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14.3.12

#2 [80 anos depois... importa-se de repetir?]


Não há nada mais doloroso, triste e trágico, nada que possa desanimar mais profundamente a massas dos trabalhadores franceses do que ver, todos os dias, homens que lideram e que inspiram a opinião francesa, através das colunas dos seus grandes jornais, a fazer apelos ao patriotismo das finanças dos franceses, falar dos sacrifícios que devem ser pedidos aos funcionários públicos e às vítimas da guerra… e quando toca à sua parte, enganam-nos.

Esta citação, tão actual e adaptável a Soares dos Santos (Pingo Doce) ou a tantos arautos da crise que vivemos, surge no livro Revelações, de João Pedro Martins.
Foi proferida a 10 de Novembro de 1932, pelo socialista Fabien Albertin, num debate parlamentar sobre fuga de capitais para a Suíça protagonizada por grandes empresas francesas.

#1 [um óptimo livro com uma péssima edição portuguesa]


"Meio bebido e meio inchado, arrastei a minha mala pela Graffton Street até St. Stephen’s Green. Fazia bom tempo e eu tinha vontade de rir. Um país onde os motoristas de táxi batem canecas à saúde de Joyce antes de nos oferecerem o trajecto, onde os empregados de bar vos oferecem o consumo à primeira visita e onde os escritores e rebeldes substituem os jogadores de futebol nas paredes dos bares, não podia deixar de nos fazer rir depois de Genebra, Nice e Paris."

In Ex, de Patrick Raynal

26.2.12

#1 [Hotel Memória]

Já por várias vezes me tinha perguntado se os livros de João Tordo teriam realmente interesse. Apesar do prémio Saramago ser um bom indicador, confesso que nunca lhes prestei grande atenção e que de todas as vezes que, numa livraria, passei os olhos pela sua lombada não me despertaram curiosidade.
Um dia destes, e porque ouvira alguém que considero um grande leitor referir positivamente O Bom Inverno, decidi arriscar. Comprei o Hotel Memória (o seu segundo romance) em segunda mão e cá vai disto.
A aparente simplicidade da escrita prendeu-me mais depressa do que podia imaginar quando comecei a ler. O estilo curto e escorreito não deixa adivinhar a riqueza de um policial bem construído, cheio de referências literárias e musicais, com o Jazz, o Fado e Nova Iorque em pano de fundo.
E é um livro que, fazendo justiça ao título, me evocou memórias: o cheiro da primavera a começar na cidade que não dorme ou o A Room At The Heartbreak Hotel, música que não tem nada a ver com a esta história mas que também poderia entrar na sua banda sonora.

23.2.12

#1 [...]


Li de rajada O Suplente de Rui Zink, comprado por 1,5 euros na Vandoma cá da terra.
A história é construída à volta do drama da morte por atropelamento de um miúdo, retratando (ou tentando, porque nestas coisas as palavras são sempre curtas) a forma como a dor da perda pode ser dilacerante, bem como os sentimentos de revolta e o desejo de uma justiça que possa compensar o que, no fundo, não tem qualquer compensação.
A escrita curta e aguçada, tão característica de Zink, projecta-nos um país onde a arrogância do automóvel é crescente, traçando uma cultura de mesquinhez feita de cromos da bola que não passam de figuras de estilo e de um sistema judicial que (tantas vezes…) se parece com uma anedota.
É um livro militante, onde qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Todos nós, naturalmente peões e utilizadores de transporte por convicção, conhecemos histórias de abuso e non sense como os que o autor, recorrendo à experiência pessoal e ao seu trabalho na direcção Associação de Cidadãos Auto-mobilizados, põe ao serviço da ficção.

16.1.12

#2 [Valter Hugo Mãe, com maiúsculas ]

" Deve nutrir-se carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade, repetiu muito seguro. Apenas isso. Nunca cultivar a dor, mas lembrá-la com respeito, por ter sido indutora de uma melhoria, por melhorar quem se é. Se assim for, não é necessário voltar atrás. A aprendizagem estará feita e o caminho livre para que a dor não se repita. Estava a crescer. O pescador crescia para ser um homem tremendo."

VHM, in  O filho de Mil Homens