30.9.04
29.9.04
[...]
"(...) e voltou no dia seguinte, voltou no domingo, voltou na segunda-feira.
Como se quisesse esgotar, em poucas horas, todo o contido tumulto de um mar subterrâneo. Como se quisesse esgotar-se. Como se quisesse esgotar-me.
AS mãos: tão depressa muitas como logo a seguir nenhuma. A boca: ora multiplicada ora anulada de igual modo. Os olhos: sempre os mesmos, nunca os mesmos.(...)"
David Mourão Ferreira
In Um amor Feliz
28.9.04
[Multiplicidades]
Pela segunda vez em poucos dias, perguntaram-me se sou autor de outro blog para além deste.
Lembrando-me das duas histórias, fico com algumas dúvidas no alto das ideias...
será que andam convencid@s que tenho várias personalidades?
será que pensam que não tenho mais nada para fazer?
será que há por aí gente que me vê para lá de mim?
será que tenho multipla personalidade e uma série de heterónimos, como um certo poeta da nossa praça?
A minha produção bloguistica resume-se ao metrografismos (escrita e fotos), e a um projecto de blog partilhado que, apesar de já ter feito uma longa viagem, ainda não teve a devida atenção da minha parte (estou a tornar-me perito em deixar algumas pessoas penduradas).
Tanto no primeiro como no segundo caso, não me envergonharia de ser autor dos conteúdos em questão, mas, em ambos os casos, há alguém para lá de mim, que sente e escreve... ainda bem.
[Dos Amigos de Gaspar:]
AS DÚVIDAS DO GASPAR
Quem sou eu? –disse eu
só que ninguém respondeu, ninguém
mas o que foi que me deu
para estar hoje assim?
Estou aqui, se estou
mas para onde é que eu vou, quem sou?
Toda a gente sabe mais ou menos quem é
Passam carros, passa gente
vão para algum lugar é certo
vão para trás ou vão para a frente
vão para longe ou vão para perto
vão para algum lugar é certo, vão
Sérgio Godinho
27.9.04
[nos arquivos]
“(...) Porque as pessoas que dão mais valor à estabilidade e que temem tudo o que é transitório, incerto, mutável, construíram um poderoso sistema de estigmas e tabus contra o desenraizamento como força desestabilizadora e anti-social, e assim conformamo-nos a maior parte das vezes, fingimo-nos motivados por lealdades e solidariedades que realmente não sentimos, escondemos as nossas identidades secretas com o selo da aprovação. Mas a verdade escapa-se nos nossos sonhos acordados permitidos pela sociedade, os nossos mitos, a nossa arte, as nossas canções, celebramos aqueles que não pertencem ao grupo, os diferentes, os fora da lei, os excêntricos. Aquilo que proibimos a nós mesmos, pagamos bom dinheiro para admirar num teatro ou num cinema ou nas folhas de um livro. Nas nossas bibliotecas, livrarias ou locais de diversão fala-se verdade. O vadio, o assassino, o rebelde, o ladrão, o mutante, o banido, a mascara, se não reconhecêssemos neles as necessidades que não podemos preencher, não os inventariamos as vezes e vezes sem conta, em cada sitio, em todas as línguas, em todos os tempos e a cada passo.”
Salman Rushdie,
in “O Chão Que Ela Pisa “
26.9.04
[ontem à noite]
O Projecto A Naifa esteve ontem no Santiago Alquimista, em Lisboa. Foram 50 minutos de fado travestido e embrenhado no poesia, num espaço a fazer lembrar, ao de leve, o saudoso Ritz Clube.
Fica um dos meus poemas favoritos e a apresentação que abre a sua página oficial - www.anaifa.com (neste computador não consigo fazer links...).
Os Milagres Acontecem
Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa
Hoje abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal
olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo
Ana Paula Inácio
*****************
"Os primeiros sons de «Canções Subterrâneas», por sugestão dos acordes da guitarra, invocam um bulício de taberna e colocam o ouvinte na expectativa de escutar um rosário de lamentos; uma sucessão de ais, no seu pior nados e criados nos trejeitos do estilo dos intérpretes, no seu melhor nutridos pelos seus sentimentos. As primeiras impressões porém são enganadoras: são filhas do hábito, do mau hábito de pensar o fado e a tradição musical como um dogma, com suas escrituras, seus santos e mártires, pregadores e seguidores autorizados apenas a pequenas revisões respeitadoras da doutrina. A ilusão, criada por A Naifa no início do seu primeiro álbum, termina exactamente ao fim do minuto e quarenta e seis segundos da introdução."
24.9.04
[Por Simona e Simona]
Escrevo com um nó na garganta. Um nó que se vem apertando há alguns dias, desde que duas activistas da ONG Italiana Uma Ponte Para foram raptadas por um grupo de extremistas no Iraque. Um nó que me asfixia, angustia, que me doi fundo.
Simona e Simona são jovens e voluntariosas. Participaram no esforço contra a guerra que o mundo promoveu. Em Itália, onde ocorreram as maiores mobilizações, estiveram ao lado de milhões e milhões de homens e mulheres, condenando a aventura armada de Bush na Babilónia, apontando o dedo à mentira, injustiça e à ganância do petróleo. A incrível mobilização do movimento social daquele país, il movimento, fez com que Berlusconi nem sequer se atrevesse a participar na coligação que fez a guerra, esse eixo do mal gerado no ocidente e travestido de paladino da democracia.
Il movimento não conseguiu impedir que, tal como os GNR's, os Carabinieri fossem para o Iraque, para assegurar a paz, dizem. Mas respondeu à altura: as iniciativas pela paz em Itália são multliplas, quase diárias, e a denuncia do que se passa em terras iraquianas é uma constante. Para lá disso, as ONG partiram para o terreno, para cooperar, para trazer notícias, para dar uma mão e fazer uma ponte, para dar uma resposta diferente e solidária ao povo iraquiano, longe do ódio e da arrogância do militarismo. E lá foram as duas Simonas para o Iraque.
No passado dia 12 a notícia foi brutal: as duas cooperantes deixavam de ser solidárias anónimas, passando a ser, juntamente com dois iraquainos, consideradas como objecto de troca. As suas vidas pela retirada dos carabinieri do Iraque, onde nunca deveriam ter ido. Berlusconi e os seus disseram que não, que não cedem ao terrorismo... mas cedem sempre a Bush.
E o drama arrastou-se durante duas longas semanas, até que a execussão das duas italianas foi anunciada. Mais duas vitimas inocentes nesta espiral de violência. A Itália e @s pacifistas estão em estado de choque.
Não há vidas que valham mais do que outras. As de Simona e Simona não valem mais do que tod@s @s vítimas deste conflito. Mas dói ver a cegueira radical com que algumas facções da resistência iraquiana respondem à ocupação criminosa do seu país: disparam em todas as direcções, matando os seus e aqueles que, por solidariedade, deram muito de si contra esta guerra infinita.
Estando contra esta guerra e conhecendo um pouco daquilo que Il movimento tem feito, sinto uma grande frustração: a Pomba da paz foi, mais uma vez, atingida por aqueles que a deveriam ter como uma esperança.
Mas não é por isto que nos vergam. A guerra não é solução, esta ocupação é criminosa, é necessário que @s iraquian@s tomem o poder em suas mãos. Sem mentiras, sem radicalismos.
23.9.04
(...)
Ana Dora, Elvira, Isabelinha, Octaviana, Ursula: foi de propósito, foi, que assim vos alinhei, como simbolos menos remotos de algunas ou de muitas outras, por esta ordem elementar de sucessão das vogais - singelo AEIOU do mau aluno que sou, repetente e relapso incorrigivel, cabulão que nunca passa da primeiríssima página da cartilha.
(...)
David Mourão Ferreira,
in Um Amor Feliz
22.9.04
[Toca e foge]
(...)
Isso é um toca e foge
Quantas vezes não
tentaste parar
E quantas vezes não
quiseste travar
Jogar as mãos, tentar
agarrar
As coisas boas desta vida
à toa
(...)
Xutos & Pontapés
[Paleariza II]
( Ler a primeira parte)
Como seria de esperar, não existia qualquer lugar para acolher viajantes em Bova Superiore. Mas, depois de uma breve consulta, soubemos que o jardim do coreto estava disponível para acampar. Muito bem, tudo bem.
A tarde estava chegar ao fim. Do lado onde poderia estar a Sicília só se via neblina. Como ainda faltavam umas horas para o concerto, decidimos subir ao castelo Normando, para una occhiata, uma vista de olhos. Subir a pique, por entre as ruelas, entrar no escuro. Sentir o calor e o cheiro da noite a adensarem-se com a caminhada.
Ao chegar, o espanto das formas que a penumbra deixava ver. Escuro. Luzes aqui e ali, dispersas. Um conjunto casas ao longe a formar uma seta luminosa para qualquer lugar desconhecido. A linha da costa bem desenhada. O silêncio e a lua crescente que nascia. Serenidade absoluta.
A páginas tantas, começamos a ouvir música vinda do casario. Pandeiros, vozes, concertina… uma melodia intemporal que chegava algumas horas antes do concerto. Tempo de descer por outras ruelas, ver os becos sombrios e procurar jantar.
A aldeia tinha-se enchido de gente, que viera para o grande encerramento do festival. A música que nos chegava aos ouvidos era improvisada por um velho que conduzia uma concertina e alguns putos que tocavam pandeiro ao despique. Um luxo tarantélico. Tascas de vão de escada, comes e bebes de fabrico local… é nestas alturas que um (quase) vegetariano se questiona, mas as alternativas acabam sempre por aparecer.
Às 22h, na praça central – cuja placa dizia, em italiano e em grego da calabria, chamar-se Roma – começavam os discursos. A organização, o presidente da comuna (em nome dos seus congéneres) e uma terceira personagem, um velhote de bigodinho, barriguita e costas arqueadas… a sua presença explicou-se pelo discurso que proferiu… digamos que, até aquele momento, nunca ouvira grego tão bom! Ecos do que ali foi dito só mesmo as confabulações do escriba… eu é que sou pressidente da Xunta.
E eis que, depois das palavras de ocasião, entra em palco A Música, essa linguagem universal promovida a substantivo próprio por José Luís Peixoto.
Enzo Avitabile, um Napolitano pesquisador de sonoridades tradicionais, e os Bottari, grupo de metais e percussão – feita a partir de pipas -, encheram a montanha de alegria e cor durante duas horas que pareceram muito. Os Sons do mundo, as palavras angulosas, o ritmo e a imaginação fizeram agitar os corpos e as almas de uma praça que, de repente, se tornara pequena para tanta grandiosidade. Tudo era uma grande vertigem a rodopiar.