2.11.04

#2
[em suspenso]

O mundo aguarda pelos resultados da eleição presidencial americana.
Apesar de ver poucas diferenças entre os dois candidatos, se tivesse direito de voto não deixaria de apostar naquele que se situa menos à direita, qualquer coisa será melhor que Bush e os seus pistoleiros.
#1
[fotografias]

Sim, é verdade, eu gosto de fotografar janelas, o pôr do sol, o mar, os rios e as pontes... algum problema?

30.10.04

#3
[paisagem onírica]

A luz, quase perfeita, desenrola perante mim uma cidade diferente da Lisboa de todos os dias.
Entre sacos de hortaliça, o cheiro das últimas sardinhas e os negócios de ocasião, vou-me cruzando com turistas e exploradores, com pesquisadores de alquimias mulitiplas e viajantes, com amantes resplandecentes, com gente feita de tanta coisa.
Ninguém me vê, estou como que rarefeito. Deixo-me vaguear pelos recantos de cada beco, em cada esquina, pelas mesas de café, nas cores quentes das buganvílias e dos ibiscos, nos ramos nús das árvores. Repouso sentado no tejadilho do eléctrico, enquanto passo a mão e afago, distraidamente, a linha do horizonte.
Sem palavras, percorro o espaço entre as gotas da chuva, deixando que o ar frio me acaricie. Experimento a vertigem de ir de mãos dadas com a plenitude.
Por vezes acordamos meio perdidos em nós, mas com a certeza de que os sonhos estão dispostos à maior de todas as transgressões: enfrentar o dia e não ir embora.
#2
[da Irlanda]


An Irish Airman Foresees his Death

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;

My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.

Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;

I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

William B. Yeats
[...]

"oh let me hold your hand
please let your heart beat again"

29.10.04

#1
[isto é um regresso]


imagem roubada aqui

Há uma semana, nesta mesma cadeira, decidi suspender o metrografismos. Uma decisão motivada por uma conjuntura muito própria. Não foi uma desistencia, mas sim uma pausa para respirar fundo.
Fiz-me sempre do outro lado da barricada, a remar contra a maré, numa vontade obstinada por mais, muito mais. É aí que me situo, e não troco esse desconforto por nada. Por isso, hoje ensaio o regresso.
Ensaio um regresso porque sinto a falta deste espaço, porque muit@s me fizeram ver que ele não é importante só para mim. O Metrografismos é, também por isto, cada vez mais vosso... vocês sabem de quem estou a falar.
Não sei bem o que escrever, se tenho algo para dar, mas o impulso é mais forte do que a vontade de ficar fechado sobre mim mesmo.
Continuo a sentir-me com as mãos e as ideias presas, com vontade de gritar contra o vento, não sei o que dizer, mas digo. alguma coisa se arranjará.
Há que quebrar a janela de emergência em vez de ficar à espera.
A luta segue dentro de momentos, ou, como cantam os Ornatos, parto rumo à maravilha.

25.10.04

][isto não é um regresso...]

22.10.04

#1
[impasse]

I wish i could say everything there was to say in one word

Leonard Cohen, in The favorite game

Aqui estou, defronte das teclas, sem saber o que escrever.
Estou cansado de não ter nada para dizer. Cansado de ter coisas fechadas em mim e não saber como dize-las, como traze-las para a luz do dia.
Sinto-me bloqueado em mim, por um estar, por uma turbolência interior que me atormenta, que me corta a criatividade, que me tira o sono e me deixa sem vontade de comer.
Há uma ideia que me amadurece no pensamento. Não é de hoje nem de ontem, mas tem vindo a ganhar espaço nos últimos dias. É a de que, aqui e agora, nada tenho para dar.
Por isso, decidi suspender a publicação do metrografismos.
Até ver.

21.10.04

#1
[...]

— E eu?
— O quê?
— Achas que algum dia vou arranjar uma que me ature?
— Não, acho que não.

20.10.04

#1
[democracia]

Em Coimbra, a coisa continua confusa com os estudantes.
Neste momento, e pela primeira vez desde o 25 de Abril, a polícia de choque está a sitiar o polo dois da universidade, e distribuir pancada aos estudantes...
estamos bem.

19.10.04

#2
[leituras...]


#1
[eu cá...]

...dormia a sesta.
e não vinha desmentir logo a seguir.
Mas não me safo.

18.10.04

#3
[suspiros]

Olhar para a janela e perguntar quanto tempo falta para o regresso dos dias longos, das folhas novas, do calor...
Vontade de fugir.
#2
[surpresas]


Ontem, sem aviso prévio nem direito a contestar, alguém me levou à Cordoaria Nacional para ver a exposição «Ilustração Portuguesa 2004».
Organizada pela Bedeteca, a 6ª edição tem este ano como tema
"A Ilustração na Imprensa".
Adoro quando me fazem susrpesas!
#1
[encontros]

Na sexta feira, exortando aos crocodilos alguam boa disposição, fui ver Before Sunset, a sequela de Before Sunrise.
É um filme simples, quase banal, mas guarda em si algo que, como alguém dizia, nos faz desejar. Desejar um encontro inesperado, desejar um amor impossivel ou o impossivel do amor, desejar ser outro noutro lugar, viver a vida dos caminhos que se deixaram de lado... faz-nos desejar o risco, a vertigem, a crista da montanha (onde o vento bate dos dois lados).
É um filme que, a meu ver, evoca aquilo a que Agostinho da Silva chamou saudades do futuro, pondo em evidência que os encontros acontecem, que a vida é um jogo de possibilidades que se abrem a cada momento, pelo que é para ser jogada, mesmo que seja para perder.
Deixo-vos a crónica que Eduardo Prado Coelho escreve sobre Before Sunset, hoje, no público.

****


Alguém Duas Vezes
Eduardo Prado Coelho
Público, 18 de Outubro de 2004

Como é bom navegarmos no romantismo como quem toma o "bateau mouche" para percorrer o Sena e se propõe ser um turista da existência
É um filme onde se entra como quem desliza: tudo é previsível, nada deixa de nos surpreender, apenas porque o previsível acontece. Mas o previsível não é de modo algum uma debilidade do argumento. É uma espécie de metafísica, a metafísica envolvente e consoladora a que chamamos "romantismo". Como é bom navegarmos no romantismo como quem toma o "bateau mouche" para percorrer o Sena e se propõe ser um turista da existência! É exactamente assim que este filme faz: "Antes do anoitecer", obra de Richard Linklater, com Julie Delpy (que é o centro irradiante da obra) e Ethan Hawke.
Se o filme é encantadoramente previsível, repito, é porque vai ao encontro daquilo que é em nós a mais ingénua das convicções: o amor tem de acontecer. De certo modo, nesta deambulação por Paris, com cafés, jardins, barcos, traseiras de prédios, só acontece a iminência do acontecer: entre o medo e o pudor, as palavras da paixão terão de explodir. Como tudo é feito de uma elegância ardilosa, é ainda em termos de uma retórica do não-dito que o amor se enuncia: vais perder o avião, 'baby'; já sei. Todo o filme vive neste fio de um tempo de maturação dos sentimentos, sendo o tempo o verdadeiro protagonista, porque é ele que trabalha na transformação da situação.
Há ainda uma outra vertente que nos seduz: tudo acontece duas vezes, e, ao contrário do que quase todos pensam, a segunda não degrada a primeira, mas corrige a primeira. Embora um jogo de dissimulações e fintas verbais vá criando a leve coreografia das mentiras tão óbvias que são apenas a forma mais enternecida e inclinada de dizer a verdade. Tudo bem? Ah, sim, tudo bem. Quer dizer que falhaste a tua história amorosa, que não és feliz, que tendo escolhido acabaste por escolher o que não querias. E o filme fala, fala, fala, nunca se cala, tem um tempo a preencher, tem um não-dito a dizer, é um longo diálogo em tempo real, teria tudo para nos entediar, é o contrário de um filme de acção, e no entanto vai tecendo à nossa volta um fio de deslumbramento (ligado à beleza mítica de uma cidade, Paris, o amor nas ruas, o amor dos lugares, a cumplicidade dos cafés que não há e mais sítio algum).
O romanesco está na livraria mágica e mil vezes celebrada onde o reencontro se faz: "Shakespeare and Company". Continua nas ruelas de Saint-Michel, sobe pelos jardins, desce até ao rio, passa por debaixo das pontes, e dois seres avançam um para o outro no interior de si mesmos, criando a disponibilidade para amar. O filme consegue que lugares, objectos e palavras, formem um tecido passional discreto e oblíquo. Nesse plano a construção do espaço é extremamente bem conseguida e poderíamos dizer, citando o poeta, que o amor é a ocupação do espaço. De tal forma que um disco ou uma frase tornam-se metonímia de um breve encontro que lentamente se prepara para afrontar a prova mais difícil: o quotidiano.
Há um momento admirável: os dois sobem a escada do apartamento de Julie e o tempo de cada degrau é o tempo da própria imagem filmada: estabelece-se um silêncio, que é a palavra no esplendor tácito da sua rasura branca.

17.10.04

#1
[Ponderosa]

Era domingo, o primeiro, de tantos, passado em Inter Rail.
A manhã crescia e eu estava sentado no chão de uma praça em Antuérpia. Nessa noite morrera uma rapariga famosa, com nome de deusa, mas eu ainda não sabia de nada.
Uma orquestra dava o acorde. Fazia calor. Num talão do Multibanco, alinhei algumas palavras que me perseguiam desde Paris... palavras que falavam de um homem que, apesar das voltas do mundo, continuava a ser, na minha cabeça, apenas um homem. Sonhador e, por isso, destemido.
Guardei as palavras no bolso. Mais tarde dei-lhes forma e mais substrato. Continuavam a falar de um homem, de um tal Ernesto, uma sombra que me acompanhou, uma ideia que me acompanha...
Foi um texto que amadureceu e ganhou forma, e, por isso, quase me valeu uma tareia de uns PCs ortodoxos... porque contava a história de outra forma e se atrevia a olhar, mais do que para um mito intocável, para um homem, como tantos outros e tantas outras que conheço e conheci.
É um texto de que me orgulho.
Hoje, depois de uma ida ao cinema, lembrei-me do texto e do que me fez escreve-lo. Decidi postá-lo aqui. Mudei o nome que lhe dei na altura, mas as outras palavras, as que contam, estão lá todas.

GUEVARA

Trazes a boina inflamada pelo rubor da estrela
repleta de um ideal-neon
daquele que compra e vende almas com prazer desbarato.

Vives, ícone musical, dançando a tua memória,
mal liberta da arrogância do pó,
ao som de épicas canções revolucionárias
massivamente transaccionadas,
com os relógios que medem os nossos tempos
ou os isqueiros que acenderam o napalm num qualquer Vietname.

Amigos tens que, em públicos actos de fé desmedida,
prosseguem a tua beatificação
iniciada pelos realistas que nunca exigiram o impossível,
rumo a uma mítica banalidade que te transforma em mais um inofensivo
Marxista, Castrista, Estalinista ou Qualquer-Coisa-ista
em nome de um sonho que não é o teu.

E assim todos te admiram como o homem
que alimentou a fome romântica de um povo global
com travos de havano e atitudes imprevistas...
e há também aqueles que (por ilusão?)
partem de ti em busca da insubmissa força maestra,
serra de liberdade interior
onde o vítreo do teu olhar ainda ecoa puro
lembrando que só se é Homem
se se souber sê-lo.

André, 1997

15.10.04

#1
[exortação dos crocodilos]

A semanma da loucura a acabar, um cansaço extremo e o fim de semana à minha espera.
Depois de uma longa conversa com ela, pus-me às voltas com uma ideia, que se transformou numa questão complexa: o que ficará de nós próprios depois de uma tempestade?
e se lhe juntou outra, com direitos de autor: que farei eu quando tudo arde?
Vou ao cinema, esperando que a tela branca me ajude a dar passos no longo caminho das respostas.

14.10.04

#2
[...]

Tocáste-me no ombro e a marca ficou lá
#1
[em resumo, é isto...]

A Privatização da Saúde
AMÍLCAR CORREIA
Editorial do Público
14 de Outubro de 2004

O Estado vai avançar já no próximo ano com a empresarialização de mais 30 hospitais do sector público administrativo (existem já 31 unidades de gestão de natureza privada), que poderão ser geridos por uma "holding" a criar em Janeiro de 2005. Tem sido dito até aqui que a lógica empresarial da gestão dos hospitais aumenta a produtividade e a eficácia e que não colide com a equidade de acesso aos cuidados de saúde e com a universalidade da sua cobertura. Mas sobrevivem ainda os receios de que a gestão obedeça, por exemplo, à "selecção das patologias de acordo com critérios financeiros", como fez questão de sublinhar Jorge Sampaio, na sua última presidência dedicada às questões de saúde.
A empresarialização surgiu da necessidade de aumentar a eficiência da gestão hospitalar no Serviço Nacional de Saúde, assolado pelos problemas crónicos de sempre: falta de profissionais, listas de espera descomunais e desperdícios de vária ordem. Em suma, da ingovernabilidade do sistema actual. No entanto, transformar mais hospitais em sociedades anónimas de capitais públicos soa um pouco precipitado quando é o próprio Rui Nunes, que preside à Entidade Reguladora de Saúde, quem reconhece a necessidade de estudos de várias entidades que avaliem qualidades e defeitos do modelo dos hospitais SA. Que sentido faz ampliar a experiência a praticamente todos os hospitais públicos sem se conhecer de antemão os resultados de uma avaliação esclarecedora e independente aos méritos do modelo? Ou trata-se apenas de um estratagema para cumprir o défice público de três por cento, dado que o défice dos hospitais SA é incluído no Orçamento de Estado como se fosse uma despesa de investimento, como referia o ex-ministro Correia de Campos no PÚBLICO de ontem? A Unidade de Missão dos Hospitais SA tem feito um balanço positivo do exercício da gestão privada nos hospitais públicos, mas está ainda por demonstrar de que forma é que os hospitais SA poderão contribuir para o equilíbrio do sistema, quando os dados disponíveis dão conta de um crescimento de despesa de 10,2 por cento e um aumento das receitas de 4,7.
Por outro lado, não deixa de ser intrigante que Rui Nunes tenha admitido a privatização dos piores hospitais SA, poucos dias antes de o Grupo Mello ter dito precisamente o mesmo. A José de Mello Saúde já fez saber que está disponível para acelerar as reformas em curso e "salvar o sector da saúde", pelo que se mostra interessada em gerir os piores hospitais do SNS e em aumentar a quota de hospitais privados num espaço mais curto de tempo do que aquele que estava incialmente previsto. Era desejável que, neste caso, as segundas intenções não fossem as primeiras e que o que estivesse realmente em causa fosse a preocupação com a prestação de serviços de qualidade num sector onde o público não tem de ser necessariamente mau. A diabolização do público omite deliberadamente os casos de excelência em alguns hospitais, como o provaram alguns centros de responsabilidade integrada, cujo trabalho é sobejamente conhecido. Rui Nunes, depois das suas últimas declarações, dificilmente convencerá quem quer que seja de que a empresarialização não é sinónimo de privatização.

13.10.04

#3
[concertos]

Deviamos estar em 1981... o tipo que é hoje reitor da universaide de Lisboa, além de dar papa á sua Joana(e a todas as outras), andava com a sua barba à Fidel e o seu violão a cantar para os putos.

Recordo-me bem, deve ter sido o meu primeiro concerto. O seu mais famoso hit era o fungágá da Bicharada, cujo refrão se aplica perfeitamente ao espírito que, nos dias de hoje, baixou neste canto àbeira mar plantado.


É o fungágá, fungágá da bicharada

É o fungágá, fungágá da bicharada

la la la la la la la la ra la la


Vamos falar de animais e de como eles são
Do piriquito do gato e do cão
E outros mais também virão
Talvez uma girafa um macaco ou um leão

[refrão]

Vamos todos aprender como vive a bicharada
O que é um cardume e uma manada
Vamos ver não tarda nada
Quem é que afinal tem a voz bem afinada

[refrão]

Vamos tambem descobrir uns amigos bestiais
Bem diferentes dos habituais
E vamos rir até não poder mais
Com as palhaçadas dos amigos animais

Letra e Música de José Barata Moura, 1975
Roubado à Alex
#2
[lucidez]
Estamos sempre com um pé em cima da linha que nos separa da loucura.
Por vezes, o outro tem tendencia a levantar-se para avançar.
#1
[O metrografismos aplaude e subscreve]

Os Métodos e Os Avisos de Luís Delgado
Por LUCIANO ALVAREZ
Público, 13 de Outubro de 2004

"Um vendedor de antenas parabólicas, que se acha crítico de televisão, e da Imprensa em geral, passou aos insultos pessoais. Diz tudo do seu carácter e estatura mental. Trate-se, ECT [Eduardo Cintra Torres, cronista do PÚBLICO]. Interne-se, num hospital psiquiátrico."
A frase é de Luís Delgado (numa crónica no "Diário Digital"), fiel seguidor de Pedro Santana Lopes, ainda presidente da agência Lusa e já nomeado para presidente executivo da Lusomundo Media ("Diário de Notícias", "Jornal de Notícias", "24 horas", "Tal & Qual", TSF e mais um grupo de jornais da imprensa regional). Eis o que pensa e como age um homem que se afirma jornalista e que há anos tem pena livre em vários órgãos de comunicação social sobre outro homem que faz o mesmo. "Interne-se, num hospital psiquiátrico". Talvez a memória falhe a Delgado, mais coisas deste género faziam-se na ex-URSS.
Marcelo Rebelo de Sousa, não foi internado em qualquer hospital psiquiátrico, mas foi silenciado depois de criticado por outro fiel serventuário do poder santanista. Delgado é ainda mais ambicioso.
E que não restem dúvidas, Delgado não está só a criticar Eduardo Cintra Torres, está a deixar um claro aviso intimidatório às direcções e chefias dos órgãos de comunicação social a que preside.
Aqui, no PÚBLICO, fica Luís Delgado e os que lhe dão ordens desde já a saber que têm azar. Estejam ao serviço de Santana ou de outro qualquer poder.

12.10.04

#1
[7:51h]

Acordar com um beijo amigo (mesmo que enviado por sms), abre sempre uma perspectiva diferente sobre o dia que se enfrenta.

11.10.04

#4
[...]

Deixei-me ficar a trabalhar até mais tarde, fui vendo a sala a esvaziar, a noite a entrar pela janela, o sossego a instalar-se no espaço caótico de todos os dias.
Enquanto o país aguarda em suspenso pela a declaração de Santana (pura poesia, certamente), e o fax debita furiosamente as inferteis circulares, eu tenho os ouvidos sintonizados num cotonete musical, deixando-me embalar pelos sons.
Os dedos acariciam o teclado e transformam ideias em palavras, ferindo o branco do ecrã, transpondo para ali esta sensação que em mim se instala.
A voz soturna de Beth Gibons, os acordes melancólicos dos seus Portishead - canções antigas que me levam às coisas aprendidas, que vou elencando e dispondo no tabuleiro dos dias, como um jogo de xadrês, fazendo-me equacionar as certezas, os ângulos de leitura e os passos a dar.
Há sempre coisas que não queremos sobrevalorizar, palavras que nos custam dizer, momentos que, pelas mais diversas razões, preferiamos não recordar. Há coisas que não consigo calar, sossegar em mim, esquecer.
Tudo isto converge para este momento.
#2
[o sul a chamar por mim]


Vuelvo al sur

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo,
con mi temor.

Llevo el Sur,
como un destino del corazon,
soy del Sur,
como los aires del bandoneon.

Sueño el Sur,
inmensa luna, cielo al reves,
busco el Sur,
el tiempo abierto, y su despues.

Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.

Te quiero Sur,Sur, te quiero
Sur...

Fernando E. Solanas

#2
[Estarei grávido??]

Estou com desejo de comer diospiros...
#1
[na crista da montanha]
Encontrei, no blog do Viagiattore, este Poema Editado, e logo o identifiquei com o que chamo andar na crista da montanha, esse lugar onde se vê mais e onde o vento bate dos dois lados.
espero que gostem.
Poema editado
Legendar a conversa dos pássaros ao amanhecer, esticar o arame do violino, acolher o elogio dos defeitos, prender em gaiolas os livros de leitura avoada, trocar mensalmente a terra do rosto, agradecer a quem te cumprimenta por engano, empregar as ervas como escolta das flores, desaparecer na visibilidade, interromper a sesta do vento, conhecer-te na medida em que me ignoro, repetir os erros para decorar os caminhos, afiar a faca na compra para que seja leal na despedida, levantar atrasado com a solidão ao lado, reverenciar o muro que nos permite imaginar uma vida diferente da nossa, escolher as melhores maçãs pelo assédio dos insetos, assobiar estrelas entre os telhados, partir os cabides ao arrumar as malas, avisar das falhas na calçada, seguir quem está perdido, ser a primeira roupa do teu dia, desafiar as cigarras desafinando mais alto, revezar com o pessegueiro a guarda da porta, buscar um confidente fora da consciência, barbear a insônia com a lâmina dos seios, abandonar teu corpo antes da luz depor o peso, morar no clarão exilado, curvar-se no violão como uma violeta cansada, compensar a forte dose da fala com os gestos, imitar a elegância de objetos esquecidos, deixar a música se inventar sozinha, segurar no braço da cerração para atravessar a rua, retribuir o aceno das sobrancelhas, presenciar da janela a palestra da chuva, espreguiçar a camisa dormida de espuma, eleger tristezas para concorrer com as tuas, engolir de volta as palavras que te agrediram, medir a altura do poço com uma moeda, entender que meus livros são parecidos comigo (demoram a fazer amigos), verificar o pulso da madeira, achar no pesadelo um quarto para dormir, arder como um musgo na soleira da porta, descer o fecho do vestido e vestir o quarto, combinar encontros e desencontrar-se consigo no meio do trajeto, desistir de compor o diário porque não existe segredo quando escrito, anotar na agenda as reuniões que não quero ir, apiedar-se da vocação fúnebre do guarda-chuva, falir na memória preservando a imaginação, acautelar-se das paredes velhas, o cimento armado, carregar o sobretudo como uma garrafa vazia, comemorar o que desconhecemos um do outro.


Novíssimo Testamento - Fabrício Carpinejar

10.10.04

#2
[procura-se]

procuro um frigorifico para a minha casa. quem tiver algum a mais, em bom estado, que me escreva para o e-mail.
agradecido
#1
[a casa]

na minha 4ª incursão à casa, já com chaves no bolso e contrato assinado, descobri que, das varandas, tenho uma vista brutal sobre a serra e o castelo dos mouros... nunca tinha olhado para aquele lado.
não sei se vou aguentar tanta beleza e emoção.

8.10.04

#1
[...]

Você acaricia o incontrolável
Em fronteiras vazias
nos entregamos ao
sol profundo do esquecimento

depois da estação
onde já não te vejo

suponho o teu olhar as estrelas

Gustavo Arruda

poeta Brasileiro que conheci ontem.

7.10.04

#2
[Dicionário Informal, 4ª entrada]

REGRA


Convenção a quebrar em caso de necessidade.
#1
[ah pois é...]

Os partidos da maioria agitam-se, como se de um ninho de lacraus furiosso se tratassem.
Mesmo os mais liberais e neo-conservadores da nossa praça lhes lançam metralha serrada... fica o exemplo de JMF que, no editorial do Público de hoje é contundente para com o (des)governo.

****

Ainda Mal Começou...
Publico, 07 de Outubro de 2004
José Manuel Fernandes


Os estragos provocados por este Governo ao fim
de pouco mais de três meses ultrapassam as piores previsões dos mais pessimistas
Apesar de não se conhecerem todos os detalhes das circunstâncias que rodearam a saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI - e de provavelmente nunca se virem a conhecer -, a decisão do antigo líder do PSD, que implicou uma ruptura radical com um velho amigo a que o ligam laços de família, mostra que se ultrapassou um novo limite. E ultrapassou-se esse limite no momento em que na TVI, uma estação privada de televisão, se começou a perceber que os negócios que dependiam do Governo dificilmente iriam para a frente, se a estação mantivesse a assertividade crítica de alguma da sua informação e opinião. Isso não terá sucedido ontem, nem sequer depois das declarações de Rui Gomes da Silva: isso vem sucedendo há muito e mostra que persistem em Portugal dois males antigos que fazem com que sejamos uma democracia pouco liberal. Primeiro, porque as tentações de os governos controlarem a informação não desapareceram, antes recrudesceram com o actual Executivo, e o império da PT- criado sob o PS, alimentado e protegido pelo PSD - permite ter uma terrível arma de intervenção capaz de condicionar mesmo os grupos privados, na televisão e não só. Depois, porque em Portugal são raríssimos os empresários que não actuam em função das conveniências do Governo do momento, não só por dependerem do Estado, mas também por o Estado nunca ter liberalizado as regras da economia por forma a que tudo não dependa, em última análise, da mendigada rubrica de um ministro.
Chegámos agora a um dos momentos mais baixos deste círculo vicioso. De um lado, um governo acossado e fraco, desorientado e acéfalo, incapaz de resistir à tentação da manipulação e desesperado por não perceber que o mal não está em quem divulga as más notícias, mas em quem lhes dá origem: eles próprios. Do outro lado, elites que ou estão divorciadas da causa pública, ou estão concubinadas com os poderes - elites incapazes de perceberem aquilo que Jorge Sampaio recordou no seu discurso do 5 de Outubro: o fiasco trágico das elites políticas (mas também económicas) do Estado Novo e as consequências do fracasso da tentativa tardia de reforma durante o marcelismo. Essas elites sabiam que era necessário transitar para uma democracia pluralista e descolonizar, mas falharam quando chegou altura das reformas necessárias. Bloquearam, intrigaram e não conseguiram tirar o país do beco em que se encontrava.
Ora é essa situação em que muitos portugueses já se sentem hoje e alguns dos que se iludiram com a experiência marcelista há anos que sentem que estamos a caminhar de novo para um abismo.
Com uma agravante: o nível intelectual e cultural dessas elites, quer das que chegaram a pensar que era possível a transição gradual, quer nalguns casos das que eram genuinamente autoritárias, era infinitamente superior ao de muitos daqueles que desgraçadamente nos governam. É trágico - lancinante mesmo - ter de admiti-lo, mas depois de se assistir a uma demonstração de iliberalismo democrático como a dos últimos dias (que é a ponta do icebergue do mal-estar que se vive em muitas redacções) e de ninguém ter porventura dado a atenção devida a tudo o que disse terça-feira Jorge Sampaio, na actual crise o risco de ruptura e declínio é porventura bem maior do que a oportunidade de mudança e de progresso. Daí o receio: ainda não batemos no fundo.

6.10.04

#4
[prof Martelo]

Ao ser corrido da TVI, Marcelo Rebelo de Sousa provou na pele uma velha máxima: Roma não paga aos traidores.
#4
[é confrangedor...]

Assistir ao (des)equilibrio sem rede que a ministra da educação (??!!) faz na Assembleia da República, na tentativa de explicar o inexplicável: o agravar do caos na educação.

#3
[jobs]

O (des)governo de Portas e Santana, nomeou, em cada dia útil desde a sua tomada de posse, 13 boys ou girls.
Palavras para quê, tanta gente para tão pouca competência.
#2
[sede de mais]

Parece que estou em maré de sorte.
Depois de ontem ter arranjado a casa, hoje encontrei esta mensagem na minha caixa de correio:

Tenho o gosto de informar que, na sequência da nossa entrevista de Sábado p.p., passarei a contar com a sua participação na oficina de escrita narrativa, a partir de 7 de Outubro.
Saudações amigas do
Mário de Carvalho


#1
[insónia]
São poucas as coisas capazes de me tirar o sono.
Neste momento, quando a noite já vai longa, a lua meio recortada já cruou metade do seu percurso e o frio começa a dar o ar de sua graça, o que me chateia mesmo a sério, é não perceber o porquê desta insónia.

5.10.04

#2
[fumo branco]

Depois de uma maratona negocial intensa, um poderoso lobby pró primeira casa conseguiu ganhar espaço no meu pensamento. A decisão estava quase tomada, a queda da hipótese "2ªcasa" só veio apressar a escolha. Perdi uma casinha linda, ganhei a simpatia de uns "quase senhorios", arranjei um espaço que, não tendo o charme do outro, me estimula.
De hoje em diante, o Metrografista entra em processo de mudança. Daqui a um mês, quando estiverem no Museu de Arte Moderna, em Sintra, olhem para o prédio da frente: a janela que ostentar a bandeira com o arco iris da paz (como a da foto ao lado) é da casa onde será bem vind@ quem vier por bem.
Para @s amig@s que estão longe: não esqueço que os vossos sofás foram minha morada por este mundo fora, espero por tod@s com a mesma gentileza e disponibilidade que sempre têm tido para mim.
Estou CONTENTE, este é um dia que, definitivamente, me dá sorte.
#1
[are you talking about me?]

ESQUADROS

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(Quem é ela? Quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde
Transito entre dois lados, de um lado
Eu gosto de opostos
Expondo meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado


Adriana Calcanhotto

4.10.04

#3
[votações]

O post sobre as minhas casas resultou numa verdadeira chuva de opiniões para o meu telemóvel.
Isto é lindo, do nada surge uma verdadeira sondagem via SMS... parece que toda a gente tem algo a dizer.
Já agora, a opção pela segunda casa vai na cabeça do pelotão, destacada (e na minha também...).
Obrigado a tod@s!

#2
[há um ano...]

Os verdadeiros viajantes são aqueles que partem por partir.

Baudelaire
#1
[decisões]

Depois de muito procurar, tenho entre mãos duas casas para alugar.
A primeira é espaçosa, luminosa.
A segunda é pequenina, tem menos luz.
A primeira é bem situada, numa artéria movimentada, com vista para o mar.
A segunda é bem situada, num lugar sossegado, com vista para o mar.
A primeira tem um espaço de fácil utilização.
A segunda exige soluções imagéticas, exige um saber fazer e um saber estar.
A primeira tem uma senhoria um bocado metediça.
A segunda um casal de senhorios velhotes e simpáticos.
A primeira é mais cara que a segunda.
A primeira é um estilo de vida mais direitinho, arrumadinho e tal.
A segunda é uma opção de vida bem mais ao meu estilo...

Nunca me esqueço daquela máxima que diz que é feliz quem pode fazer opções. Mas, uma vez que as grandes decisões me deixam sempre em palpos de aranha, mais uma vez verifico que ser feliz dá trabalho. :)

1.10.04

#2
[dialética]

Por vezes, o difícil é explicar que nariz de porco não é tomada.
#1
[Yo La Tengo]

Acordar ao amanhecer num lugar estranho, que, a custo, reconheci.
Ver as paredes rasgadas pelo sol nascente, laranja. Começar a pensar, mesmo sem oculos. Desejar ter a nikon à mão, para captar a imagem, numa longa exposição, com abertura minima.
E a memória dos Yo La Tengo a fazer de banda sonora.
Virar-me e voltar a adormecer. satisfeito.

30.9.04

#1
[...]

explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me

Alejandra Pizarnik
roubado aqui

29.9.04

#5
[...]

"(...) e voltou no dia seguinte, voltou no domingo, voltou na segunda-feira.
Como se quisesse esgotar, em poucas horas, todo o contido tumulto de um mar subterrâneo. Como se quisesse esgotar-se. Como se quisesse esgotar-me.
AS mãos: tão depressa muitas como logo a seguir nenhuma. A boca: ora multiplicada ora anulada de igual modo. Os olhos: sempre os mesmos, nunca os mesmos.(...)"

David Mourão Ferreira
In Um amor Feliz
#4
[poema visual]

Alexandre O'Neill, In Abandono Vigiado

grafismo respigado aqui


#3
[É já amanhã]

DJ Metrografista (moi meme) no Spot
30 Setembro, 22h
AGITO Bar - Bairro Alto
(Rua da Rosa, 261)

#2
[livres]

Contrariamente ao que se julgava, Simona e Simona estão vivas, tendo sido libertadas ontem.
Estou feliz por elas e pelas suas famílias, que, passado o sufoco, foram as primeiras a lembrar as outras vitimas, e que esta guerra e a ocupação criminosa têm de acabar.
#1
[Há 1 mês em Lisboa]

LXXVI

Uma das raras mulheres
para cujos braços
ainda corre sem hesitação: a Itália.

Dvid Mourão Ferreira

28.9.04

#4
[Multiplicidades]

Pela segunda vez em poucos dias, perguntaram-me se sou autor de outro blog para além deste.
Lembrando-me das duas histórias, fico com algumas dúvidas no alto das ideias...
será que andam convencid@s que tenho várias personalidades?
será que pensam que não tenho mais nada para fazer?
será que há por aí gente que me vê para lá de mim?
será que tenho multipla personalidade e uma série de heterónimos, como um certo poeta da nossa praça?
A minha produção bloguistica resume-se ao metrografismos (escrita e fotos), e a um projecto de blog partilhado que, apesar de já ter feito uma longa viagem, ainda não teve a devida atenção da minha parte (estou a tornar-me perito em deixar algumas pessoas penduradas).
Tanto no primeiro como no segundo caso, não me envergonharia de ser autor dos conteúdos em questão, mas, em ambos os casos, há alguém para lá de mim, que sente e escreve... ainda bem.
#3
[Dos Amigos de Gaspar:]

AS DÚVIDAS DO GASPAR

Quem sou eu? –disse eu
só que ninguém respondeu, ninguém
mas o que foi que me deu
para estar hoje assim?

Estou aqui, se estou
mas para onde é que eu vou, quem sou?
Toda a gente sabe mais ou menos quem é

Passam carros, passa gente
vão para algum lugar é certo
vão para trás ou vão para a frente
vão para longe ou vão para perto
vão para algum lugar é certo, vão

Sérgio Godinho



#2
[5']

but I don't care about those silly things
Cause all I need is five minutes of everything

The Gift
#1
[questões fulcrais]

- Why?
-... Why not?

27.9.04

#1
[nos arquivos]

“(...) Porque as pessoas que dão mais valor à estabilidade e que temem tudo o que é transitório, incerto, mutável, construíram um poderoso sistema de estigmas e tabus contra o desenraizamento como força desestabilizadora e anti-social, e assim conformamo-nos a maior parte das vezes, fingimo-nos motivados por lealdades e solidariedades que realmente não sentimos, escondemos as nossas identidades secretas com o selo da aprovação. Mas a verdade escapa-se nos nossos sonhos acordados permitidos pela sociedade, os nossos mitos, a nossa arte, as nossas canções, celebramos aqueles que não pertencem ao grupo, os diferentes, os fora da lei, os excêntricos. Aquilo que proibimos a nós mesmos, pagamos bom dinheiro para admirar num teatro ou num cinema ou nas folhas de um livro. Nas nossas bibliotecas, livrarias ou locais de diversão fala-se verdade. O vadio, o assassino, o rebelde, o ladrão, o mutante, o banido, a mascara, se não reconhecêssemos neles as necessidades que não podemos preencher, não os inventariamos as vezes e vezes sem conta, em cada sitio, em todas as línguas, em todos os tempos e a cada passo.”

Salman Rushdie,
in “O Chão Que Ela Pisa “

26.9.04

#2
[os domingos]

Manhã de domingo, quase verão, trabalho para fazer e uma vontade imensa de não estar aqui.
#1
[ontem à noite]

O Projecto A Naifa esteve ontem no Santiago Alquimista, em Lisboa. Foram 50 minutos de fado travestido e embrenhado no poesia, num espaço a fazer lembrar, ao de leve, o saudoso Ritz Clube.
Fica um dos meus poemas favoritos e a apresentação que abre a sua página oficial - www.anaifa.com (neste computador não consigo fazer links...).

Os Milagres Acontecem

Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa

Hoje abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal
olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo

Ana Paula Inácio

*****************

"Os primeiros sons de «Canções Subterrâneas», por sugestão dos acordes da guitarra, invocam um bulício de taberna e colocam o ouvinte na expectativa de escutar um rosário de lamentos; uma sucessão de ais, no seu pior nados e criados nos trejeitos do estilo dos intérpretes, no seu melhor nutridos pelos seus sentimentos. As primeiras impressões porém são enganadoras: são filhas do hábito, do mau hábito de pensar o fado e a tradição musical como um dogma, com suas escrituras, seus santos e mártires, pregadores e seguidores autorizados apenas a pequenas revisões respeitadoras da doutrina. A ilusão, criada por A Naifa no início do seu primeiro álbum, termina exactamente ao fim do minuto e quarenta e seis segundos da introdução."


24.9.04

#2
[Por Simona e Simona]

Escrevo com um nó na garganta. Um nó que se vem apertando há alguns dias, desde que duas activistas da ONG Italiana Uma Ponte Para foram raptadas por um grupo de extremistas no Iraque. Um nó que me asfixia, angustia, que me doi fundo.
Simona e Simona são jovens e voluntariosas. Participaram no esforço contra a guerra que o mundo promoveu. Em Itália, onde ocorreram as maiores mobilizações, estiveram ao lado de milhões e milhões de homens e mulheres, condenando a aventura armada de Bush na Babilónia, apontando o dedo à mentira, injustiça e à ganância do petróleo. A incrível mobilização do movimento social daquele país, il movimento, fez com que Berlusconi nem sequer se atrevesse a participar na coligação que fez a guerra, esse eixo do mal gerado no ocidente e travestido de paladino da democracia.
Il movimento não conseguiu impedir que, tal como os GNR's, os Carabinieri fossem para o Iraque, para assegurar a paz, dizem. Mas respondeu à altura: as iniciativas pela paz em Itália são multliplas, quase diárias, e a denuncia do que se passa em terras iraquianas é uma constante. Para lá disso, as ONG partiram para o terreno, para cooperar, para trazer notícias, para dar uma mão e fazer uma ponte, para dar uma resposta diferente e solidária ao povo iraquiano, longe do ódio e da arrogância do militarismo. E lá foram as duas Simonas para o Iraque.
No passado dia 12 a notícia foi brutal: as duas cooperantes deixavam de ser solidárias anónimas, passando a ser, juntamente com dois iraquainos, consideradas como objecto de troca. As suas vidas pela retirada dos carabinieri do Iraque, onde nunca deveriam ter ido. Berlusconi e os seus disseram que não, que não cedem ao terrorismo... mas cedem sempre a Bush.
E o drama arrastou-se durante duas longas semanas, até que a execussão das duas italianas foi anunciada. Mais duas vitimas inocentes nesta espiral de violência. A Itália e @s pacifistas estão em estado de choque.
Não há vidas que valham mais do que outras. As de Simona e Simona não valem mais do que tod@s @s vítimas deste conflito. Mas dói ver a cegueira radical com que algumas facções da resistência iraquiana respondem à ocupação criminosa do seu país: disparam em todas as direcções, matando os seus e aqueles que, por solidariedade, deram muito de si contra esta guerra infinita.
Estando contra esta guerra e conhecendo um pouco daquilo que Il movimento tem feito, sinto uma grande frustração: a Pomba da paz foi, mais uma vez, atingida por aqueles que a deveriam ter como uma esperança.
Mas não é por isto que nos vergam. A guerra não é solução, esta ocupação é criminosa, é necessário que @s iraquian@s tomem o poder em suas mãos. Sem mentiras, sem radicalismos.

#1
[no calor da noite]

água de beber
ágau de beber camarada...

23.9.04

#2
[mudando de assunto]

Alguém viu por aí o papagaio do Wiston Churchill?
#1
(...)
Ana Dora, Elvira, Isabelinha, Octaviana, Ursula: foi de propósito, foi, que assim vos alinhei, como simbolos menos remotos de algunas ou de muitas outras, por esta ordem elementar de sucessão das vogais - singelo AEIOU do mau aluno que sou, repetente e relapso incorrigivel, cabulão que nunca passa da primeiríssima página da cartilha.
(...)

David Mourão Ferreira,
in Um Amor Feliz

22.9.04

#3
[Toca e foge]

(...)
Isso é um toca e foge
Quantas vezes não
tentaste parar
E quantas vezes não
quiseste travar
Jogar as mãos, tentar
agarrar
As coisas boas desta vida
à toa
(...)

Xutos & Pontapés
#2
[instanes...]

Instante

Apenas um momento
este equilibrio
tão perto da beleza,
este poema
anterior
ao vento.

Carlos de Oliveira
#1
[Paleariza II]

( Ler a primeira parte)


Como seria de esperar, não existia qualquer lugar para acolher viajantes em Bova Superiore. Mas, depois de uma breve consulta, soubemos que o jardim do coreto estava disponível para acampar. Muito bem, tudo bem.
A tarde estava chegar ao fim. Do lado onde poderia estar a Sicília só se via neblina. Como ainda faltavam umas horas para o concerto, decidimos subir ao castelo Normando, para una occhiata, uma vista de olhos. Subir a pique, por entre as ruelas, entrar no escuro. Sentir o calor e o cheiro da noite a adensarem-se com a caminhada.
Ao chegar, o espanto das formas que a penumbra deixava ver. Escuro. Luzes aqui e ali, dispersas. Um conjunto casas ao longe a formar uma seta luminosa para qualquer lugar desconhecido. A linha da costa bem desenhada. O silêncio e a lua crescente que nascia. Serenidade absoluta.
A páginas tantas, começamos a ouvir música vinda do casario. Pandeiros, vozes, concertina… uma melodia intemporal que chegava algumas horas antes do concerto. Tempo de descer por outras ruelas, ver os becos sombrios e procurar jantar.
A aldeia tinha-se enchido de gente, que viera para o grande encerramento do festival. A música que nos chegava aos ouvidos era improvisada por um velho que conduzia uma concertina e alguns putos que tocavam pandeiro ao despique. Um luxo tarantélico. Tascas de vão de escada, comes e bebes de fabrico local… é nestas alturas que um (quase) vegetariano se questiona, mas as alternativas acabam sempre por aparecer.
Às 22h, na praça central – cuja placa dizia, em italiano e em grego da calabria, chamar-se Roma – começavam os discursos. A organização, o presidente da comuna (em nome dos seus congéneres) e uma terceira personagem, um velhote de bigodinho, barriguita e costas arqueadas… a sua presença explicou-se pelo discurso que proferiu… digamos que, até aquele momento, nunca ouvira grego tão bom! Ecos do que ali foi dito só mesmo as confabulações do escriba… eu é que sou pressidente da Xunta.
E eis que, depois das palavras de ocasião, entra em palco A Música, essa linguagem universal promovida a substantivo próprio por José Luís Peixoto.
Enzo Avitabile, um Napolitano pesquisador de sonoridades tradicionais, e os Bottari, grupo de metais e percussão – feita a partir de pipas -, encheram a montanha de alegria e cor durante duas horas que pareceram muito. Os Sons do mundo, as palavras angulosas, o ritmo e a imaginação fizeram agitar os corpos e as almas de uma praça que, de repente, se tornara pequena para tanta grandiosidade. Tudo era uma grande vertigem a rodopiar.

21.9.04

#1
[do silêncio]

Hoje não encontro palavras que me sejam possíveis.
Guardo-me no silêncio, saboreando uma restia de paz.

20.9.04

#3
[foto(b)log]

Apesar das imagens, os grafismos deste Blog são essencialmente feitos de palavras, de linhas e entrelinhas, de pinceladas verbais - substântivas ou minimais.
No entanto, fruto da minha incursão pelo mundo dos fotogramas, já existe a versão fotográfica do Metrografismos, que está a crescer de dia para a dia.
passem por lá e façam-se sentir.
#2
[Dicionário Informal, 3ª entrada]

Interruptor

Objecto representativo da mitologia urbana pós-moderna, onde surge com função de mediador de estados de alma (geralmente) negativos.
#1
[...]

ESCULTOR
Sentia os dedos
A dar forma
(e fogo)
Aos designios
Do desejo

André, 2004

19.9.04

#3
[O Pensador)

Dois discos marcaram o meu ano de 1994.
Um chamava-se Viagens, foi da autoria de um excentrico do Porto de boas palavras, muita música e péssima voz. Vocês sabem do que estou a falar.
O segundo veio do lado de lá do Atlântico. Numa altura em que Lula - ainda vermelho e cachorro barbado, cortesia dos inimigos (alguns agora amigos) políticos - quase foi eleito, estava repleto de consciência social, de uma revolta germinada na miséria da favela, alimentadas pela fome e injustiça, e versejadas por uma cabeça muito bem pensante, a de um tal de Gabriel.
Hoje fui ve-lo e ouvi-lo pela primeira vez, a Monsanto. O concerto foi irrepreensivel, o homem rapou, dançou e improvisou, estando em alto nível. Teve também a companhia do Senhor Godinho e dos Da Weasel, que abrilhantaram o Show.
O espaço revelou-se uma agradável surpresa, com uma vista soberba sobre Lisboa e a iluminada ponte 25 de Abril.
Ficaram-me algumas palavras que desconhecia, mas que abrem portas à imaginação:
(...)
Pensa! O pensamento tem poder.
Mas não adianta só pensar.
Você também tem que dizer! Diz!
Porque as palavras têm poder.
Mas não adianta só dizer.
Você também tem que fazer! Faz!
Porque você só vai saber se o final vai ser feliz depois que tudo acontecer.
E depois a gente pensa.
E depois a gente diz.
E depois a gente faz... o que tiver que fazer!
O que tiver que fazer! (...)

Gabriel O Pensador,
in Se liga aí
#2
[Roma, outra vez]

ROMA

Há cidades assim,
deitadas no tempo,
esperando ser lidas
com todos os sentidos.

André, Setembro 2004
#1
[We'll allways have Roma...]

LXXVII
Há cidades, como Paris
Onde sente a nostalgia
de existências que poderiam ter sido suas.
Noutras, como Roma,
a exaltação de vidas
que remotamente viveu.

David Mourão Ferreira

17.9.04

#4
[Still runnig]

A música é essencial nos meus dias, na forma como interpreto o mundo, como lido com ele, como construo os dias.
Há grupos que marcam a vida, e, naquela que posso considerar ser a BSMV (Banda Sonora da Minha Vida), tenho alguns que são incontornáveis. entre eles há um que se destaca, pelos sons, pela diversidade, pelo arrojo, pela poesia, pelo mediatismo e pelo espetaculo que trazem à sua volta. São de Dublin, começaram a tocar um ano antes de eu ter nascido, chamavam-se então hype.
Mais tarde adoptaram o nome de um missil balistico, eles, os pacifistas, passaram a chamar-se U2, e defendiam que, para fazer rock & roll, bastavam 3 acordes, um refrão e a verdade.
Como bons Irlandeses, são festivos, empenhados, politizados e um pouco padrecas... não podiam ser perfeitos.
Conheço os seus discos de trás para a frente, de frente para trás. As suas canções são verdadeiros épicos, tenho com elas uma relacção muito forte, emotiva. Fazem-me viajar nas recordações de 10 anos a ouvi-los - porque estiveram sempre presentes nos momentos importantes - e abrem-me as portas do futuro, dão-me esperança.
Por vezes ponho-me a pensar qual será A canção, e a conclusão é difícil. Mas acabo sempre por deixar duas para a ronda final da decisão. Uma chama-se Stay (Faraway, So Close!), e foi banda sonora de um filme de Win Wenders, a outra chama-se Running To Stand Still. Ambas me sugerem uma caminhada por ruas vazias, à procura de tudo e de mim mesmo, uma vontade de sair e de gritar, de me mexer, de procurar saidas e respostas para a inquietação. São canções que se renovam.

Running to Stand Still
And so she woke up
Woke up from where she was lyin' still.
Said I gotta do something
About where we're goin'.

Step on a fast train
Step out of the driving rain, maybe
Run from the darkness in the night.
Singing ah, ah la la la de day
Ah la la la de day.

Sweet the sin, bitter the taste in my mouth.
I see seven towers, but I only see one way out.
You gotta cry without weeping, talk without speaking
Scream without raising your voice.
You know I took the poison, from the poison stream
Then I floated out of here, singing
Ah la la la de day
Ah la la la de day.

She walks through the streets
With her eyes painted red
Under black belly of cloud in the rain.
In through a doorwayShe brings me white golden pearls
Stolen from the sea.

She is ragin'
She is ragin'
And the storm blows up in her eyes.
She will suffer the needle chill
She's running to stand still.


#3
[Guantanamo]


No Il Manifesto de hoje há uma entrevista com o pai de um Inglês preso em Guantanamo.
Deixo-vos pedaços de um relato que, sendo uma ponta do iceberg, é absolutamente repugnante.

********************************************************

"(...) Da anni mio figlio è recluso a «Camp Echo», la zona del carcere di Guantanamo dove sono i detenuti in isolamento totale. Moazzam non vede la luce del sole da anni. Sta perdendo la vista; messaggi di altri detenuti rilasciati mi fanno sapere che le sue condizioni fisiche e mentali stanno rapidamente peggiorando.(...)"

há anos que o meu filho está preso no "Camp Echo", a zona da prisão de Guanatnamo onde estão os detidos em isolamento total. Moazzam não vê a luz do sol há anos. Está a perder a vista; mensagens de outros detidos fazem-me saber qeu as suas condições fisicas e mentais estão a piorar rapidamente.

"(...)Durante gli interrogatori, anche per 100 ore di seguito, ogni tipo di tecnica di tortura è stata applicata. Anche lo strappo delle unghie per estorcere informazioni.(...)"

Durante os interrogatórios, que chegam a passar as 100 horas seguidas, todo o tiopo de técnica de tortura foi utilizada. Também o arranque das unhas foi utilizado par extorquir informações.

"(...)Moazzam in Afghanistan era riuscito a costruire quattro pozzi di acqua potabile, poi voleva insegnare ai bambini di quel paese disastrato a leggere e scrivere aprendo delle piccole scuole. Fece la richiesta alle autorità talebane. Non ottenne alcuna risposta. Invece, a Islamabad, dove viveva con la moglie e un figlio di 5 anni venne catturato e da allora è iniziata la sua tragedia da un carcere all'altro, ho avuto poche o nessuna notizia. Infine la deportazione a Guantanamo.(...)"

Moazzam esteve no Afeganistão para construir quatro poços de água potável, e agora queria ensinar as crianças daquele país desastrado a ler e escrever, abrindo pequenas escolas. Fez o pedido às autoridades Talibans. Não obteve qualquer resposta. Em vez disso, foi capturado em Islamabad, onde vivia com a mulher e um filho de 5 anos, tendo começado a sua tragédia de uma prisão para outra, tive poucas ou nenhumas notícias. Por fim a deportação para Guantanamo.

"(...)Gli stessi generali che impartiscono ordini per le tecniche di tortura da infliggere ai detenuti di Guantanamo, come Jeffrey Miller, sono quelli di Camp Delta che per il «buon lavoro svolto» sono stati promossi nella «Emergency Reaction Force» per proseguire il «meritevole» lavoro, in Iraq, ad Abu-Ghraib.(...)"

Os mesmos generais que deram ordem para as técnicas de tortura a inflingir aos detidos de Guantanamo, como Jeffrey Miller, são os mesmos de Camp Delta, que, pelo "bom trabalho desenvolvido", foram promovidos na Emergency Reaction Force para prosseguirem o meritório trabalho no Iraque, em Abu Ghraib.
#2
[Dicionário Informal, 2ª entrada]

Frito (de fritar)

Estado emocional relacionado com as ideossincrasias da vida;


#1
[é sempre uma opção]


Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício.

Mário de Cesariny,
in Pastelaria

16.9.04

#4
[respescagem]

Spreading Wings
E como todas as vezes que caio,
Volto a subir até à velha árvore.
Visto lá de cima
O mundo parece mais bonito.
Muito mais bonito...

By Morticia
#3
[ausência]

si asa um tivesse
pa voa na esse distancia
si um gazela um fosse
pa corre sem nem um cansera

anton ja na bo seio
um tava ba manche
e nunca mas ausencia
ta ser nos lemama

so na pensamento
um ta viaja sem medo
nha liberdade um te'l
e so na nha sonho

na nha sonho mieforte
um tem bo protecao
um te so bo carinho
e bo sorriso

ai solidao to'me
sima sol sozim na ceu
so ta brilha ma ta cega
na se clarao
sem sabe pa onde lumia
pa onde bai
ai solidao e un sina...

Cesaria Évora
#2
[Ténues diferenças]



#1
[Ao acordar]

Hoje acordei com uma canção na cabeça, velhinha, que ouvia nos discos de vinil lá de casa... 1987. Apesar de, nessa altura, estar a inocentes milhas daquilo que transportam, estas palavras dos Trovante cedo me tocaram.

Lembras-me uma marcha de lisboa
Num desfile singular,
Quem disse
Que há horas e momentos p'ra se amar

Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foiquem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal

[refrão]:As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Queria viver tudo numa noite
sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p'ra poder sonhar

[refrão]

Quem foi que provocou vontades
e atiçou as tempestades
e amarrou o barco ao cais

Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais

[refrão]

devagar

Luis Represas

14.9.04

#4
[Às voltas com os jornais]

Os Ricos que Paguem a Crise
João Paulo Guerra*

O primeiro-ministro anunciou que o Governo vai tomar medidas para «beneficiar os pobres». Já anteriormente, o Governo tinha ameaçado os ricos que usam os transportes públicos que teriam que pagar bilhetes e passes mais caros que os dos passageiros pobrezinhos. Agora, a ameaça chegou aos endinheirados que recorrem às urgências e consultas externas do Serviço Nacional de Saúde ou que vivem em velhas casas arrendadas pelas quais pagam rendas velhíssimas.
Os pobres dos ricos que vivem em habitação própria e têm segunda e terceira casas para os tempos de lazer, os que frequentam consultórios particulares, no país ou no estrangeiro, os que se deslocam em carros de alta cilindrada – sinal da retoma –, nada têm que temer. Agora, os ricos que esperam por um transporte, para depois viajarem como sardinha em lata, os poderosos que aguardam um dia inteiro por um olhar apressado de um médico num hospital ou num posto de saúde, os opulentos que habitam decrépitas assoalhadas num prédio a ruir na «baixa» de Lisboa ou do Porto, esses ricos estão feitos. Esses ricos vão pagar a crise. A crise dos pobres propriamente ditos e a dos pobres dos ricos.
Aguarda-se o anúncio de novas medidas que, em benefício dos pobrezinhos, penalizem os ricos que fazem as compras do dia na mercearia ou no mini-mercado da esquina, os abastados que se vestem nos saldos, os nabos que educam os filhos nas escolas públicas, os ricaços que, sendo assalariados, não têm como fugir aos impostos. Esta problemática estende-se também ao pagamento de portagens nas auto-estradas sem custos para os utilizadores (SCUTS) e foi tema da Universidade de Verão do JSD. Perguntou o líder aos candidatos a «boys»: «Se eu for dois dias ao Algarve é ou não justo que pague portagens na Via do Infante?». Ao que as futuras elites «laranja» terão respondido: «Ó rico, tá-se me’mo a ver que deve de pagar». Fez-se doutrina.
Os ricos que paguem a crise.

*in Diário Económico, 14/09/004
#3
[dicionário informal, 1ª entrada]

Esticador:
Objecto útil ao espicaçar de algumas relações interpessoais.

just use it!
#2
[motivés]

descobri, na secretária de uma colega, esta compilação de luxo.
deixo-vos algumas das palavras que, na noite de sábado, me fizeram voar bem longe

Motivés, Le chant des partisans
Spécialement dédicacé à tous ceux qui sont motivés
Spécialement dédicacé à tous ceux qui ont résisté, par le passé
Ami entends tu le vol noir des corbeaux sur nos plaines
Ami entends tu les cris sourds du pays qu'on enchaîne
Ohé, partisans ouvriers et paysans c'est l'alarme
Ce soir l'ennemi connaîtra le prix du sang et des larmes
Motivés, motivésIl faut rester motivés !
Motivés, motivésIl faut se motiver !
Motivés, motivésSoyons motivés !
Motivés, motivésMotivés, motivés !
(Refrain)
C'est nous qui brisons les barreaux des prisons pour nos frères
La haine à nos trousses et la faim qui nous pousse,
la misèreIl est des pays où les gens au creux des lits font des rêves
Chantez compagnons, dans la nuit la liberté vous écoute
refrain
Ici chacun sait ce qu'il veut, ce qu'il fait quand il passe
Ami si tu tombes un ami sort de l'ombre à ta place
Ohé, partisans ouvriers et paysans c'est l'alarme
Ce soir l'ennemi connaîtra le prix du sang et des larmes
Refrain
On va rester motivé pour le face à face
On va rester motivé quand on les aura en face
On va rester motivé, on veut que ça se sache
On va rester motivé...
Refrain
On va rester motivé pour la lutte des classes
On va rester motivé contre les dégueulasses
Motivés, motivés...
#1
[Rodeado pel'...]

As palavras

São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade

13.9.04

#3
[lindo...]

mail da Amaranta (ou parte dele):

André
Tenha a certeza que a loucura actual do teu telemóvel não é uma manifestação da tua insanidade. A tua insanidade corporiza-se noutro tipo de manifestações ;)

Brilhante!
#2
[Saúde]

Santana recuperou uma ideia do governo de Durão, viva Santana!
Então agora o senhor primeiro ministro não eleito quer indexar o preço das taxas moderadoras ao IRS, com o argumento da justiça fiscal. Diz ainda que as receitas do SNS correspondem só a 5% da despesa, que é preciso reverter isso, porque nada é de borla. Desta forma, quem mais tem mais pagará...
Mas há aqui uma coisinha que não cheira muito bem... é que, quem mais tem já paga mais nos impostos directos, vulgo no IRS. Isto em teoria, porque a fuga fiscal é uma relalidade que delapida o património do ministério de Bagão Félix, dizem-nos os nossos (des)governantes - mas será a declaração de IRS o fiel da balança para a diferenciação de preços.
O que está aqui em jogo é a diferenciação social. Estigmatizam-se os pobres e dão-se argumentos a quem tem possibilidades, para se afastar do SNS e se apróximar das seguradoras - não tivesse sido o Ministro Luis Filipe Pereira um alto quadro deste sector.
Sou completamente favorável à melhoria da qualidade e quantidade dos cuidados prestados, devendo @s utentes ter uma palavra de exigência. Mas, pagando em diferença, a exigência vai cair aqui, ou seja, quem mais paga vai sentir-se em direito de ter mais, de ser melhor atendido. Numa perspectiva de mercado, em que toda e qualquer instituição de saúde é cpncorrente e angariadora de clientes, isto vai levar à diferenciação de utentes consoante os rendimentos, those are the rules.
Dizem-nos ainda que caberá ao estado assegurar a equidade, isto é, caberá ao estado assegurar o refugo, garantir que existem hospitais para a plebe, para os cervos da gleba que não podem competir, que não têm status ou seguro. E não pdoemos esquecer que este serviço de saúde, qual reserva moral de um liberalismo de inspiração cristã, se verá debilitado nas suas capacidades orçamentais, uma vez que a saída dos mais abonados da esfera contributiva da segurança social irá truncar e ferir de morte a solidariedade social e intergeracional que, mal ou bem, caracterizam o Sistema até aqui existente.
Para lá de toda esta questão há ainda a conversa das receitas e das despesas do Serviço Nacional de Saúde. Fala-se sempre das contas da saúde com um espírito de merceeiro. Número de operações, numero de consultas, comprimidos engolidos, gastos, entradas, buracos financeiros e derrapagens, o ganho excessivo (??!!) dos profissionais do sector. Carissim@s: os ganhos de saúde não se avaliam ao fim de cada ano, têm de ser observados com distanciamento temporal. Porque é que ninguém fala dos das de vida, e da melhoria da qualidade da mesma, que a população ganhou com o SNS? e a capacidade produtiva, que lucro é que o SNS deu ao país? bem estar, diminuição da doença- logo dos gastos com tratamentos e recuperação...
estas são algumas evidencias que nunca são tidas em conta. porquê? porque mostram que a saúde, apesar de cara para as contas do estado, é um bem social gerador de bem estar, é uma conquista democrática e democratizante, mostram que a saúde enquanto direito universal e gratuito é uma mais valia para o país.


#1
[tecnologias]

O meu telemóvel enloqueceu completamente.
Será esta uma manifestação psicossomática da minha própria insanidade?

12.9.04

#2
[post de ontem]

O que é uma fronteira?
Talvez a linha imaginária
que traça a geografia
dos medos.
#1
[no arquivo]

Fim de Verão
*
Final de tarde, esplanada deserta e calma,
silêncio pousando ao acaso sobre as mesas brancas,
a vaga silhueta da penumbra aproxima-se devagar.
Ao longe os primeiros barcos da noite
cruzam o crepúsculo, a luz extingue-se como
um fio de sangue percorrendo o horizonte.
Entre as mãos um plácido livro, um abismo.
Os dedos folheiam lentamente a minha alma,
rumores de portos emergem do meio das folhas.
Sonho-te então no ar quente deste final de tarde,
de um lado a outro da rebentação, o som
das redes batendo na superfície da água,
teu corpo cheio de música descendo na obscuridade.
Numa noite longamente transparente como esta,
sem sopro ou luz, com léguas de mar em volta,
e a vertiginosa música pulsando entre as marés.
Relembro agora, palavra por palavra, a frescura nítida
da tua pele, o sabor a sol colhido nos lábios em pleno Agosto.
Quando amanhã partir com as primeiras chuvas, quem apanhará
a dor que atravessa, de novo, teu distante coração?

Rui Manuel Amaral

* Publicado no DNJ de 12/10/1997

10.9.04

#1
[bicho de conta]

Atravessar a manhã tentando abrir os olhos.
A discussão dos candidatos do ps na tsf ecoa-me na cabeça, vazia de conteudos... nem a fleuma poética do manuel alegre me consegue prender a atenção.
Respirar. sentir o ar a entrar e percorrer-me.
Pensar em cores, flores e lugares.
Não conseguir escolher um disco, desejar a música.
Hoje sinto-me como um grande bicho de conta.

9.9.04

#2
[Dicionário]

Ressaca s. f. (do Cast. resaca). 1- Movimento de recuo da onda do mar, de uma corrente ou curso de água; refluxo da vaga. (...) 2- Forte refluxo das ondas ao chocarem num obstáculo. 3- O que é incosntante, versátil, volúvel; 4- (...)

In Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa, Ed. Verbo, 2001
#1
[saber perder, uma questão de método]

quantas vezes apostaste a tua vida?
apostei a minha vida mil vezes.
perdeste tudo?
sim, perdi sempre tudo.

José Luís Peixoto, in"a criança em ruínas"

8.9.04

#2
[Trainspotting II]

(...) Quando consegui saboreei o flash. Ali tinha razão. Pega-se no melhor dos orgasmos, multiplica-se a sensação por vinte, e mesmo assim ainda fica a milhas de prazer (...). A terra põe-ser a girar e não para mais.

Irvine Welsh in Trainspotting
#1
[trainspoting]

a certa altura, apercebeu-se que apanhava os comboios mais lentos
pelo simples prazer de prolongar a sensação de ouvir a vida a correr sobre os carris.

7.9.04

#4
[Egon Schiele]

Gosto do trabalho de Egon Schiele, do seu imaginário, da maneira como retratava as formas do corpo humano, a expressividade que conseguia dar às suas formas sensuais. Gosto do traço e do jogo de cores, do experimentalismo.


#2
[trânsito de ideias]



Mais um respiganço num blog do Porto. a imagem é do Tawzeeto, vem directamente do seu moleskine, passando pelo sous les pavés, la plage!
#1
[Coisas de fotógrafos...]

Fotografei-te. Recortei a tua imagem do resto da paisagem. Fi-lo só para te poder guardar e abraçar por mais um pouco. Queria que a tua luz naquele papel ficasse para sempre. Queria a tua luz iluminar-me.Fugiste com a noite, desapareceste no pôr-do-Sol. Os teus cabelos pareciam queimar em desalinho enquanto corrias na direcção do vento.Agora é noite, já não há luz, nem papel.... só uma recordação estampada na Lua.

Belo momento de inspiração do meu amigo Anarquista Duvall. A foto vale bem a visita ao Brucsinha.
#3
[digging for fire...]

thepixies.jpg
You rule. in 15 years, you won't be as known as you
are now, but most of the people that will know
you then will like you (or else I'll beat them
with a stick). You're nice to listen to.


What band from the 80s are you?
brought to you by Quizilla



6.9.04

#2
[Resta-nos sempre a poesia]


Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar

Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

(...)

Rui Malheiro e Tiago Leitão
para a voz e piano de Jorge Palma
#1
[sintetizador]

Reunião de trabalho de segunda de manhã: ponto de situação, tarefas e perspectivas.
É vida a retomar o seu ritmo, não obstante a batida ser diferente.

4.9.04

#1

POEMA

Escalar pelo angulo
das tuas palavras.
Encontrar-me
onde a vertigem
se acentua.

André, 4 de Setembro 2004