17.3.05

#1
[nem mais]


hey
been trying to meet you
hey
must be a devil between us
or whores in my head
whores at my door
whores in my bed
but hey
where
have you
been if you go i will surely die
we're chained

uh said the man to the lady
uh said the lady to the man she adored
and the whores like a choir
go uh all night
and mary ain't you tired of this
uh
is
the
sound
that the mother makes when the baby breaks
we're chained"

Pixies

16.3.05

#2
[da poesia]


Rasgo o pudor,
a palavra maldita,
que arrefece
na sombra das tílias

Traço no vazio
o itinerário
da solidão


André
#1
[Limpando arquivos]


Favorecer os processos de reciclagem e síntese.
sacudir o pó acumulado pela imobilidade.
Vasculhar as marcas de uma existência, revendo os passos que deram corpo ao projecto.
Ordenar, arrumar, eliminar... verbos a conjugar.
Abrandar o emocional, procurando separar o essencial do acessório.
Respirar junto ao vidro, enquanto lá fora a primavera se espalha.

15.3.05

#2
[SG Gigante]


(...)
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?
#1
[o tipo tem jeito...]


Arte poética II

Ver o mundo
como um cego o ouve

e, na mais profunda substância
dos sentidos
abraçar a habitação do tempo

tocar as palavras.


David Erlich
DNJ, 15 de Maio de 2005

14.3.05

#2
[do fim de semana II]

Memória

Tão nobre espírito
em tão estreita regra

tão vasta liberdade
em tão estreita
regra.

Sophia de Mello Breyner Andressen
in Ilhas

à C, procurando respostas
#1
[do fim de semana I]

Eram salgados
teus beijos
de maresia


roubado daqui

11.3.05

#3
[cara de pau]

Gostava de ter visto a cara dos deputados do PPM quando, ao terminar o seu discurso de ontem, o ainda presidente da AR deu um caloroso VIVA A REPÚBLICA, que foi ovacionado no hemiciclo.
#2
[sobre o papagaio delgado]

O estranho caso de Luís Delgado
Eduardo Prado Coelho, Público, 11 de Março de 2005

É mais um cronista e um administrador de jornalistas do que um jornalista propriamente dito. Nunca o vi fazer uma reportagem ou uma entrevista. Começou a ganhar alguma presença com uma coluna no Diário de Notícias correspondendo ao ponto de vista da direita mais convictamente liberal. Era, e é, uma coluna previsível. Luís Delgado aparece como um defensor da mais conservadora (no sentido amplo do termo) doutrina americana. Em determinada altura, assumia as funções de porta-voz, e, quando Bush começa a exercer o poder, escreve como se tivesse recolhido as suas confidências da véspera. Fala como se estivesse no segredo dos deuses - mas que deuses! Conhece números que só ele conhece.
De repente, deu-se uma metamorfose. Onde havia um discreto comentador, capaz de falar sobre as eleições americanas mas também sobre o euro, onde havia um ponto de vista que se cruzava com muitos outros, surge um potentado da imprensa portuguesa, com o mundo a seus pés. Ele é Lusa, grupos de imprensa, projectos de aquisição, retratos na comunicação social. O resultado foi um processo de comentarite aguda.
A gente acordava, ligava o rádio e lá estava Luís Delgado. A gente comprava o jornal e lá tinha a crónica de Luís Delgado. A gente ouvia um debate ao fim da tarde, e lá tínhamos, incansável e insone, a voz de Luís Delgado. A gente esperava um confronto no noticiário na televisão e Luís Delgado já tinha chegado. A gente adormecia, exausta, com a voz incessante de Luís Delgado, certa de que no dia seguinte lá teríamos a presença de Luís Delgado. Este homem não dorme, não descansa, não faz uma sesta, não vai a um cinema? Aparentemente, não. Indómito samurai da imprensa portuguesa, cultiva o ascetismo: é uma espécie de monge da palavra escrita e da administração de empresas. Como se os seus deuses tutelares estivessem sempre do lado de lá do telemóvel a enviar mensagens que são ordens: agora diga isto, agora digo aquilo. Na inequívoca "direitização" dos comentadores portugueses, em que Mário Bettencourt Resendes aparece como um homem de extrema-esquerda, um radical da política, Luís Delgado era o centro, a luz da evidência, o lugar de equilíbrio, o alfa e o ómega. Tudo isto ganhou o seu máximo esplendor nos tempos de Santana Lopes, embora já tivesse começado com a direita de Durão Barroso.
Na noite eleitoral, nesse estendal de desastres em torno de Santana Lopes, Luís Delgado ainda tentou dizer que as primeiras freguesias eram dos pardais, mas que depois é que íamos ver. Vimos, e ele próprio viu. Tivemos, mais tarde, um momento de extrema densidade dramática. Luís Delgado despiu a máscara que ele parece supor ser do comentarista neutro, e disse que ia falar do amigo, o Pedro. Porque o Pedro era uma vítima. E então veio a grande tese: era uma vítima de quem? De Durão Barroso, que tinha mentido ao Pedro e ao país. Sentimos a voz embargada pela emoção e tivemos direito em voz e em escrita a uma espantosa condenação daquele que tinha, num momento de precipitação, feito de Santana Lopes o nosso primeiro-ministro.
Nos últimos dias, sentimos a tristeza de Luís Delgado. Teve o seu quarto de hora de glória, parece estar a amarelecer. Já não aparece, já não comenta, já não tem música na voz. Vai-nos fazer muita falta.
#1
[um ano mais tarde]

A ignominia.
192 mortos.
milhares de vidas destroçadas.
O silêncio.

10.3.05

#1
[da bigamia]

Acordar com Ella, pensando na outra.

9.3.05

#1
[da tortura]

ouvir o cd da Carla Bruni enquanto a tarde cai lá fora.
desejar estar no teu regaço.

8.3.05

#2
[eis uma canção...]


que, desde que tenho memória dela, sempre me apareceu (e confortou) em momentos precisos e nos lugares mais inusitados: num restaurante em Dublin, num café à beira mar, numa loja de discos em Paris, numa livraria de Donostia, num cyber café em Florença, na planura de uma estrada alentejana...
Hoje foi numa estação de metro, em Lisboa.


When the day is long and the night, the night is yours alone,
When you’re sure you’ve had enough of this life, well hang on.
Don’t let yourself go, everybody cries and everybody hurts sometimes.

Sometimes everything is wrong. Now it’s time to sing along.
When your day is night alone, (hold on, hold on)
If you feel like letting go, (hold on)
When you think you’ve had too much of this life, well hang on.
(...)
REM
#1
[post ao acordar]

não me basta ser memória, quero construir memória.

7.3.05

#1
[post à José Luis Peixoto]


tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, , tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão, tudo é ilusão…

6.3.05

#1
[ora toma]

Cada Barreiro sua Cascais

José Neves, Público, 4 de Março 2005

A simpatia de alguns jornalistas em relação ao BE marcou o crescimento inicial deste mas, por si só, não o explica. Aquela simpatia inicial não chega para fazer uma tese e muito menos uma teoria da conspiração. Ela não se compara à simpatia de que em regra beneficiam PS ou PSD
Algumas das análises para o sentido do meu voto têm-me convidado a acreditar na minha leviandade social e na minha falta de cultura política. Perante os analistas que em tais termos me convidam sou tentado a concluir que eles são maus psicanalistas. E, todavia, o conhecimento e a inteligência por demais evidentes em alguns desses analistas impedem-me de cair na tentação. Tomo então as posições desses analistas em relação ao BE não propriamente enquanto análise, mas mais como contestação do Bloco. Em lugar de me indignar com essa legítima contestação, talvez que prefira compreender a razão das teses que sustentam essa contestação.
1) Gato escondido com o rabo de fora. Esta tese diz-nos que por detrás de um Bloco que se apresenta como uma novidade estarão os perigosos revolucionários de sempre. Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes (J.M.F.), nomeadamente, denunciam Francisco Louçã por ser um herdeiro do trotskismo. O facto é efectivamente verdadeiro e Louçã nunca o escondeu. O que, a meu ver, não implica que ele tenha que se referir às hipóteses revolucionárias na China nos anos 20 para propor políticas de combate ao desemprego em Portugal. Atrás do novo Louçã de hoje estará em parte o velho Louçã de sempre - eis um facto que não chega para uma denúncia nem para uma acusação. E mesmo se Louçã guardasse esqueletos no seu armário político - se tivesse apoiado a Albânia ou o Camboja - ele ainda teria todo o direito à cidade, tal como têm J.M.F. ou Pacheco Pereira.
2) O efeito pernicioso desta tese é a redução da experiência política do BE a uma mera artimanha - ele não seria mais do que a "soma das partes", uma sigla ao serviço de velhas siglas. Ora, é esta ideia que desde logo impede que os nossos analistas juntem novas análises à sua contestação. Eles não chegam a encarar o BE como uma realidade com uma história própria ainda que curta; antes fazem dele o novo rosto do "Demónio Vermelho". Perdem assim a oportunidade de, pensando sobre a breve história do BE, juntarem mais argumentos à sua própria contestação. Mantendo viva uma polémica com argumentos da guerra fria, eles sintetizam com originalidade o antitrotskismo estalinista e o anticomunismo liberal.
3) O BE como produção mediática por excelência. Nesta tese, a incapacidade dos nossos analistas em explicar uma certa afinidade entre o BE e a comunicação social leva-os a sugerir essa relação em termos de teoria da conspiração. A mim parece claro que a simpatia de alguns jornalistas em relação ao BE marcou o crescimento inicial deste. Mas, por si só, ela não o explica. Aquela simpatia inicial não chega para fazer uma tese e muito menos uma teoria da conspiração. Ela não se compara à simpatia de que em regra beneficiam PS ou PSD. A este nível, parece-me sim plausível sugerir diferenças favoráveis ao BE em comparação com o PCP. Será contudo precipitado reduzir a capacidade mediática do BE ao "complexo de esquerda" dos "media" que Pacheco Pereira refere. Mantendo-nos por aspectos politicamente superficiais é hoje em dia bem mais evidente, desde logo, o encontro entre o tipo de retórica de Louçã e as gramáticas comunicacionais dominantes. Como, em geral, parece também claro que entre a "estética" do BE e as "estéticas" da comunicação social existem várias zonas de contacto. Isto não se explica por "cedências" do BE: por exemplo, onde este claramente cedeu - a personalização hierárquica da campanha num líder -, já o PCP há muito tinha cedido sem que tal resolvesse o seu divórcio com os "media". Em suma, creio que será sempre ridículo reduzir a questão à "forma" como são ditas as coisas, pois faz toda a diferença aquilo que é dito. É por exemplo evidente que a clareza da posição do BE face ao aborto ou face à guerra lhe garantiu algum protagonismo face a um PS que se contradisse em relação a ambas as questões.
As teorias da conspiração e os seus processos de intenção são pouco mais do que mistificações. J.M.F. - vezes sem conta primitivamente acusado de ser a "voz do dono" - e Pacheco Pereira - reduzido a "inimigo interno" do seu próprio partido - sabem-no melhor do que muitos.
4) O voto politicamente inculto. Avançada sobretudo na última campanha, esta tese assenta sobre a invenção de um conceito universal de "cultura política". Ela é arrogante não por defender que não se vote no BE, mas por argumentar em termos de autoridade: começando por destituir de qualquer racionalidade as razões políticas do voto no BE, ela acaba o debate antes de o começar. A tese é fraca a menos que se entenda que qualquer definição formal de "cultura política" depende estritamente dos conteúdos particulares da "cultura política" dos analistas que contestam o BE.
5) O voto elitista. Eis a tese mais criticável. Apetece caricaturá-la e dizer que, com os presentes resultados eleitorais, esta tese seria sustentável apenas deslocando a marina de Cascais para pleno Tejo, até à beira do Barreiro, onde o BE teve uma enorme votação. A tese diz que só vota no BE quem é rico e quem não tem problemas na vida. Mais do que relativizar a tese, interessa-nos atacar um pressuposto da mesma, o que concebe as questões de "moral" como assunto exclusivo de ricos e das suas "burguesias". O "povo", esse, será inconsciente e amoral. Porque sobrevive estupidificado pelas suas necessidades materiais de subsistência, ele não se preocupa com as "questões pós-materiais" e "pós-modernas" da agenda do BE.
Deixando de lado ícones bloquistas tão "materiais" e "modernos" como o desemprego e a guerra, peguemos então nos "pós-materiais": aborto, feminismo, homossexuais e droga. Sem sofisticar a análise, podemos ver como estas questões são profundamente "materiais" e imanentes à vida do "povo": A gravidez indesejada bate à porta de todas as casas; a violência doméstica chega tanto a operárias quanto a burguesas; a repressão da homossexualidade é pelo menos tão sentida na fábrica como na universidade; e a toxicodependência não respeita as fronteiras de classe.
A tese do "voto elitista" é ela sim elitista, porque a ela subjaze uma concepção de certos problemas como preocupações próprias de uma imaginada intimidade burguesa. Não por acaso, essa concepção alimenta tanto o pior da tradição marxista-leninista como o mais cínico conservadorismo. Em ambos os casos, a concepção limita os sentidos da qualidade de vida e os seus ícones "pós-materiais", no tempo de hoje, a uns poucos privilegiados. Em ambos os casos, o direito de todos ao sentido da qualidade de vida é apenas prometido para o tempo dos amanhãs que cantam. Como se a questão fosse "mais" e não "melhor".
5) A resposta de Bertolucci. Foi precisamente contra esta privatização do direito de todos à espiritualidade pessoal que Bertolucci um dia filmou um funcionário comunista em profunda depressão por causa de uma desilusão amorosa. Na cena seguinte, o funcionário pede ao seu superior que lhe explique como era possível que ele tivesse perdido a vontade de fazer o seu trabalho político apenas por razão de uma depressão amorosa. Este, um velho comunista romântico, disse-lhe que ele há muito deveria ter percebido que as "coisas do espírito" são sempre "coisas da matéria": "O amor não é uma superestrutura." Estou certo de que não foi por amor que tanta gente votou no BE. Mas também não foi por falta de cultura política.

4.3.05

#1
[em memória]

Avó

3.3.05

#1
[Da Lanterna Mágica]

Filmes da última semana

Vera Drake


Tal como nos dias de hoje em Portugal, na Inglaterra dos anos 50 quem tinha dinheiro pagava para abortar em segurança e anónimato, quem não tinha ficava à mercê do destino.

Mar Adentro



A história de Rámon Sanpedro e a sua luta pelo direito à dignidade na morte.


Sideways



A vida a correr.
A cor do vinho.
A natureza de ambos.

2.3.05

#2
[da lógica]

Premissa
As mulheres Portuguesas são parvas
(Maria Filomena Mónica, In Público, 2 de Março 2005)

Premissa
Maria Filomena Mónica é mulher e portuguesa

Conclusão
Maria Filomena Mónica É parva



Nota: apesar de não concordar com a validade da primeira premissa, o autor deste post reconhece validade à conclusão emanada da lógica aristoteliana.
#1
[tese & antítese]

TESE
Existem países ricos

ANTÍTESE
No grupo das nações mais ricas do mundo existem, segundo a Unicef, entre 40 e 50 milhões de crianças que vivem abaixo do limiar de pobreza.