25.11.04

#3
[não se acredita]

No dia em que se assinala a luta contra a violência contra as mulheres, repesco uma notícia de ontem, também ela digna do Inimigo Público.
Este post tem co-autoria da minha assessora juridica, a quem agradeço. :)

Supremo Responsabiliza Parcialmente Vítima de Maus Tratos e Atenua Pena
MARIANA OLIVEIRA
Público , 24 de Novembro de 2004

O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) atenuou a pena de prisão de um homicida que estrangulou a própria mulher até à morte por considerar que as atitudes desta terão contribuído para o desfecho fatal da relação. O arguido foi condenado na primeira instância a 14 anos de prisão, uma pena que o STJ reduziu para 11 anos.
No acórdão, proferido no passado dia 10, os juízes deste tribunal superior referem que "não terão sido alheias" ao crime "as condutas anteriores da vítima, designadamente os levantamentos bancários deixando as contas do casal a zero, a ponto de o arguido ficar sem dinheiro para pagar o [um] almoço e talvez isso [tenha sido] o detonador da raiva que conduziu ao homicídio".
Entre as restantes condutas, conta-se que "deixou algumas vezes esturricar a comida que confeccionava; chegou a sair e a chegar a casa de noite; ia tomar café a um estabelecimento de cafetaria e não deu conhecimento ao arguido de uma deslocação; chegou a mostrar a barriga quando se encontrava junto de pessoas amigas e se falava da condição física de cada uma delas". Os juízes admitiram, no entanto, que tais comportamentos resultavam dos problemas psíquicos da vítima, decorrentes da morte de uma filha do casal.
Os magistrados do STJ defendem que este caso é o típico "homicídio ocasional", que dificilmente se repetirá, logo, não existem grandes exigências de prevenção. Os juízes, que qualificam o arguido de "primário", realçam que este "dedicou toda a sua vida ao trabalho na construção civil" e sempre zelou pela educação dos seus dois filhos, preocupando-se com o seu futuro. "É considerado um bom pai de família e estimado por todos os seus amigos", referem.
Agressões desvalorizadas
Os juízes desvalorizam os maus tratos (insultos, murros, estalos e pontapés) infligidos pelo arguido à mulher e dados como provado em duas situações. Num dos casos, as feridas e os hematomas deram lugar a um período de doença de seis dias. "À parte as desavenças conjugais (onde, por regra, não existe apenas um culpado) que conduziram à criminalidade em apreço, o arguido mostra-se socialmente inserido", sustentam.
Maria Fernanda foi estrangulada pelo marido a 28 de Maio de 2002, na sequência de uma discussão. A tragédia está intimamente associada à morte de uma filha do casal em Janeiro de 2001, que transtornou os dois e tornou os desentendimentos entre ambos "muito frequentes". O facto de a filha ter falecido numa altura em que era o pai quem a estava a acompanhar no hospital (o cansaço tinha levado ao afastamento da mãe dois dias antes) fez com que Maria Fernanda culpasse o marido pela morte da menor. O seu comportamento psíquico, social e afectuoso mudou susbtancialmente desde então.
O arguido já tinha recorrido da pena para o Tribunal da Relação do Porto, que indeferiu o seu pedido.
#2
[urbanismos]

Gosto da obscuridade dos becos, das ruas secundárias sinuosas, dos recantos improváveis.
Mas tenho sentido a falta da amplitude própria das grandes avenidas, e da ilusão de espaço que me proporcionam.
#1
[maturidade]

hoje, depois de pagar a conta da luz e da água, concluí que estou a ficar crescidinho...

24.11.04

#4
[surrealismos]

Mas o que é o surrealismo hoje?
(...)
O surrealismo agora é muito bonito para fazer uma exposição, mas espero que alguém se lembre (...) de dizer que o Surrealismo é uma Revolução. Mental, Social, Moral.

Mario Cesariny de Vasconcelos
in JL, 24 de Novembro 2004
#3
[de olhos em bico]

De tão anedótica que é, esta notícia é digna do Inimigo Público.
Fica postada, para memória futura.

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China Aposta Forte na economia cubana
FERNANDO SOUSA
Público, 24 de Novembro de 2004

O Presidente chinês, Hu Jintao, concluiu ontem uma visita de dois dias a Cuba durante a qual assinou 16 acordos bilaterais nos mais diversos domínios, incluindo o níquel, a principal riqueza do país. A estada foi ainda aproveitada pelo visitante e os anfitriões, Raul e Fidel Castro, para mostrarem sintonia relativamente a questões políticas de fundo.
"Temos uma base sólida para aprofundar as nossas relações dadas as nossas grandes convergências políticas", disse o visitante, ontem, pouco antes de deixar a ilha. "Ambos escolhemos a via socialista para o nosso desenvolvimento", explicou aos jornalistas.
Hu Jintao referiu-se a Cuba como "pátria de um povo heróico" e a Castro, o seu Presidente, como o homem que soube responder a todas as suas "dificuldades".
O Presidente chinês chegou à ilha na segunda-feira, depois de visitar sucessivamente, a Argentina, onde participou no Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico, e o Brasil, onde deixou vários compromissos de natureza económica. Mas os que fez em Cuba tiveram a acompanhá-los palavras diferentes.
Recebido por Raul Castro, número dois do regime, visitou logo a seguir o Presidente cubano, que o recebeu, na cadeira de rodas onde convalesce da fractura recente de um braço e uma perna, com um sonoro "Viva a China!"
Duas horas a assinar compromissos Hu Jintao respondeu com desejos de votos "sinceros" de que o povo cubano avance a bom ritmo no "caminho da construção do socialismo", após o que passou ao objectivo da viagem - a assinatura de uma série de acordos bilaterais, um deles capaz de dar algum alívio ao dramático panorama económico do país. O agravamento recente pelos Estados Unidos do embargo económico à ilha levou as suas autoridades a decretarem uma série de medidas de austeridade e a proibição de circulação do dólar americano como forma de compensarem a falta de liquidez.
Durante cerca de duas horas e perante a comunicação social as duas partes assinaram 16 compromissos nas áreas da economia, educação e saúde. O que mais publicidade teve nas agências foi o do níquel, de que Cuba possui as maiores reservas provadas do mundo - 800 milhões de toneladas.
O acordo neste caso prevê a construção de uma fábrica de extracção e de produção deste mineral, que existe misturado com o cobalto, com uma capacidade de 22,500 toneladas. A unidade será levantada na província de Holguin, a 800 quilómetros a leste de Havana, será chamada "Las Cariocas" e deverá permitir aumentar a produção cubana das 75 mil toneladas actuais para 100 mil.
As entidades detentoras do empreendimento serão a chinesa Minmetal, com 49 por cento, e a cubana Cubaniquel, com os restantes 51 por cento. Os chineses e os europeus são os maiores importadores do níquel da ilha.
#2
[Fórum TSF]

Expressão favorita dos comentadores de bancada...
támal!!!

Mas quando se trata de participar, de construir, de dar o corpo ao manifesto...
tá quieto!!
#1
[...]
Filosofia

Construo o pensamento em pedaços: cada
ideia que ponho em cima da mesa, é uma parte do
que penso; e ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.

Nuno Júdice
in Pedro, Lembrando Inês

23.11.04

#4
[...]

Acabo de receber um mail para c(h)orar.
Por razões éticas, não vou aqui reproduzi-lo.
#3
[tenho-me esquecido de dizer]


que gostei muito deste filme


e que gosto cada vez mais de Agnès Jaoui
#2
[your face]

Cinco fisionomias
1
Fazes do olhar um diorama
a transmutação da opala

2
Tens Novembro nos lábios
o princípio duma promessa

3
Trazes dentro de mim um violino
algo que incendeia os séculos

4
Um corpo e a ausência
exílio nocturno

5
Na respiração da mulher revelam-se os nomes

João Artur Santos
DNJ, 23 Novembro 2004
#1
[A mesa]

Ontem inaugurei a cozinha lá de casa.
Como não poderia deixar de ser, a gastronomia Italiana foi a eleita - pasta al tono.
Esperam-se grandes cozinhados e manjares, porque, como aprendi com la famiglia, com @s amig@s e com @s grandes da literatura, as relações humanas constroem-se em longas jornadas à volta da mesa.
E, por falar em Mesa, passo a palavra ao poeta:

põe a mesa
come à mesa
levanta a mesa trabalha à mesa

desmanivela-a desce é cama

faz a cama
abre a cama
brinca na cama
dorme na cama

desmanivela-a desce mais é caixão

entaipa o caixão
forra o caixão
entra no caixão
fecha o caixão

era a brincar

manivela-o sobe é cama
manivela-a sobe mais é mesa

põe os cotovelos na mesa

Alexandre O'Neill

22.11.04

#2
[alguns apontamentos de um fim de semana]

- um texto escrito à pressa, sobre um disco que (ainda) não ouvi;
-Maria Rita a dançar, descalça, numa magnifica noite atlântica;
- gavetas e livros em trânsito;
- variações sobre a memória: revelação, ampliação, impressão;
- inauguração de uma grande arvore de natal, com fogo de artificio;
- Cinema: Rodrigo Leão a conduzir uma projecção de arrepiar;
- lua crescente, reflectindo um estranho silêncio e calma sobre o mar;
- uma maçã, às seis da manhã;
- expedição fotográfica pela leveza do frio;
- escultura ao ar livre, na volta do duche;
- aproximação à arte do trolha;
- leituras (mais ou menos) partilhadas, pela noite fora.
#1
[Prece matinal]

This fire is out of control
I'm gonna burn this city,
burn this city

Franz Ferdinand

19.11.04

#3
[pergunta (nada) retórica]

Porquê resistir a tamanha evidência?

#2
[Irish do it better]

Fields of Athenry

By a lonely prison wall
I heard a sweet voice calling,
"Danny, they have taken you away.
For you stole Travelian's corn,
That your babes might see the morn,
Now a prison ship lies waiting in the bay

Fair lie the fields of Athenry
Where once we watched the small freebirds fly.
Our love grew with the spring,
We had dreams and songs to sing
As we wandered through the fields of Athenry.

By a lonely prison wall
I heard a young man calling
"Nothing matters, Jenny, when you're free
Against the famine and the crown,
I rebelled, they ran me down,
Now you must raise our children without me."

Fair lie the fields of Athenry
Where once we watched the small freebirds fly.
Our love grew with the spring,
We had dreams and songs to sing
As we wandered through the fields of Athenry.

On the windswept harbour wall,
She watched the last star rising
As the prison ship sailed out across the sky
But she'll watch and hope and pray,
For her love in Botany Bay
Whilst she is lonely in the fields of Athenry.

#1
[...]

Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial

18.11.04

#5
[Livros]


Narrativa 'A SOPA'Uma casa onde se cruzam muitas vidas 'esfarrapadas' Terceiro romance de Filomena Marona Beja Um retrato lúcido da miséria humana
José Mário Silva
In DN, 18 Novembro, 2004

De há uns anos para cá, com a entrada na Europa comunitária e a globalização dos mercados, Portugal sofreu uma metamorfose: o velho país de emigrantes transformou-se num lugar de imigração. Em vez de darmos braços às fábricas francesas, recebemos agora - para construir pontes, Expos e estádios - a força de trabalho, tantas vezes ilegal, dos operários de Leste. Eis uma realidade social nova e bastante complexa, mas com a qual nos defrontamos todos os dias, na rua ou nas páginas dos jornais. Não deixa por isso de ser estranho que a actual literatura portuguesa continue a ignorar, com poucas excepções, um fenómeno que é cada vez mais visível na nossa sociedade.O mesmo se passa, aliás, em relação a outro tipo de existências precárias, como a dos mendigos, sem-abrigo e demais excluídos. Talvez com receio de cair no tão abjurado politicamente correcto ou, pior ainda, num impossivelmente anacrónico neo-neo-realismo, o certo é que a maior parte dos escritores portugueses contemporâneos foge destas temáticas como o diabo da cruz. Na melhor das hipóteses, o assunto surge de raspão, como motor de uma narrativa secundária, ou a servir de «pano de fundo». Quantos romances recentes é que fizeram destes homens e mulheres postos à margem, perdidos ou desencontrados, as suas personagens principais? Meia dúzia, no máximo.Também por isso, A Sopa, de Filomena Marona Beja, é um livro corajoso. Fruto de uma longa investigação de cariz quase jornalístico, em contacto directo com o mundo que descreve, este romance está permanentemente no fio da navalha. Sentimos que em qualquer momento a prosa pode deslizar para o moralismo delicodoce, mas a escrita exacta, tensa e cortante de Marona Beja consegue sempre, in extremis, fugir da emoção fácil e piedosa.A estratégia é clara e surpreendentemente eficaz. Em vez de mostrar a existência problemática de pessoas zangadas com o mundo e com a vida que lhes coube (vistas de fora, à distância), FMB coloca- -nos - a nós, leitores - entre elas, no meio do seu quotidiano, das suas conversas e desabafos, dos seus desejos e quezílias, das suas camaratas e roupas malcheirosas. O que A Sopa tem de mais interessante é precisamente a galeria de personagens: do Victor, um alcoólico com traumas de África, ao Fernando, antigo maluquinho das bicicletas que até nem se importa de aprender, já velho, a trabalhar com um computador; passando pelo enfermeiro Salomão e restante pessoal auxiliar. Isto para não falar das duas figuras centrais e verdadeiros eixos da história: Nela, actriz decadente, tolhida pela osteoporose, a caminho da loucura (citando Yeats, sempre); e Anselmo, o escritor clandestino, observador exímio dos outros e intérprete de um inesperado volte-face final.Todos eles coexistem na Fundação, um antigo depósito de hulha, junto ao Tejo, reconvertido em abrigo, com refeitório e camas feitas. Ali matam a fome e o tédio. Ali se confrontam com os externos, que só aparecem à hora da comida, mas também com dois imigrantes que hão-de ter sortes diversas: Boubacar, bicho-do-mato senegalês; e Kiev, um ex-músico ucraniano de gestos cortezes e má sina.Quando circula pelas memórias das personagens, em ritmo febril, todo frases curtas e elipses, FMB consegue ser excelente. Mas quando força as referências temporais (a questão de Timor, por exemplo) ou faz desastradas alusões meta-literárias (de Gil Vicente a versos de canções de Vitorino) tudo vacila. Ainda assim, cheio de vulnerabilidades, este é um livro atento, intenso, tocante. E necessário.
#4
[Imperdoável]


Nunca fui ver e ouvir jazz ao Hot Club.
#3
[ainda o vulcão]

(...)
A sua paixão desafiava tudo o que se sabe da paixão: que é estimulada (ou antes mantida acesa) pela dúvida, a separação, a ameaça, a recusa, a frustração; e que é incompatível com a posse, com a segurança. Mas a posse não diminuía nada. O Cavaliere estava enfeitiçado sexualmente. Nunca se apercebera do desesperado desejo de que o abraçassem. (...)

Susan Sontang,
In O Amante do Vulcão
#2
[yesterday]

Some Days Are Better Than Others
Some days are dry, some days are leaky
Some days come clean, other days are sneaky
Some days take less, but most days take more
Some slip through your fingers and onto the floor
Some days you're quick, but most days you're speedy
Some days you use more force than is necessary
Some days just drop in on us
Some days are better than others

Some days it all adds up
And what you got is not enough
Some days are better than others

Some days are slippy, other days sloppy
Some days you can't stand the sight of a puppy
Your skin is white but you think you're a brother
Some days are better than others

Some days you wake up with her complaining
Some sunny days you wish it was raining
Some days are sulky, some days have a grin
And some days have bouncers and won't let you in

Some days you hear a voice
Taking you to another place
Some days are better than others

Some days are honest, some days are not
Some days you're thankful for what you've got
Some days you wake up in the army
And some days it's the enemy

Some days are work, most days you're lazy
Some days you feel like a bit of a baby
Lookin' for Jesus and His mother
Some days are better than others

Some days you feel ahead
You're making sense of what she said
Some days are better than others

Some days you hear a voice
Taking you to another place
Some days are better than others

U2, Zooropa