#9
[Diário Clínico II]
O PSL, prematuro da incubadora de S. Bento, apresenta sinais evidentes de pioria do seu estado de saúde, com graves sequelas resultantes da sua imaturidade multiorgânica, tipica dos pré termo que não passaram pelos quinze dias de campanha e por um parto do tipo eleitoral.
30.11.04
#4
[Prematuros & incubadoras]
PARTO SEM DOR
E agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor
E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor
Sérgio Godinho
[Prematuros & incubadoras]
PARTO SEM DOR
E agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor
E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor
Sérgio Godinho
29.11.04
#3
[Estabilidade governativa]
As Razões de Henrique Chaves
Público, 29 de Novembro de 2004
Convidado para ministro adjunto, nunca me foi dada oportunidade de exercer qualquer função ao nível da coordenação do Governo, própria das funções inerentes a esta pasta.
Certamente porque, desde cedo, terá sido pressentida a minha discordância quanto à forma como era realizada essa coordenação e se alinhava o comportamento do Governo e do primeiro-ministro, tendo eu optado por responder com discrição àquilo que sempre considerei excesso de exposição.
Estando as principais funções de ministro adjunto exclusivamente dependentes do primeiro-ministro, só a este cabe a responsabilidade de conceder ou não as condições para o exercício desse cargo, o que, no meu caso, nunca aconteceu
(...
Em face do referido esvaziamento de qualquer papel de coordenação do Governo - um dos pressupostos do acordo de aceitação do cargo para que fui nomeado - e confrontado com um cenário de remodelação ministerial, era minha intenção a de aproveitar a oportunidade para abandonar as funções de imediato, por considerar não estarem reunidas as condições para o exercício daquele.
Foi-me, no entanto, traçado um cenário, nos termos do qual a remodelação resultaria de uma pressão de véspera, alegadamente por quem, para tanto, tem poder institucional, a qual teria por objectivo forçar a prevenção do cometimento de novos erros graves, geradores de instabilidade social e institucional, por quem, sem resguardo, os vinha cometendo.
Oportunamente, comuniquei a intenção de me demitir.
Foi-me pedido, veementemente, com a invocação de razões de qualquer espécie, chegando até à de índole patriótica, que não o fizesse, porque a minha saída poderia redundar numa instabilidade interpretável como um irregular funcionamento das instituições.
(...)
Dois factos novos, para mim, vieram alternar, de forma irreversível, a minha decisão, ao revelarem a falta de verdade do enquadramento no qual ela fora tomada.
Em primeiro lugar, tenho hoje a certeza que o cenário que me foi apresentado como sendo de véspera à noite e resolvido de forma improvisada foram, afinal, delineado semanas antes, de forma detalhada e reiterada e discutida entre vários actores, sem o meu conhecimento, não obstante eu constituir um dos visados.
Em segundo lugar, um dia depois, foi-me comunicada a intenção, alegadamente firme, de se proceder à demissão de um outro ministro.
Os dois factos referidos consubstanciam, para mim, o primeiro, a constatação de que me faltaram à verdade, de uma forma muito grave, que não posso tolerar e com a qual não posso conviver, e o segundo, não só isso, mas também que, afinal, a saída de qualquer ministro não acarretaria, como consequência necessária, no contexto das pressões institucionais havidas, o irregular funcionamento das instituições.
(...)
Compreenderão que, perante tão grave inversão dos valores de lealdade e verdade, não tive qualquer dúvida em apresentar a minha demissão, assim preservando a minha dignidade
[Estabilidade governativa]
As Razões de Henrique Chaves
Público, 29 de Novembro de 2004
Convidado para ministro adjunto, nunca me foi dada oportunidade de exercer qualquer função ao nível da coordenação do Governo, própria das funções inerentes a esta pasta.
Certamente porque, desde cedo, terá sido pressentida a minha discordância quanto à forma como era realizada essa coordenação e se alinhava o comportamento do Governo e do primeiro-ministro, tendo eu optado por responder com discrição àquilo que sempre considerei excesso de exposição.
Estando as principais funções de ministro adjunto exclusivamente dependentes do primeiro-ministro, só a este cabe a responsabilidade de conceder ou não as condições para o exercício desse cargo, o que, no meu caso, nunca aconteceu
(...
Em face do referido esvaziamento de qualquer papel de coordenação do Governo - um dos pressupostos do acordo de aceitação do cargo para que fui nomeado - e confrontado com um cenário de remodelação ministerial, era minha intenção a de aproveitar a oportunidade para abandonar as funções de imediato, por considerar não estarem reunidas as condições para o exercício daquele.
Foi-me, no entanto, traçado um cenário, nos termos do qual a remodelação resultaria de uma pressão de véspera, alegadamente por quem, para tanto, tem poder institucional, a qual teria por objectivo forçar a prevenção do cometimento de novos erros graves, geradores de instabilidade social e institucional, por quem, sem resguardo, os vinha cometendo.
Oportunamente, comuniquei a intenção de me demitir.
Foi-me pedido, veementemente, com a invocação de razões de qualquer espécie, chegando até à de índole patriótica, que não o fizesse, porque a minha saída poderia redundar numa instabilidade interpretável como um irregular funcionamento das instituições.
(...)
Dois factos novos, para mim, vieram alternar, de forma irreversível, a minha decisão, ao revelarem a falta de verdade do enquadramento no qual ela fora tomada.
Em primeiro lugar, tenho hoje a certeza que o cenário que me foi apresentado como sendo de véspera à noite e resolvido de forma improvisada foram, afinal, delineado semanas antes, de forma detalhada e reiterada e discutida entre vários actores, sem o meu conhecimento, não obstante eu constituir um dos visados.
Em segundo lugar, um dia depois, foi-me comunicada a intenção, alegadamente firme, de se proceder à demissão de um outro ministro.
Os dois factos referidos consubstanciam, para mim, o primeiro, a constatação de que me faltaram à verdade, de uma forma muito grave, que não posso tolerar e com a qual não posso conviver, e o segundo, não só isso, mas também que, afinal, a saída de qualquer ministro não acarretaria, como consequência necessária, no contexto das pressões institucionais havidas, o irregular funcionamento das instituições.
(...)
Compreenderão que, perante tão grave inversão dos valores de lealdade e verdade, não tive qualquer dúvida em apresentar a minha demissão, assim preservando a minha dignidade
#2
[descubra as diferenças]
Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?
*Pergunta a ser referendada pelos cidadãos e cidadãs do estado Português no referendo de 2005
Aprueba usted el tratado por el que se instituye uma Constitución para lá Unión Europea?
*Pergunta a ser referendada pelos cidadãos e cidadãs do estado Espanhol, no referendo de 2005.
[descubra as diferenças]
Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?
*Pergunta a ser referendada pelos cidadãos e cidadãs do estado Português no referendo de 2005
Aprueba usted el tratado por el que se instituye uma Constitución para lá Unión Europea?
*Pergunta a ser referendada pelos cidadãos e cidadãs do estado Espanhol, no referendo de 2005.
26.11.04
#3
[Nova galeria]
Continuo a fotografar e agora tenho uma nova galeria para partilhar imagens.
Podem usar as fotografias, mas não se esqueçam da referência e de me avisar.
#2
[Descobertas de um vegetariano I]
Um dia descobri que, daurante anos, algo me passou completamente ao lado: as couves de bruxelas. Não ia muito à bola com elas, ou melhor, eram-me quase indiferentes.
Dizem que, com o tempo, os nossos gostos se refinam. Não sei se foi esse o caso, mas o que é certo é que, sem saber muito bem como, me enamorei por tamanho vegetal.
A sua natureza arisca, o seu sabor alternado entre o doce e o amargo, a sua forma misteriosa, a sua cor única, as possibilidades gastronómicas que encerra...
[Descobertas de um vegetariano I]
Um dia descobri que, daurante anos, algo me passou completamente ao lado: as couves de bruxelas. Não ia muito à bola com elas, ou melhor, eram-me quase indiferentes.
Dizem que, com o tempo, os nossos gostos se refinam. Não sei se foi esse o caso, mas o que é certo é que, sem saber muito bem como, me enamorei por tamanho vegetal.
A sua natureza arisca, o seu sabor alternado entre o doce e o amargo, a sua forma misteriosa, a sua cor única, as possibilidades gastronómicas que encerra...
tudo atributos que colocam este vegetal num lugar de eleição.
Fica um pouco mais de informação sobre este mistério em forma de couve, bem como alguns conselhos práticos, tudo isto retirado daqui
*********************
COUVE DE BRUXELAS
A couve de bruxelas, é uma verdura que lembra pequenos repolhos e por isso, também é chamada de repolhinho. Ela tem a particularidade de crescer ao longo do talo da planta, que na época da colheita fica totalmente coberto pelos pequenos repolhos. Na cozinha a couve de bruxelas é usada de várias maneiras, e é principalmente recomendada como acompanhamento para carnes. Também pode ser usada no preparo de sopas, ensopados e cozidos
A couve de bruxelas é rica em sais minerais, principalmente fósforo e ferro. Contém vitaminas A e C, ambas importantes para a vista e para a pele. Como tem poucas calorias, pode fazer parte das dietas de emagrecimento. Além disso, é rica em celulose, sendo recomendada para as pessoas que têm problemas intestinais.
A couve de bruxelas é vendida por quilo. Na hora de comprar, escolha as mais redondas e pesadas. Quanto mais firme e verde for a verdura, mais fresca ela estará. Para saber quanto comprar, calcule 1 quilo para 6 pessoas.
A couve de bruxelas é mais resistente que a couve comum e pode ser conservada por mais dias. Antes de guardar, retire as folhas manchadas ou machucadas. Depois coloque em saco plástico e ponha na gaveta da geladeira. Dessa maneira ela se conserva durante 1 semana. Se quiser guardar por mais tempo, é preciso congelar.
Fica um pouco mais de informação sobre este mistério em forma de couve, bem como alguns conselhos práticos, tudo isto retirado daqui
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COUVE DE BRUXELAS
A couve de bruxelas, é uma verdura que lembra pequenos repolhos e por isso, também é chamada de repolhinho. Ela tem a particularidade de crescer ao longo do talo da planta, que na época da colheita fica totalmente coberto pelos pequenos repolhos. Na cozinha a couve de bruxelas é usada de várias maneiras, e é principalmente recomendada como acompanhamento para carnes. Também pode ser usada no preparo de sopas, ensopados e cozidos
A couve de bruxelas é rica em sais minerais, principalmente fósforo e ferro. Contém vitaminas A e C, ambas importantes para a vista e para a pele. Como tem poucas calorias, pode fazer parte das dietas de emagrecimento. Além disso, é rica em celulose, sendo recomendada para as pessoas que têm problemas intestinais.
A couve de bruxelas é vendida por quilo. Na hora de comprar, escolha as mais redondas e pesadas. Quanto mais firme e verde for a verdura, mais fresca ela estará. Para saber quanto comprar, calcule 1 quilo para 6 pessoas.
A couve de bruxelas é mais resistente que a couve comum e pode ser conservada por mais dias. Antes de guardar, retire as folhas manchadas ou machucadas. Depois coloque em saco plástico e ponha na gaveta da geladeira. Dessa maneira ela se conserva durante 1 semana. Se quiser guardar por mais tempo, é preciso congelar.
25.11.04
#3
[não se acredita]
No dia em que se assinala a luta contra a violência contra as mulheres, repesco uma notícia de ontem, também ela digna do Inimigo Público.
Este post tem co-autoria da minha assessora juridica, a quem agradeço. :)
Supremo Responsabiliza Parcialmente Vítima de Maus Tratos e Atenua Pena
MARIANA OLIVEIRA
Público , 24 de Novembro de 2004
O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) atenuou a pena de prisão de um homicida que estrangulou a própria mulher até à morte por considerar que as atitudes desta terão contribuído para o desfecho fatal da relação. O arguido foi condenado na primeira instância a 14 anos de prisão, uma pena que o STJ reduziu para 11 anos.
No acórdão, proferido no passado dia 10, os juízes deste tribunal superior referem que "não terão sido alheias" ao crime "as condutas anteriores da vítima, designadamente os levantamentos bancários deixando as contas do casal a zero, a ponto de o arguido ficar sem dinheiro para pagar o [um] almoço e talvez isso [tenha sido] o detonador da raiva que conduziu ao homicídio".
Entre as restantes condutas, conta-se que "deixou algumas vezes esturricar a comida que confeccionava; chegou a sair e a chegar a casa de noite; ia tomar café a um estabelecimento de cafetaria e não deu conhecimento ao arguido de uma deslocação; chegou a mostrar a barriga quando se encontrava junto de pessoas amigas e se falava da condição física de cada uma delas". Os juízes admitiram, no entanto, que tais comportamentos resultavam dos problemas psíquicos da vítima, decorrentes da morte de uma filha do casal.
Os magistrados do STJ defendem que este caso é o típico "homicídio ocasional", que dificilmente se repetirá, logo, não existem grandes exigências de prevenção. Os juízes, que qualificam o arguido de "primário", realçam que este "dedicou toda a sua vida ao trabalho na construção civil" e sempre zelou pela educação dos seus dois filhos, preocupando-se com o seu futuro. "É considerado um bom pai de família e estimado por todos os seus amigos", referem.
Agressões desvalorizadas
Os juízes desvalorizam os maus tratos (insultos, murros, estalos e pontapés) infligidos pelo arguido à mulher e dados como provado em duas situações. Num dos casos, as feridas e os hematomas deram lugar a um período de doença de seis dias. "À parte as desavenças conjugais (onde, por regra, não existe apenas um culpado) que conduziram à criminalidade em apreço, o arguido mostra-se socialmente inserido", sustentam.
Maria Fernanda foi estrangulada pelo marido a 28 de Maio de 2002, na sequência de uma discussão. A tragédia está intimamente associada à morte de uma filha do casal em Janeiro de 2001, que transtornou os dois e tornou os desentendimentos entre ambos "muito frequentes". O facto de a filha ter falecido numa altura em que era o pai quem a estava a acompanhar no hospital (o cansaço tinha levado ao afastamento da mãe dois dias antes) fez com que Maria Fernanda culpasse o marido pela morte da menor. O seu comportamento psíquico, social e afectuoso mudou susbtancialmente desde então.
O arguido já tinha recorrido da pena para o Tribunal da Relação do Porto, que indeferiu o seu pedido.
[não se acredita]
No dia em que se assinala a luta contra a violência contra as mulheres, repesco uma notícia de ontem, também ela digna do Inimigo Público.
Este post tem co-autoria da minha assessora juridica, a quem agradeço. :)
Supremo Responsabiliza Parcialmente Vítima de Maus Tratos e Atenua Pena
MARIANA OLIVEIRA
Público , 24 de Novembro de 2004
O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) atenuou a pena de prisão de um homicida que estrangulou a própria mulher até à morte por considerar que as atitudes desta terão contribuído para o desfecho fatal da relação. O arguido foi condenado na primeira instância a 14 anos de prisão, uma pena que o STJ reduziu para 11 anos.
No acórdão, proferido no passado dia 10, os juízes deste tribunal superior referem que "não terão sido alheias" ao crime "as condutas anteriores da vítima, designadamente os levantamentos bancários deixando as contas do casal a zero, a ponto de o arguido ficar sem dinheiro para pagar o [um] almoço e talvez isso [tenha sido] o detonador da raiva que conduziu ao homicídio".
Entre as restantes condutas, conta-se que "deixou algumas vezes esturricar a comida que confeccionava; chegou a sair e a chegar a casa de noite; ia tomar café a um estabelecimento de cafetaria e não deu conhecimento ao arguido de uma deslocação; chegou a mostrar a barriga quando se encontrava junto de pessoas amigas e se falava da condição física de cada uma delas". Os juízes admitiram, no entanto, que tais comportamentos resultavam dos problemas psíquicos da vítima, decorrentes da morte de uma filha do casal.
Os magistrados do STJ defendem que este caso é o típico "homicídio ocasional", que dificilmente se repetirá, logo, não existem grandes exigências de prevenção. Os juízes, que qualificam o arguido de "primário", realçam que este "dedicou toda a sua vida ao trabalho na construção civil" e sempre zelou pela educação dos seus dois filhos, preocupando-se com o seu futuro. "É considerado um bom pai de família e estimado por todos os seus amigos", referem.
Agressões desvalorizadas
Os juízes desvalorizam os maus tratos (insultos, murros, estalos e pontapés) infligidos pelo arguido à mulher e dados como provado em duas situações. Num dos casos, as feridas e os hematomas deram lugar a um período de doença de seis dias. "À parte as desavenças conjugais (onde, por regra, não existe apenas um culpado) que conduziram à criminalidade em apreço, o arguido mostra-se socialmente inserido", sustentam.
Maria Fernanda foi estrangulada pelo marido a 28 de Maio de 2002, na sequência de uma discussão. A tragédia está intimamente associada à morte de uma filha do casal em Janeiro de 2001, que transtornou os dois e tornou os desentendimentos entre ambos "muito frequentes". O facto de a filha ter falecido numa altura em que era o pai quem a estava a acompanhar no hospital (o cansaço tinha levado ao afastamento da mãe dois dias antes) fez com que Maria Fernanda culpasse o marido pela morte da menor. O seu comportamento psíquico, social e afectuoso mudou susbtancialmente desde então.
O arguido já tinha recorrido da pena para o Tribunal da Relação do Porto, que indeferiu o seu pedido.
24.11.04
#3
[de olhos em bico]
De tão anedótica que é, esta notícia é digna do Inimigo Público.
Fica postada, para memória futura.
****************************************
China Aposta Forte na economia cubana
FERNANDO SOUSA
Público, 24 de Novembro de 2004
O Presidente chinês, Hu Jintao, concluiu ontem uma visita de dois dias a Cuba durante a qual assinou 16 acordos bilaterais nos mais diversos domínios, incluindo o níquel, a principal riqueza do país. A estada foi ainda aproveitada pelo visitante e os anfitriões, Raul e Fidel Castro, para mostrarem sintonia relativamente a questões políticas de fundo.
"Temos uma base sólida para aprofundar as nossas relações dadas as nossas grandes convergências políticas", disse o visitante, ontem, pouco antes de deixar a ilha. "Ambos escolhemos a via socialista para o nosso desenvolvimento", explicou aos jornalistas.
Hu Jintao referiu-se a Cuba como "pátria de um povo heróico" e a Castro, o seu Presidente, como o homem que soube responder a todas as suas "dificuldades".
O Presidente chinês chegou à ilha na segunda-feira, depois de visitar sucessivamente, a Argentina, onde participou no Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico, e o Brasil, onde deixou vários compromissos de natureza económica. Mas os que fez em Cuba tiveram a acompanhá-los palavras diferentes.
Recebido por Raul Castro, número dois do regime, visitou logo a seguir o Presidente cubano, que o recebeu, na cadeira de rodas onde convalesce da fractura recente de um braço e uma perna, com um sonoro "Viva a China!"
Duas horas a assinar compromissos Hu Jintao respondeu com desejos de votos "sinceros" de que o povo cubano avance a bom ritmo no "caminho da construção do socialismo", após o que passou ao objectivo da viagem - a assinatura de uma série de acordos bilaterais, um deles capaz de dar algum alívio ao dramático panorama económico do país. O agravamento recente pelos Estados Unidos do embargo económico à ilha levou as suas autoridades a decretarem uma série de medidas de austeridade e a proibição de circulação do dólar americano como forma de compensarem a falta de liquidez.
Durante cerca de duas horas e perante a comunicação social as duas partes assinaram 16 compromissos nas áreas da economia, educação e saúde. O que mais publicidade teve nas agências foi o do níquel, de que Cuba possui as maiores reservas provadas do mundo - 800 milhões de toneladas.
O acordo neste caso prevê a construção de uma fábrica de extracção e de produção deste mineral, que existe misturado com o cobalto, com uma capacidade de 22,500 toneladas. A unidade será levantada na província de Holguin, a 800 quilómetros a leste de Havana, será chamada "Las Cariocas" e deverá permitir aumentar a produção cubana das 75 mil toneladas actuais para 100 mil.
As entidades detentoras do empreendimento serão a chinesa Minmetal, com 49 por cento, e a cubana Cubaniquel, com os restantes 51 por cento. Os chineses e os europeus são os maiores importadores do níquel da ilha.
[de olhos em bico]
De tão anedótica que é, esta notícia é digna do Inimigo Público.
Fica postada, para memória futura.
****************************************
China Aposta Forte na economia cubana
FERNANDO SOUSA
Público, 24 de Novembro de 2004
O Presidente chinês, Hu Jintao, concluiu ontem uma visita de dois dias a Cuba durante a qual assinou 16 acordos bilaterais nos mais diversos domínios, incluindo o níquel, a principal riqueza do país. A estada foi ainda aproveitada pelo visitante e os anfitriões, Raul e Fidel Castro, para mostrarem sintonia relativamente a questões políticas de fundo.
"Temos uma base sólida para aprofundar as nossas relações dadas as nossas grandes convergências políticas", disse o visitante, ontem, pouco antes de deixar a ilha. "Ambos escolhemos a via socialista para o nosso desenvolvimento", explicou aos jornalistas.
Hu Jintao referiu-se a Cuba como "pátria de um povo heróico" e a Castro, o seu Presidente, como o homem que soube responder a todas as suas "dificuldades".
O Presidente chinês chegou à ilha na segunda-feira, depois de visitar sucessivamente, a Argentina, onde participou no Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico, e o Brasil, onde deixou vários compromissos de natureza económica. Mas os que fez em Cuba tiveram a acompanhá-los palavras diferentes.
Recebido por Raul Castro, número dois do regime, visitou logo a seguir o Presidente cubano, que o recebeu, na cadeira de rodas onde convalesce da fractura recente de um braço e uma perna, com um sonoro "Viva a China!"
Duas horas a assinar compromissos Hu Jintao respondeu com desejos de votos "sinceros" de que o povo cubano avance a bom ritmo no "caminho da construção do socialismo", após o que passou ao objectivo da viagem - a assinatura de uma série de acordos bilaterais, um deles capaz de dar algum alívio ao dramático panorama económico do país. O agravamento recente pelos Estados Unidos do embargo económico à ilha levou as suas autoridades a decretarem uma série de medidas de austeridade e a proibição de circulação do dólar americano como forma de compensarem a falta de liquidez.
Durante cerca de duas horas e perante a comunicação social as duas partes assinaram 16 compromissos nas áreas da economia, educação e saúde. O que mais publicidade teve nas agências foi o do níquel, de que Cuba possui as maiores reservas provadas do mundo - 800 milhões de toneladas.
O acordo neste caso prevê a construção de uma fábrica de extracção e de produção deste mineral, que existe misturado com o cobalto, com uma capacidade de 22,500 toneladas. A unidade será levantada na província de Holguin, a 800 quilómetros a leste de Havana, será chamada "Las Cariocas" e deverá permitir aumentar a produção cubana das 75 mil toneladas actuais para 100 mil.
As entidades detentoras do empreendimento serão a chinesa Minmetal, com 49 por cento, e a cubana Cubaniquel, com os restantes 51 por cento. Os chineses e os europeus são os maiores importadores do níquel da ilha.
23.11.04
#2
[your face]
Cinco fisionomias
1
Fazes do olhar um diorama
a transmutação da opala
2
Tens Novembro nos lábios
o princípio duma promessa
3
Trazes dentro de mim um violino
algo que incendeia os séculos
4
Um corpo e a ausência
exílio nocturno
5
Na respiração da mulher revelam-se os nomes
João Artur Santos
DNJ, 23 Novembro 2004
[your face]
Cinco fisionomias
1
Fazes do olhar um diorama
a transmutação da opala
2
Tens Novembro nos lábios
o princípio duma promessa
3
Trazes dentro de mim um violino
algo que incendeia os séculos
4
Um corpo e a ausência
exílio nocturno
5
Na respiração da mulher revelam-se os nomes
João Artur Santos
DNJ, 23 Novembro 2004
#1
[A mesa]
Ontem inaugurei a cozinha lá de casa.
Como não poderia deixar de ser, a gastronomia Italiana foi a eleita - pasta al tono.
Esperam-se grandes cozinhados e manjares, porque, como aprendi com la famiglia, com @s amig@s e com @s grandes da literatura, as relações humanas constroem-se em longas jornadas à volta da mesa.
E, por falar em Mesa, passo a palavra ao poeta:
põe a mesa
come à mesa
levanta a mesa trabalha à mesa
desmanivela-a desce é cama
faz a cama
abre a cama
brinca na cama
dorme na cama
desmanivela-a desce mais é caixão
entaipa o caixão
forra o caixão
entra no caixão
fecha o caixão
era a brincar
manivela-o sobe é cama
manivela-a sobe mais é mesa
põe os cotovelos na mesa
Alexandre O'Neill
[A mesa]
Ontem inaugurei a cozinha lá de casa.
Como não poderia deixar de ser, a gastronomia Italiana foi a eleita - pasta al tono.
Esperam-se grandes cozinhados e manjares, porque, como aprendi com la famiglia, com @s amig@s e com @s grandes da literatura, as relações humanas constroem-se em longas jornadas à volta da mesa.
E, por falar em Mesa, passo a palavra ao poeta:
põe a mesa
come à mesa
levanta a mesa trabalha à mesa
desmanivela-a desce é cama
faz a cama
abre a cama
brinca na cama
dorme na cama
desmanivela-a desce mais é caixão
entaipa o caixão
forra o caixão
entra no caixão
fecha o caixão
era a brincar
manivela-o sobe é cama
manivela-a sobe mais é mesa
põe os cotovelos na mesa
Alexandre O'Neill
22.11.04
#2
[alguns apontamentos de um fim de semana]
- um texto escrito à pressa, sobre um disco que (ainda) não ouvi;
-Maria Rita a dançar, descalça, numa magnifica noite atlântica;
- gavetas e livros em trânsito;
- variações sobre a memória: revelação, ampliação, impressão;
- inauguração de uma grande arvore de natal, com fogo de artificio;
- Cinema: Rodrigo Leão a conduzir uma projecção de arrepiar;
- lua crescente, reflectindo um estranho silêncio e calma sobre o mar;
- uma maçã, às seis da manhã;
- expedição fotográfica pela leveza do frio;
- escultura ao ar livre, na volta do duche;
- aproximação à arte do trolha;
- leituras (mais ou menos) partilhadas, pela noite fora.
[alguns apontamentos de um fim de semana]
- um texto escrito à pressa, sobre um disco que (ainda) não ouvi;
-Maria Rita a dançar, descalça, numa magnifica noite atlântica;
- gavetas e livros em trânsito;
- variações sobre a memória: revelação, ampliação, impressão;
- inauguração de uma grande arvore de natal, com fogo de artificio;
- Cinema: Rodrigo Leão a conduzir uma projecção de arrepiar;
- lua crescente, reflectindo um estranho silêncio e calma sobre o mar;
- uma maçã, às seis da manhã;
- expedição fotográfica pela leveza do frio;
- escultura ao ar livre, na volta do duche;
- aproximação à arte do trolha;
- leituras (mais ou menos) partilhadas, pela noite fora.
#1
[Prece matinal]
This fire is out of control
I'm gonna burn this city,
burn this city
Franz Ferdinand
[Prece matinal]
This fire is out of control
I'm gonna burn this city,
burn this city
Franz Ferdinand
19.11.04
#2
[Irish do it better]
Fields of Athenry
By a lonely prison wall
I heard a sweet voice calling,
"Danny, they have taken you away.
For you stole Travelian's corn,
That your babes might see the morn,
Now a prison ship lies waiting in the bay
Fair lie the fields of Athenry
Where once we watched the small freebirds fly.
Our love grew with the spring,
We had dreams and songs to sing
As we wandered through the fields of Athenry.
By a lonely prison wall
I heard a young man calling
"Nothing matters, Jenny, when you're free
Against the famine and the crown,
I rebelled, they ran me down,
Now you must raise our children without me."
Fair lie the fields of Athenry
Where once we watched the small freebirds fly.
Our love grew with the spring,
We had dreams and songs to sing
As we wandered through the fields of Athenry.
On the windswept harbour wall,
She watched the last star rising
As the prison ship sailed out across the sky
But she'll watch and hope and pray,
For her love in Botany Bay
Whilst she is lonely in the fields of Athenry.
[Irish do it better]
Fields of Athenry
By a lonely prison wall
I heard a sweet voice calling,
"Danny, they have taken you away.
For you stole Travelian's corn,
That your babes might see the morn,
Now a prison ship lies waiting in the bay
Fair lie the fields of Athenry
Where once we watched the small freebirds fly.
Our love grew with the spring,
We had dreams and songs to sing
As we wandered through the fields of Athenry.
By a lonely prison wall
I heard a young man calling
"Nothing matters, Jenny, when you're free
Against the famine and the crown,
I rebelled, they ran me down,
Now you must raise our children without me."
Fair lie the fields of Athenry
Where once we watched the small freebirds fly.
Our love grew with the spring,
We had dreams and songs to sing
As we wandered through the fields of Athenry.
On the windswept harbour wall,
She watched the last star rising
As the prison ship sailed out across the sky
But she'll watch and hope and pray,
For her love in Botany Bay
Whilst she is lonely in the fields of Athenry.
18.11.04
#5
[Livros]
Narrativa 'A SOPA'Uma casa onde se cruzam muitas vidas 'esfarrapadas' Terceiro romance de Filomena Marona Beja Um retrato lúcido da miséria humana
[Livros]
Narrativa 'A SOPA'Uma casa onde se cruzam muitas vidas 'esfarrapadas' Terceiro romance de Filomena Marona Beja Um retrato lúcido da miséria humana
José Mário Silva
In DN, 18 Novembro, 2004
De há uns anos para cá, com a entrada na Europa comunitária e a globalização dos mercados, Portugal sofreu uma metamorfose: o velho país de emigrantes transformou-se num lugar de imigração. Em vez de darmos braços às fábricas francesas, recebemos agora - para construir pontes, Expos e estádios - a força de trabalho, tantas vezes ilegal, dos operários de Leste. Eis uma realidade social nova e bastante complexa, mas com a qual nos defrontamos todos os dias, na rua ou nas páginas dos jornais. Não deixa por isso de ser estranho que a actual literatura portuguesa continue a ignorar, com poucas excepções, um fenómeno que é cada vez mais visível na nossa sociedade.O mesmo se passa, aliás, em relação a outro tipo de existências precárias, como a dos mendigos, sem-abrigo e demais excluídos. Talvez com receio de cair no tão abjurado politicamente correcto ou, pior ainda, num impossivelmente anacrónico neo-neo-realismo, o certo é que a maior parte dos escritores portugueses contemporâneos foge destas temáticas como o diabo da cruz. Na melhor das hipóteses, o assunto surge de raspão, como motor de uma narrativa secundária, ou a servir de «pano de fundo». Quantos romances recentes é que fizeram destes homens e mulheres postos à margem, perdidos ou desencontrados, as suas personagens principais? Meia dúzia, no máximo.Também por isso, A Sopa, de Filomena Marona Beja, é um livro corajoso. Fruto de uma longa investigação de cariz quase jornalístico, em contacto directo com o mundo que descreve, este romance está permanentemente no fio da navalha. Sentimos que em qualquer momento a prosa pode deslizar para o moralismo delicodoce, mas a escrita exacta, tensa e cortante de Marona Beja consegue sempre, in extremis, fugir da emoção fácil e piedosa.A estratégia é clara e surpreendentemente eficaz. Em vez de mostrar a existência problemática de pessoas zangadas com o mundo e com a vida que lhes coube (vistas de fora, à distância), FMB coloca- -nos - a nós, leitores - entre elas, no meio do seu quotidiano, das suas conversas e desabafos, dos seus desejos e quezílias, das suas camaratas e roupas malcheirosas. O que A Sopa tem de mais interessante é precisamente a galeria de personagens: do Victor, um alcoólico com traumas de África, ao Fernando, antigo maluquinho das bicicletas que até nem se importa de aprender, já velho, a trabalhar com um computador; passando pelo enfermeiro Salomão e restante pessoal auxiliar. Isto para não falar das duas figuras centrais e verdadeiros eixos da história: Nela, actriz decadente, tolhida pela osteoporose, a caminho da loucura (citando Yeats, sempre); e Anselmo, o escritor clandestino, observador exímio dos outros e intérprete de um inesperado volte-face final.Todos eles coexistem na Fundação, um antigo depósito de hulha, junto ao Tejo, reconvertido em abrigo, com refeitório e camas feitas. Ali matam a fome e o tédio. Ali se confrontam com os externos, que só aparecem à hora da comida, mas também com dois imigrantes que hão-de ter sortes diversas: Boubacar, bicho-do-mato senegalês; e Kiev, um ex-músico ucraniano de gestos cortezes e má sina.Quando circula pelas memórias das personagens, em ritmo febril, todo frases curtas e elipses, FMB consegue ser excelente. Mas quando força as referências temporais (a questão de Timor, por exemplo) ou faz desastradas alusões meta-literárias (de Gil Vicente a versos de canções de Vitorino) tudo vacila. Ainda assim, cheio de vulnerabilidades, este é um livro atento, intenso, tocante. E necessário.
#3
[ainda o vulcão]
(...)
A sua paixão desafiava tudo o que se sabe da paixão: que é estimulada (ou antes mantida acesa) pela dúvida, a separação, a ameaça, a recusa, a frustração; e que é incompatível com a posse, com a segurança. Mas a posse não diminuía nada. O Cavaliere estava enfeitiçado sexualmente. Nunca se apercebera do desesperado desejo de que o abraçassem. (...)
Susan Sontang,
In O Amante do Vulcão
[ainda o vulcão]
(...)
A sua paixão desafiava tudo o que se sabe da paixão: que é estimulada (ou antes mantida acesa) pela dúvida, a separação, a ameaça, a recusa, a frustração; e que é incompatível com a posse, com a segurança. Mas a posse não diminuía nada. O Cavaliere estava enfeitiçado sexualmente. Nunca se apercebera do desesperado desejo de que o abraçassem. (...)
Susan Sontang,
In O Amante do Vulcão
#2
[yesterday]
Some Days Are Better Than Others
Some days are dry, some days are leaky
Some days come clean, other days are sneaky
Some days take less, but most days take more
Some slip through your fingers and onto the floor
Some days you're quick, but most days you're speedy
Some days you use more force than is necessary
Some days just drop in on us
Some days are better than others
Some days it all adds up
And what you got is not enough
Some days are better than others
Some days are slippy, other days sloppy
Some days you can't stand the sight of a puppy
Your skin is white but you think you're a brother
Some days are better than others
Some days you wake up with her complaining
Some sunny days you wish it was raining
Some days are sulky, some days have a grin
And some days have bouncers and won't let you in
Some days you hear a voice
Taking you to another place
Some days are better than others
Some days are honest, some days are not
Some days you're thankful for what you've got
Some days you wake up in the army
And some days it's the enemy
Some days are work, most days you're lazy
Some days you feel like a bit of a baby
Lookin' for Jesus and His mother
Some days are better than others
Some days you feel ahead
You're making sense of what she said
Some days are better than others
Some days you hear a voice
Taking you to another place
Some days are better than others
U2, Zooropa
[yesterday]
Some Days Are Better Than Others
Some days are dry, some days are leaky
Some days come clean, other days are sneaky
Some days take less, but most days take more
Some slip through your fingers and onto the floor
Some days you're quick, but most days you're speedy
Some days you use more force than is necessary
Some days just drop in on us
Some days are better than others
Some days it all adds up
And what you got is not enough
Some days are better than others
Some days are slippy, other days sloppy
Some days you can't stand the sight of a puppy
Your skin is white but you think you're a brother
Some days are better than others
Some days you wake up with her complaining
Some sunny days you wish it was raining
Some days are sulky, some days have a grin
And some days have bouncers and won't let you in
Some days you hear a voice
Taking you to another place
Some days are better than others
Some days are honest, some days are not
Some days you're thankful for what you've got
Some days you wake up in the army
And some days it's the enemy
Some days are work, most days you're lazy
Some days you feel like a bit of a baby
Lookin' for Jesus and His mother
Some days are better than others
Some days you feel ahead
You're making sense of what she said
Some days are better than others
Some days you hear a voice
Taking you to another place
Some days are better than others
U2, Zooropa
17.11.04
16.11.04
#5
[...]
CENSURAR v (de censura + suf - ar) 1- Condenar ou criticar pessoas, comportamentos, atitudes (...); 2- Examinar um texto, um filme ou qualquer obra criada, cortando, alterando ou banindo aquilo que é considerado nocivo para as autoridades ou para quem detém o poder (...).
in
Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea
Academia das Ciências de Lisboa
Lisboa, Ed. Verbo, 2001
[...]
CENSURAR v (de censura + suf - ar) 1- Condenar ou criticar pessoas, comportamentos, atitudes (...); 2- Examinar um texto, um filme ou qualquer obra criada, cortando, alterando ou banindo aquilo que é considerado nocivo para as autoridades ou para quem detém o poder (...).
in
Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea
Academia das Ciências de Lisboa
Lisboa, Ed. Verbo, 2001
#3
[a música merece tudo]
A música preenche-me o silêncio, trá-lo consigo nos seus espaços, nas suas entrelinhas, nas suas entrepautas.
A música, poesia com e sem palavras, é exaltação, é queda e ascenção, é redenção.
A música é companheira de boémia, de trabalho, de cansaço e energia, da grande e interminável viagem.
A música é amante fiel e vadia, que se dá e renova, a que me entrego com a devoção própria das últimas coisas.
A música é uma religião pagã, cheia de mistério e racionalidade. É uma realidade por explorar.
De música pouco sei: sou desafinado, não sei tocar, falta-me o ritmo. São razões pequenas, insuficientes para a renuncia à grande paixão.
A música... merece tudo.
[a música merece tudo]
A música preenche-me o silêncio, trá-lo consigo nos seus espaços, nas suas entrelinhas, nas suas entrepautas.
A música, poesia com e sem palavras, é exaltação, é queda e ascenção, é redenção.
A música é companheira de boémia, de trabalho, de cansaço e energia, da grande e interminável viagem.
A música é amante fiel e vadia, que se dá e renova, a que me entrego com a devoção própria das últimas coisas.
A música é uma religião pagã, cheia de mistério e racionalidade. É uma realidade por explorar.
De música pouco sei: sou desafinado, não sei tocar, falta-me o ritmo. São razões pequenas, insuficientes para a renuncia à grande paixão.
A música... merece tudo.
#2
[ai se o Eça fosse vivo...]
Alto Astral
JOSÉ VITOR MALHEIROS
in Público, 16 de Novembro de 2004
"Eu quero que o país vá subindo no seu astral!" Estas palavras de Santana Lopes, proferidas do púlpito no discurso de encerramento do último congresso do PPD-PSD-PSL, são o que se chama um grito de alma. Não é "Cogito ergo sum", nem "I have a dream", mas cada nação produz o que produz. No nosso caso é mais bolos.
Não fique preocupado, se não souber ao certo o que é "o astral". Uma breve consulta ao "Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea" da Academia das Ciências de Lisboa explica que a expressão (para além de querer dizer "relativo aos astros" quando é usada como adjectivo, mas não é isso que interessa) vem da teosofia e do ocultismo e descreve o "plano intermediário entre o físico e o espiritual, povoado de almas e espíritos, só observado pelos videntes e hipnóticos" ou a "parte fluida do ser humano, intermediária entre o corpo físico e a alma". Claro que a expressão vem do Brasil, onde, ainda segundo o DLPC, quer dizer "disposição de espírito" ou "humor". De onde vem este significado? Você tá bobo, cara? De astro mesmo, né? Todo mundo sabe que humor e amor é coisa de astro, são eles que ficam colocando a gente nesse plano ou no outro e sobem ou baixam o astrau da gente. Não sabia mesmo? Santana sabe.
Outro primeiro-ministro poderia ter falado de brio, de projecto, de ânimo, de sonho, de ambição, de futuro, de trabalho, de empenhamento, de desafio, mas Santana sabe falar ao povo na sua própria língua e saiu o astral!
Mas não se pense que saiu por acaso. O astral presta-se mais à banha da cobra do que o projecto e até do que o sonho, porque o astral não depende nem do trabalho (lagarto, lagarto), nem do desejo, nem sequer de nós. Só depende dos astros, dos deuses, dos alinhamentos siderais, dessa coisa etérea que é a coisa nenhuma. Nem é preciso querer, astral é astral, acontece à gente sem a gente querer. Além de que o astral é sentimental ("Me liga!"), tem a ver com destino, com coisas escritas nos céus com pozinho de estrelas e não exige nenhum mas nenhum esforço. Astrau é assim mesmo! Como se faz para melhorar o astral? Incríveu! Você não sabe? Relaxe! Nada melhor para o astrau! Não sabe como? Beba uma caipirinha. Duas!
O astral é ainda melhor do que a Nossa Senhora de Fátima (Paulo Portas foi definitivamente ultrapassado), porque é mais moderno, não fere susceptibilidades e não acarreta nenhuma obrigação. A Nossa Senhora é uma mãe severa que persevera, mas o austral é uma boa. A Nossa Senhora estava bem para os tempos de austeridade, mas a austeridade já era. Agora é o astral.
Desvendado o astral percebemos melhor o novo símbolo do PSD-PPD-PSL: é um satélite a ser colocado em órbita, em direcção aos astros, uma espécie de guerra das estrelas, mas para criar alinhamentos de Mercúrio com Vénus, para fortalecer o astral. Será que José Sócrates já percebeu que a sua ideia das novas fronteiras acaba de lhe ser roubada mesmo debaixo do nariz?
Depois do astral já percebemos porque é que a palavra de ordem do primeiro dia do congresso era "verdade" e a do segundo dia "confiança". É que, quando se prega a verdade, o povo pode ficar com ideia de que tem direito a alguma coisa e até pode começar a fazer perguntas, mas com a confiança não há riscos. Confie! Não pergunte, não diga, não duvide! Suba o astral! Relaxe. Deixe tudo na mão do PSLPSDPP. Beba mais uma caipirinha. Me liga!
[ai se o Eça fosse vivo...]
Alto Astral
JOSÉ VITOR MALHEIROS
in Público, 16 de Novembro de 2004
"Eu quero que o país vá subindo no seu astral!" Estas palavras de Santana Lopes, proferidas do púlpito no discurso de encerramento do último congresso do PPD-PSD-PSL, são o que se chama um grito de alma. Não é "Cogito ergo sum", nem "I have a dream", mas cada nação produz o que produz. No nosso caso é mais bolos.
Não fique preocupado, se não souber ao certo o que é "o astral". Uma breve consulta ao "Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea" da Academia das Ciências de Lisboa explica que a expressão (para além de querer dizer "relativo aos astros" quando é usada como adjectivo, mas não é isso que interessa) vem da teosofia e do ocultismo e descreve o "plano intermediário entre o físico e o espiritual, povoado de almas e espíritos, só observado pelos videntes e hipnóticos" ou a "parte fluida do ser humano, intermediária entre o corpo físico e a alma". Claro que a expressão vem do Brasil, onde, ainda segundo o DLPC, quer dizer "disposição de espírito" ou "humor". De onde vem este significado? Você tá bobo, cara? De astro mesmo, né? Todo mundo sabe que humor e amor é coisa de astro, são eles que ficam colocando a gente nesse plano ou no outro e sobem ou baixam o astrau da gente. Não sabia mesmo? Santana sabe.
Outro primeiro-ministro poderia ter falado de brio, de projecto, de ânimo, de sonho, de ambição, de futuro, de trabalho, de empenhamento, de desafio, mas Santana sabe falar ao povo na sua própria língua e saiu o astral!
Mas não se pense que saiu por acaso. O astral presta-se mais à banha da cobra do que o projecto e até do que o sonho, porque o astral não depende nem do trabalho (lagarto, lagarto), nem do desejo, nem sequer de nós. Só depende dos astros, dos deuses, dos alinhamentos siderais, dessa coisa etérea que é a coisa nenhuma. Nem é preciso querer, astral é astral, acontece à gente sem a gente querer. Além de que o astral é sentimental ("Me liga!"), tem a ver com destino, com coisas escritas nos céus com pozinho de estrelas e não exige nenhum mas nenhum esforço. Astrau é assim mesmo! Como se faz para melhorar o astral? Incríveu! Você não sabe? Relaxe! Nada melhor para o astrau! Não sabe como? Beba uma caipirinha. Duas!
O astral é ainda melhor do que a Nossa Senhora de Fátima (Paulo Portas foi definitivamente ultrapassado), porque é mais moderno, não fere susceptibilidades e não acarreta nenhuma obrigação. A Nossa Senhora é uma mãe severa que persevera, mas o austral é uma boa. A Nossa Senhora estava bem para os tempos de austeridade, mas a austeridade já era. Agora é o astral.
Desvendado o astral percebemos melhor o novo símbolo do PSD-PPD-PSL: é um satélite a ser colocado em órbita, em direcção aos astros, uma espécie de guerra das estrelas, mas para criar alinhamentos de Mercúrio com Vénus, para fortalecer o astral. Será que José Sócrates já percebeu que a sua ideia das novas fronteiras acaba de lhe ser roubada mesmo debaixo do nariz?
Depois do astral já percebemos porque é que a palavra de ordem do primeiro dia do congresso era "verdade" e a do segundo dia "confiança". É que, quando se prega a verdade, o povo pode ficar com ideia de que tem direito a alguma coisa e até pode começar a fazer perguntas, mas com a confiança não há riscos. Confie! Não pergunte, não diga, não duvide! Suba o astral! Relaxe. Deixe tudo na mão do PSLPSDPP. Beba mais uma caipirinha. Me liga!
#1
[dez anos]
O tempo passou e dele fizemos o que as escolhas determinaram, a cada momento.
Nunca diria que, uma década depois, num século distante, a minha vida é o que é hoje. Apesar dessa ingenuidade, dessa inocencia que tinha, estou contente com os caminhos que fui fazendo, com a incerteza com que sempre fui lançando os dados, tirando as cartas do baralho ou movendo as peças do meu xadrês pessoal.
Para não se tornar fatal a melancolia deve ser servida em doses moderadas, e o arrependimento, que não mata mas pode moer, deve ter uma curta validade, ganhando, depois, natureza arquelógica.
Não deixo de recordar as pessoas que conheci, as pessoas que deixei, as que nunca mais vi, as que guardei e guardo, os lugares onde fui, as palavras lidas, as escritas... e as pessoas, as palavras, os sitios e as oportunidades que de mim partiram.
Recordo mas projecto-me sempre no futuro, como diz o poeta, o que interessa no que foi é o que vai ser.
A estrada segue. Há que continuar a faze-la com raiva, reanimamdoa paixão de perguntar.
[dez anos]
O tempo passou e dele fizemos o que as escolhas determinaram, a cada momento.
Nunca diria que, uma década depois, num século distante, a minha vida é o que é hoje. Apesar dessa ingenuidade, dessa inocencia que tinha, estou contente com os caminhos que fui fazendo, com a incerteza com que sempre fui lançando os dados, tirando as cartas do baralho ou movendo as peças do meu xadrês pessoal.
Para não se tornar fatal a melancolia deve ser servida em doses moderadas, e o arrependimento, que não mata mas pode moer, deve ter uma curta validade, ganhando, depois, natureza arquelógica.
Não deixo de recordar as pessoas que conheci, as pessoas que deixei, as que nunca mais vi, as que guardei e guardo, os lugares onde fui, as palavras lidas, as escritas... e as pessoas, as palavras, os sitios e as oportunidades que de mim partiram.
Recordo mas projecto-me sempre no futuro, como diz o poeta, o que interessa no que foi é o que vai ser.
A estrada segue. Há que continuar a faze-la com raiva, reanimamdoa paixão de perguntar.
15.11.04
#3
[Sky Captain]
Filme de ocasião, daqueles que só se vão ver por duas razões: ou a companhia ou não estar mais nenhum a começar. Juntei as duas :)
Um filme inspirado nos clássicos da BD: um heroi redentor, uma jornalista sedutora, um inventor engenhocas e um plano maquiavélico para dominar o mundo, que os três, em conjunto com alguns amigos, conseguem frustrar.
Quase duas horas de animação, que acabaram com chave de ouro:
Somewhere Over the Rainbow
Somewhere over the rainbow
Way up high,
There's a land that I heard of
Once in a lullaby.
Somewhere over the rainbow
Skies are blue,
And the dreams that you dare to dream
Really do come true.
Someday I'll wish upon a star
And wake up where the clouds are farBehind me.
Where troubles melt like lemon drops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me.
Somewhere over the rainbow
Bluebirds fly.
Birds fly over the rainbow.
Why then, oh why can't I?
If happy little bluebirds flyBeyond the rainbow
Why, oh why can't I?
music by Harold Arlen and lyrics by E.Y. Harburg
[Sky Captain]
Filme de ocasião, daqueles que só se vão ver por duas razões: ou a companhia ou não estar mais nenhum a começar. Juntei as duas :)
Um filme inspirado nos clássicos da BD: um heroi redentor, uma jornalista sedutora, um inventor engenhocas e um plano maquiavélico para dominar o mundo, que os três, em conjunto com alguns amigos, conseguem frustrar.
Quase duas horas de animação, que acabaram com chave de ouro:
Somewhere Over the Rainbow
Somewhere over the rainbow
Way up high,
There's a land that I heard of
Once in a lullaby.
Somewhere over the rainbow
Skies are blue,
And the dreams that you dare to dream
Really do come true.
Someday I'll wish upon a star
And wake up where the clouds are farBehind me.
Where troubles melt like lemon drops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me.
Somewhere over the rainbow
Bluebirds fly.
Birds fly over the rainbow.
Why then, oh why can't I?
If happy little bluebirds flyBeyond the rainbow
Why, oh why can't I?
music by Harold Arlen and lyrics by E.Y. Harburg
#1
[leituras de fim de semana]
(...)
À medida que se ia aproximando uma nova erupção do Vesúvio, o Cavaliere subia mais frequentemente à montanha, em parte para ver até onde ia a sua coragem. (...) Por vezes sentia-se mais seguro durante as suas escaladas na montanha fervente que noutro lugar qualquer.
A montanha constituía uma experiência diferente de tudo o resto, uma medida diversa. A terra estende-se, o céu cresce, o golfo alarga-se. Não temos de lembrar de quem somos.
(...)
Susan Sontang
in O Amante do Vulcão
[leituras de fim de semana]
(...)
À medida que se ia aproximando uma nova erupção do Vesúvio, o Cavaliere subia mais frequentemente à montanha, em parte para ver até onde ia a sua coragem. (...) Por vezes sentia-se mais seguro durante as suas escaladas na montanha fervente que noutro lugar qualquer.
A montanha constituía uma experiência diferente de tudo o resto, uma medida diversa. A terra estende-se, o céu cresce, o golfo alarga-se. Não temos de lembrar de quem somos.
(...)
Susan Sontang
in O Amante do Vulcão
12.11.04
#3
[no meu mail]
CONTRA A LEI DAS RENDAS
Assembleia de Inquilinos:
15 de Novembro na Faculdade de Letras de Lisboa (Cidade Universitária) às 20:30h.
Concentração junto à Assembleia da República:
18 de Novembro a partir das 15h.
Divulgue esta iniciativa no seu prédio e no seu bairro!
Face à gravidade do problema temos de estar unidos e mobilizados!
[no meu mail]
CONTRA A LEI DAS RENDAS
Assembleia de Inquilinos:
15 de Novembro na Faculdade de Letras de Lisboa (Cidade Universitária) às 20:30h.
Concentração junto à Assembleia da República:
18 de Novembro a partir das 15h.
Divulgue esta iniciativa no seu prédio e no seu bairro!
Face à gravidade do problema temos de estar unidos e mobilizados!
11.11.04
[post cheio de trabalho]
#3
Uma das músicas mais tocantes dos Madredeus: a minha companhia do momento:
MILAGRE
É grande o silêncio,
Aguardo o milagre,
chegas amor finalmente,
Ó meu amor, mesmo tarde;
E vou livremente,
contigo a meu lado,
tenho o meu mundo contente,
neste sonhar acordado.
- Onde está a tua voz, quero ouvir a tua voz...
- Onde está a tua voz, queria ouvir a tua voz...
O desejo pretende,
louvar a saudade,
A tua voz anda ausente,
e eu estar contigo é milagre.
letra de Pedro Ayres Magalhães
música de Rodrigo Leão
#3
Uma das músicas mais tocantes dos Madredeus: a minha companhia do momento:
MILAGRE
É grande o silêncio,
Aguardo o milagre,
chegas amor finalmente,
Ó meu amor, mesmo tarde;
E vou livremente,
contigo a meu lado,
tenho o meu mundo contente,
neste sonhar acordado.
- Onde está a tua voz, quero ouvir a tua voz...
- Onde está a tua voz, queria ouvir a tua voz...
O desejo pretende,
louvar a saudade,
A tua voz anda ausente,
e eu estar contigo é milagre.
letra de Pedro Ayres Magalhães
música de Rodrigo Leão
10.11.04
#4
[antes de ir]
How to Disappear Completely
That there
That's not me
I go Where
I please
I walk through walls
I float down the Liffey
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
In a little while
I'll be gone
The moment's already passed
Yeah it's gone
And I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
Strobe lights and blown speakers
Fireworks and hurricanes
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
Radiohead
[antes de ir]
How to Disappear Completely
That there
That's not me
I go Where
I please
I walk through walls
I float down the Liffey
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
In a little while
I'll be gone
The moment's already passed
Yeah it's gone
And I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
Strobe lights and blown speakers
Fireworks and hurricanes
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
Radiohead
#2
[tarde de Novembro]
No ano passado passei parte do Outono fora do país.
Hoje, ao apreciar o sol das quatro da tarde a bater no empedrado e nos edifícios do Terreiro do Paço, ao seguir o voo das gaivotas, ao sentir o frio a cortar e o cheiro das castanhas assadas, apercebi-me de que já não me recordava de quão bonitas são as tardes de Novembro em Lisboa, esta cidade imensa que tanto amo.
[tarde de Novembro]
No ano passado passei parte do Outono fora do país.
Hoje, ao apreciar o sol das quatro da tarde a bater no empedrado e nos edifícios do Terreiro do Paço, ao seguir o voo das gaivotas, ao sentir o frio a cortar e o cheiro das castanhas assadas, apercebi-me de que já não me recordava de quão bonitas são as tardes de Novembro em Lisboa, esta cidade imensa que tanto amo.
#1
[devagarinho]
Some Took The Words Away
Poor head
Can hardly move my lips for speaking
I said So, what is this thing I cannot explain?
I'd blame all the things I feel but can't quite place
Perhaps they're written on my face
Someone took the words away
Why don't you speak up and say what you mean?
Summon my powers of conversation
I talk to myself,
I'm fine
When you're around,
Then I decline the invitation
It's strange to finally find myself so tongue-tied
A change has come over me
I'm powerless to express
Every thing I know but cannot speak
And if I try my voice will break
Someone took the words away
Someone took the words away
Elvis Costello
North
[devagarinho]
Some Took The Words Away
Poor head
Can hardly move my lips for speaking
I said So, what is this thing I cannot explain?
I'd blame all the things I feel but can't quite place
Perhaps they're written on my face
Someone took the words away
Why don't you speak up and say what you mean?
Summon my powers of conversation
I talk to myself,
I'm fine
When you're around,
Then I decline the invitation
It's strange to finally find myself so tongue-tied
A change has come over me
I'm powerless to express
Every thing I know but cannot speak
And if I try my voice will break
Someone took the words away
Someone took the words away
Elvis Costello
North
9.11.04
8.11.04
#3
[Ainda a Palestina]
Com Olhos em Gaza
FRANCISCO SEIXAS DA COSTA
Público, 07 de Novembro de 2004
A face pálida de Yasser Arafat tornou-se ainda mais lívida, ao ouvir o que lhe disse o colaborador que interrompeu bruscamente a conversa que o presidente da Autoridade Palestiniana mantinha com Mário Soares, na minha presença. Arafat balbuciou qualquer coisa e saiu, apressado, para uma sala ao lado, deixando-nos a conjecturar sobre o que tanto o perturbara. Quando regressou, denotava uma imensa preocupação: Shimon Peres, então ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, acabara de lhe confirmar que, pouco antes, o primeiro-ministro Itzhak Rabin havia sido alvejado num comício em Tel-Aviv. Não se conheciam ainda pormenores sobre o seu estado. Sem o dizermos, o cenário de um atentado de autoria palestiniana atravessou-nos a todos. Minutos mais tarde, veio a saber-se que o autor dos disparos fora, afinal, um judeu radical e que Rabin, entretanto, morrera.
Estávamos em Gaza, em 5 de Novembro de 1995, após um jantar oficial, regressados à "guest house" da Autoridade Palestiniana, numa inédita visita do Presidente da República portuguesa iniciada nessa tarde, que eu acompanhava em substituição de Jaime Gama. A simpatia por Portugal e o imenso respeito de Arafat por Mário Soares ficaram patentes em vários gestos, desde a nossa chegada. O líder palestiniano fazia questão de recordar a atitude corajosa e solidária de Soares quando, anos antes, este fora visitá-lo a Beirute, sob fogo, durante o cerco sofrido pelas forças da Al Fatah.
A comitiva portuguesa saíra de Jerusalém, nessa manhã, após uma visita oficial de três dias a Israel. A presença do presidente português ficara marcada pela contínua expressão da amizade e admiração de Itzhak Rabin e de Shimon Peres, que viam em Mário Soares, simultaneamente, um sólido amigo de Israel e um militante pela reconciliação no Médio Oriente, defensor dos direitos do povo palestiniano. Viviam-se os tempos de esperança posteriores aos Acordos de Oslo e Washington e, a avaliar pelas medidas de segurança excepcionais que rodeavam Rabin, que haviam obrigado a súbitas mudanças do programa, pressentiam-se os riscos que o primeiro-ministro israelita estaria a correr para forçar, de uma vez por todas, as portas da paz possível. Mas estávamos muito longe de pressentir a tragédia.
Arafat despediu-se de nós, nessa noite, com uma sombra triste no olhar que não perderia na manhã seguinte, quando abreviámos a visita, para nos deslocarmos ao funeral de Rabin. Acto a que ele, contudo, não pôde assistir, como desejaria. Recordo as palavras trocadas por Soares com Arafat, no momento da nossa saída de Gaza. Do pesar que ambos sentiam pela desaparição de Rabin ressaltava a consciência mútua de que nada voltaria a ser igual no destino daquilo a que então se chamava o Processo de Paz do Médio Oriente.
Voltei a encontrar Arafat algumas outras vezes - em Barcelona, em Malta, em Bruxelas e em Nova Iorque. Sem excepção, perguntava-me sempre pelo seu "amigo Mário Soares" e teimava em relembrar, na sua voz cada vez mais trémula, aquela noite em Gaza, que lhe deve ter ficado na memória dos seus sonhos perdidos de uma Palestina livre.
Yasser Arafat cometeu, nos anos que se seguiram, uma imensidão de erros políticos, imerso numa conjuntura em que se deixou enredar, em que o radicalismo tomou conta dos acontecimentos, de um lado e do outro de uma barricada de ódio, hoje ironicamente simbolizada num muro real de incompreensão. O conflito israelo-palestiniano converteu-se, entretanto, numa imolação de inocentes, numa bola de neve de violência e de terror, com que já convivemos sem espanto, à vista do cinismo estratégico dos feiticeiros da realpolitik, da cobardia complacente de alguns e da fraternidade hipócrita de outros. O mundo tarda em perceber que, graças à aliança objectiva de messianismos contraditórios, alimentados pelo desespero e pelo fanatismo, se ateou a partir das margens do Jordão, à vista de todos, um incêndio imenso, que não pára de estender-se e que está, cada vez mais, longe de ser debelado, ardendo como o petróleo que lhe alimenta as raízes.
Em 5 de Novembro de 1995, morreu Itzhak Rabin. O ocaso de Yasser Arafat terá começado na mesma data, precisamente nove anos depois. Esta coincidência sela o destino trágico dos dois homens que mais perto estiveram de obter a paz para os seus povos.
[Ainda a Palestina]
Com Olhos em Gaza
FRANCISCO SEIXAS DA COSTA
Público, 07 de Novembro de 2004
A face pálida de Yasser Arafat tornou-se ainda mais lívida, ao ouvir o que lhe disse o colaborador que interrompeu bruscamente a conversa que o presidente da Autoridade Palestiniana mantinha com Mário Soares, na minha presença. Arafat balbuciou qualquer coisa e saiu, apressado, para uma sala ao lado, deixando-nos a conjecturar sobre o que tanto o perturbara. Quando regressou, denotava uma imensa preocupação: Shimon Peres, então ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, acabara de lhe confirmar que, pouco antes, o primeiro-ministro Itzhak Rabin havia sido alvejado num comício em Tel-Aviv. Não se conheciam ainda pormenores sobre o seu estado. Sem o dizermos, o cenário de um atentado de autoria palestiniana atravessou-nos a todos. Minutos mais tarde, veio a saber-se que o autor dos disparos fora, afinal, um judeu radical e que Rabin, entretanto, morrera.
Estávamos em Gaza, em 5 de Novembro de 1995, após um jantar oficial, regressados à "guest house" da Autoridade Palestiniana, numa inédita visita do Presidente da República portuguesa iniciada nessa tarde, que eu acompanhava em substituição de Jaime Gama. A simpatia por Portugal e o imenso respeito de Arafat por Mário Soares ficaram patentes em vários gestos, desde a nossa chegada. O líder palestiniano fazia questão de recordar a atitude corajosa e solidária de Soares quando, anos antes, este fora visitá-lo a Beirute, sob fogo, durante o cerco sofrido pelas forças da Al Fatah.
A comitiva portuguesa saíra de Jerusalém, nessa manhã, após uma visita oficial de três dias a Israel. A presença do presidente português ficara marcada pela contínua expressão da amizade e admiração de Itzhak Rabin e de Shimon Peres, que viam em Mário Soares, simultaneamente, um sólido amigo de Israel e um militante pela reconciliação no Médio Oriente, defensor dos direitos do povo palestiniano. Viviam-se os tempos de esperança posteriores aos Acordos de Oslo e Washington e, a avaliar pelas medidas de segurança excepcionais que rodeavam Rabin, que haviam obrigado a súbitas mudanças do programa, pressentiam-se os riscos que o primeiro-ministro israelita estaria a correr para forçar, de uma vez por todas, as portas da paz possível. Mas estávamos muito longe de pressentir a tragédia.
Arafat despediu-se de nós, nessa noite, com uma sombra triste no olhar que não perderia na manhã seguinte, quando abreviámos a visita, para nos deslocarmos ao funeral de Rabin. Acto a que ele, contudo, não pôde assistir, como desejaria. Recordo as palavras trocadas por Soares com Arafat, no momento da nossa saída de Gaza. Do pesar que ambos sentiam pela desaparição de Rabin ressaltava a consciência mútua de que nada voltaria a ser igual no destino daquilo a que então se chamava o Processo de Paz do Médio Oriente.
Voltei a encontrar Arafat algumas outras vezes - em Barcelona, em Malta, em Bruxelas e em Nova Iorque. Sem excepção, perguntava-me sempre pelo seu "amigo Mário Soares" e teimava em relembrar, na sua voz cada vez mais trémula, aquela noite em Gaza, que lhe deve ter ficado na memória dos seus sonhos perdidos de uma Palestina livre.
Yasser Arafat cometeu, nos anos que se seguiram, uma imensidão de erros políticos, imerso numa conjuntura em que se deixou enredar, em que o radicalismo tomou conta dos acontecimentos, de um lado e do outro de uma barricada de ódio, hoje ironicamente simbolizada num muro real de incompreensão. O conflito israelo-palestiniano converteu-se, entretanto, numa imolação de inocentes, numa bola de neve de violência e de terror, com que já convivemos sem espanto, à vista do cinismo estratégico dos feiticeiros da realpolitik, da cobardia complacente de alguns e da fraternidade hipócrita de outros. O mundo tarda em perceber que, graças à aliança objectiva de messianismos contraditórios, alimentados pelo desespero e pelo fanatismo, se ateou a partir das margens do Jordão, à vista de todos, um incêndio imenso, que não pára de estender-se e que está, cada vez mais, longe de ser debelado, ardendo como o petróleo que lhe alimenta as raízes.
Em 5 de Novembro de 1995, morreu Itzhak Rabin. O ocaso de Yasser Arafat terá começado na mesma data, precisamente nove anos depois. Esta coincidência sela o destino trágico dos dois homens que mais perto estiveram de obter a paz para os seus povos.
#1
[Manhã de segunda feira]
Estação de metro de Sete Rios, hora de ponta matinal. Tudo parecia correr bem, até que o segurança, à beira do cais,decidiu não me deixar entrar no transporte, alegando que estava cheio demais, que as pessoas se estavam a acotovelar... imagine-se. E eu que estava desejoso por me enlatar com aquela massa humana.
Lá fiquei sossegadinho na estação, esperando o próximo. A certa altura, apareceu um elefante e um tigre fugidos do Jardim Zoológico, foi um pandemónio. Só faltavam os macacos e o os trapezistas do circo Chen para compor o ramalhete.
Entrei no metro e descobri que este ia em sentido contrário, só parou na Amadora.
Voltei e, ao descer a Rua de S. Bento, fui assaltado por 3 velhinhas que queriam trocos para a aspirina. Assalto à mão armada, usavam a seringa dos diabetes.
Na porta do Edificio, o polícia não me quis deixar entrar, disse que já estava cheio demais, que as pessoas se estavam a acotovelar. Esta cena não me é estranha...
Chego ao gabinete e dou com o grande chefe constipado e de mau humor.
Enfim, uma manhã de segunda feira perfeitamente normal.
[Manhã de segunda feira]
Estação de metro de Sete Rios, hora de ponta matinal. Tudo parecia correr bem, até que o segurança, à beira do cais,decidiu não me deixar entrar no transporte, alegando que estava cheio demais, que as pessoas se estavam a acotovelar... imagine-se. E eu que estava desejoso por me enlatar com aquela massa humana.
Lá fiquei sossegadinho na estação, esperando o próximo. A certa altura, apareceu um elefante e um tigre fugidos do Jardim Zoológico, foi um pandemónio. Só faltavam os macacos e o os trapezistas do circo Chen para compor o ramalhete.
Entrei no metro e descobri que este ia em sentido contrário, só parou na Amadora.
Voltei e, ao descer a Rua de S. Bento, fui assaltado por 3 velhinhas que queriam trocos para a aspirina. Assalto à mão armada, usavam a seringa dos diabetes.
Na porta do Edificio, o polícia não me quis deixar entrar, disse que já estava cheio demais, que as pessoas se estavam a acotovelar. Esta cena não me é estranha...
Chego ao gabinete e dou com o grande chefe constipado e de mau humor.
Enfim, uma manhã de segunda feira perfeitamente normal.
4.11.04
#3
[Velocidade pessoal]
Um filme com ritmo, grão e substância. Gostei de o ver.
Três mulheres muito diferentes decidem mudar as suas vidas e buscam uma nova esperança. Delia foge de um marido que abusa dela. Greta arrisca tudo numa nova carreira. E Paula desperta após um acidente trágico. Mas será que elas estão mesmo dispostas a arriscar uma nova vida ou estão apenas a cometer novamente os mesmos erros do passado?
in Cinecartaz
[Velocidade pessoal]
Um filme com ritmo, grão e substância. Gostei de o ver.
Três mulheres muito diferentes decidem mudar as suas vidas e buscam uma nova esperança. Delia foge de um marido que abusa dela. Greta arrisca tudo numa nova carreira. E Paula desperta após um acidente trágico. Mas será que elas estão mesmo dispostas a arriscar uma nova vida ou estão apenas a cometer novamente os mesmos erros do passado?
in Cinecartaz
3.11.04
#3
[Se uma borboleta...]
A Teoria Matemática do Caos defende que, qualquer caos contem em si uma ordem, que gera a sua tendencial organização.
Um dos exemplos mais conhecidos desta teoria é o de que se uma borboleta bater as asas em Pequim, irá provocar um Tornado em Washington, pela simples razão de ter dado início a uma sequência de acontecimentos, que nem têm de estar ligados entre si.
Hoje, ao ver o telejornal, lembrei-me desta teoria e encontrei explicação para esta energia sem nome que, nos últimos dias, me tem atravessado: na Islância, há um vulcão que entrou em erupção.
[Se uma borboleta...]
A Teoria Matemática do Caos defende que, qualquer caos contem em si uma ordem, que gera a sua tendencial organização.
Um dos exemplos mais conhecidos desta teoria é o de que se uma borboleta bater as asas em Pequim, irá provocar um Tornado em Washington, pela simples razão de ter dado início a uma sequência de acontecimentos, que nem têm de estar ligados entre si.
Hoje, ao ver o telejornal, lembrei-me desta teoria e encontrei explicação para esta energia sem nome que, nos últimos dias, me tem atravessado: na Islância, há um vulcão que entrou em erupção.
#2
[Leituras pela manhã]
A minha sala de leitura itinerante favorita é o comboio, especialmente o da linha de Sintra.
Hoje de manhã, a míuda que estava sentada na minha frente lia o código da estrada, talvez antevendo as contra-ordenações que irá cometer em breve. Eu estava entregue a algo muito mais interessante: o livro de instruções do frigorifico. Deviamos estar na carruagem técnica.
[Leituras pela manhã]
A minha sala de leitura itinerante favorita é o comboio, especialmente o da linha de Sintra.
Hoje de manhã, a míuda que estava sentada na minha frente lia o código da estrada, talvez antevendo as contra-ordenações que irá cometer em breve. Eu estava entregue a algo muito mais interessante: o livro de instruções do frigorifico. Deviamos estar na carruagem técnica.
2.11.04
#5
[absolvida]
Uma miúda. 17 anos, a morar num barraco, trabalhadora estudante.
Vacilou, mas tomou uma das decisões mais dificeis da sua vida.
Um enfermeiro - com letra pequena, porque @s com letra grande são solidári@s com o sofrimento- que faz uma denuncia, pondo as suas convicções morais acima do direito à privacidade, acima do dever ético do segredo profissional. Para nada, o aborto estava consumado. Ou talvez quisesse ver a míuda na cadeia, há muita gente assim.
Um país que se recusa a encarar a realidade e o drama do aborto clandestino, insistindo em perpetuar a falta de educação sexual e o direito de escolha de cada uma e cada um ao seu corpo.
Um julgamento aplaudido por muit@s, e uma absolvição que, apesar de ser a unica saída decente, não apaga a humilhação e a vergonha publica.
Estive, mais uma vez, à porta do tribunal. Voltarei a estar enquanto outros casos forem julgados, enquanto esta lei medieval não for alterada.
Tenho vergonha deste país e também daquele individuo que, acaso da vida, tem o mesmo curso que eu.
[absolvida]
Uma miúda. 17 anos, a morar num barraco, trabalhadora estudante.
Vacilou, mas tomou uma das decisões mais dificeis da sua vida.
Um enfermeiro - com letra pequena, porque @s com letra grande são solidári@s com o sofrimento- que faz uma denuncia, pondo as suas convicções morais acima do direito à privacidade, acima do dever ético do segredo profissional. Para nada, o aborto estava consumado. Ou talvez quisesse ver a míuda na cadeia, há muita gente assim.
Um país que se recusa a encarar a realidade e o drama do aborto clandestino, insistindo em perpetuar a falta de educação sexual e o direito de escolha de cada uma e cada um ao seu corpo.
Um julgamento aplaudido por muit@s, e uma absolvição que, apesar de ser a unica saída decente, não apaga a humilhação e a vergonha publica.
Estive, mais uma vez, à porta do tribunal. Voltarei a estar enquanto outros casos forem julgados, enquanto esta lei medieval não for alterada.
Tenho vergonha deste país e também daquele individuo que, acaso da vida, tem o mesmo curso que eu.
#4
[Uruguay à esquerda]
A vitória da Esquerda no Uruguay amplia as perspectivas que se têm vindo a abrir no sul da américa, esse quase continente devassado por séculos de imperialismo selvagem.
Trinta e um anos depois do esmagamento da Frente Popular de Allende e do sonho do povo chileno, algo parece estar a mudar: Brasil, Argentina, Venezuela, Chile, Uruguay... apesar de alguma frouxidão face às grandes intituições monetárias e às exigencias das multinacionais, estes países têm governos com argumentos e legitimidade para que a bandeira da dignidade e da justiça seja levantada bem alta, em nome dessa enorme massa de gente que nada tem.
Assim o queiram fazer.
Deixo-vos um artigo excelente, do sempre atento Eduardo Galeano, publicado no La Jornada de ontem.
*******************
Águas de Outubro
por Eduardo Galeano
Um par de dias antes de que no norte da América se elegesse o presidente do planeta, no sul da América houve eleições e houve plebiscito num país ignorado, um país secreto, chamado Uruguai. Nessas eleições ganhou a esquerda, pela primeira vez na história nacional, e neste plebiscito, pela primeira vez na história mundial, o voto popular opôs-se à privatização da água e confirmou que a água é um direito de todos.
***
O movimento encabeçado por Tabaré Vázquez acabou com o monopólio compartilhado dos partidos tradicionais, que vinham governando o Uruguai desde das origens do universo. —Eu acreditava que haviam ganho os blanco, mas ganharam os colorados — ouvia-se dizer, assim ou o inverso, em cada eleição. Por oportunismo, sim, mas também porque depois, de tanto cogovernar, se haviam convertido num partido único disfarçado de dois. Farta de ser burlada, as pessoas fizeram uso do pouco usado senso comum. Perguntaram-se as pessoas: Por que prometem mudanças e mais uma vez convidam-nos a escolher entre o mesmo e o mesmo? Por que não fizeram essas mudanças se estão há uma eternidade no governo? O vice-presidente do país chegou à conclusão de que este povo perguntão não é inteligente. Nunca se tornara tão evidente o abismo que separava o país real dos discursos caça-votos. No país real, país ferido, onde só se multiplicam os emigrantes e os mendigos, a maioria optou por tapar os ouvidos perante as discursatas destes marcianos a competirem pelo governo do Júpiter com altissonantes palavras vindas da Lua. Nenhum dos donos do poder teve a honestidade confessar: —Estamos todos fodidos. Há trinta e tantos anos brotou a Frente Ampla nestas planícies do sul. "Irmão, não te vás", exortava o novo movimento. "Nasceu uma esperança". Mas a crise foi mais veloz do que essa esperança e acelerou a hemorragia de população que esvaziou o país de jovens. No fim do sonho da Suíça da América começava o pesadelo da pobreza e da violência. A espiral da violência culminou na ditadura militar, que converteu o Uruguai numa vasta câmara de torturas. Depois, quando voltou a democracia, os políticos dominantes exterminaram o pouco que restava do sistema produtivo e converteram o Uruguai num grande banco. O banco quebrou, como costuma acontecer com os bancos quando os banqueiros os assaltam, e ficámos cheios de dívidas e vazios de gente. Agora até os dentistas se queixam: "Pouquinha gente, pouquinhos dentes". Em todos esses anos, de desastre em desastre, perdemos uma multidão. Os jovens são os que mais foram, para procurar trabalho em outras terras, sob outros céus. E para mais vergonha, não contentes em expulsar os rapazes, este sistema esclerótico proíbe-os de votar. O Uruguai é um dos poucos países em que não podem votar os que vivem no estrangeiro, nem nos consulados nem pelo correio. Parece inexplicável, mas tem explicação. Em quem votariam esses votos? Os donos do país suspeitavam o pior. Têm razão.
***
No acto final da sua campanha, o candidato à vice-presidência pelo Partido Colorado anunciou que se a esquerda ganhasse as eleições todos os uruguaios seriam obrigados a vestir igual, como os chineses na China de Mao.
***
Ele foi mais um entre os muitos involuntários agentes da esquerda triunfante. Nem o mais sacrificado dos militantes fez tanto pela vitória como os tribunos da pátria que alertaram a população contra o iminente perigo de que a democracia caísse em mãos de tiranos inimigos da liberdade e delinquentes inimigos da democracia, terroristas, sequestradores e assassinos. Foram denúncias de grande eficácia: quanto mais atacavam os diabos, mais votos somava o inferno. Em grande medida, graças as esses arautos do apocalipse e ao seu verbo trovejante, a esquerda conseguiu ganhar, na primeira volta, por maioria absoluta. A gente votou contra o medo.
***
Também o plebiscito da água foi uma vitória contra o medo. A opinião pública uruguaia sofreu um bombardeio de extorsões, ameaças e mentiras. Ao votar contra a privatização da água íamos sofrer a solidão e o castigo e íamos condenar-nos a um porvir de poços negros e charcos fedorentos Tal como nas eleições, no plebiscito venceu o senso comum. As pessoas votaram confirmando que a água, recurso natural escasso e finito, deve ser um direito de todos e não um privilégio daqueles que podem pagá-lo. E as pessoas confirmaram, também, que não se chupa o dedo e sabem que mais cedo do que tarde, num mundo sedento, as reservas de água serão tanto ou mais cobiçadas do que as reservas de petróleo. Os países pobres, mas ricos em água, têm que aprender a defender-se. Mais de cinco séculos se passaram desde Colombo. Até quando continuaremos a trocar ouro por espelhinhos? Não valeria a pena que outros países submetessem o tema da água ao voto popular? Numa democracia, quando é verdadeira, quem deve decidir? O Banco Mundial ou os cidadãos de cada país? Os direitos democráticos existem deveras, ou são as cerejas que decoram um bolo envenenado? Uns anos antes, em 1992, também o Uruguai fora o único país do mundo que submetera a plebiscito a privatização das empresas públicas. Setenta e dois por cento votaram contra. Não seria democrático plebiscitar as privatizações em toda a parte, tendo em conta que comprometem o destino de várias gerações?
***
Nós, os latino-americanos, fomos educados, há séculos, para a impotência. Uma pedagogia que vem desde os tempos coloniais, ensinada por militares violentos, doutores pusilânimes e frades fatalistas, enfiou-nos na alma a certeza de que a realidade é intocável e não temos outro remédio senão tragar no silêncio os sapos nossos de cada dia. O Uruguai de outros tempos fora uma excepção. Contra a herança do não é possível e do não se pode, e contra o costume de confundir o realismo com a obediência e a traição, este país soube ter educação laica e gratuita antes da Inglaterra, voto feminino antes da França, jornada de trabalho de oito horas antes dos Estados e divórcio antes da Espanha (70 anos antes da Espanha, para sermos exactos). Agora estamos começando a recuperar aquela energia criadora, que parecia perdida na longa noite da nostalgia. E não seria mau ter muito em conta que aquele Uruguai dos tempos fecundos foi filho da audácia, não do medo.
***
Fácil não será. A implacável realidade não demorará a recordar-nos a inevitável distância que separa o que se quer do que se pode. A esquerda chega ao governo num país roto, que em tempos muito passados esteve na vanguarda do progresso universal e hoje faz fila entre os de mais detrás, um país fundido, endividado até os cabelos e submetido à ditadura financeira internacional, que não vota mas veta. Temos uma reduzida margem de manobra e de movimento. Mas o que na solução é difícil, e até impossível, pode ser imaginado, e até realizado, se nos juntarmos com os países vizinhos como fomos capazes de juntar-nos com os vizinhos do bairro.
***
Na primeira manifestação da história da Frente Ampla, que lançou um rio de gente nas ruas, alguém havia gritado, entre assustado e feliz, a partir da multidão: —Corremos o risco de ganhar! Trinta e tantos anos depois, aconteceu. Este país está irreconhecível. Do foi ao é, do é ao será: as pessoas, que andavam tão descrentes que já nem no niilismo acreditavam, voltaram a crer, e crêem com gana. Os uruguaios, melancólicos, parados, que à primeira vez parecem argentinos com valium, andam a bailar no ar. Tremenda responsabilidade para os triunfadores. Para aqueles que foram votados, e para aqueles que os votaram. Haverá que cuidar, como a folha que cuida do fruto, este renascimento da fé, esta refundação da alegria. E recordar a cada dia quanta razão tinha don Carlos Quijano quando dizia que os pecados contra a esperança são os únicos que não têm perdão nem redenção.
[Uruguay à esquerda]
A vitória da Esquerda no Uruguay amplia as perspectivas que se têm vindo a abrir no sul da américa, esse quase continente devassado por séculos de imperialismo selvagem.
Trinta e um anos depois do esmagamento da Frente Popular de Allende e do sonho do povo chileno, algo parece estar a mudar: Brasil, Argentina, Venezuela, Chile, Uruguay... apesar de alguma frouxidão face às grandes intituições monetárias e às exigencias das multinacionais, estes países têm governos com argumentos e legitimidade para que a bandeira da dignidade e da justiça seja levantada bem alta, em nome dessa enorme massa de gente que nada tem.
Assim o queiram fazer.
Deixo-vos um artigo excelente, do sempre atento Eduardo Galeano, publicado no La Jornada de ontem.
*******************
Águas de Outubro
por Eduardo Galeano
Um par de dias antes de que no norte da América se elegesse o presidente do planeta, no sul da América houve eleições e houve plebiscito num país ignorado, um país secreto, chamado Uruguai. Nessas eleições ganhou a esquerda, pela primeira vez na história nacional, e neste plebiscito, pela primeira vez na história mundial, o voto popular opôs-se à privatização da água e confirmou que a água é um direito de todos.
***
O movimento encabeçado por Tabaré Vázquez acabou com o monopólio compartilhado dos partidos tradicionais, que vinham governando o Uruguai desde das origens do universo. —Eu acreditava que haviam ganho os blanco, mas ganharam os colorados — ouvia-se dizer, assim ou o inverso, em cada eleição. Por oportunismo, sim, mas também porque depois, de tanto cogovernar, se haviam convertido num partido único disfarçado de dois. Farta de ser burlada, as pessoas fizeram uso do pouco usado senso comum. Perguntaram-se as pessoas: Por que prometem mudanças e mais uma vez convidam-nos a escolher entre o mesmo e o mesmo? Por que não fizeram essas mudanças se estão há uma eternidade no governo? O vice-presidente do país chegou à conclusão de que este povo perguntão não é inteligente. Nunca se tornara tão evidente o abismo que separava o país real dos discursos caça-votos. No país real, país ferido, onde só se multiplicam os emigrantes e os mendigos, a maioria optou por tapar os ouvidos perante as discursatas destes marcianos a competirem pelo governo do Júpiter com altissonantes palavras vindas da Lua. Nenhum dos donos do poder teve a honestidade confessar: —Estamos todos fodidos. Há trinta e tantos anos brotou a Frente Ampla nestas planícies do sul. "Irmão, não te vás", exortava o novo movimento. "Nasceu uma esperança". Mas a crise foi mais veloz do que essa esperança e acelerou a hemorragia de população que esvaziou o país de jovens. No fim do sonho da Suíça da América começava o pesadelo da pobreza e da violência. A espiral da violência culminou na ditadura militar, que converteu o Uruguai numa vasta câmara de torturas. Depois, quando voltou a democracia, os políticos dominantes exterminaram o pouco que restava do sistema produtivo e converteram o Uruguai num grande banco. O banco quebrou, como costuma acontecer com os bancos quando os banqueiros os assaltam, e ficámos cheios de dívidas e vazios de gente. Agora até os dentistas se queixam: "Pouquinha gente, pouquinhos dentes". Em todos esses anos, de desastre em desastre, perdemos uma multidão. Os jovens são os que mais foram, para procurar trabalho em outras terras, sob outros céus. E para mais vergonha, não contentes em expulsar os rapazes, este sistema esclerótico proíbe-os de votar. O Uruguai é um dos poucos países em que não podem votar os que vivem no estrangeiro, nem nos consulados nem pelo correio. Parece inexplicável, mas tem explicação. Em quem votariam esses votos? Os donos do país suspeitavam o pior. Têm razão.
***
No acto final da sua campanha, o candidato à vice-presidência pelo Partido Colorado anunciou que se a esquerda ganhasse as eleições todos os uruguaios seriam obrigados a vestir igual, como os chineses na China de Mao.
***
Ele foi mais um entre os muitos involuntários agentes da esquerda triunfante. Nem o mais sacrificado dos militantes fez tanto pela vitória como os tribunos da pátria que alertaram a população contra o iminente perigo de que a democracia caísse em mãos de tiranos inimigos da liberdade e delinquentes inimigos da democracia, terroristas, sequestradores e assassinos. Foram denúncias de grande eficácia: quanto mais atacavam os diabos, mais votos somava o inferno. Em grande medida, graças as esses arautos do apocalipse e ao seu verbo trovejante, a esquerda conseguiu ganhar, na primeira volta, por maioria absoluta. A gente votou contra o medo.
***
Também o plebiscito da água foi uma vitória contra o medo. A opinião pública uruguaia sofreu um bombardeio de extorsões, ameaças e mentiras. Ao votar contra a privatização da água íamos sofrer a solidão e o castigo e íamos condenar-nos a um porvir de poços negros e charcos fedorentos Tal como nas eleições, no plebiscito venceu o senso comum. As pessoas votaram confirmando que a água, recurso natural escasso e finito, deve ser um direito de todos e não um privilégio daqueles que podem pagá-lo. E as pessoas confirmaram, também, que não se chupa o dedo e sabem que mais cedo do que tarde, num mundo sedento, as reservas de água serão tanto ou mais cobiçadas do que as reservas de petróleo. Os países pobres, mas ricos em água, têm que aprender a defender-se. Mais de cinco séculos se passaram desde Colombo. Até quando continuaremos a trocar ouro por espelhinhos? Não valeria a pena que outros países submetessem o tema da água ao voto popular? Numa democracia, quando é verdadeira, quem deve decidir? O Banco Mundial ou os cidadãos de cada país? Os direitos democráticos existem deveras, ou são as cerejas que decoram um bolo envenenado? Uns anos antes, em 1992, também o Uruguai fora o único país do mundo que submetera a plebiscito a privatização das empresas públicas. Setenta e dois por cento votaram contra. Não seria democrático plebiscitar as privatizações em toda a parte, tendo em conta que comprometem o destino de várias gerações?
***
Nós, os latino-americanos, fomos educados, há séculos, para a impotência. Uma pedagogia que vem desde os tempos coloniais, ensinada por militares violentos, doutores pusilânimes e frades fatalistas, enfiou-nos na alma a certeza de que a realidade é intocável e não temos outro remédio senão tragar no silêncio os sapos nossos de cada dia. O Uruguai de outros tempos fora uma excepção. Contra a herança do não é possível e do não se pode, e contra o costume de confundir o realismo com a obediência e a traição, este país soube ter educação laica e gratuita antes da Inglaterra, voto feminino antes da França, jornada de trabalho de oito horas antes dos Estados e divórcio antes da Espanha (70 anos antes da Espanha, para sermos exactos). Agora estamos começando a recuperar aquela energia criadora, que parecia perdida na longa noite da nostalgia. E não seria mau ter muito em conta que aquele Uruguai dos tempos fecundos foi filho da audácia, não do medo.
***
Fácil não será. A implacável realidade não demorará a recordar-nos a inevitável distância que separa o que se quer do que se pode. A esquerda chega ao governo num país roto, que em tempos muito passados esteve na vanguarda do progresso universal e hoje faz fila entre os de mais detrás, um país fundido, endividado até os cabelos e submetido à ditadura financeira internacional, que não vota mas veta. Temos uma reduzida margem de manobra e de movimento. Mas o que na solução é difícil, e até impossível, pode ser imaginado, e até realizado, se nos juntarmos com os países vizinhos como fomos capazes de juntar-nos com os vizinhos do bairro.
***
Na primeira manifestação da história da Frente Ampla, que lançou um rio de gente nas ruas, alguém havia gritado, entre assustado e feliz, a partir da multidão: —Corremos o risco de ganhar! Trinta e tantos anos depois, aconteceu. Este país está irreconhecível. Do foi ao é, do é ao será: as pessoas, que andavam tão descrentes que já nem no niilismo acreditavam, voltaram a crer, e crêem com gana. Os uruguaios, melancólicos, parados, que à primeira vez parecem argentinos com valium, andam a bailar no ar. Tremenda responsabilidade para os triunfadores. Para aqueles que foram votados, e para aqueles que os votaram. Haverá que cuidar, como a folha que cuida do fruto, este renascimento da fé, esta refundação da alegria. E recordar a cada dia quanta razão tinha don Carlos Quijano quando dizia que os pecados contra a esperança são os únicos que não têm perdão nem redenção.
#3
[mudanças]
Já instalei os CD's e já levei os livros de poesia para lá. Ontem, depois duma épica descida de um terceiro andar, com uma conversa sobre marx à mistura, instalei os sofás.
Neste momento a casa de banho e a sala estão minimamente habitáveis. Amanhã chegarão o frigorifico e a cama. Depois disso assento arraiais.
É a primeria vez que faço uma mudança, em causa própria, ou para casa própria. É um processo rico em coisas para pensar. A ocupação e humanização do espaço transforma-se, a pouco e pouco, numa viagem interior sem paralelos.
[mudanças]
Já instalei os CD's e já levei os livros de poesia para lá. Ontem, depois duma épica descida de um terceiro andar, com uma conversa sobre marx à mistura, instalei os sofás.
Neste momento a casa de banho e a sala estão minimamente habitáveis. Amanhã chegarão o frigorifico e a cama. Depois disso assento arraiais.
É a primeria vez que faço uma mudança, em causa própria, ou para casa própria. É um processo rico em coisas para pensar. A ocupação e humanização do espaço transforma-se, a pouco e pouco, numa viagem interior sem paralelos.
#1
[fotografias]
Sim, é verdade, eu gosto de fotografar janelas, o pôr do sol, o mar, os rios e as pontes... algum problema?
[fotografias]
Sim, é verdade, eu gosto de fotografar janelas, o pôr do sol, o mar, os rios e as pontes... algum problema?
30.10.04
#3
[paisagem onírica]
A luz, quase perfeita, desenrola perante mim uma cidade diferente da Lisboa de todos os dias.
Entre sacos de hortaliça, o cheiro das últimas sardinhas e os negócios de ocasião, vou-me cruzando com turistas e exploradores, com pesquisadores de alquimias mulitiplas e viajantes, com amantes resplandecentes, com gente feita de tanta coisa.
Ninguém me vê, estou como que rarefeito. Deixo-me vaguear pelos recantos de cada beco, em cada esquina, pelas mesas de café, nas cores quentes das buganvílias e dos ibiscos, nos ramos nús das árvores. Repouso sentado no tejadilho do eléctrico, enquanto passo a mão e afago, distraidamente, a linha do horizonte.
Sem palavras, percorro o espaço entre as gotas da chuva, deixando que o ar frio me acaricie. Experimento a vertigem de ir de mãos dadas com a plenitude.
Por vezes acordamos meio perdidos em nós, mas com a certeza de que os sonhos estão dispostos à maior de todas as transgressões: enfrentar o dia e não ir embora.
[paisagem onírica]
A luz, quase perfeita, desenrola perante mim uma cidade diferente da Lisboa de todos os dias.
Entre sacos de hortaliça, o cheiro das últimas sardinhas e os negócios de ocasião, vou-me cruzando com turistas e exploradores, com pesquisadores de alquimias mulitiplas e viajantes, com amantes resplandecentes, com gente feita de tanta coisa.
Ninguém me vê, estou como que rarefeito. Deixo-me vaguear pelos recantos de cada beco, em cada esquina, pelas mesas de café, nas cores quentes das buganvílias e dos ibiscos, nos ramos nús das árvores. Repouso sentado no tejadilho do eléctrico, enquanto passo a mão e afago, distraidamente, a linha do horizonte.
Sem palavras, percorro o espaço entre as gotas da chuva, deixando que o ar frio me acaricie. Experimento a vertigem de ir de mãos dadas com a plenitude.
Por vezes acordamos meio perdidos em nós, mas com a certeza de que os sonhos estão dispostos à maior de todas as transgressões: enfrentar o dia e não ir embora.
#2
[da Irlanda]
An Irish Airman Foresees his Death
I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
William B. Yeats
[da Irlanda]
An Irish Airman Foresees his Death
I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
William B. Yeats
29.10.04
Há uma semana, nesta mesma cadeira, decidi suspender o metrografismos. Uma decisão motivada por uma conjuntura muito própria. Não foi uma desistencia, mas sim uma pausa para respirar fundo.
Fiz-me sempre do outro lado da barricada, a remar contra a maré, numa vontade obstinada por mais, muito mais. É aí que me situo, e não troco esse desconforto por nada. Por isso, hoje ensaio o regresso.
Ensaio um regresso porque sinto a falta deste espaço, porque muit@s me fizeram ver que ele não é importante só para mim. O Metrografismos é, também por isto, cada vez mais vosso... vocês sabem de quem estou a falar.
Não sei bem o que escrever, se tenho algo para dar, mas o impulso é mais forte do que a vontade de ficar fechado sobre mim mesmo.
Continuo a sentir-me com as mãos e as ideias presas, com vontade de gritar contra o vento, não sei o que dizer, mas digo. alguma coisa se arranjará.
Há que quebrar a janela de emergência em vez de ficar à espera.
A luta segue dentro de momentos, ou, como cantam os Ornatos, parto rumo à maravilha.
25.10.04
22.10.04
#1
[impasse]
I wish i could say everything there was to say in one word
Leonard Cohen, in The favorite game
Aqui estou, defronte das teclas, sem saber o que escrever.
Estou cansado de não ter nada para dizer. Cansado de ter coisas fechadas em mim e não saber como dize-las, como traze-las para a luz do dia.
Sinto-me bloqueado em mim, por um estar, por uma turbolência interior que me atormenta, que me corta a criatividade, que me tira o sono e me deixa sem vontade de comer.
Há uma ideia que me amadurece no pensamento. Não é de hoje nem de ontem, mas tem vindo a ganhar espaço nos últimos dias. É a de que, aqui e agora, nada tenho para dar.
Por isso, decidi suspender a publicação do metrografismos.
Até ver.
[impasse]
I wish i could say everything there was to say in one word
Leonard Cohen, in The favorite game
Aqui estou, defronte das teclas, sem saber o que escrever.
Estou cansado de não ter nada para dizer. Cansado de ter coisas fechadas em mim e não saber como dize-las, como traze-las para a luz do dia.
Sinto-me bloqueado em mim, por um estar, por uma turbolência interior que me atormenta, que me corta a criatividade, que me tira o sono e me deixa sem vontade de comer.
Há uma ideia que me amadurece no pensamento. Não é de hoje nem de ontem, mas tem vindo a ganhar espaço nos últimos dias. É a de que, aqui e agora, nada tenho para dar.
Por isso, decidi suspender a publicação do metrografismos.
Até ver.
21.10.04
20.10.04
19.10.04
18.10.04
#1
[encontros]
Na sexta feira, exortando aos crocodilos alguam boa disposição, fui ver Before Sunset, a sequela de Before Sunrise.
É um filme simples, quase banal, mas guarda em si algo que, como alguém dizia, nos faz desejar. Desejar um encontro inesperado, desejar um amor impossivel ou o impossivel do amor, desejar ser outro noutro lugar, viver a vida dos caminhos que se deixaram de lado... faz-nos desejar o risco, a vertigem, a crista da montanha (onde o vento bate dos dois lados).
É um filme que, a meu ver, evoca aquilo a que Agostinho da Silva chamou saudades do futuro, pondo em evidência que os encontros acontecem, que a vida é um jogo de possibilidades que se abrem a cada momento, pelo que é para ser jogada, mesmo que seja para perder.
Deixo-vos a crónica que Eduardo Prado Coelho escreve sobre Before Sunset, hoje, no público.
****
Alguém Duas Vezes
Eduardo Prado Coelho
Público, 18 de Outubro de 2004
Como é bom navegarmos no romantismo como quem toma o "bateau mouche" para percorrer o Sena e se propõe ser um turista da existência
É um filme onde se entra como quem desliza: tudo é previsível, nada deixa de nos surpreender, apenas porque o previsível acontece. Mas o previsível não é de modo algum uma debilidade do argumento. É uma espécie de metafísica, a metafísica envolvente e consoladora a que chamamos "romantismo". Como é bom navegarmos no romantismo como quem toma o "bateau mouche" para percorrer o Sena e se propõe ser um turista da existência! É exactamente assim que este filme faz: "Antes do anoitecer", obra de Richard Linklater, com Julie Delpy (que é o centro irradiante da obra) e Ethan Hawke.
Se o filme é encantadoramente previsível, repito, é porque vai ao encontro daquilo que é em nós a mais ingénua das convicções: o amor tem de acontecer. De certo modo, nesta deambulação por Paris, com cafés, jardins, barcos, traseiras de prédios, só acontece a iminência do acontecer: entre o medo e o pudor, as palavras da paixão terão de explodir. Como tudo é feito de uma elegância ardilosa, é ainda em termos de uma retórica do não-dito que o amor se enuncia: vais perder o avião, 'baby'; já sei. Todo o filme vive neste fio de um tempo de maturação dos sentimentos, sendo o tempo o verdadeiro protagonista, porque é ele que trabalha na transformação da situação.
Há ainda uma outra vertente que nos seduz: tudo acontece duas vezes, e, ao contrário do que quase todos pensam, a segunda não degrada a primeira, mas corrige a primeira. Embora um jogo de dissimulações e fintas verbais vá criando a leve coreografia das mentiras tão óbvias que são apenas a forma mais enternecida e inclinada de dizer a verdade. Tudo bem? Ah, sim, tudo bem. Quer dizer que falhaste a tua história amorosa, que não és feliz, que tendo escolhido acabaste por escolher o que não querias. E o filme fala, fala, fala, nunca se cala, tem um tempo a preencher, tem um não-dito a dizer, é um longo diálogo em tempo real, teria tudo para nos entediar, é o contrário de um filme de acção, e no entanto vai tecendo à nossa volta um fio de deslumbramento (ligado à beleza mítica de uma cidade, Paris, o amor nas ruas, o amor dos lugares, a cumplicidade dos cafés que não há e mais sítio algum).
O romanesco está na livraria mágica e mil vezes celebrada onde o reencontro se faz: "Shakespeare and Company". Continua nas ruelas de Saint-Michel, sobe pelos jardins, desce até ao rio, passa por debaixo das pontes, e dois seres avançam um para o outro no interior de si mesmos, criando a disponibilidade para amar. O filme consegue que lugares, objectos e palavras, formem um tecido passional discreto e oblíquo. Nesse plano a construção do espaço é extremamente bem conseguida e poderíamos dizer, citando o poeta, que o amor é a ocupação do espaço. De tal forma que um disco ou uma frase tornam-se metonímia de um breve encontro que lentamente se prepara para afrontar a prova mais difícil: o quotidiano.
Há um momento admirável: os dois sobem a escada do apartamento de Julie e o tempo de cada degrau é o tempo da própria imagem filmada: estabelece-se um silêncio, que é a palavra no esplendor tácito da sua rasura branca.
[encontros]
Na sexta feira, exortando aos crocodilos alguam boa disposição, fui ver Before Sunset, a sequela de Before Sunrise.
É um filme simples, quase banal, mas guarda em si algo que, como alguém dizia, nos faz desejar. Desejar um encontro inesperado, desejar um amor impossivel ou o impossivel do amor, desejar ser outro noutro lugar, viver a vida dos caminhos que se deixaram de lado... faz-nos desejar o risco, a vertigem, a crista da montanha (onde o vento bate dos dois lados).
É um filme que, a meu ver, evoca aquilo a que Agostinho da Silva chamou saudades do futuro, pondo em evidência que os encontros acontecem, que a vida é um jogo de possibilidades que se abrem a cada momento, pelo que é para ser jogada, mesmo que seja para perder.
Deixo-vos a crónica que Eduardo Prado Coelho escreve sobre Before Sunset, hoje, no público.
****
Alguém Duas Vezes
Eduardo Prado Coelho
Público, 18 de Outubro de 2004
Como é bom navegarmos no romantismo como quem toma o "bateau mouche" para percorrer o Sena e se propõe ser um turista da existência
É um filme onde se entra como quem desliza: tudo é previsível, nada deixa de nos surpreender, apenas porque o previsível acontece. Mas o previsível não é de modo algum uma debilidade do argumento. É uma espécie de metafísica, a metafísica envolvente e consoladora a que chamamos "romantismo". Como é bom navegarmos no romantismo como quem toma o "bateau mouche" para percorrer o Sena e se propõe ser um turista da existência! É exactamente assim que este filme faz: "Antes do anoitecer", obra de Richard Linklater, com Julie Delpy (que é o centro irradiante da obra) e Ethan Hawke.
Se o filme é encantadoramente previsível, repito, é porque vai ao encontro daquilo que é em nós a mais ingénua das convicções: o amor tem de acontecer. De certo modo, nesta deambulação por Paris, com cafés, jardins, barcos, traseiras de prédios, só acontece a iminência do acontecer: entre o medo e o pudor, as palavras da paixão terão de explodir. Como tudo é feito de uma elegância ardilosa, é ainda em termos de uma retórica do não-dito que o amor se enuncia: vais perder o avião, 'baby'; já sei. Todo o filme vive neste fio de um tempo de maturação dos sentimentos, sendo o tempo o verdadeiro protagonista, porque é ele que trabalha na transformação da situação.
Há ainda uma outra vertente que nos seduz: tudo acontece duas vezes, e, ao contrário do que quase todos pensam, a segunda não degrada a primeira, mas corrige a primeira. Embora um jogo de dissimulações e fintas verbais vá criando a leve coreografia das mentiras tão óbvias que são apenas a forma mais enternecida e inclinada de dizer a verdade. Tudo bem? Ah, sim, tudo bem. Quer dizer que falhaste a tua história amorosa, que não és feliz, que tendo escolhido acabaste por escolher o que não querias. E o filme fala, fala, fala, nunca se cala, tem um tempo a preencher, tem um não-dito a dizer, é um longo diálogo em tempo real, teria tudo para nos entediar, é o contrário de um filme de acção, e no entanto vai tecendo à nossa volta um fio de deslumbramento (ligado à beleza mítica de uma cidade, Paris, o amor nas ruas, o amor dos lugares, a cumplicidade dos cafés que não há e mais sítio algum).
O romanesco está na livraria mágica e mil vezes celebrada onde o reencontro se faz: "Shakespeare and Company". Continua nas ruelas de Saint-Michel, sobe pelos jardins, desce até ao rio, passa por debaixo das pontes, e dois seres avançam um para o outro no interior de si mesmos, criando a disponibilidade para amar. O filme consegue que lugares, objectos e palavras, formem um tecido passional discreto e oblíquo. Nesse plano a construção do espaço é extremamente bem conseguida e poderíamos dizer, citando o poeta, que o amor é a ocupação do espaço. De tal forma que um disco ou uma frase tornam-se metonímia de um breve encontro que lentamente se prepara para afrontar a prova mais difícil: o quotidiano.
Há um momento admirável: os dois sobem a escada do apartamento de Julie e o tempo de cada degrau é o tempo da própria imagem filmada: estabelece-se um silêncio, que é a palavra no esplendor tácito da sua rasura branca.
17.10.04
#1
[Ponderosa]
Era domingo, o primeiro, de tantos, passado em Inter Rail.
A manhã crescia e eu estava sentado no chão de uma praça em Antuérpia. Nessa noite morrera uma rapariga famosa, com nome de deusa, mas eu ainda não sabia de nada.
Uma orquestra dava o acorde. Fazia calor. Num talão do Multibanco, alinhei algumas palavras que me perseguiam desde Paris... palavras que falavam de um homem que, apesar das voltas do mundo, continuava a ser, na minha cabeça, apenas um homem. Sonhador e, por isso, destemido.
Guardei as palavras no bolso. Mais tarde dei-lhes forma e mais substrato. Continuavam a falar de um homem, de um tal Ernesto, uma sombra que me acompanhou, uma ideia que me acompanha...
Foi um texto que amadureceu e ganhou forma, e, por isso, quase me valeu uma tareia de uns PCs ortodoxos... porque contava a história de outra forma e se atrevia a olhar, mais do que para um mito intocável, para um homem, como tantos outros e tantas outras que conheço e conheci.
É um texto de que me orgulho.
Hoje, depois de uma ida ao cinema, lembrei-me do texto e do que me fez escreve-lo. Decidi postá-lo aqui. Mudei o nome que lhe dei na altura, mas as outras palavras, as que contam, estão lá todas.
GUEVARA
Trazes a boina inflamada pelo rubor da estrela
repleta de um ideal-neon
daquele que compra e vende almas com prazer desbarato.
Vives, ícone musical, dançando a tua memória,
mal liberta da arrogância do pó,
ao som de épicas canções revolucionárias
massivamente transaccionadas,
com os relógios que medem os nossos tempos
ou os isqueiros que acenderam o napalm num qualquer Vietname.
Amigos tens que, em públicos actos de fé desmedida,
prosseguem a tua beatificação
iniciada pelos realistas que nunca exigiram o impossível,
rumo a uma mítica banalidade que te transforma em mais um inofensivo
Marxista, Castrista, Estalinista ou Qualquer-Coisa-ista
em nome de um sonho que não é o teu.
E assim todos te admiram como o homem
que alimentou a fome romântica de um povo global
com travos de havano e atitudes imprevistas...
e há também aqueles que (por ilusão?)
partem de ti em busca da insubmissa força maestra,
serra de liberdade interior
onde o vítreo do teu olhar ainda ecoa puro
lembrando que só se é Homem
se se souber sê-lo.
André, 1997
[Ponderosa]
Era domingo, o primeiro, de tantos, passado em Inter Rail.
A manhã crescia e eu estava sentado no chão de uma praça em Antuérpia. Nessa noite morrera uma rapariga famosa, com nome de deusa, mas eu ainda não sabia de nada.
Uma orquestra dava o acorde. Fazia calor. Num talão do Multibanco, alinhei algumas palavras que me perseguiam desde Paris... palavras que falavam de um homem que, apesar das voltas do mundo, continuava a ser, na minha cabeça, apenas um homem. Sonhador e, por isso, destemido.
Guardei as palavras no bolso. Mais tarde dei-lhes forma e mais substrato. Continuavam a falar de um homem, de um tal Ernesto, uma sombra que me acompanhou, uma ideia que me acompanha...
Foi um texto que amadureceu e ganhou forma, e, por isso, quase me valeu uma tareia de uns PCs ortodoxos... porque contava a história de outra forma e se atrevia a olhar, mais do que para um mito intocável, para um homem, como tantos outros e tantas outras que conheço e conheci.
É um texto de que me orgulho.
Hoje, depois de uma ida ao cinema, lembrei-me do texto e do que me fez escreve-lo. Decidi postá-lo aqui. Mudei o nome que lhe dei na altura, mas as outras palavras, as que contam, estão lá todas.
GUEVARA
Trazes a boina inflamada pelo rubor da estrela
repleta de um ideal-neon
daquele que compra e vende almas com prazer desbarato.
Vives, ícone musical, dançando a tua memória,
mal liberta da arrogância do pó,
ao som de épicas canções revolucionárias
massivamente transaccionadas,
com os relógios que medem os nossos tempos
ou os isqueiros que acenderam o napalm num qualquer Vietname.
Amigos tens que, em públicos actos de fé desmedida,
prosseguem a tua beatificação
iniciada pelos realistas que nunca exigiram o impossível,
rumo a uma mítica banalidade que te transforma em mais um inofensivo
Marxista, Castrista, Estalinista ou Qualquer-Coisa-ista
em nome de um sonho que não é o teu.
E assim todos te admiram como o homem
que alimentou a fome romântica de um povo global
com travos de havano e atitudes imprevistas...
e há também aqueles que (por ilusão?)
partem de ti em busca da insubmissa força maestra,
serra de liberdade interior
onde o vítreo do teu olhar ainda ecoa puro
lembrando que só se é Homem
se se souber sê-lo.
André, 1997
15.10.04
#1
[exortação dos crocodilos]
A semanma da loucura a acabar, um cansaço extremo e o fim de semana à minha espera.
Depois de uma longa conversa com ela, pus-me às voltas com uma ideia, que se transformou numa questão complexa: o que ficará de nós próprios depois de uma tempestade?
e se lhe juntou outra, com direitos de autor: que farei eu quando tudo arde?
Vou ao cinema, esperando que a tela branca me ajude a dar passos no longo caminho das respostas.
[exortação dos crocodilos]
A semanma da loucura a acabar, um cansaço extremo e o fim de semana à minha espera.
Depois de uma longa conversa com ela, pus-me às voltas com uma ideia, que se transformou numa questão complexa: o que ficará de nós próprios depois de uma tempestade?
e se lhe juntou outra, com direitos de autor: que farei eu quando tudo arde?
Vou ao cinema, esperando que a tela branca me ajude a dar passos no longo caminho das respostas.
14.10.04
#1
[em resumo, é isto...]
A Privatização da Saúde
AMÍLCAR CORREIA
Editorial do Público
14 de Outubro de 2004
O Estado vai avançar já no próximo ano com a empresarialização de mais 30 hospitais do sector público administrativo (existem já 31 unidades de gestão de natureza privada), que poderão ser geridos por uma "holding" a criar em Janeiro de 2005. Tem sido dito até aqui que a lógica empresarial da gestão dos hospitais aumenta a produtividade e a eficácia e que não colide com a equidade de acesso aos cuidados de saúde e com a universalidade da sua cobertura. Mas sobrevivem ainda os receios de que a gestão obedeça, por exemplo, à "selecção das patologias de acordo com critérios financeiros", como fez questão de sublinhar Jorge Sampaio, na sua última presidência dedicada às questões de saúde.
A empresarialização surgiu da necessidade de aumentar a eficiência da gestão hospitalar no Serviço Nacional de Saúde, assolado pelos problemas crónicos de sempre: falta de profissionais, listas de espera descomunais e desperdícios de vária ordem. Em suma, da ingovernabilidade do sistema actual. No entanto, transformar mais hospitais em sociedades anónimas de capitais públicos soa um pouco precipitado quando é o próprio Rui Nunes, que preside à Entidade Reguladora de Saúde, quem reconhece a necessidade de estudos de várias entidades que avaliem qualidades e defeitos do modelo dos hospitais SA. Que sentido faz ampliar a experiência a praticamente todos os hospitais públicos sem se conhecer de antemão os resultados de uma avaliação esclarecedora e independente aos méritos do modelo? Ou trata-se apenas de um estratagema para cumprir o défice público de três por cento, dado que o défice dos hospitais SA é incluído no Orçamento de Estado como se fosse uma despesa de investimento, como referia o ex-ministro Correia de Campos no PÚBLICO de ontem? A Unidade de Missão dos Hospitais SA tem feito um balanço positivo do exercício da gestão privada nos hospitais públicos, mas está ainda por demonstrar de que forma é que os hospitais SA poderão contribuir para o equilíbrio do sistema, quando os dados disponíveis dão conta de um crescimento de despesa de 10,2 por cento e um aumento das receitas de 4,7.
Por outro lado, não deixa de ser intrigante que Rui Nunes tenha admitido a privatização dos piores hospitais SA, poucos dias antes de o Grupo Mello ter dito precisamente o mesmo. A José de Mello Saúde já fez saber que está disponível para acelerar as reformas em curso e "salvar o sector da saúde", pelo que se mostra interessada em gerir os piores hospitais do SNS e em aumentar a quota de hospitais privados num espaço mais curto de tempo do que aquele que estava incialmente previsto. Era desejável que, neste caso, as segundas intenções não fossem as primeiras e que o que estivesse realmente em causa fosse a preocupação com a prestação de serviços de qualidade num sector onde o público não tem de ser necessariamente mau. A diabolização do público omite deliberadamente os casos de excelência em alguns hospitais, como o provaram alguns centros de responsabilidade integrada, cujo trabalho é sobejamente conhecido. Rui Nunes, depois das suas últimas declarações, dificilmente convencerá quem quer que seja de que a empresarialização não é sinónimo de privatização.
[em resumo, é isto...]
A Privatização da Saúde
AMÍLCAR CORREIA
Editorial do Público
14 de Outubro de 2004
O Estado vai avançar já no próximo ano com a empresarialização de mais 30 hospitais do sector público administrativo (existem já 31 unidades de gestão de natureza privada), que poderão ser geridos por uma "holding" a criar em Janeiro de 2005. Tem sido dito até aqui que a lógica empresarial da gestão dos hospitais aumenta a produtividade e a eficácia e que não colide com a equidade de acesso aos cuidados de saúde e com a universalidade da sua cobertura. Mas sobrevivem ainda os receios de que a gestão obedeça, por exemplo, à "selecção das patologias de acordo com critérios financeiros", como fez questão de sublinhar Jorge Sampaio, na sua última presidência dedicada às questões de saúde.
A empresarialização surgiu da necessidade de aumentar a eficiência da gestão hospitalar no Serviço Nacional de Saúde, assolado pelos problemas crónicos de sempre: falta de profissionais, listas de espera descomunais e desperdícios de vária ordem. Em suma, da ingovernabilidade do sistema actual. No entanto, transformar mais hospitais em sociedades anónimas de capitais públicos soa um pouco precipitado quando é o próprio Rui Nunes, que preside à Entidade Reguladora de Saúde, quem reconhece a necessidade de estudos de várias entidades que avaliem qualidades e defeitos do modelo dos hospitais SA. Que sentido faz ampliar a experiência a praticamente todos os hospitais públicos sem se conhecer de antemão os resultados de uma avaliação esclarecedora e independente aos méritos do modelo? Ou trata-se apenas de um estratagema para cumprir o défice público de três por cento, dado que o défice dos hospitais SA é incluído no Orçamento de Estado como se fosse uma despesa de investimento, como referia o ex-ministro Correia de Campos no PÚBLICO de ontem? A Unidade de Missão dos Hospitais SA tem feito um balanço positivo do exercício da gestão privada nos hospitais públicos, mas está ainda por demonstrar de que forma é que os hospitais SA poderão contribuir para o equilíbrio do sistema, quando os dados disponíveis dão conta de um crescimento de despesa de 10,2 por cento e um aumento das receitas de 4,7.
Por outro lado, não deixa de ser intrigante que Rui Nunes tenha admitido a privatização dos piores hospitais SA, poucos dias antes de o Grupo Mello ter dito precisamente o mesmo. A José de Mello Saúde já fez saber que está disponível para acelerar as reformas em curso e "salvar o sector da saúde", pelo que se mostra interessada em gerir os piores hospitais do SNS e em aumentar a quota de hospitais privados num espaço mais curto de tempo do que aquele que estava incialmente previsto. Era desejável que, neste caso, as segundas intenções não fossem as primeiras e que o que estivesse realmente em causa fosse a preocupação com a prestação de serviços de qualidade num sector onde o público não tem de ser necessariamente mau. A diabolização do público omite deliberadamente os casos de excelência em alguns hospitais, como o provaram alguns centros de responsabilidade integrada, cujo trabalho é sobejamente conhecido. Rui Nunes, depois das suas últimas declarações, dificilmente convencerá quem quer que seja de que a empresarialização não é sinónimo de privatização.
13.10.04
#3
[concertos]
Vamos falar de animais e de como eles são
Do piriquito do gato e do cão
E outros mais também virão
Talvez uma girafa um macaco ou um leão
[refrão]
Vamos todos aprender como vive a bicharada
O que é um cardume e uma manada
Vamos ver não tarda nada
Quem é que afinal tem a voz bem afinada
[refrão]
Vamos tambem descobrir uns amigos bestiais
Bem diferentes dos habituais
E vamos rir até não poder mais
Com as palhaçadas dos amigos animais
Letra e Música de José Barata Moura, 1975
Roubado à Alex
[concertos]
Deviamos estar em 1981... o tipo que é hoje reitor da universaide de Lisboa, além de dar papa á sua Joana(e a todas as outras), andava com a sua barba à Fidel e o seu violão a cantar para os putos.
Recordo-me bem, deve ter sido o meu primeiro concerto. O seu mais famoso hit era o fungágá da Bicharada, cujo refrão se aplica perfeitamente ao espírito que, nos dias de hoje, baixou neste canto àbeira mar plantado.
É o fungágá, fungágá da bicharada
É o fungágá, fungágá da bicharada
la la la la la la la la ra la la
Vamos falar de animais e de como eles são
Do piriquito do gato e do cão
E outros mais também virão
Talvez uma girafa um macaco ou um leão
[refrão]
Vamos todos aprender como vive a bicharada
O que é um cardume e uma manada
Vamos ver não tarda nada
Quem é que afinal tem a voz bem afinada
[refrão]
Vamos tambem descobrir uns amigos bestiais
Bem diferentes dos habituais
E vamos rir até não poder mais
Com as palhaçadas dos amigos animais
Letra e Música de José Barata Moura, 1975
Roubado à Alex
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