eleições legislativas, iria introduzir alterações ao Código do Trabalho aprovado pela actual maioria, mas que mas não iria revogá-lo "apenas por objecções ideológicas".
As razões ideológicas têm, é evidente, má imagem e, desse ponto de vista Sócrates pode ter marcado um ponto. As pessoas estão habituadas a ouvir falar de erros (quando não de massacres) cometidos em nome da ideologia e alguém que apresente "razões ideológicas" para os seus actos parece na melhor das hipóteses um velho casmurro caminhando para o abismo.
"Razões ideológicas" soam a sectarismo partidário, a irracionalidade, a fanatismo, enquanto a sua recusa tem a imagem do pragmatismo, da flexibilidade e da razoabilidade.
Acontece porém que o que se espera de um partido político é que ele possua de facto uma ideologia - que possua uma visão do mundo e objectivos para a sua mudança, que possua um sistema de ideias racionais e práticas que (entre outras coisas) nos permita ter uma ideia da sua actuação futura, caso ele seja eleito para fazer leis e formar governo. Claro que um partido político não pode usar a sua ideologia como uma doutrina cega e tomar decisões com base em preconceitos. Um partido precisa também de ser pragmático e de se adaptar tacticamente à realidade - não se pode seguir uma receita ignorando quais os ingredientes disponíveis. Mas o pragmatismo deve apenas fornecer o grau de liberdade com que se tentam atingir os grandes objectivos da ideologia.
É evidente que a ideologia vai mudando - e, em geral, por imposição da realidade. Houve uma altura em que ser de esquerda significava inevitavelmente defender a propriedade estatal dos meios de produção - o que hoje parece não só manifestamente desfasado da realidade, como até desservir os objectivos igualitários que a medida pretendia atingir.
Mas há sempre algo que se mantém. Um partido com a ideologia na gaveta é um grupo oportunista que não pode oferecer qualquer garantia de coerência - não é por acaso que o Bloco de Esquerda escolheu como "slogan" da sua campanha "Esquerda de confiança". Uma "objecção ideológica" não é uma birra sem sentido.
É evidente que o PS possui uma ideologia, mas seria útil e pedagógico que não o esquecesse e que não fingisse não a ter. A escolha de um governo numa democracia tem de ter como base uma visão do mundo que é sancionada pelos eleitores. Não o guarda-roupa do líder, nem as "boutades" de campanha. A fuga da ideologia está no ar do tempo e é um luxo a que a direita (economicamente) liberal se pode dar, entregando como entrega tanto da política às mãos invisíveis do mercado e de Deus (o que é ideológico, mas pode dar-se ao luxo de ser menos voluntarista). Mas a esquerda, se não viver da sua ideologia e do sonho de querer mudar o mundo, não viverá de todo. Será indistinguível da direita tecnocrática da boa gestão, para quem os objectivos da política se resumem a encontrar as melhores medidas do ponto de vista técnico, ideologicamente neutras, com que acreditam que o mundo gerará mais riqueza - o que permitirá resolver todos os problemas.
O pragmatismo da esquerda envergonhada foi visível esta semana também nas declarações de Sampaio sobre a China. Não é possível manifestar compreensão a respeito dos atropelos dos direitos humanos na China apenas porque o seu poder económico é imenso. Pode-se sim, pragmaticamente, considerar que a defesa dos direitos humanos naquele país deve ser um esforço a prosseguir numa via não confrontacional e de diálogo, porque essa parece ser a melhor táctica, mas a prosseguir com tenacidade e sem recuos.
Para eleger um homem ou uma mulher não nos basta saber se é hábil ou inteligente. Queremos saber para onde vai, o que o/a faz mover, qual é o seu sonho. A ideologia é a ambição que os partidos têm para a sociedade, o seu sonho (as vezes o nosso pesadelo). Se um partido não tem grandes ambições, tem apenas para nos oferecer a pequenez das suas invejas.
#2
[like a movie]
Estava encostado à entrada do metro. Escondido no casaco, tentava esquivar-se do frio, aquele frio seco e cortante que faz em Janeiro, e que se torna mais seco e cortante quando, após um dia de sol, a noite cai.
De vez em quando, olhava para a saída da terra, para todos os lados da rua, para o telemóvel. Esperava.
De um momento para o outro, surge, ao fundo do passeio, um vulto escuro, que se aproxima.
Olhou. Tornou a olhar, com mais atenção. Afastou-se do encosto e avançou. Primeiro a medo, depois mais seguro. Avançava para o vulto que começava a assemelhar-se ao de uma bela mulher.
Entre eles, 50 metros de calçada branca, cortada longitudinalmente por uma tira de pedra preta.
Enveredaram, ambos, pelo escuro corredor. Ele resoluto, ela definindo-se. Avançavam sem desarmar o olhar.
Encontraram-se a meio caminho. Disseram-se, em sintonia, olá como estás? agarravam os antebraços um do outro.
Os Restauradores desertos, com os carros a passar. Só eles os dois, absortos. E eu, a presenciar a cena como quem saboreia um clássico do cinema.
[contra todas as expectativas, o beijo foi na face]
[like a movie]
Estava encostado à entrada do metro. Escondido no casaco, tentava esquivar-se do frio, aquele frio seco e cortante que faz em Janeiro, e que se torna mais seco e cortante quando, após um dia de sol, a noite cai.
De vez em quando, olhava para a saída da terra, para todos os lados da rua, para o telemóvel. Esperava.
De um momento para o outro, surge, ao fundo do passeio, um vulto escuro, que se aproxima.
Olhou. Tornou a olhar, com mais atenção. Afastou-se do encosto e avançou. Primeiro a medo, depois mais seguro. Avançava para o vulto que começava a assemelhar-se ao de uma bela mulher.
Entre eles, 50 metros de calçada branca, cortada longitudinalmente por uma tira de pedra preta.
Enveredaram, ambos, pelo escuro corredor. Ele resoluto, ela definindo-se. Avançavam sem desarmar o olhar.
Encontraram-se a meio caminho. Disseram-se, em sintonia, olá como estás? agarravam os antebraços um do outro.
Os Restauradores desertos, com os carros a passar. Só eles os dois, absortos. E eu, a presenciar a cena como quem saboreia um clássico do cinema.
[contra todas as expectativas, o beijo foi na face]
17.1.05
#2
[Tão solidários que eles são...]
Se o puto tivesse vestida uma camisola às riscas, desprovida de significantes, seria apenas mais um sobrevivente.
Graças à camisola das Quinas, tornou-se alvo das atenções e solidariedade do rei Scolári e da tribo do futebol.
E assim se lavfa a consciência colectiva.
[Tão solidários que eles são...]
Se o puto tivesse vestida uma camisola às riscas, desprovida de significantes, seria apenas mais um sobrevivente.
Graças à camisola das Quinas, tornou-se alvo das atenções e solidariedade do rei Scolári e da tribo do futebol.
E assim se lavfa a consciência colectiva.
#1
[Se não combates o Bicho, ele acaba por te morder...]
Há trinta anos, procurando combater a precariedade e melhorar as condições de vida, centenas de homens e mulheres levantavam-se de madrugada e, antes de irem trabalhar, faziam, à porta das fábricas e nos locais de grande passagem, a venda militante de jornais como a Luta Popular, o Avante ou o Combate Operário.
Hoje, procurando combater a precariedade e melhorar as condições de vida, centenas de homens e mulheres levantam-se de madrugada e, antes de irem trabalhar, fazem biscates nos locais de grande passagem, distribuindo jornais como o Destak e o Metro.
[Se não combates o Bicho, ele acaba por te morder...]
Há trinta anos, procurando combater a precariedade e melhorar as condições de vida, centenas de homens e mulheres levantavam-se de madrugada e, antes de irem trabalhar, faziam, à porta das fábricas e nos locais de grande passagem, a venda militante de jornais como a Luta Popular, o Avante ou o Combate Operário.
Hoje, procurando combater a precariedade e melhorar as condições de vida, centenas de homens e mulheres levantam-se de madrugada e, antes de irem trabalhar, fazem biscates nos locais de grande passagem, distribuindo jornais como o Destak e o Metro.
14.1.05
#2
[pelas ruas de Lisboa]
chegou-me aos ouvidos a memória daquele que foi, seguramente, o primeiro grande disco da minha vida (no sentido de obra total), A OPERA DO MALANDRO.
quase 20 anos depois, cantei com alegria o que me lembrava desta...
Opera do covil
Ai, quem me dera ser cantor
Quem dera ser tenor
Quem sabe ter a voz
Igual aos rouxinóis
Igual ao trovador
Que canta os arrebóis
Pra te dizer gentil
Bem-vinda
Deixa eu cantar tua beleza
Tu és a mais linda princesa
Aqui deste covil
Ai, quem me dera ser doutor
Formado em Salvador
Ter um diploma, anel
E voz de bacharel
Fazer em teu louvor
Discursos a granel
Pra te dizer gentil
Bem-vinda
Tu és a dama mais formosa
E, ouso dizer a mais gostosa
Aqui deste covil
Ai, quem dera ser garçom
Ter um sapato bom
Quem sabe até talvez
Ser um garçom francês
Falar de champinhom
Falar de molho inglês
Pra te dizer gentil
Bem-vinda
És tão graciosa e tão miúda
Tu és a dama mais tesuda
Aqui deste covil
Ai, quem me dera ser Gardel
Tenor e bacharel
Francês e rouxinol
Doutor em champinhom
Garçom em Salvador
E locutor de futebol
Pra te dizer febril
Bem-vinda
Tua beleza é quase um crime
Tu és a bunda mais sublime
Aqui deste covil
Chico Buarque
[pelas ruas de Lisboa]
chegou-me aos ouvidos a memória daquele que foi, seguramente, o primeiro grande disco da minha vida (no sentido de obra total), A OPERA DO MALANDRO.
quase 20 anos depois, cantei com alegria o que me lembrava desta...
Opera do covil
Ai, quem me dera ser cantor
Quem dera ser tenor
Quem sabe ter a voz
Igual aos rouxinóis
Igual ao trovador
Que canta os arrebóis
Pra te dizer gentil
Bem-vinda
Deixa eu cantar tua beleza
Tu és a mais linda princesa
Aqui deste covil
Ai, quem me dera ser doutor
Formado em Salvador
Ter um diploma, anel
E voz de bacharel
Fazer em teu louvor
Discursos a granel
Pra te dizer gentil
Bem-vinda
Tu és a dama mais formosa
E, ouso dizer a mais gostosa
Aqui deste covil
Ai, quem dera ser garçom
Ter um sapato bom
Quem sabe até talvez
Ser um garçom francês
Falar de champinhom
Falar de molho inglês
Pra te dizer gentil
Bem-vinda
És tão graciosa e tão miúda
Tu és a dama mais tesuda
Aqui deste covil
Ai, quem me dera ser Gardel
Tenor e bacharel
Francês e rouxinol
Doutor em champinhom
Garçom em Salvador
E locutor de futebol
Pra te dizer febril
Bem-vinda
Tua beleza é quase um crime
Tu és a bunda mais sublime
Aqui deste covil
Chico Buarque
#1
[&]
Melinda & Melinda
[&]
Melinda & Melinda
O aparecimento inesperado de Melinda é o agente desencadeador de duas histórias que um grupo de amigos vai construindo à mesa do café. Dois cenários pintados, que não são mais que duas formas de ver a vida e o amor, situadas entre a tragédia e a comédia, lembrando sempre a subjectividade de quem as olha. Uma reflexão sobre o sentido da criação artistica.
Um filme de Woody Allen, sem o próprio mas com a sua indelével marca.
Fui ver e gostei... considero-me à beira da perdição intelectual.
13.1.05
#1
[farto de...]
convenções
conveniencias
conxavos
consilios
consensos
complexidades
covardias
coligações
contradições
convalescenças
estou farto das merdas que metemos (e nos metem) na cabeça, coisas que nos limitam a capacidade de decidir, de assumir as nossas escolhas, de enfrentar o mundo, doa a quem doer.
[farto de...]
convenções
conveniencias
conxavos
consilios
consensos
complexidades
covardias
coligações
contradições
convalescenças
estou farto das merdas que metemos (e nos metem) na cabeça, coisas que nos limitam a capacidade de decidir, de assumir as nossas escolhas, de enfrentar o mundo, doa a quem doer.
12.1.05
11.1.05
#1
[hoje, no poemário]
Escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios.
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade
habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar.
Al Berto,
(que faria hoje 57 anos)
[hoje, no poemário]
Escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios.
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade
habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar.
Al Berto,
(que faria hoje 57 anos)
7.1.05
#4
[Inês de Castro II]
Ausência
Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidadeaproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma cosia simples,
como dizer que a tua ausência me dói.
Nuno Júdice in
Pedro, lembrando Inês
[Inês de Castro II]
Ausência
Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidadeaproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma cosia simples,
como dizer que a tua ausência me dói.
Nuno Júdice in
Pedro, lembrando Inês
#1
[Inês de Castro, 650 anos depois]
Pedro, olhando Inês*
Sei que estás aí,
que me observas na distância,
procurando infimos sinais
que te digam
da minha luta incansável
para que retornes
nesse caminho já feito.
Sei que existes
para lá desta
possibilidade irreal
a que a vida nos condenou.
Existes tu
e o desejo de sermos apenas
um com o outro.
Sei
- não me perguntes,
não há como explicá-lo -
que este amor se estenderá
pelos tempos do tempo,
e que, apesar de decapitado,
ainda tem tudo para contar.
André, 7 de Janeiro 2005
* Titulo roubado a Nuno Júdice,
[Inês de Castro, 650 anos depois]
Pedro, olhando Inês*
Sei que estás aí,
que me observas na distância,
procurando infimos sinais
que te digam
da minha luta incansável
para que retornes
nesse caminho já feito.
Sei que existes
para lá desta
possibilidade irreal
a que a vida nos condenou.
Existes tu
e o desejo de sermos apenas
um com o outro.
Sei
- não me perguntes,
não há como explicá-lo -
que este amor se estenderá
pelos tempos do tempo,
e que, apesar de decapitado,
ainda tem tudo para contar.
André, 7 de Janeiro 2005
* Titulo roubado a Nuno Júdice,
6.1.05
#1
[dos desencontros]
Os desencontros servem para manter acesa uma luz. Não sei porquê, nem qual nem onde. Só sei que a esperança de estarmos errados acende o brilho no olhar. A correcção integral é a morte.Passamos os dias sentados num colo desencorajado. Envergonhados por amar mais que a conta. A revolução é silenciosa. Explana-se nos sonhos mas retira-se quando acordamos.Espero bem não ter razão. Ou então que alguém ma tire numa montanha grávida de emoções.
desencontrado no eter pela mão do João.
[dos desencontros]
Os desencontros servem para manter acesa uma luz. Não sei porquê, nem qual nem onde. Só sei que a esperança de estarmos errados acende o brilho no olhar. A correcção integral é a morte.Passamos os dias sentados num colo desencorajado. Envergonhados por amar mais que a conta. A revolução é silenciosa. Explana-se nos sonhos mas retira-se quando acordamos.Espero bem não ter razão. Ou então que alguém ma tire numa montanha grávida de emoções.
desencontrado no eter pela mão do João.
5.1.05
#4
[a sangue frio]
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca sangras quando sofres
Guardas a dor dentro do cofre
Se alguém decifra o segredo
E se pica no teu ferrão azedo
Tu lambes-lhe o sangue do dedo
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Se alguém te atinge o coração
Aguentas o baque
De frente
E sentes uma oscilação
Defendes-te com uma paixão competente
E encarnas tão impunemente
A pele de um animal de sangue quente
Que ama a sangue frio
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Gelo quente
Quente e frio
Letra de Carlos tê para a voz de Manuela Azevedo.
[a sangue frio]
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca sangras quando sofres
Guardas a dor dentro do cofre
Se alguém decifra o segredo
E se pica no teu ferrão azedo
Tu lambes-lhe o sangue do dedo
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Se alguém te atinge o coração
Aguentas o baque
De frente
E sentes uma oscilação
Defendes-te com uma paixão competente
E encarnas tão impunemente
A pele de um animal de sangue quente
Que ama a sangue frio
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Gelo quente
Quente e frio
Letra de Carlos tê para a voz de Manuela Azevedo.
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