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22.8.14

#1 [e aos primeiros raios do amanhecer...]

(...) Vi-me por fim, depois da batalha, caminhando por uma planície desolada, tão só como fria é a eternidade... às vezes ainda encontro uma marca do combate, ou um antigo companheiro que se cruza comigo sem se atrever a levantar os olhos.
- Porquê eu, então? Porque não procuraste no outro grupo, entre os que vencem?... Eu só ganho batalhas à escala de 1:5000.
A jovem voltou-se para o longe, para a distância. O sol despontava nesse instante e o primeiro raio de luz horizontal cortou a manhã como um traço fino e avermelhado que incidia directamente no seu olhar. Quando se voltou de novo para Corso, este sentiu uma vertigem ao encarar toda aquela luz reflectida nos olhos verdes.
- Porque a lucidez nunca vence. E nunca valeu a pena seduzir um imbecil.
Aproximou então os lábios e beijou-o lentamente, com infinita doçura. Como se tivesse esperado uma eternidade para fazer aquilo.
(...)

Arturo Pérez-RevertPérez-Reverte
in O Clube Dumas

17.8.14

#2 [Sepúlveda igual a si mesmo...]


Os caracóis que vivem no prado chamado País do Dente-de-Leão, sob a frondosa planta do calicanto, estão habituados a um estilo de vida pachorrento e silencioso, escondidos do olhar ávido dos outros animais, e a chamar uns aos outros simplesmente «caracol». Um deles, no entanto, acha injusto não ter um nome e fica especialmente interessado em conhecer os motivos da lentidão. Por isso, e apesar da reprovação dos restantes caracóis, embarca numa viagem que o vai levar ao encontro de uma coruja melancólica e de uma tartaruga sábia, que o guiam na compreensão do valor da memória e da verdadeira natureza da coragem, e o ajudam a orientar os seus companheiros numa aventura ousada rumo à liberdade.

#1 [leituras de verão...]



(…)
Foi isso que disse a Barbara, que seguia ao meu lado no carro. – Nunca vamos chegar a Persépolis – disse eu, - não vamos resistir à viagem.
- Quatrocentos quilómetros – disse ela. – Mas tu não fizeste já esta viagem?
- Precisamente por isso- respondi, - na primeira vez ousamos tudo, porque não conhecemos a modéstia. Mas depois, depois não devemos cair em tentação outra vez.
 - Quanto a isso – disse Barbara, - fui eu quem te fez cair em tentação. Fui eu quem te convenceu a faz der esta viagem. Não me digas agora que estás arrependida!
- De qualquer maneira, teria tentado outra vez.
- De qualquer maneira?
- É que neste país temos de estar duas vezes certos das coisas que amamos.
- Uma defesa contra esta impressão de estarmos a sonhar?
- Sim – disse eu, - faz-me medo. Tenho medo do efémero.
Mas já o nome de Persépolis era imperecível e intocável, e ninguém podia esquecer a visão das suas ruínas.
- Este país faz de nós cobardes – disse Barbara.
 (...)

Annemarie Schwarzenbach 
in Morte na Pérsia

3.8.14

# [das esperanças e das dúvidas que o tempo constrói]



(…) As guerras terminaram, segundo se diz agora em Paris e em Berlim e em toda a parte; os conflitos hão-de ser resolvidos por essa famosa Sociedade das Nações e as armas só servirão para os desfiles, os museus e a caça. Oxalá seja verdade, embora eu me permita duvidar, (…). 

Eduardo Mendonza, in 
A verdade sobre o caso Savolta

11.7.14

#1 [Em busca do tempo perdido]



(…)
Procurou uma forma mais precisa de explanar o seu raciocínio.
- É como se estivesse a sonhar o sonho de outra pessoa. Como se partilhássemos os mesmos sentimentos em simultâneo. Só que não consigo perceber exactamente o que significa essa simultaneidade. Os nossos sentimentos parecem estar extremamente próximos, mas, na realidade, existe uma considerável distância entre nós.
- Quem sabe se Proust não teria intenção de criar esse tipo de sensação?
Aomame não fazia a menor ideia.
- No entanto, por outro lado – disse Tamaru -, no mundo real, o tempo avança sempre em frente. Nunca se detém e nunca retrocede.
- Sim, claro. No mundo real, o tempo avança sempre.
Ao mesmo tempo que dizia isto, Aomame olhou para a porta de vidro. Seria mesmo verdade? Que o tempo avança sempre?
(…)
Haruki Murakami in 1Q84 (3)