30.10.04

[...]

"oh let me hold your hand
please let your heart beat again"

29.10.04

#1
[isto é um regresso]


imagem roubada aqui

Há uma semana, nesta mesma cadeira, decidi suspender o metrografismos. Uma decisão motivada por uma conjuntura muito própria. Não foi uma desistencia, mas sim uma pausa para respirar fundo.
Fiz-me sempre do outro lado da barricada, a remar contra a maré, numa vontade obstinada por mais, muito mais. É aí que me situo, e não troco esse desconforto por nada. Por isso, hoje ensaio o regresso.
Ensaio um regresso porque sinto a falta deste espaço, porque muit@s me fizeram ver que ele não é importante só para mim. O Metrografismos é, também por isto, cada vez mais vosso... vocês sabem de quem estou a falar.
Não sei bem o que escrever, se tenho algo para dar, mas o impulso é mais forte do que a vontade de ficar fechado sobre mim mesmo.
Continuo a sentir-me com as mãos e as ideias presas, com vontade de gritar contra o vento, não sei o que dizer, mas digo. alguma coisa se arranjará.
Há que quebrar a janela de emergência em vez de ficar à espera.
A luta segue dentro de momentos, ou, como cantam os Ornatos, parto rumo à maravilha.

25.10.04

][isto não é um regresso...]

22.10.04

#1
[impasse]

I wish i could say everything there was to say in one word

Leonard Cohen, in The favorite game

Aqui estou, defronte das teclas, sem saber o que escrever.
Estou cansado de não ter nada para dizer. Cansado de ter coisas fechadas em mim e não saber como dize-las, como traze-las para a luz do dia.
Sinto-me bloqueado em mim, por um estar, por uma turbolência interior que me atormenta, que me corta a criatividade, que me tira o sono e me deixa sem vontade de comer.
Há uma ideia que me amadurece no pensamento. Não é de hoje nem de ontem, mas tem vindo a ganhar espaço nos últimos dias. É a de que, aqui e agora, nada tenho para dar.
Por isso, decidi suspender a publicação do metrografismos.
Até ver.

21.10.04

#1
[...]

— E eu?
— O quê?
— Achas que algum dia vou arranjar uma que me ature?
— Não, acho que não.

20.10.04

#1
[democracia]

Em Coimbra, a coisa continua confusa com os estudantes.
Neste momento, e pela primeira vez desde o 25 de Abril, a polícia de choque está a sitiar o polo dois da universidade, e distribuir pancada aos estudantes...
estamos bem.

19.10.04

#2
[leituras...]


#1
[eu cá...]

...dormia a sesta.
e não vinha desmentir logo a seguir.
Mas não me safo.

18.10.04

#3
[suspiros]

Olhar para a janela e perguntar quanto tempo falta para o regresso dos dias longos, das folhas novas, do calor...
Vontade de fugir.
#2
[surpresas]


Ontem, sem aviso prévio nem direito a contestar, alguém me levou à Cordoaria Nacional para ver a exposição «Ilustração Portuguesa 2004».
Organizada pela Bedeteca, a 6ª edição tem este ano como tema
"A Ilustração na Imprensa".
Adoro quando me fazem susrpesas!
#1
[encontros]

Na sexta feira, exortando aos crocodilos alguam boa disposição, fui ver Before Sunset, a sequela de Before Sunrise.
É um filme simples, quase banal, mas guarda em si algo que, como alguém dizia, nos faz desejar. Desejar um encontro inesperado, desejar um amor impossivel ou o impossivel do amor, desejar ser outro noutro lugar, viver a vida dos caminhos que se deixaram de lado... faz-nos desejar o risco, a vertigem, a crista da montanha (onde o vento bate dos dois lados).
É um filme que, a meu ver, evoca aquilo a que Agostinho da Silva chamou saudades do futuro, pondo em evidência que os encontros acontecem, que a vida é um jogo de possibilidades que se abrem a cada momento, pelo que é para ser jogada, mesmo que seja para perder.
Deixo-vos a crónica que Eduardo Prado Coelho escreve sobre Before Sunset, hoje, no público.

****


Alguém Duas Vezes
Eduardo Prado Coelho
Público, 18 de Outubro de 2004

Como é bom navegarmos no romantismo como quem toma o "bateau mouche" para percorrer o Sena e se propõe ser um turista da existência
É um filme onde se entra como quem desliza: tudo é previsível, nada deixa de nos surpreender, apenas porque o previsível acontece. Mas o previsível não é de modo algum uma debilidade do argumento. É uma espécie de metafísica, a metafísica envolvente e consoladora a que chamamos "romantismo". Como é bom navegarmos no romantismo como quem toma o "bateau mouche" para percorrer o Sena e se propõe ser um turista da existência! É exactamente assim que este filme faz: "Antes do anoitecer", obra de Richard Linklater, com Julie Delpy (que é o centro irradiante da obra) e Ethan Hawke.
Se o filme é encantadoramente previsível, repito, é porque vai ao encontro daquilo que é em nós a mais ingénua das convicções: o amor tem de acontecer. De certo modo, nesta deambulação por Paris, com cafés, jardins, barcos, traseiras de prédios, só acontece a iminência do acontecer: entre o medo e o pudor, as palavras da paixão terão de explodir. Como tudo é feito de uma elegância ardilosa, é ainda em termos de uma retórica do não-dito que o amor se enuncia: vais perder o avião, 'baby'; já sei. Todo o filme vive neste fio de um tempo de maturação dos sentimentos, sendo o tempo o verdadeiro protagonista, porque é ele que trabalha na transformação da situação.
Há ainda uma outra vertente que nos seduz: tudo acontece duas vezes, e, ao contrário do que quase todos pensam, a segunda não degrada a primeira, mas corrige a primeira. Embora um jogo de dissimulações e fintas verbais vá criando a leve coreografia das mentiras tão óbvias que são apenas a forma mais enternecida e inclinada de dizer a verdade. Tudo bem? Ah, sim, tudo bem. Quer dizer que falhaste a tua história amorosa, que não és feliz, que tendo escolhido acabaste por escolher o que não querias. E o filme fala, fala, fala, nunca se cala, tem um tempo a preencher, tem um não-dito a dizer, é um longo diálogo em tempo real, teria tudo para nos entediar, é o contrário de um filme de acção, e no entanto vai tecendo à nossa volta um fio de deslumbramento (ligado à beleza mítica de uma cidade, Paris, o amor nas ruas, o amor dos lugares, a cumplicidade dos cafés que não há e mais sítio algum).
O romanesco está na livraria mágica e mil vezes celebrada onde o reencontro se faz: "Shakespeare and Company". Continua nas ruelas de Saint-Michel, sobe pelos jardins, desce até ao rio, passa por debaixo das pontes, e dois seres avançam um para o outro no interior de si mesmos, criando a disponibilidade para amar. O filme consegue que lugares, objectos e palavras, formem um tecido passional discreto e oblíquo. Nesse plano a construção do espaço é extremamente bem conseguida e poderíamos dizer, citando o poeta, que o amor é a ocupação do espaço. De tal forma que um disco ou uma frase tornam-se metonímia de um breve encontro que lentamente se prepara para afrontar a prova mais difícil: o quotidiano.
Há um momento admirável: os dois sobem a escada do apartamento de Julie e o tempo de cada degrau é o tempo da própria imagem filmada: estabelece-se um silêncio, que é a palavra no esplendor tácito da sua rasura branca.

17.10.04

#1
[Ponderosa]

Era domingo, o primeiro, de tantos, passado em Inter Rail.
A manhã crescia e eu estava sentado no chão de uma praça em Antuérpia. Nessa noite morrera uma rapariga famosa, com nome de deusa, mas eu ainda não sabia de nada.
Uma orquestra dava o acorde. Fazia calor. Num talão do Multibanco, alinhei algumas palavras que me perseguiam desde Paris... palavras que falavam de um homem que, apesar das voltas do mundo, continuava a ser, na minha cabeça, apenas um homem. Sonhador e, por isso, destemido.
Guardei as palavras no bolso. Mais tarde dei-lhes forma e mais substrato. Continuavam a falar de um homem, de um tal Ernesto, uma sombra que me acompanhou, uma ideia que me acompanha...
Foi um texto que amadureceu e ganhou forma, e, por isso, quase me valeu uma tareia de uns PCs ortodoxos... porque contava a história de outra forma e se atrevia a olhar, mais do que para um mito intocável, para um homem, como tantos outros e tantas outras que conheço e conheci.
É um texto de que me orgulho.
Hoje, depois de uma ida ao cinema, lembrei-me do texto e do que me fez escreve-lo. Decidi postá-lo aqui. Mudei o nome que lhe dei na altura, mas as outras palavras, as que contam, estão lá todas.

GUEVARA

Trazes a boina inflamada pelo rubor da estrela
repleta de um ideal-neon
daquele que compra e vende almas com prazer desbarato.

Vives, ícone musical, dançando a tua memória,
mal liberta da arrogância do pó,
ao som de épicas canções revolucionárias
massivamente transaccionadas,
com os relógios que medem os nossos tempos
ou os isqueiros que acenderam o napalm num qualquer Vietname.

Amigos tens que, em públicos actos de fé desmedida,
prosseguem a tua beatificação
iniciada pelos realistas que nunca exigiram o impossível,
rumo a uma mítica banalidade que te transforma em mais um inofensivo
Marxista, Castrista, Estalinista ou Qualquer-Coisa-ista
em nome de um sonho que não é o teu.

E assim todos te admiram como o homem
que alimentou a fome romântica de um povo global
com travos de havano e atitudes imprevistas...
e há também aqueles que (por ilusão?)
partem de ti em busca da insubmissa força maestra,
serra de liberdade interior
onde o vítreo do teu olhar ainda ecoa puro
lembrando que só se é Homem
se se souber sê-lo.

André, 1997

15.10.04

#1
[exortação dos crocodilos]

A semanma da loucura a acabar, um cansaço extremo e o fim de semana à minha espera.
Depois de uma longa conversa com ela, pus-me às voltas com uma ideia, que se transformou numa questão complexa: o que ficará de nós próprios depois de uma tempestade?
e se lhe juntou outra, com direitos de autor: que farei eu quando tudo arde?
Vou ao cinema, esperando que a tela branca me ajude a dar passos no longo caminho das respostas.

14.10.04

#2
[...]

Tocáste-me no ombro e a marca ficou lá
#1
[em resumo, é isto...]

A Privatização da Saúde
AMÍLCAR CORREIA
Editorial do Público
14 de Outubro de 2004

O Estado vai avançar já no próximo ano com a empresarialização de mais 30 hospitais do sector público administrativo (existem já 31 unidades de gestão de natureza privada), que poderão ser geridos por uma "holding" a criar em Janeiro de 2005. Tem sido dito até aqui que a lógica empresarial da gestão dos hospitais aumenta a produtividade e a eficácia e que não colide com a equidade de acesso aos cuidados de saúde e com a universalidade da sua cobertura. Mas sobrevivem ainda os receios de que a gestão obedeça, por exemplo, à "selecção das patologias de acordo com critérios financeiros", como fez questão de sublinhar Jorge Sampaio, na sua última presidência dedicada às questões de saúde.
A empresarialização surgiu da necessidade de aumentar a eficiência da gestão hospitalar no Serviço Nacional de Saúde, assolado pelos problemas crónicos de sempre: falta de profissionais, listas de espera descomunais e desperdícios de vária ordem. Em suma, da ingovernabilidade do sistema actual. No entanto, transformar mais hospitais em sociedades anónimas de capitais públicos soa um pouco precipitado quando é o próprio Rui Nunes, que preside à Entidade Reguladora de Saúde, quem reconhece a necessidade de estudos de várias entidades que avaliem qualidades e defeitos do modelo dos hospitais SA. Que sentido faz ampliar a experiência a praticamente todos os hospitais públicos sem se conhecer de antemão os resultados de uma avaliação esclarecedora e independente aos méritos do modelo? Ou trata-se apenas de um estratagema para cumprir o défice público de três por cento, dado que o défice dos hospitais SA é incluído no Orçamento de Estado como se fosse uma despesa de investimento, como referia o ex-ministro Correia de Campos no PÚBLICO de ontem? A Unidade de Missão dos Hospitais SA tem feito um balanço positivo do exercício da gestão privada nos hospitais públicos, mas está ainda por demonstrar de que forma é que os hospitais SA poderão contribuir para o equilíbrio do sistema, quando os dados disponíveis dão conta de um crescimento de despesa de 10,2 por cento e um aumento das receitas de 4,7.
Por outro lado, não deixa de ser intrigante que Rui Nunes tenha admitido a privatização dos piores hospitais SA, poucos dias antes de o Grupo Mello ter dito precisamente o mesmo. A José de Mello Saúde já fez saber que está disponível para acelerar as reformas em curso e "salvar o sector da saúde", pelo que se mostra interessada em gerir os piores hospitais do SNS e em aumentar a quota de hospitais privados num espaço mais curto de tempo do que aquele que estava incialmente previsto. Era desejável que, neste caso, as segundas intenções não fossem as primeiras e que o que estivesse realmente em causa fosse a preocupação com a prestação de serviços de qualidade num sector onde o público não tem de ser necessariamente mau. A diabolização do público omite deliberadamente os casos de excelência em alguns hospitais, como o provaram alguns centros de responsabilidade integrada, cujo trabalho é sobejamente conhecido. Rui Nunes, depois das suas últimas declarações, dificilmente convencerá quem quer que seja de que a empresarialização não é sinónimo de privatização.

13.10.04

#3
[concertos]

Deviamos estar em 1981... o tipo que é hoje reitor da universaide de Lisboa, além de dar papa á sua Joana(e a todas as outras), andava com a sua barba à Fidel e o seu violão a cantar para os putos.

Recordo-me bem, deve ter sido o meu primeiro concerto. O seu mais famoso hit era o fungágá da Bicharada, cujo refrão se aplica perfeitamente ao espírito que, nos dias de hoje, baixou neste canto àbeira mar plantado.


É o fungágá, fungágá da bicharada

É o fungágá, fungágá da bicharada

la la la la la la la la ra la la


Vamos falar de animais e de como eles são
Do piriquito do gato e do cão
E outros mais também virão
Talvez uma girafa um macaco ou um leão

[refrão]

Vamos todos aprender como vive a bicharada
O que é um cardume e uma manada
Vamos ver não tarda nada
Quem é que afinal tem a voz bem afinada

[refrão]

Vamos tambem descobrir uns amigos bestiais
Bem diferentes dos habituais
E vamos rir até não poder mais
Com as palhaçadas dos amigos animais

Letra e Música de José Barata Moura, 1975
Roubado à Alex
#2
[lucidez]
Estamos sempre com um pé em cima da linha que nos separa da loucura.
Por vezes, o outro tem tendencia a levantar-se para avançar.
#1
[O metrografismos aplaude e subscreve]

Os Métodos e Os Avisos de Luís Delgado
Por LUCIANO ALVAREZ
Público, 13 de Outubro de 2004

"Um vendedor de antenas parabólicas, que se acha crítico de televisão, e da Imprensa em geral, passou aos insultos pessoais. Diz tudo do seu carácter e estatura mental. Trate-se, ECT [Eduardo Cintra Torres, cronista do PÚBLICO]. Interne-se, num hospital psiquiátrico."
A frase é de Luís Delgado (numa crónica no "Diário Digital"), fiel seguidor de Pedro Santana Lopes, ainda presidente da agência Lusa e já nomeado para presidente executivo da Lusomundo Media ("Diário de Notícias", "Jornal de Notícias", "24 horas", "Tal & Qual", TSF e mais um grupo de jornais da imprensa regional). Eis o que pensa e como age um homem que se afirma jornalista e que há anos tem pena livre em vários órgãos de comunicação social sobre outro homem que faz o mesmo. "Interne-se, num hospital psiquiátrico". Talvez a memória falhe a Delgado, mais coisas deste género faziam-se na ex-URSS.
Marcelo Rebelo de Sousa, não foi internado em qualquer hospital psiquiátrico, mas foi silenciado depois de criticado por outro fiel serventuário do poder santanista. Delgado é ainda mais ambicioso.
E que não restem dúvidas, Delgado não está só a criticar Eduardo Cintra Torres, está a deixar um claro aviso intimidatório às direcções e chefias dos órgãos de comunicação social a que preside.
Aqui, no PÚBLICO, fica Luís Delgado e os que lhe dão ordens desde já a saber que têm azar. Estejam ao serviço de Santana ou de outro qualquer poder.

12.10.04

#1
[7:51h]

Acordar com um beijo amigo (mesmo que enviado por sms), abre sempre uma perspectiva diferente sobre o dia que se enfrenta.

11.10.04

#4
[...]

Deixei-me ficar a trabalhar até mais tarde, fui vendo a sala a esvaziar, a noite a entrar pela janela, o sossego a instalar-se no espaço caótico de todos os dias.
Enquanto o país aguarda em suspenso pela a declaração de Santana (pura poesia, certamente), e o fax debita furiosamente as inferteis circulares, eu tenho os ouvidos sintonizados num cotonete musical, deixando-me embalar pelos sons.
Os dedos acariciam o teclado e transformam ideias em palavras, ferindo o branco do ecrã, transpondo para ali esta sensação que em mim se instala.
A voz soturna de Beth Gibons, os acordes melancólicos dos seus Portishead - canções antigas que me levam às coisas aprendidas, que vou elencando e dispondo no tabuleiro dos dias, como um jogo de xadrês, fazendo-me equacionar as certezas, os ângulos de leitura e os passos a dar.
Há sempre coisas que não queremos sobrevalorizar, palavras que nos custam dizer, momentos que, pelas mais diversas razões, preferiamos não recordar. Há coisas que não consigo calar, sossegar em mim, esquecer.
Tudo isto converge para este momento.